Ao contrário do movimento da Farroupilha, no Sul do Brasil, que tinha cunho separatista, os cabanos no Norte eram extremamente patriotas, e não pretendiam, sobre hipótese alguma, separar a Província do Pará do resto do Brasil, nem eram xenófobos, suas lutas eram contra os portugueses (também chamados de Camões, em referência ao poeta português Luis de Camões) que, durante muitas décadas, cometeram inúmeras atrocidades contra os diversos grupos proletariados na Província do Pará e, depois da Independência do Brasil de Portugal, em 7 de setembro de 1822, continuavam a mandar na região.
Acusar os cabanos de separatistas era estratégia de alguns governadores legalistas da Província para convencer o Império a combaterem, com mais afinco, aqueles grupos, assim mantendo seus interesses particulares.
Muitos países devem ter se interessado pela separação da Província do Pará do Brasil, contudo, em todos os documentos estudados não há elementos que indiquem que isso era de interesse dos cabanos.
Os cabanos, em suas cartas, sempre utilizavam em seus manifestos e ofícios as palavras: pátria, patriota, patrícios, nação, em nenhum momento demonstraram ser
separatistas. O que demonstra, em todo momento, que o que queriam era que a Província do Pará fosse governada por brasileiros.
Apesar dos cabanos terem recebido alguma arma e munição francesa e propostas de apoio de vários países para se separarem do Brasil, essa nunca foi sua intenção. Se assim fosse, teriam obtido sucesso, pois receberam diversas propostas de apoio estrangeiro. A Corte, sofrendo várias consequências das comoções civis, tendo que recorrer a mercenários estrangeiros para formarem exércitos, não teria condição de lutar no Pará. É por esse motivo que durante o período regencial aumenta a moral dos portugueses e a Cabanagem pegaria força contra os lusos.
O certo é que a Cabanagem era um movimento essencialmente antilusitanista como muitos fatos podem provar. Por exemplo: Os manifestos de Angelim aos paraenses deixavam claro que entregaria o governo nas mãos de um brasileiro nomeado pela Corte brasileira e nunca nas mãos de algum “déspota lusitano”.
Nos Proclamas do Presidente Vinagre de 29 de abril de 1835, sempre saúda a Regência, o Imperador e declara buscar a paz e expulsar os portugueses da Província do Pará. Em seu discurso, estão presentes termos como: liberdade, nacionalidade, liberdade; liberdade sim, mas não de se separar da nação e, sim, de sair do julgo português na Província.
Quando o marechal Manuel Jorge Rodrigues, de origem portuguesa, chega ao Pará com o comandante inglês John Taylor e um grande número de soldados, principalmente portugueses, ingleses e brasileiros, apesar de Angelim e Vinagre pedirem aos cabanos que não lutassem, para tentarem negociações, esses reagiam em grupos isolados, não confiando em acordo com lusitanos, o que ficou ainda pior quando perceberam que o marechal não queria negociações e, sim, tomar Belém de surpresa,
iniciando uma verdadeira caça a cabanos. Na obra de CHIAVENATO (1984, p. 103) aparece o manifesto de Eduardo Nogueira Angelim de 29 de julho de 1835, quando, na ocasião que soube da prisão de Vinagre pelo marechal Manuel Jorge Rodrigues, dirige- se aos seus liderados falando do marechal da seguinte forma:
“„Esse déspota, caros patrícios, em menos de três dias, tem mandado prender
para mais de trezentos paraenses arrastados pelas ruas da cidade espaldeirados, fuzilados e carregados de pesadas cadeias nos porões dos navios de guerra (...) Batalhões de portugueses e de outras nacionalidades, com armas em punho são hoje senhores do Grão-Pará!‟”.
Nota-se, novamente, o antilusitanismo dos cabanos, no momento em que, depois de vencida uma batalha contra o marechal Manuel Jorge Rodrigues e John Taylor, (quando estes destruíram quase toda a cidade de Belém com tiros de canhões indiscriminadamente, tanto em prédios públicos quanto em residência de inocentes), Eduardo Angelim fez um proclama, no dia 23 de agosto de 1835, quando toma posse como 3º Presidente cabano da Província do Pará, dizendo, conforme RAIOL (1970, p. 925):
“Corajosos Paraenses, valentes defensores da Pátria e da Liberdade! Depois de nove dias de fogo mortífero com outras tantas noites, estamos senhores da formosa Belém, capital da província! Os dois estrangeiros Manuel Jorge Rodrigues e João Taylor lá se vão de fugida e duma maneira vergonhosa: o prímeiro à frente de seus aguerridos e briosos batalhões de voluntários, e o segundo à frente de sua esquadra de intrépidos marinheiros! Esta cidade, que ainda há poucos dias era governada por um presidente rebelde, apresentava um quadro risonho e encantador. Girava o comércio, funcionava tôdas as repartições públicas, havia sossêgo, paz e ordem. Hoje o que vemos nós? Com dor digo, esta tão bela cidade, tão cheia de encantos está reduzida a um montão de ruínas! Para tôdas as partes, onde lançamos nossas vistas, só vemos a imagem da dor e da tristeza!
