Nesta pesquisa21 objetivou-se estudar a expressão da demanda espontânea para tratamen-
to em sujeitos abusadores e dependentes de álcool, no contexto do acolhimento de um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas em Brasília. A opção epistemológica se fundou na Epistemologia Qualitativa de González Rey. Como re- ferencial teórico adotou-se a Teoria Sistêmica, complementada pelos pressupostos da Entrevista Motivacional e o modelo Transteórico dos Estágios da Mudança. Uti- lizou-se a metodologia da pesquisa qualitativa de González Rey. Como instrumento
21 Texto baseado em Silva, L. F. C. B. (2009). Do cálice que cala à escuta que liberta: as expressões da
demanda de abusadores e dependentes de álcool, no contexto do acolhimento, em um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas no Distrito Federal. Dissertação de mestrado em Psicologia Clínica e
Cultura, Universidade de Brasília, Brasília. Orientadora: Maria Fatima Olivier Sudbrack.
utilizado, optou-se pela entrevista semi-estruturada, aplicada em nove sujeitos do sexo masculino, entre 30 e 51 anos de idade e de distintas classes sócio- econômicas. Como parte dos resultados, verificou-se a demanda pela interrupção do ciclo de violência intrafamiliar, mimetizado na dimensão intergeracional e relacionado com o abuso ou dependência de bebidas alcoólicas dos pais.
Introdução
A compreensão da drogadição, enquanto fenômeno sustenta-se na consideração da trí- ade na qual se tem um sujeito consumidor, uma droga eleita que é consumida e um contexto no qual o uso da mesma é realizado (Colle, 2001; Kalina & Kovadloff, 1983; Olievestein, 1985). No consumo de bebidas alcoólicas, esta configuração não se revela diferente, exigindo-se a profunda compreensão de cada um desses elementos em relação entre em si. Quando se busca ampliar a consideração do comportamento etilista para além da díade sujeito-bebida, possibilita-se a contemplação da dimensão contextual que pode estar situada no eixo horizontal ou vertical do sistema sócio-familiar. Como eixo horizontal, pode-se compreender o contexto atual da família, enquanto o eixo ver- tical refere-se à dimensão histórica das gerações familiares (Penso, Costa & Ribeiro, 2008).
A coesão familiar é, em parte, mantida pela transmissão de regras, de valores e de expectativas que podem ter diversos níveis de visibilidade e que moldam formas de se comportar, de se situar no mundo e na vida. Recebe-se em herança, tudo o que as gerações precedentes adquiriram, fazendo de cada ser humano não mais do que um elo numa longa cadeia de transmissões que datam do primórdio da humanida- de (Prieur, 1999). Não obstante, nesta herança podem ser transmitidos padrões disfun- cionais e nem sempre claramente perceptíveis, capazes de imprimir exigências sutis e dificilmente recusáveis. Como destacaram Nichols e Schwartz (1998), carrega-se, onde quer que se esteja, a reatividade emocional não resolvida com os pais, sob a forma de vulnerabilidades para mimetizar os mesmos antigos padrões em todo relacionamento novo e intenso que se inicia.
Diante de inúmeras evidências em torno das influências dos legados familiares de ou- tras gerações na família atual, constatou-se a fecundidade de estudos que exploraram
a dimensão multigeracional - diversidade de gerações anteriores - e intergeracional - influências entre gerações familiares (Bowen, 1991; Bucher-Maluschke, 2008; Penso & Costa, 2008). Destarte, verificou-se coexistir um mimetismo do problema em gerações distintas o que ampliou o olhar em direção à verticalidade da presença dos problemas associados ao consumo de álcool, verificando-se a presença de padrões transmitidos trans- geracionalmente (Krestan & Bepko, 1995; Silva, 2009; Steinglass, 1997; Trindade, 2007). Entende-se que uma herança pode se tornar uma escravidão, quando os padrões exigem sacrifícios capazes de comprometer a saúde mental dos herdeiros, mesmo que estes não tenham consciência disso. No complexo movimento dialético de pertencimento e separação, ampliado para o processo de transmissão multigeracional, estabelece-se a exis- tência de padrões herdados de gerações anteriores para as seguintes, que transferem expectativas por meio de delegações e exigem lealdades no cumprimento das mesmas. A assimilação das delegações desta herança e lealdade na continuidade das mesmas oferece elementos para a constituição e manutenção da identidade individual e cole- tiva dos membros familiares, assim como podem gerar aprisionamentos em torno de padrões que solapam a possibilidade de renovação do funcionamento familiar. Deste modo, a demanda percebida em alguns colaboradores da pesquisa, revela-se no sentido de buscar romper com padrões insalubres e promover possibilidades de novos níveis de autonomia.
Método
Este estudo apoiou-se na Epistemologia Qualitativa defendida por González Rey (2005) que se funda em torno de três princípios: 1) o conhecimento é uma produção construtivo- interpretativa, o que significa afirmar que o conhecimento não traduz a somatória de fatos definidos por constatações imediatas do momento empírico. A interpretação se caracteriza enquanto um processo no qual o pesquisador integra, reconstrói e apresenta em construções interpretativas, indicadores obtidos no decor- rer da pesquisa, que não possuiriam sentido se fossem tomados isoladamente, como constatações empíricas; 2) o caráter interativo do processo de produção do conhe- cimento, que aponta que as relações pesquisador-pesquisado são uma condição para o desenvolvimento das pesquisas nas ciências humanas. A dimensão interativa é essencial no processo de produção de conhecimentos, revelando-se as relações entre os envolvidos no processo de construção da informação o principal cenário da pesquisa; e 3) a signifi-
cação da singularidade como nível legítimo da produção do conhecimento. Este aspecto ressalta um resgate da singularidade enquanto fonte legítima de conhecimen- to científico. Dessa maneira, o conhecimento científico, diante da perspectiva qualitativa, não se destaca pela quantidade de sujeitos a serem estudados, mas pela qualidade de sua expressão.
A pesquisa aconteceu em um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas do Distrito Federal, no contexto do acolhimento deste serviço. Utilizou-se uma en- trevista semi- estruturada com nove homens de idades entre 30 e 51 anos, que buscaram o serviço volitivamente em decorrência do alcoolismo. As entrevistas foram gravadas e degravadas, mediante autorização por escrito dos participantes. A discussão dos dados baseou-se na análise de discurso advogada por González Rey (2005), resultando, portan- to, na construção de indicadores e zonas de sentido.
Os participantes da pesquisa foram selecionados entre os usuários que chegaram ao serviço pela primeira vez; a partir de demanda espontânea; com histórico de abuso e dependência de bebidas alcoólicas nos últimos 2 anos; não ter associado ao problema com o álcool consumo de drogas ilícitas nos últimos 10 anos e ter assinado o termo de consentimento livre e esclarecido.