CHAPITRE 2 : RECENSION DES ÉCRITS 8!
2.2 Stratégies de transfert de connaissances 18!
2.2.3 Stratégies novatrices de transfert de connaissances 26!
2.2.3.2 Technologies de l’information et des communications (TIC) et Web 2.0 30!
Lieblich et al (1998, p. 7) afirmam que pessoas são contadores de história por natureza. Para elas, as histórias proporcionam coerência e continuidade às experiências do indivíduo e possuem um papel central na nossa comunicação com os outros. Segundo essas autoras, as narrativas permitem que se explore e compreenda o mundo interno dos indivíduos, suas personalidades e identidades, bem como seu mundo social e cultural.
Na visão de Mello (2010), a pesquisa narrativa requer que a experiência pessoal ou profissional seja ponto central do estudo realizado. “Ao partir de uma experiência vivida é possível revisitar experiências e construir conhecimento sobre as dimensões pessoal, profissional e social. É possível, ainda, analisar os aspectos temporal, espacial ou contextual, e o teórico, envolvidos e diretamente relacionados à história relatada” (p. 185).
Karlsson (2008, p. 84-85), partindo de Clandinin e Connelly (2000), defende que a pesquisa narrativa emerge da experiência e é o meio que mais nos aproxima dela. Essa autora entende a experiência vivida como o significado que atribuímos às nossas situações de vida. Karlsson toma ainda seu próprio entendimento como experiência. Para ela, os significados que atribuímos a experiências passadas podem mudar porque o presente, o momento de relatar a experiência, guia nossa interpretação. Assim, ao construirmos uma narrativa de experiências, abrimos nosso passado à reflexão e reconsideração. Ademais, quando ouvimos as experiências narrativas dos outros, o mesmo processo de trazer perspectivas atuais para iluminar e, até mesmo, mudar o passado pode acontecer. É desta forma, na percepção da autora, que a narrativa pode auxiliar professores e estudantes a se encontrarem.
Miccoli (2008) explica que o foco na narrativa permite organizar a complexidade da experiência para que esta possa ser contada. Quando contadas na primeira pessoa, as narrativas têm em seu conteúdo experiências que se referem a
eventos significativos para quem as conta e representam, portanto, a história do narrador.
Acima de tudo, a pesquisa narrativa permite que pesquisadores apresentem a experiência holisticamente, com toda sua complexidade e riqueza, capturando a continuidade e a mudança no fenômeno (BELL, 2002; KARLSSON, 2008; SANDELOWSKI, 1991). Karlsson (2008, p. 85) pontua que a narrativa enfatiza o todo e ajuda a conectar os fragmentos, mostrando sua interdependência, mas não necessariamente a dependência causa-efeito. A esse respeito, Polkinghorne (1988, p. 142) explica que a narrativa envolve a união de eventos em um enredo no qual se atribui significação aos eventos a partir do modo como eles se relacionam ao tema da história. Dessa forma, o enredo configura os eventos em um todo; esses eventos, por sua vez, são transformados de meros acontecimentos seriais e independentes a acontecimentos significativos que contribuem para o tema como um todo. Em outras palavras, a narrativa permite um olhar complexo e holístico sobre as experiências, a partir do qual só se compreende o todo em função de suas partes.
3.2.1. Explicação narrativa e a dinâmica da ação
Juarrero (1999) defende que uma lógica diferente de explicação apropriada à ação é necessária, ou seja, “a compreensão da ação humana deve começar com o pressuposto de que as pessoas são entidades dinâmicas cujo comportamento reflete sua complexidade” (p. 221).53
Criamos sentido das pessoas e suas ações através de uma interpretação dialética entre todos e partes. Por isso, Juarrero propõe um modelo interpretativo-narrativo para explicar a ação humana.
