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A.4 R´esultats

4.21 Temps d’ex´ecution de TNR en natif sur 16 cœurs en fonction du ratio d’ex-

Um último grupo que relato aqui é o das travestis. A W3 parece exercer certa atração sobre este grupo, havendo algumas pensões que servem de residência, assim como quitinetes nas quadras em frente. Entrevistei duas delas: uma, dona de um salão de beleza numa quadra das 700 Sul, e outra que se prostitui no Setor Comercial Sul. Ambas me relataram ser o local onde elas mais se concentram no Plano Piloto, podendo identificar mesmo um sistema de sociabilidade e de solidariedade a partir de experiências de vida em comum, fortemente marcadas pelo preconceito e segregação com que lidam de maneira tão intensa cotidianamente. MacDowell (2007) discorre sobre uma espécie de “ditadura da noite”, uma vez que o período diurno está associado à opressão por mecanismos tácitos de coerção social. A prostituição é um destes signos que a noite carrega, ainda que muitas exerçam outras profissões. MacDowell relata o caso de uma travesti que mora num quarto alugado na W3 que, mesmo sendo próximo a um supermercado, paga a um vizinho, uma criança, para que faça suas compras, evitando assim olhares, piadas e outros tipos de agressão – chegou mesmo a ser revistada por um segurança do mercado, acusada de furto, antes de tomar a decisão de não mais voltar.

Minhas duas entrevistadas moram nas 500 Sul, mas a Aline70 morou por cinco anos em duas pousadas diferentes, uma delas nas 700 Sul. Forneceu um nome de pousada que não existe, pois não se trata do que está marcado no letreiro, mas sim do nome da dona, identificando mesmo que não é em todas que são bem recebidas. O dono de uma outra pousada chegou mesmo a me dizer que evitava hospedá-las...

Compreendi, pelo discurso de Aline, que há ao menos dois grandes motivos para que muitas travestis morem em pousadas. São muitas as histórias de rompimento com a família, o que as leva a procurar um novo local de moradia. Por outro lado, este preconceito recebido por parentes é também o que encarnam numa gama de outras experiências ao longo da vida, como por exemplo ao procurar um espaço para alugar. Um terceiro motivo seria o das redes de sociabilidade formadas, facilitadas por fixarem residência juntas ou próximas. Na quitinete onde mora, por

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exemplo, subloca para outras duas travestis – uma ajuda para as duas amigas e uma drástica redução no valor de seu aluguel.

Numa comparação entre as duas modalidades – quitinete e pousada –, Aline disse estar melhor na residência atual, mas mencionou só tê-la conseguido pela ajuda de um cliente seu, que recorreu a dois amigos para serem fiadores da locação. Nas pousadas já morou dividindo quarto com uma, com duas e até com três colegas.

Estes percalços que as travestis enfrentam na apropriação da cidade têm sido agravados por uma política de repressão e perseguição sistemática que aquelas em situação de prostituição vêm sofrendo. Se são muitas as histórias de violência perpetradas por clientes, pessoas anônimas, entre travestis e entre elas e mulheres profissionais do sexo, é com a polícia que estes relatos têm sido mais freqüentes. Existe uma tática de intimidação em curso denominada arrastão, em que operações da polícia militar no Setor Comercial Sul encaminham as profissionais do sexo para averiguação na delegacia, onde são despidas, revistadas e bastante humilhadas. Estas operações têm ocorrido sistematicamente, desde outubro de 2007, numa média de duas vezes por semana. A idéia parece ser mesmo a de profunda intimidação e sua expulsão do local. É uma política de repressão conduzida de forma bastante truculenta e que parece estar vinculada a uma série de outras ocorrendo simultaneamente. É o que tem sido visto com camelôs, com população moradora de rua, com focos de favela e também com outros tipos de ocupação, como veremos no capítulo seguinte. Estamos diante de uma política de governo de higienização do espaço urbano, na qual estes grupos são duramente perseguidos, ao mesmo tempo em que pode ser acompanhada uma valorização imobiliária em curso na cidade. Os jornais locais estão repletos de notícias tanto do aquecimento imobiliário como de relatos de operações policiais visando restituir a ordem na capital federal. Nos moldes do que vimos no capítulo 01, são situações em que identificamos a existência de vidas matáveis, de expurgos promovidos em nome da ilusão de criação de espaços ordenados.

Assim, a garantia do controle e do ordenamento do espaço se dá pela eliminação das impurezas que ocupam sua paisagem. A violência vem, aqui,

restituir a pureza de um espaço maculado, assegurando seu valor (não apenas imobiliário, mas também simbólico).71

Por fim relato um trágico evento que infelizmente ilustra bastante bem a situação de violência e preconceito com que as travestis lidam cotidianamente. Durante a pesquisa de campo, quando visitei o Setor Comercial Sul, além de entrevistar a Aline conversei com algumas outras travestis. Uma delas, a Fernanda, foi brutalmente espancada e assassinada a pauladas no final de janeiro de 2008. Seus agressores não foram identificados. Um crime de homofobia que sequer apareceu nos jornais. Nem mesmo um inquérito policial foi aberto. Foi enterrada no dia 13 de fevereiro, duas semanas depois do crime, pois ninguém conhecia seus parentes. Depois de encontrados na Bahia, ainda assim não quiseram comparecer.