Os achados indicam que todos os grupos, inclusive os próprios criminosos rechaçam os criminosos da sociedade, ou seja, quem comete crime é mal vistos por todos. Este era um dado esperado uma vez que através das práticas criminosos se quebra o pacto social e isso não é bem visto pelos integrantes da sociedade, acarretando assim uma exclusão social natural. Além disso, ficou também demonstrado na amostra que eles são desfavorecidos em termos de renda, escolaridade e hipercultura em relação a todos os outro grupos.
Estes dados corroboram a Teoria da Anomia de Durkheim e Merton, que foi inserida dentro do campo das teorias funcionalistas, que não interpretam o crime como uma anomalia, mas sim como uma experiência social, contrariando o modelo médico e patológico.
Tem base funcionalista por vislumbrar a sociedade a partir de sua própria dinâmica, em razão de toda sociedade ser dotada de regras e pressupõe que seus integrantes as obedeçam, ou seja, a “máquina social” necessita de meios que garantam sua autopreservação. Quando não há respeito a estas regras necessárias, ocorrem as “disfunções sociais”. Estas por sua vez tem ligação direta com a anomia.Analisando etimologicamente a palavra Anomia, tem-se que a= ausência e nomos = Lei, ou seja, sem lei, que acarreta iniquidade, injustiças, desordens (Shecaira, 2008). Assim, onde há exclusão social ou frustrações socioeconômicas haverá uma propensão às práticas criminosas. Claro que a regra não é absoluta, pois existem ricos desonestos e pobres honestos. Demonstra-se com estes dados que se 100 pessoas forem expostas a situação de anomia e 100 não forem, as que estão expostas serão muito mais propensas às práticas criminosas que as outras. A teoria da anomia dar conta disso.
A grande questão é que o problema das frustrações sociais acarreta uma anomia. Este estado de ausência de normas cria um caos social e com isso, as pessoas tendem a criar suas próprias normas, fazendo com que provavelmente ingressem em uma situação ilegal. Mas isso não quer dizer que todos necessariamente tenderão ao crime.
Os criminosos alegaram ser impulsionados em suas ações pela Bússola Moral Família, marginalmente pela Religião e demonstraram como última propensão às leis, mais um dado que corrobora a teoria da Anomia. Estes achados podem sinalizar para o fato de que os
criminosos não vão pensar mal de ninguém porque este alguém é criminoso e desrespeita a lei, porque simplesmente eles próprios alegaram não ligarem para lei quando dizem que ela é a menos importante para suas decisões, diferentemente dos outros grupos que enaltecem esta bússola, e também condenam ações criminosas menos do que todos. Assim, pode-se concluir que eles não têm raiva de criminosos por cometerem crimes, por serem criminosos, mas sim porque são excluídos socialmente, porque são pobres, têm baixa escolaridade, etc.
Seria obvio desconfiar que os grupos formados por Policiais Civis, Policiais Militares e Cidadãos Comuns desprezassem os criminosos pelo fato deles quebrarem o pacto social, sendoconsiderados a escória da sociedade. Porém os próprios Criminosos não, uma vez que eles fazem parte desta categoria. Assim, os dados revelam que os criminosos não desprezam os outros criminosos por eles praticarem crimes, primeiro porque eles também os praticam, segundo porque eles valorizam menos a lei do que os outros e por fim,por eles darem penas mais brandas aos crimes não policiais. Então eles desprezam os outros criminosos por serem pobres, excluídos socialmente e não por serem criminosos.
Como demonstrado acima, a bússola moral que mais se destacou neste grupo foi a Família, isso pode ser uma sinalização no sentido de que pelo seu estado de anomia, necessite preencher este vazio ou se senta acolhido de alguma forma. Este mesmo argumento justificaria o aparecimento da Religião mesmo que de maneira marginal neste grupo, pois para ser considerado cristão basta querer e afirmar sê-lo, o que traria uma sensação de inclusão natural, os criminosos se sentem aceitos e não excluídos, motivo de sua propensão à religião como bússola moral.
