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47 Tenez également les pièces justificatives appropriées à la disposition de l'administration
Em 1728, Bartolomeu Bueno da Silva, o filho, implantou sua primeira povoação no território goiano, na capela da Barra. Posteriormente, os habitantes dali se mudaram para o local seria erguido o Arraial da Senhora Sant’Anna (ALENCASTRE, [1864] 1979), origem de Villa Boa de Goyaz.
De acordo com Palacín (1994), o companheiro de Bueno, Manuel Rodrigues Tomás descobriu em 1731 ricas jazidas de ouro nos contrafortes na serra dos Pirineus, cuja exploração deu origem ao arraial de Meia Ponte, erguido às margens do Rio das Almas, atual Pirenópolis. A cada descoberta, mais pessoas iam para a região das minas e formavam arraiais. O sonho de encontrar ouro tornava-se cada vez mais próximo. Muitas outras minas foram descobertas ao longo do território – Maranhão, Água Quente, Traíras – e, nas matas da região do rio Araguaia, a de Crixás. Assim, a busca por novos descobertos continuava. Todos os anos, no período da seca, formavam-se bandeiras nos próprios arraiais, que avançavam para o interior do sertão.
Mas não eram somente as bandeiras regularizadas e autorizadas pelo governo que exploravam essas terras. Havia muitos exploradores aventureiros. Para garantir os domínios da Coroa e seu propósito de expandi-los a oeste de Tordesilhas, algumas providências foram tomadas, dentre elas, uma organização política e administrativa na capitania de Goiás, criada pelo governo, que visava o controle das ações de desbravamento.
Regulamentos para as terras mineiras, jurisdições que incidiram sobre os exploradores aventureiros, levantamentos cartográficos para o conhecimento da região, demarcação de novos territórios, combinação de um sistema de partilha de terras, ou de direitos sobre elas, e o estabelecimento de algumas povoações e aldeamentos articulados entre si foram alguns dos fundamentos dessa nova política de exploração econômica, ocupação e legitimação territorial, confirmada pelo Tratado de Madri e consolidada na segunda metade dos Setecentos. (BOAVENTURA, 2007, p. 25).
As providências para que a política de expansão ocorresse de acordo com as normas da metrópole fizeram com que em Goiás surgissem diversos arraiais e fosse criada a primeira
vila, com seus respectivos órgãos administrativos.
Em Goiás, especialmente, essas reorientações do governo português fizeram surgir mais de cinquenta arraiais em um território que desde os primeiros momentos do século XVIII foi controlado por regimentos, levantamentos cartográficos, criação de caminhos, instituição da Prelazia, da capitania, fundação da capital (Vila Boa), definição de procedimentos jurídico- administrativos, instalação de intendências, formação de aldeamentos, casas de fundição e postos alfandegários. (BOAVENTURA, 2007, p. 25).
As medidas tomadas pelo governo para proteger a mineração eram bastante discutíveis, pois impediam o desenvolvimento da região onde estavam as minas. Ao que parece, a Coroa desejava retirar todo o minério, sem se importar se deixaria para trás uma terra vazia e esquecida quando o ouro acabasse. Ademais, os sonhos e mitos que moviam governantes e exploradores faziam-nos pensar que as minas de ouro no sertão eram fontes inesgotáveis.
Traçada a primeira via de comunicação para Goiás, a mesma que percorreu Bartolomeu Bueno e seus aventureiros, foi proibida a abertura de novas estradas e vedado o trânsito por aquelas que, apesar disto, o povo, para sua comodidade, houvesse aberto em diferentes direções. (ALENCASTRE, [1864]1979, p. 17).
Até mesmo a navegação nos rios da região foi proibida, assim como a instalação de indústrias. Tudo que parecesse atrapalhar o desenvolvimento da mineração e o controle dos extravios estava proibido na capitania. A situação da região tornava-se cada vez mais difícil, pois as necessidades básicas tinham de ser supridas, e, com as proibições vigentes, o acesso à capitania era difícil, o que aumentava o sofrimento e as privações daqueles que ali viviam. “Morria-se de fome, mas a mineração não parava. Só havia uma indústria livre: a mineração, o trabalho das bateias e almocafres; mas esta mesma sujeita à capitação e censo [...]”. (ALENCASTRE, [1864] 1979, p. 18).
Nesse contexto de urbanização no período aurífero, muitos arraiais e vilas desapareceram assim que as minas de ouro se esgotaram. A economia da capitania, voltada para a mineração – inclusive, por decretos da Coroa portuguesa, que não queria que nada atrapalhasse a extração do minério –, teve de passar também por adaptações. As riquezas encontradas em Goiás faziam fama em toda a colônia, fama essa que atraía muita gente atrás do mesmo sonho: encontrar ouro.
Depois das notícias de ouro nos sertões do Brasil, aos poucos as pessoas começaram a migrar para a região do Arraial de Sant’Anna e para a região dos Araé, atrás das minas
milagrosas que teriam montanhas de ouro, dos lagos encantados e das minas dos Martírios. Logo depois da chegada de Bartolomeu, o filho, ao território goiano, foram lançados os fundamentos da mineração e a atividade começou a ser executada.
As novas expedições e caravanas, que entraram de todas as direções, iam levando seus arranchamentos nos sítios e lugares que Calhamaro, Hortiz, Araujo e Manoel Rodrigues Tomaz escolheram, para fundarem os seus estabelecimentos de mineração.
“Assim foram criados os Arraiais de Ouro Fino, Meia Ponte, Traíras e outros muitos”. (ALENCASTRE, [1864]1979, p. 45).
