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LA TENDANCE ET LE STYLE: ENTRE LANGAGE, CODES ET EMPREINTE

Inicialmente, os processos de registro sonoro por meios mecˆanicos utilizavam de grava¸c˜ao com ou sem reprodu¸c˜ao pr´opria. Segundo Franceschi (1984), um desses processos “limitava-se ao registro, graficamente impresso, das ondula¸c˜oes sonoras, sem reproduzi-lo; e outro, mais evolu´ıdo, trazia em si a capacidade de registrar e reproduzir, cada vez com maior fidelidade, os sons gravados” (p.11). O conceito de fidelidade, como vimos no Cap´ıtulo 1, ser´a explorado desde os primeiros cilindros gravados at´e os dias atuais. Existem dois tipos de relatos sobre as grava¸c˜oes em cilindros. De um lado, aqueles que afirmam serem as grava¸c˜oes idˆenticas ao original. De outro, temos o oposto, um grupo que afirmavam que o som do fon´ografo, juntamente com o som do telefone, eram ruins (Chanan, 1995, p.3). De fato, a primeira vers˜ao do fon´ografo de Edison tinha a capta¸c˜ao e a amplifica¸c˜ao muito reduzida, sendo mesmo apropriado para o registro de uma ´

unica fonte sonora, preferencialmente a voz.

Os primeiros estudos vieram de Leon Scott de Martinville, um francˆes que, em 1855, inventou uma m´aquina que registrava atrav´es de um estilete as ondas sonoras gravadas em um papel cil´ındrico de estanho. O registro era unicamente gr´afico e as vibra¸c˜oes registradas n˜ao podiam ser convertidas em som. Essa m´aquina se chamava fonaut´ografo.4

Em abril de 1877, o francˆes Charles Cros (1842–88) apresentou, junto `a Academie des Sciences, um artigo contendo propostas para a reprodu¸c˜ao sonora, mas ele n˜ao chegou a colocar suas teorias em pr´atica. Segundo relatos existentes, isso aconteceu por falta de financiamento para concretizar sua inven¸c˜ao (Chanan, 1995, p.23; Grove, 2001, p.8 — verbete Recorded Sound ). No mesmo ano, o inventor americano Thomas Edison (1847–1931) apresentou um estudo acerca da grava¸c˜ao e reprodu¸c˜ao sonora. Este estudo surgiu como uma ramifica¸c˜ao de suas pesquisas envolvendo a transferˆencia de dados a partir da impress˜ao em papel dos caracteres do c´odigo Morse (Speaking Telegraph):

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Mann, 1924, p.713.

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Estava trabalhando numa m´aquina cuja finalidade era transferir au- tomaticamente os caracteres Morse gravados num papel perfurado a outros circuitos. Quando o papel passava sob a ponta de uma agulha gravadora, um mecanismo conectava o contato do circuito, fechando-o. Manipulando o tel´egrafo verifiquei que quando o papel perfurado girava com grande rapidez produzia um ru´ıdo destas perfura¸c˜oes com um som r´ıtmico musical assemelhando-se ao da voz humana escutada de modo indistinto. Isto me conduziu a tentar adaptar um diafragma `a m´aquina. Vi imediatamente que o problema do registro da fala humana, de modo que ela pudesse ser repetida por meios mecˆanicos tantas vezes quanto fosse desejado estava resolvido (Thomas Edison citado por Franceschi, 1984, p.12 e tamb´em citado em Read and Welch, 1976, p.18).5

Edison substituiu o papel do tel´egrafo por um cilindro coberto com uma folha de estanho (tin-foil ) onde eram gravadas e reproduzidas as ondas sonoras. O fon´ografo (Figura 2.1) foi utilizado nos primeiros anos como brinquedo e m´aquina para auxiliar nos trabalhos de escrit´orio. Segundo o pr´oprio Thomas Edison, seu invento poderia ser utilizado para: escrever cartas e outras formas de ditado, livros sonoros para cegos, aux´ılio na educa¸c˜ao escolar, reprodu¸c˜ao musical, registros familiares (como as “´ultimas palavras de um membro da fam´ılia prestes a morrer”), brinquedos e caixinhas de m´usica, rel´ogios sonoros (“para nos avisar as horas do dia”), an´uncios diversos e, por ´ultimo, registrar paras as futuras gera¸c˜oes as vozes de pessoas c´elebres como Washington, Lincoln e Gladstone entre outros.6

A fraca resolu¸c˜ao sonora e a irregularidade na velocidade da reprodu¸c˜ao — que at´e ent˜ao era feita manualmente — fez com que o fon´ografo n˜ao alcan¸casse grande sucesso comercial. Edison s´o retomaria seu invento dez anos mais tarde.

