1.3 Contributions and Thesis Outline
1.3.3 Technical Summary
A extensão na universidade brasileira é uma atividade acadêmica presente há quase um século. A própria Constituição Federal de 1988, no Artigo 207, promulgada em 05 de outubro de 1988, pontua, como o mais importante marco legal da Extensão Universitária: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão” (BRASIL, 1988, art. 207).
A indissociabilidade entre Ensino,Pesquisa e Extensão foi aplicada ao mesmo tempo em que foi aplicado o princípio da autonomia universitária na Constituição Federal. Constitucionalmente, no Brasil, as universidades realizam suas atribuições firmadas no princípio da indissociabilidade, e trabalham objetivando que essas instituições possam cultivar uma relação diferenciada com a sociedade, na perspectiva de contribuir de forma direta para o desenvolvimento de sua região. Reforça Magalhães quando afirma que: “Não há como a universidade interferir na comunidade se ela não for capaz de dialogar com as necessidades da região em que está inserida, e isso só se faz através da pesquisa, da extensão e do ensino contextualizados. (MAGALHÃES, 2007, p. 8)
Entretanto, apesar de toda legitimidade da indissociabilidade, mediante a Lei nº. 5.540/68 (BRASIL,1958) e do artigo 207 da CF (BRASIL, 1988), constata-se que ela se apresenta mais como uma frase de efeito do que como uma prática queconsiga transformar os processos de ensino-aprendizagem na universidade.
Silva (2000, p. 108) destaca que a integração ainda encontra dificuldades em sair do plano teórico para o ideal, sendo em parte atribuída às normalizações e à
própria estrutura e funcionamento das universidades. Reforça, também, que tem feito parte dos processos de avaliação ou dos planos de carreira docentes o exercício institucional integrado, com pontuações mínimas, o que reforça as reflexões Freireanas: “ Ainda que o trinômio ensino-pesquisa-extensão seja bradado aos quatros ventos, ainda existe uma hierarquia implícita (mas não explícita), de que em primeiro lugar vem o ensino, depois a pesquisa e por fim a extensão (FREIRE, 2001, p. 23).
Para Botomé (1996, p.123), a função da universidade é a transmissão do conhecimento. O ensino, pesquisa e extensão são três diferentes momentos da atividade universitária, entendidos como indissociáveis. Serrano (2001, p. 26) complementa que:
A institucionalização de uma extensão verdadeiramente acadêmica exige, naturalmente, uma intensa articulação interna e externa às universidades; tanto na formulação de uma política pedagógica onde de fato a indissociabilidade entre a extensão, o ensino e a pesquisa se materializem, quanto na formulação de parcerias de dimensão interinstitucional, e na integração com os agentes sociais dos projetos de extensão.
O Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras ratifica a Extensão Universitária como um processo acadêmico. Seguindo este ponto de vista, a EU só acontece de forma efetiva quando suas ações são vinculadas ao ensino e a pesquisa, por isso Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras (2012, p. 33) vê essa diretriz como uma maneira da universidade ofertar uma formação técnica mais humanizada, e completa:
Apenas ações extensionistas com esses formatos permitem aos atores nelas envolvidos a apreensão de saberes e práticas ainda não sistematizados e a aproximação aos valores e princípios que orientam as comunidades. Para que esses atores possam contribuir para a transformação social em direção à justiça, solidariedade e democracia, é preciso que eles tenham clareza dos problemas sociais sobre os quais pretendem atuar, do sentido e dos fins dessa atuação, do ‘arsenal’ analítico, teórico e conceitual a ser utilizado, das atividades a serem desenvolvidas e, por fim, da metodologia de avaliação dos resultados (ou produtos) da ação e, sempre que possível, de seus impactos sociais.
Em nossa pesquisa, onze depoentes, afirmaram ter encontrado essa característica nos projetos em que participaram. Entre eles estão D-01 e D-05.
- Consegui ver os três eu consegui aprender o que era cada um deles o que era ensino, o que era trabalhar com o ensino, trabalhar com pesquisa o que era trabalhar com a extensão qual é a ideia deles e como eles têm que está interligado. (D-01)
- Com toda certeza esses três pilares caminharam juntos durante o projeto. A gente ia numa comunidade quilombola para ensinar mas sobre as doenças a gente também estava fazendo uma pesquisa. A gente na visita para essas comunidades além de fazer palestras. Projeto ele realmente era bem focado nessa questão de ensino, pesquisa e extensão. (D-05)
Os egressos observaram que a dinâmica da indissociabilidade entre o ensino, pesquisa e extensão, agregaram valor ao seu processo formativo, melhor dizendo, ao seu pleno desenvolvimento enquanto educando, no exercício da cidadania e na capacitação para o trabalho. E outros depoentes afirmaram:
- Talvez na época eu não identificasse, mas hoje sim eu vejo ensino- pesquisa-extensão estão totalmente relacionados. Foi possível observar isso na prática mesmo a aplicação de um conteúdo que era levado a sociedade que a gente trazia isso como resultado de uma pesquisa que foi bastante importante para nossa formação. (D-10)
E conclui:
- Para mim tanta a gente estudou para aprender a pesquisa [...] A extensão porque foi fora dos muros da universidade e o ensino [...] tivemos o tripé. (D-10)
- Identifiquei sim. Era muito interessante. E isso era muito legal, assim, porque a gente ia para a prática, já tendo visto o ensino, então depois voltávamos para fazer pesquisa. Ver como esse olhar crítico é interessante ser criado e o projeto de extensão ajuda nisso, porque como a gente pode olhar para a teoria de um outro jeito, não com uma verdade absoluta. (D-20)
Os depoimentos ratificaram essa relação dialética entre teoria e prática, homem e mundo, homem e trabalho. Os docentes carecem de aplicar estratégias metodológicas através da indissociabilidade, pois elas precisam ser vividas como fruto de uma construção cotidiana. Defende Fortuna (2016, p. 71) que:
O educador/a e educando/a devem estar abertos e socializarem com seus pares os saberes e anseios obtidos em suas caminhadas e formações epistemológicas. A construção conjunta fortalece a educação emancipadora na sociedade, propondo desdobramento que qualificam a atuação e intervenção entre sujeitos.