Amados patrícios!Seremos nos responsáveis perante Deus por tantos males que hoje pesam sôbre o Pará? Certamente que não. Os dois mostros e fugitivos estrangeiros Jorge e Taylor serão os únicos responsáveis diante do Ser Supremo e perante a história, pelas grandes desgraças que hoje pesam sôbre a inocente família paraense! Amparo e proteção para milhares de famílias inocentes, que neste momento estão sob nossa guarda! Seja cada um de vós um pai, um protetor da inocencia desvalida! Procedendo assim bem teremos merecido da pátria e das gerações futuras. ‟
Meus amados patrícios! Eu vos afiancei que o infame e opressor jugo estrangeiro havia de cair por terra e que seríamos os vencedores. Realizaram-se os meus bons desejos e gratas esperanças. Vós sois dignos do nome paraenses! Vós todos, soldados da liberdade, estais cobertos de glória pelo vosso patriotismo, valor e constância! Os nossos inimigos são os primeiros a confessar o vosso valor e heroísmo! Nos combates desesperados que sustentamos, eu fui o que menos fiz; porém sempre me achei ao vosso lado e onde havia perigo. Era um dever de honra a cumprir. A nossa obra ainda não está concluída, ainda resta muito a fazer. Antes de tudo, peço-vos que modereis ao vosso ardor guerreiro, e amanhã ou depois aclamas um presidente que mereça a nossa estima, confiança e respeito. Dignos chefes de tôdas as colunas, vós todos sois merecedores de maiores louvores e elogios pelo vosso valor, firmesa de caratér e lealdade. Vivam os decendentes de Ajuricabas e Anhagaíbas! Vivam os poaraenses livres! Viva o Pará!”.
Observa-se, nesse proclama de Eduardo Angelim, que ele não pretendia ficar no governo, tinha esperança que a Corte nomeasse um paraense ou, pelo menos, um brasileiro para administrar a Província. Outro fato é que, em todos os momentos refere- se a Manuel Jorge Rodrigues como estrangeiro. A luta também era dos índios, nesse caso, os tapuios destribalizados, pois o terceiro Presidente cabano faz referência aos Ajuricabas e Anhagaíbas, povos indígenas destruídos pelos portugueses no início da colonização do Pará. Vale lembrar que negros escravos, em busca de liberdade, brancos e mestiços proletários foram as bases dessa guerra civil.
No manifesto de 25 de outubro de 1835, citado por RAIOL (1970, p. 939), Angelim diz:
“Saibam, pois, o govêrno geral e o Brasil inteiro, que os paraenses não são
rebeldes; os paraenses querem ser súditos, mas não querem ser escravos, principalmente dos portuguêses; os paraenses querem ser governados por um seu patrício paraense, que olhe com amor para as suas calamidades, e não por um português aventureiro como o marechal Manuel Jorge; os paraenses querem ser governados com a lei e não com arbitrariedades, estão todos com os braços abertos para receber o govêrno nomeado pela regência, mas que seja de sua confiança, aliás êles preferam morrer no campo de batalha a entregar de nôvo seus pulsos às algemas e grilhões do despotismo; se o governo da côrte teimar em subjugar-nos pela fôrça, nós teimaremos em dar-lhes provas do valor de um povo livre que esquece a morte quando defende sua liberdade”.
MONTEIRO (1994, p. 68), em sua dissertação de mestrado, afirma que: “Todas
as descrições das relações entre cabanos e estrangeiros que a historiografia cristalizou (tanto de apologetas quanto de detratores) apontam para uma substimação, por parte dos cabanos, do potencial estratégico de uma ajuda estrangeíra”.
Discorda-se desta afirmação neste trabalho, pois, em estudos, detectou-se que, de certa forma, os cabanos receberam, em certo momento, ajuda em termos de armas e munições e possibilidade de fuga para Caiena por parte dos franceses. Todavia, em toda a história, principalmente a levantada em fontes primárias como os proclamas dos Presidentes cabanos, dentre outros documentos, mostram que estes lutavam contra a opressão portuguesa na Província do Pará. Recebiam propostas separatistas, mas nunca aceitaram, pois suas lutas eram pela liberdade, manifestando, em todo momento, amor ao Brasil. Não se negariam, em vista disto, a aceitar qualquer Presidente nomeado pela Corte brasileira, desde que este estivesse dentro das exigências contidas em todo o movimento da Cabanagem – ser brasileiro.
Quanto à hipótese: Seria a Cabanagem um movimento estritamente brasileiro ou teria influências, estímulos e incentivos por interesses econômicos na rica região Amazônica, de outros países? Neste caso, quais? Acredita-se que, neste capítulo, dá-se a resposta a esta pergunta.
Conclui-se esse capítulo afirmando: os cabanos não eram separatistas, o movimento era essencialmente de um grito de liberdade contra a opressão e despotismo português na Província do Pará. Se o combate persistiu, mesmo depois de preso o último Presidente cabano, se os grupos que ainda lutaram até finais de 1840 e 1841, era porque a Corte demorou muito a nomear um Presidente legalista dentro das exigências
dos guerrilheiros; somado ao medo da prisão em navios, onde poderiam ter o mesmo destino dos presos do “Brigue Palhaço”, como muitas vezes aconteceram.