Nessa perspectiva, o significado de um texto completo é construído a partir da relação entre as passagens individuais. Por outro lado, o significado das passagens individuais da história deriva do significado do texto inteiro no qual essas passagens estão incorporadas. Essa recursão intranível, segundo Juarrero (1999, p. 223), reproduz a auto-organização de processos dinâmicos complexos e, por isso, as narrativas interpretativas são particularmente apropriadas como lógica de explicação desses processos. Uma vez que as mudanças de fase são imprevisíveis, o único modo de explicá-las é através de uma narrativa retrospectiva, genealógica que faça ampla
53 Tradução livre de: “understanding human action must begin from the assumption that people are
referência aos eventos temporais e contextuais de forma a explicar, detalhadamente, a trajetória de transformações individuais e do comportamento cotidiano.
De acordo com Juarrero (2000), o comportamento que acontece entre mudanças de fase deve ser explicado através de uma reconstrução interpretativa. Primeiramente, o estado mental que iniciou o comportamento deve ser identificado. Para fazer isso, o interpretador deve descrever o espaço de contraste das alternativas do agente. O comportamento de sistemas dinâmicos depende, essencialmente, de sua história e experiência, bem como do ambiente atual em que se encontram. Explicar o comportamento de sistemas dinâmicos requer que preenchamos todo esse background relevante. Explicações de ações devem, portanto, proporcionar uma narrativa que interprete e reconte como essas dinâmicas cognitivas e afetivas eram no momento em que se iniciou a ação.
Depois, o interpretador deve explicar porque o agente optou por uma das alternativas no espaço de contraste. A narrativa histórica e interpretativa deve descrever o caminho específico que o comportamento tomou, mencionando, a cada passo do percurso, quanto foi especificamente restringido pela intenção e quanto pela estrutura externa (ou “configuração do terreno”), assim como outras dinâmicas do agente. Em outras palavras, o interpretador deve descrever, a cada ponto de escolha, porque o agente decidiu por aquele caminho, e não outro; quais eram as opções disponíveis e qual foi a escolhida. Tudo isso requer que se reconstrua o background do agente, suas circunstâncias, seu estado de espírito e raciocínio, seja autoconsciente ou não.
Esse procedimento é válido em momentos de estabilidade. Segundo Juarrero (2000, p. 49), uma mudança de fase não pode ser explicada dessa maneira porque o que precisa ser explicado é a mudança em si, ou seja, a transformação do sistema em um regime dinâmico totalmente diferente. Como exemplo, ela cita a reviravolta de um alcoólatra que decide parar de beber. Essa mudança não pode ser explicada apenas em termos do estado de espírito antecedente do agente. A transformação mental radical em si também precisa ser explicada. Uma narrativa explicativa completa deve incluir todos os detalhes: se o sistema se estabilizou, reorganizou ou desintegrou; quais as flutuações críticas auxiliaram o sistema a se reorganizar ou qual perturbação destruiu o sistema. Além disso, é igualmente importante se perguntar quando tudo isso aconteceu. Nas palavras de Juarrero (2000, p. 50), “a cronologia é crucial: a perturbação que nos levaria
ao limiar do caos quando criança pode ter apenas um impacto mínimo hoje”.54
Por isso, explicações narrativas de ações individuais são sempre históricas e concretas.
Juarrero (ibid.) ressalta ainda que, quando lidamos com SACs, surpresas são inevitáveis. Uma vez que nunca seremos capazes de especificar as condições inicias de qualquer sistema dinâmico com precisão, a fortiori nunca seremos capazes de capturar todos dos detalhes e circunstâncias da vida e background de uma pessoa. Por isso, interpretações da ação humana serão sempre tentativas. Não há certeza absoluta: a interpretação é individual e duplamente histórica. O fenômeno explicado tem uma história e deve ser compreendido dentro dessa história. Porém o interpretador também está situado dentro de uma história, de uma tradição, que sua interpretação reflete e influencia. Essa historicidade dupla afeta a pragmática da explicação. Em termos dinâmicos, a tradição na qual o interpretador está situado é, por si só, um atrator55. Assim, para Juarrero, dois contextos emolduram o significado da explicação: 1) o
background histórico e o ambiente contextual no qual a interpretação é oferecida, e 2) o
contexto estabelecido pelo “pequeno mundo” da interpretação em si.
É esse tipo de descrição narrativa da ação que se buscou obter por meio dos instrumentos de coleta de dados, que serão descritos logo após a apresentação do contexto e das participantes da pesquisa.