Outra consistência nos dados diz respeito à penalidade dada aos crimes não policiais pelos criminosos, pois eles condenam menos os crimes não policiais, ou seja, os crimes que eles próprios podem cometer, que qualquer um pode cometer. E este resultado combina com o não respeito às leis, pois se eles dão menos importância às leis, condenam menos os crimes. Já em relação aos crimes policiais, os criminosos penalizam igual aos Policiais Militares e cidadãos comuns, talvez porque não tenham nada haver com eles. Criminosos não podem cometer crimes policiais.Só policiais podem cometer crimes policiais.Alguém só pode ser subornado como policial se este for policial; assim, se estes tipos penais não atingem os criminosos, então estes os punem com maior rigor.
Abstraindo-se estes resultados tem-se que os criminosos valorizam menos as leis e condenam menos os crimes não policiais, porém, o que não é trivial e salta aos olhos nesta pesquisa é concluir-se que os delinquentes desprezam os seus pares não porque eles são
criminosos, mas porque eles são excluídos, pobres, sem cultura, etc.E ainda o fato deles serem pobres, excluídos, ter-se-á um efeito cascata sobre diversas outros aspectos.
Outro dado importante é que os Criminosos são os únicos que mais valorizam os Cidadãos Comuns, aliás, os colocam acima de todos. Isso talvez se justifique pelo fato destes indivíduos estarem alheios ao problema da criminalidade, os tornando intangíveis a este problema, pois quem lida diretamente com os criminosos do momento da prática do crime até sua chegada ao COTEL é a Polícia. É a Polícia que faz tudo e lida com a escória social. Assim, a lide dos Criminosos é com a Polícia e distante dos Cidadãos Comuns, apesar de serem estes o alvo das investidas criminosas, mas isso não tem nada de pessoal, já com o policial é diferente e esta pode ser uma justificativa plausível para que os Criminosos enalteçam tanto os Cidadãos Comuns. Isso é uma mera especulação que precisa ser estudado a fundo, porém ressaltado com consistência nesta amostra.
Ressalte-se ainda que em sede dos Valores Morais ocorreram dois efeitos na Conformidade. Os Criminosos em geral pouco se diferenciam dos outros grupos devido ao seu estado de anomia, uma vez que se não seguem as leis possivelmente são levados a executar ações indisciplinadas, onde as hierarquiasnão são consideradas. Por outro lado, quando se fala em crime organizado, necessariamente deverá haver respeito a hierarquia do grupo. Deste modo, os criminosos que são organizados tendem a ter mais conformidade por fazerem parte de uma organização. Assim, numa visão geral da criminalidade, a própria anomia levaria a terem menos conformidade, enquanto que em crimes organizados o contrárioe estes resultados tendem a lados opostos, acarretando numa neutralidade. Desta forma, parte deles têm motivos para ter conformidade alta e os outros para terem baixa. Aqui anomia está servindo mais uma vez para explicar a conduta de alguns criminosos.
Outro achado interessante em relação aos criminosos foi em relação aos valores morais que nas análises bivariadas não é possível identificar nenhum destaque, porém na multidimensional sim, pois todos os 10 valores de Schwartz aparecem próximos aos Criminosos e distantes dos outros grupos. Este achado por ser interpretado por duas vertentes distintas; inicialmente a ressocialização uma vez que quando se cerceia a liberdade de alguém, a intenção é que este indivíduo melhore de sua condutapara o retorno ao seio social. Sabe-se que na prática isso pouco acontece devido aos imensos problemas carcerários no Brasil, pois o sistema prisional está cada dia pior, basta ver as notícias jornalísticas que atestam constantemente mortes dentro do cárcere. Não se quer negar alguns cuidados tomados pelas autoridades competentes quando prestam serviços psicológicos, de assistente social, dentre
outros, ou seja, algum procedimento tenta-se realizar, mas ainda está muito aquém da real necessidade.
A segunda vertente motivadora para o encarceramento consiste na prisão em si, como punição pela quebrado pacto social,obrigando o preso a conviver com toda a população carcerária, numa convivência forçada e é desta forma que se justifica o aparecimento dos valores morais neste grupo na análise multidimensional, uma vez que os criminosos vão precisar deles diante deste convívio forçado, como uma forma de proteção diante de todas as ameaças que vão ter que enfrentar.