“O Estado caracteríza-se em primeiro lugar pelo agrupamento de seus súditos de acordo com uma divisão territorial (...). O segundo traço característico é a instituição de uma força pública, que já não mais se identifica com o povo em armas”. Engels (1995, p. 192).
O Estado possui o poder legal sobre as armas para manutenção do poder e coibir quaisquer levante da população, diante disto, seria natural que os cabanos conseguissem suas armas de forma ilegal na visão do governo. As armas eram: punhais, terçados, facas, espadas, bordunas, tacapes, cassetetes, arcos e flechas, lazarinas, pistolas, trabucos, cravinas, mosquetes, mosquetões, e outros, adquiridas de várias maneiras, dentre elas por:
a) fabricação caseira de armas branca e de fogo por mestiços, brancos, negros e tapuios;
b) confecção de armas brancas, tacape, bordunas, arco e flecha, e outros, por tapuios;
c) soldados do governo, influenciados por intelectuais que fizeram parte da Cabanagem, desviavam armas para estes ou desertavam levando suas armas e engrossando as fileiras dos cabanos;
d) contrabando de armas;
e) ataque às fortalezas do governo ou navios como o Clio que traziam carregamento de armas e munições aos legalistas;
f) fornecimento de comerciantes da região;
g) por franceses aos cabanos, identificação feita por essa pesquisa;
h) ataque para conseguir pólvora às embarcações legalistas em pequenas canoas, também chamadas de montaria. A técnica era a seguinte: escondiam-se em pequenos furos e igarapés, onde havia pequenas ilhas que facilitavam a tocaia e, a noite, aproximavam-se dos
barcos e realizavam ataques surpresa, como ocorreu em Vila Nova em Vigia.
Tendo havido no Pará diversos motins, era natural que parte da população possuísse armas escondidas, e alguns grupos as tivessem armazenado em depósitos secretos. Vários fatos levam a se acreditar nisso, entre eles foi que Bernardo Lôbo de Souza havia acusado alguns sacerdotes católicos de possuírem depósitos de armas e estarem armando a população. Além de que, no início da Cabanagem havia muitas armas na fazenda de Félix Clemente Malcher.
Quanto a contrabando de armas, no momento em que a Cabanagem propriamente dita iniciou, armamentos e munições tinham chegado à fazenda de Félix Clemente Malcher trazidos por João Pedro Gonçalves Campos, originárias do comércio de Sinfrônio Gonçalves da Cruz que ficava à beira do rio. Lógico que pelo controle de entrada e venda de armas na Província estas só poderiam ser frutos de contrabandos, tendo escapado ao controle do governo. O certo é que os legalistas sempre suspeitavam de entrada de armas de forma ilegal, contrabandeadas para os cabanos. Não foi ao acaso, que quando a escuna norte-americana “John Brian”, que ia a Província do Maranhão, por motivos técnicos, teve que ancorar em Macapá fora revistada para o governo legalista saber o objetivo da ancoragem e carga daquele barco. A presença da escuna “John Brian”, comandada por Strong, não só assustava o marechal Jorge
Rodrigues com receio de possuir armamentos para os cabanos, mas por serem americanos, que não eram de confiança daqueles militares. A presença deste barco em Macapá, que não estava sobre o controle cabano, não descarta a hipótese de a escuna estar se dirigindo à ilha do Marajó, que fica muito próximo dali, para levar suprimentos aos cabanos, pois lá era uma base muito forte da Cabanagem.
Na invasão cabana à cidade de Belém, Geraldo Gavião, dentre outros cabanos, tinha como objetivo maior tomar o Arsenal de Guerra, não só para diminuir o poder de fogo do governo legalista, mas para adquirir armas e munições que dessem maior força para suas fileiras. Vale lembrar que uma das estratégias dos cabanos era manter seus guerrilheiros que não possuíam armas de fogo sempre atrás dos que estavam armados, pois, no caso da morte, eles se apropriavam das armas dos companheiros ou pegavam de soldados do governo que tombavam em combate.
No ataque ao Arsenal de Guerra, os cabanos tinham um objetivo bem maior, pois seria dali que viriam suas armas e munições. Seus interesses estavam tão claros, que, mesmo com a morte de Antônio Vinagre, Eduardo Angelim toma o comando do combate que duraria cerca de cinco dias, com perdas de muitas vidas do lado cabano em virtude daquele arsenal está fortemente protegido e, em todas as tentativas caiam dos alçapões granadas e chuvas de tiro sobre os guerrilheiros que lutavam, desesperadamente, para adquirirem armas e munições.
Outra forma de conseguir armas encontradas pelos cabanos, segundo RAIOL (1970, p. 853) era:
“... dando busca nos estabelecimentos comerciais, onde suspeitavam encontrar pólvora e quaisquer outros artigos bélicos, e nas suas diligências tinham conseguido resultados favoráveis, dos quais souberam tirar vantagens pela severa economia guardada no empêgo das munições. Não davam tiros em vão, e dêsses mesmo precidiam quando afroxava a energia da tropa de linha”.
O navio inglês Clio foi assaltado e levaram toda a carga, que era composta, principalmente, por armas e munições encomendadas por Bernardo Lôbo de Souza na época do início da Cabanagem no Pará. Sua tripulação foi morta, restando só um sobrevivente. CHIAVENATO (1984, p. 122) afirma que da carga do Clio, roubada,
teriam os assaltantes conseguido: “... dois mil fuzis com baionetas, mil pistolas, quinhentas clavinas e quinhentas espadas retas, além de outros equipamentos militares”.
Quando os cabanos, ou melhor, os Presidentes cabanos, rendiam-se às tropas legalistas, escondiam boa parte de suas armas, como se não confiassem na trégua e, tomavam-nas para luta sempre que fosse necessário. Afirma RAIOL (1970, p. 940) que teria: “... Antonio Vinagre feito até seguir para Acará, no dia da posse do marechal, um barco carregado de munições e armamentos tirados do Arsenal de Guerra! Assim o afirmaram testemunhas presenciais dêsses acontecimentos”.
O governo legalista sempre desconfiava que os franceses auxiliassem, de alguma forma, os cabanos. Este fato foi comprovado quando se identificou vários documentos que acusam os franceses de darem apoio e asilo para cabanos em Caiena, tal como o Códice 1053 de 17 de fevereiro de 1837, que conta um relato de Joaquim Ferreira Carv4 para Andréia que diz:
“Tenho a sastifação de participar a V Ex.ça que o resultado das deligencias
que ordenei contra os rebeldes do rio Aramá e outros, foi serem aprizionados vente esinco homens com suas famílias e filhos que fazem o total de noventa individuos, os quais já ião emfuga para esse velha = Couto arrajado pelos Francezes no Rio Amapá, para. onde muitos outros se tem evadido, e continuão a evadir-se mormente depois da debandada dos Breves, Macacos, e outros pontos”.
Alem de um oficio de Joaquim Marques a Manuel Jorge Rodrigues, em 25 de agosto de 1835, relatando as fugas de cabanos, afirma que o Cônsul francês no Pará fornecia munições aos cabanos, dentre diversos outros documentos.
Outro fato importante é que, nos momentos de rendição, quando os cabanos abandonavam Belém, muitos destruíam as armas que não podiam carregar ou esconder fora da capital.