Em 1886, Alexander Graham Bell e Chichester Bell projetam um novo m´etodo de grava¸c˜ao semelhante ao fon´ografo de Edison chamado de grafofone,7

que passou a ser vendido em 1888. Diferentemente do primeiro prot´otipo de Edison, o gra- fofone possu´ıa um cilindro remov´ıvel de papel˜ao revestido com uma fina camada de cera. O grafofone tamb´em possu´ıa um motor que mantinha a regularidade da reprodu¸c˜ao e da grava¸c˜ao, que utilizava um novo sistema de corte e registro das

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Antes de Martinville, Cros e Edison, houveram outras tentativas de registro gr´afico dos sons como o mel´ografo (melograph). Essa inven¸c˜ao foi concebida por Leonhard Euler (1707–83), constru´ıda por Johann Hohlfeld por volta de 1752 e consistia em dois cilindros de papel em que eram marcadas as posi¸c˜oes das notas e das dura¸c˜oes tocadas num piano atrav´es de um l´apis (Grove, 2001, p.7 — verbete Recorded Sound ).

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Edison, 1878, p.531–534.

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Figura 2.1: Fon´ografo original de Edison, 1877 (Science Museum, London). Fonte: Grove, 2001, p.9, verbete Recorded Sound.

ondas sonoras baseada no princ´ıpio da agulha flutuante, diferente do corte vertical hill-and-dale do fon´ografo de Thomas Edison.8

No mesmo ano de lan¸camento do Dictaphone (vers˜ao comercial do grafofone para ser utilizado em escrit´orios), Thomas Edison retoma seu trabalho com o fon´ografo, que se mostra mais atraente ao mercado devido a utiliza¸c˜ao de um cilindro maci¸co de cera que podia ser gravado e apagado v´arias vezes, em contra- posi¸c˜ao ao cilindro de papel˜ao com uma fina camada de cera do grafofone, mais rapidamente descart´avel (Chanan, 1995, p.25; Franceschi, 1984, p.15). Edison tamb´em lan¸caria o “Perfected Phonograph” como uma m´aquina de ditados para ser utilizada em escrit´orios.9

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O sistema de corte vertical hill-and-dale de Thomas Edison se diferenciava do corte lateral empregado no fonaut´ografo de Scott e na m´aquina concebida por Cros. O corte lateral se tornar´a o padr˜ao na era do disco plano (Chanan, 1995, p.24).

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Nesta ´epoca, a companhia de Thomas Edison produziu alguns filmes para divulga¸c˜ao do uso do fon´ografo em escrit´orios comerciais. Uma dessas pel´ıculas de aproximadamente 8 minutos, dividida em duas partes, mostra a cena de um escrit´orio que se encontrava em total desordem devido `a sobrecarga de trabalho da secret´aria esten´ografa. Com a chegada do vendedor do ditafone tudo seria superado. Podiam-se ditar, no cone do ditafone, quantas cartas fossem necess´arias sem a presen¸ca da secret´aria que, no dia seguinte, transcreveria tudo para a m´aquina de datilografar com a utiliza¸c˜ao de um fone de ouvido. O paradoxo ´e que o v´ıdeo, dividido em duas partes, era produzido sem som algum devido `a impossibilidade de unir som e imagem naquela ´epoca. Os v´ıdeos est˜ao dispon´ıveis em: http://hdl.loc.gov/loc.mbrsmi/edmp.4058.

Figura 2.2: Grava¸c˜ao da Banda de Sopros da Marinha dos Estados Unidos. Nota-se que a grava¸c˜ao era feita por m´ultiplos fon´ografos e, junto deles, v´arias

pessoas para oper´a-los simultaneamente.

Foto publicada no facsimile do The Phonogram, 1891, p.226. Dispon´ıvel em: http://www.tinfoil.com/.