Outros egressos reafirmaram a indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão, essa ação extensionista que inter, trans e multidisciplinar trata a produção do conhecimento de forma integrada.
- Sim, pela questão realmente de poder abrir a cabeça para ambos pesquisa e extensão. Com o projeto video-video consegui ter outro leque [...]. Ter outras coisas [...] chegar um pouco muito mais para educação [...]. Ver esse lado. (D-04)
- A gente fazia o possível para interligar todos os conhecimentos ou saberes.... Saberes que amoldam (D-18)
- Eu acredito que participar de todos os projetos de extensão que eu participei, ajudaram muito para que eu entendesse o funcionamento de muita coisa, e principalmente aprendesse a fazer pesquisa, e pesquisa aplicada. (D-20)
Assim, a extensão fortalece a formação acadêmica e com isso favorece a interdisciplinaridade e a indissociabilidade, oportunizando de acordo com Almeida; Sampaio (2010, p. 40) que “novas experiências e pesquisas que, partindo de práticas vivenciadas na realidade social, podem apontar novas direções à ciência e imprimir mudanças societárias significativas”.
Como observa-se a extensão desenvolve, porém, um modo específico de aprender, porque propicia a ampliação do espaço, a otimização do tempo e a significação do processo. A universidade, através dos projetos de extensão podem promover por meio da extensão, experiências diferenciadas e conhecer novas realidades.
Outra realidade encontrada nessa característica foram quatro depoentes, 27% que informaram não constataram a chamada indissociabilidade. Os Depoentes D-02, D-14, e D-21, questionaram a falta e fizeram críticas à condução do projeto.
- Acho que mais pesquisa e ensino. Não houve extensão. Depois do projeto finalizado na publicação do livro. (D-02)
- Não. Comigo no projeto não existiu essa relação. (D-14) - Não. Eu vejo a gente tinha mais o ensino e a extensão (D-21)
Do tripé ensino-pesquisa-extensão, a extensão evidencia ter a maior capacidade de inovação, pois representa um espaço de abertura para novas experiências e novos procedimentos da universidade em relação à comunidade. Por isso, devemos ficar atentos para que a extensão não tenha os mesmos vícios do ensino e da pesquisa, de acordo com Freire (1985 apud GURGEL, 1986, p. 162):
A extensão pode ser entendida como transmissão, envolvendo um sujeito ativo, um conteúdo escolhido por quem promove a extensão; como entrega de algo que é levado por alguém que se encontra atrás do muro, àquele que se encontra além do muro, fora do muro, como messanismo (por parte de quem se estende), sendo caracterizada pela relação entre alguém superior e alguém inferior, e finalmente, como invasão cultural, posto que há uma superposição dos valores dos que se entendem em relação aos valores dos beneficiados.
Isso ficou claro na fala do depoente D-07 quando afirmou:
- Não havia na faculdade de […] Professores implicados, de verdade implicados com a prática cotidiana dos projetos de extensão existentes. Eles assinavam, pontualmente apoiavam atividades uma ou outra, mas não participavam organicamente do núcleo [...] então havia uma afinidade política entre alguns sujeitos na faculdade do que de fato uma interface entre a indissociabilidade entre ensino pesquisa extensão. (D-07)
Alguns docentes na UFPE, ainda não conseguiram entender que não basta promover alguns projetos de pesquisa e de extensão para cumprir o preceito constitucional da indissociabilidade, é preciso ir além, fazer com que o tripé possa contribuir para buscar soluções na construção de uma sociedade mais justa e solidária, oportunizando para que os discentes tenham uma visão crítica e problematizem a realidade social. Esse é o caminho, o exercício acadêmico e a formação profissional juntos, por isso a participação docente é fundamental no cotidiano do projeto. O diálogo deve existir, enfatiza Mendonça (2006, p. 104) quando lembra que "este é a mais pura possibilidade de encontro, da convivência democrática”, pois a práxis, como compromisso ético, social, político e religioso, precisa de acordo com Jorge (1981, p. 30): “Levar o homem à discussão corajosa da sua problemática, advertí-los dos perigos de seu tempo e lhes dar força e coragem para lutar ao invés de serem levados a perdição do próprio “eu” submetido às prescrições alheias.
Assim, acredita-se que cabe a PROExC, através do Grupo de Técnico de Acompanhamento de Projetos de Extensão (GTAPE), acompanhar, os projetos de extensão, de forma mais efetiva, para que esses discentes não se vejam abandonados pelos coordenadores dos projetos. Isto posto, fica a nossa concordância com Freire (1987) quando ressalta que a educação, como movimento da práxis pedagógica e que o diálogo é a base de tudo, e complementa:
O diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar ideias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar- se simples troca de ideias a serem consumidas pelos permutantes. (FREIRE, 1987, p. 79)