A partir daí diversos outros arraiais foram sendo formados, uns menores, outros maiores. As expedições por todo o sertão não pararam e, logo que se encontrava ouro, por ali formava-se mais um arraial. No território goiano hoje pertencente ao estado do Tocantins, surgiram o Arraial da Barra, o Arraial de Anta, o Arraial de Santa Rita, o Arraial de Ouro Fino, o Arraial de Pilões, o Arraial de Corumbá, o Arraial de Piedade, o Arraial de Amaro Leite e o Arraial de Traíras, dentre outros citados por Palacín e Morais (2008). Os arraiais foram sendo formados por todo o território, acarretando a necessidade de organizar sua administração. Com a ascensão do Arraial da Sant’Anna a Vila Boa de Goyaz, um centro administrativo, vão sendo criados os julgados, e, incorporados a eles, vários arraiais, de acordo com sua localização e proximidade.
O trabalho desenvolvido nas minas era sobre-humano, e muitos escravos morreram nessa corrida ambiciosa pelo ouro. A mineração era prioridade para os exploradores e para a Coroa, que criou inúmeras proibições para que nada atrapalhasse a busca pelo ouro, determinantes para dificultar o desenvolvimento de outras atividades no sertão de Goiás.
Além de todas as dificuldades sociais, estruturais e econômicas que a província sofria, o enfrentamento com os índios era um motivo a mais de preocupação para a população e para os administradores. Guerras sangrentas foram travadas com os indígenas, que não aceitavam a invasão de suas terras e a escravidão à qual seu povo era submetido.
Mesmo nos arraiais, a situação era difícil. Conforme Palacín (1994), muitos casos de violência, assim como assassinatos, eram constantes na época, provocando uma desordem que era notável: “Se devemos dar fé ao Conde dos Arcos, os primeiros povoadores de Goiás eram, em grande parte, fugitivos da justiça, extraviadores de ouro que vieram refugiar-se na espessura dos matos e no inculto dos sertões.” (p. 33). Isso fez com que, mesmo na época em que o ouro era abundante e a riqueza existia nos arraiais, a desordem, a violência e muitos protestos de insatisfação se tornassem comuns, como afirma Palacín (1994, p. 33):
Silva e Souza se apraz em contrapor a riqueza dos arraiais às desordens morais e ao clima de violência dos primeiros tempos [...]. Assim como são magnificadas as riquezas, os escravos, os preços e a carestia, também o são os pecados. Isso não quer dizer que a cobiça, a promiscuidade, a prática de toda a sorte de violência, os males endêmicos nas minas não fossem especialmente virulentos nas enxurradas de aventureiros dos primeiros anos.
Além disso, em 8 de novembro de 1727, começa a ser cobrado o quinto do ouro das minas de Goiás, tributo que não agradava à população. Isso fez com que, mesmo na época em que o ouro era abundante e a riqueza existia nos arraiais, a desordem, a violência e muitos protestos de insatisfação fosse comuns:
Silva e Souza se apraz em contrapor a riqueza dos arraiais as desordens morais e clima de violência dos primeiros tempos [...] Assim como são magnificadas as riquezas, os escravos, os preços e a carestia, também o são os pecados. Isso não quer dizer que a cobiça, a promiscuidade, a prática de toda a sorte de violência, os males endêmicos nas minas não fossem especialmente virulentos nas enxurradas de aventureiros dos primeiros anos. (PALACÍN, 1994, p. 33).
Com os problemas causados pelas desordens na capitania, principalmente em Meia Ponte, Palacín (1994) diz que o conde de Sarzedas, governador da capitania de São Paulo, criou uma estrutura administrativa que seria mais firme: as minas foram divididas em dois distritos, o de Sant’Anna e o de Meia Ponte; nomeou-se um ouvidor para a capitania de São Paulo; e de Minas saiu, para se fixar em Goiás, uma companhia de 44 praças. Segundo Palacín (1994), com a captação sobre a mineração desenvolvia-se, ao mesmo tempo, o aparelho da arrecadação econômica.
Como em todos os lugares onde havia sido descoberto ouro, o afluxo de pessoas sempre era intenso, e com ele surgiam os problemas de desordens e perturbações, segundo Alencastre ([1864]1979). Por causa disso, foi proibida a entrada em novos descobertos sem a licença do governo. Com o tempo, a imigração foi enfraquecendo pela falta de segurança nas estradas, como também da rigorosa fiscalização que acompanhava a mineração, o que levava à diminuição dos lucros, ao abandono das lavras e à queda da renda. (ALENCASTRE, [1864] 1979).
Muitos arraiais foram abandonados, populações deixaram suas casas e o trabalho e se refugiavam em arraiais mais populosos para fugirem da fúria dos ataques indígenas. Mas diversos outros arraiais foram também sendo formados ao longo da província e novas minas foram descobertas: em 1741, a de Santa Luzia e em 1753, a de Anicuns. O período do governo do Conde de São Miguel, a partir de 1754, é característico desse fenecimento dos
arraiais:
Nos primeiros dias do seu governo alguns mineiros de Santa Rita, explorando o Rio do Peixe e seus confluentes, descobriram um riquíssimo veeiro, junto ao qual formou-se desde logo um grande arraial, a que deram o nome de Tesouras. [...] mas ou porque se esgotassem as lavras, ou porque a população fosse chamada a exercer a sua indústria em pontos mais vantajosos, em pouco tempo rareou a população, desabaram as casas, derrocou-se o tempo, desapareceu a paróquia e, por último, extinguiram-se completamente os vestígios de sua existência. (ALENCASTRE, [1864]1978, p. 135).
A capitania de Goiás tornou-se independente de São Paulo em 8 de novembro de 1744, mas sua administração foi muito difícil, entre outros fatores, segundo Alencastre, ([1864]1979) pela distância dos arraiais uns dos outros, o que os tornavam difícil o policiamento duma população cheia de pessoas inescrupulosas, onde o extravio de ouro era frequente.