Nos anos 1890, inicia-se nos Estados Unidos a venda de cilindros com grava¸c˜oes de cantores, instrumentistas e artistas cˆomicos pela Columbia Phonograph Com- pany. No entanto, a produ¸c˜ao muito se aproximava de um processo artesanal pois, s´o eram vendidos originais. Em outras palavras, toda grava¸c˜ao vendida era um original. Nesta ´epoca, utilizavam v´arios fon´ografos para registrar o evento musical ao mesmo tempo (Figura 2.2). As c´opias de um mesmo cilindro s´o tiveram in´ıcio no come¸co do s´ec. XX com o pant´ografo — um sistema criado pela Path´e em 1896 para fazer c´opias de cilindros usando uma segunda agulha e um segundo cilindro acoplados. S´o no in´ıcio dos anos 1900 foi desenvolvido por Edison o sistema de ci- lindros moldados para se produzir in´umeras c´opias a partir de um original (Grove, 2001, p.8 — verbete Recorded Sound ).

A grande revolu¸c˜ao no mundo de produ¸c˜ao dos sons gravados veio com Emile Berliner, um alem˜ao que emigrara para os Estados Unidos e que desenvolveu um processo de registro em disco plano. Sua reprodu¸c˜ao se dava num aparelho que ele chamou de gramofone. A grande vantagem comercial dos discos planos foi a possibilidade de criar dezenas e at´e centenas de c´opias a partir de uma matriz. Segundo Chanan (1995, p.28), “a solu¸c˜ao do problema da reprodu¸c˜ao em massa

envolveu a separa¸c˜ao do processo de grava¸c˜ao do processo de reprodu¸c˜ao”. No en- tanto, o gramofone obteve maior sucesso comercial gra¸cas a Eldridge Johnson, que desenvolvera motores para tornarem est´aveis a rota¸c˜ao dos gramofones de Berli- ner. Algum tempo depois, Johnson criaria um equipamento superior ao original de Berliner e fundaria a Victor Talking Machine Company (anteriormente chamada Consolidated Talking Machine Corporation). O gramofone e o disco tiraram do ouvinte a possibilidade da grava¸c˜ao sonora, agora s´o restrita ao meio industrial. O p´ublico s´o retomar´a o poder de cria¸c˜ao fonogr´afica com a fita magn´etica cinq¨uenta anos depois.10

In´umeras ind´ustrias de grava¸c˜ao em disco foram criadas. Read e Welch (1977) afirmam que os cilindros foram inicialmente desenvolvidos para utiliza¸c˜ao em es- crit´orios, j´a os discos de Berliner foram pensados desde o in´ıcio apenas para a reprodu¸c˜ao da fala e da m´usica para o entretenimento dom´estico, excluindo sua possibilidade de explora¸c˜ao para ditados (p.122).11

Os cat´alogos de grava¸c˜oes musicais profissionais come¸caram a aparecer a par- tir de 1900 simultaneamente nos Estados Unidos, Europa e Brasil, seguido pela Argentina no mesmo ano. Primeiramente, foram vendidos tanto discos como ci- lindros.12

Paulatinamente, o mercado de discos e gramofones foi substituindo o ramo de cilindros e fon´ografos. A tentativa de uni˜ao de ambos os suportes em um ´

unico aparelho ocorreu no in´ıcio dos anos 1900 com o Deuxphone (Figura 2.3) — bem como o surgimento de outros aparelhos que reproduziam formatos diferentes de cilindros, todos sem sucesso comercial.

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Para uma hist´oria completa da grava¸c˜ao no s´eculo XX incluindo gravadoras e patentes confira: (Chanan, 1995; Coleman, 2003; Day, 2000; Katz, 2004; Sterne, 2003; Tinhor˜ao, 1981; Franceschi, 2002, 1984; Eisenberg, 2005; Read and Welch, 1976).

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Os primeiros discos de Berliner eram de cera e, depois, come¸caram a ser prensados em goma laca (shellac, em inglˆes). Na seq¨uencia, outros ingredientes foram adicionados `a goma laca, formando uma massa que dava melhor qualidade ao disco e consequentemente, menos chiado.

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Os cat´alogos de cilindros iniciaram com a Columbia que em 1891 traziam Marchas de Sousa e mon´ologos cˆomicos e, pouco depois em 1893, o cat´alogo j´a contava com 32 p´aginas contendo valsas, polcas, marchas, recita¸c˜oes e cursos de idiomas (Chanan, 1995, p.26). Em 1900, a Gra- mophone Company, formada na Inglaterra em 1898, j´a possu´ıa um cat´alogo de 5000 t´ıtulos fonogr´aficos com grava¸c˜oes com gˆeneros de diversas nacionalidades para atender p´ublicos dife- rentes (1995, p.29).

Figura 2.3: The Deuxphone reproduzia tanto cilindros quanto discos. Fonte: Read and Welch, 1976, p.164.