GIDDENS define modernidade como «modos de vida e de organização social que emergiram na Europa cerca do século XVII e que adquiriram, subsequentemente, uma influência mais ou menos universal114.» Para diversos autores, o turismo é uma expressão cultural e política específica da modernidade, que satisfaz o anseio de evasão e o hedonismo dos sujeitos, pelo sofrear das amarras sociais e pelo sublimar da fantasia.
É na modernidade que emerge um interesse particular com a autenticidade existencial. De facto, numa sociedade tradicional, de cariz estacionário, governada por normas e tradições rígidas que são cumpridas por todos os membros, a autenticidade não constitui uma aspiração. Ainda que a sociedade tradicional possa exercer pressão sobre o indivíduo, a natureza dos constrangimentos é diversa. Inversamente, a autenticidade existencial reveste-se de importância na modernidade, uma vez que, nesta, vigora a impessoalidade. Assim sendo, a harmonia entre o indivíduo e a sociedade já não pode ser conservada. Neste contexto, viver a vida sob o signo de Eros, entregando-se infrenemente às emoções, aos sentimentos e à espontaneidade é apanágio das formas de vida pré-civilizadas ou primitivas. Viver sob o signo da modernidade implica, justamente, o contrário.
Sob os auspícios da modernidade, o autêntico “eu” assoma como um ideal que age com o propósito de resistir e inverter a ordem racional dominante das instituições tradicionais da modernidade. Para subsistir à inautenticidade que advém da ordem tradicional, considera-se, amiúde, que o “eu” autêntico é mais facilmente apreendido ou realizado no espaço exterior às instituições dominantes. Trata-se de um espaço dotado de fronteiras culturais e simbólicas que distinguem o sagrado do profano, i.e., as responsabilidades da liberdade, o trabalho do ócio e o papel público de inautenticidade do “eu” autêntico115.
Como refere WANG, na modernidade, as esferas estruturais, tais como o Estado e o mercado, concorrem para pôr termo à “autenticidade social”. Na verdade, segundo este autor, diversas práticas culturais modernas visando intimidade, amizade ou sociabilização podem ser consideradas contrárias à inautenticidade prevalecente na modernidade institucional e uma
demanda de autenticidade interpessoal 116 . MACCANNELL parece ter uma opinião
114 GIDDENS, Anthony – As consequências da modernidade. 4ª ed. Oeiras : Celta Editora, 2002. 2ª reimp., p. 1.
115 WANG, Ning – Rethinking authenticity in tourism experience. Annals of Tourism Research [em linha]. Vol. 26, n.º 2 (1999),
p. 349-370 [Consult. 1 ago. 2015]. Disponível na Internet: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/ S0160738398001030>.
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concordante. Segundo ele, o progresso da modernidade (a modernização) está sujeito à sua própria impressão de instabilidade e inautenticidade. Para os modernos, a realidade e a autenticidade acham-se noutros períodos históricos e noutras culturas117. O autor sustenta que a expansão ideológica e empírica da sociedade moderna está intimamente ligada ao lazer de massas moderno, mormente ao turismo. De facto, o indivíduo, na qualidade de turista, pode subtrair-se ao drama universal da modernidade.
As principais características da modernidade são: urbanização avançada; ampla alfabetização; cuidados de saúde generalizados; contratos de trabalho racionalizados; mobilidade económica e geográfica; e emergência do Estado-nação como a unidade sociopolítica mais relevante. Acresce que a modernidade acarreta uma incessante
“espectacularização da sociedade”118. O espetáculo e a imagem convertem-se no isco principal
da atividade turística.
A um nível profundo, a mentalidade moderna antagoniza a sociedade a ela adscrita, quer ao seu próprio passado, quer às sociedades coevas que são pré-modernas ou subdesenvolvidas. Com efeito, a modernidade engendra a perda de autenticidade, tanto dos relacionamentos humanos (a perda da comunidade), como da relação entre o homem e a natureza (a perda de recursos naturais) e, ainda, dos relacionamentos interpessoais (a perda de si mesmo). Assim, de acordo com WANG119 – e na esteira de Marx –, o sistema capitalista de produção de mercadorias é caracterizado pelas relações de produção, em que os donos do capital privado exploram os não-proprietários, que vendem o seu trabalho em troca de um estipêndio. A relação contratual impessoal e calculista que se estabelece entre donos do capital e não-proprietários derrubou a comunidade tradicional, espontânea e autêntica, em que, idealmente, a “autenticidade social” está inscrita. Na realidade, o complexo institucional da modernidade garante abundância, liberdade e ordem social, mas comporta, também, a perda da autenticidade.
Independentemente disso, a modernidade prevaleceu porque grande parte das pessoas a prefere relativamente às formas tradicionais de vida. Porém, à medida que a modernidade progride, engrossa o número dos seus detratores, principalmente em virtude da inautenticidade existencial que dela sobrevém. O aparecimento de recalcitrantes à modernidade exigiu que se processassem alterações que, todavia, não colocassem em causa o projeto da modernidade na sua globalidade. Como verificámos, a solução mais imediata é abstrair-se do ambiente
117 MACCANNELL, Dean – The tourist: A new theory of the leisure class. 1ª ed. Nova Iorque: Schocken Books, 1976, p. 3. 118 FORTUNA, Carlos, Op. Cit., p. 53
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doméstico. A viagem é a solução instantânea para quem pretende mudar de vida. Deste modo, os indivíduos modernos gostam de viajar, porque, fazendo-o, resistem à condição de inautenticidade existencial120.
O turismo projeta aquilo que invoca o culturalmente “autêntico”, procurando conferir sentido do valor e singularidade dos seus produtos através da aplicação da distância entre o sujeito e o objeto que está definido, tanto espacial, como temporalmente. Nesta narrativa, a direção da experiência é sempre no sentido futuro-passado, orientado para as origens. Esta narrativa – que constitui uma escatologia – coloca a tónica no abandono da autenticidade por parte da mentalidade ocidental, em busca do progresso e da tecnologia, e fica capturada nos «rigores do Tempo121».
Neste contexto, o “Outro” converte-se em algo de sagrado para a cultura ocidental; é-lhe outorgada uma autenticidade espiritual e física de que o ocidente “materialista” ficou, de algum modo, privado. Esta narrativa exalta, portanto, o primitivo espiritualmente puro e atemporal, procurando contrariar a sensação de alienação na natureza, fragmentação e perda de que enferma a modernidade. Oferece-se uma alternativa à divisa moderna da tecnologia triunfante, do progresso da civilização sobre a barbárie, e da superação do senso comum através da ciência e da tecnologia.
Para MACCANNELL, a visita turística é um ritual orientado para as diferenciações da sociedade que procura transcender a descontinuidade da vida moderna, incorporando os seus fragmentos numa experiência una. Esta atividade é paradoxal porque procura elaborar a totalidade, celebrando a diferenciação. Para o sociólogo, as atrações turísticas constituem elementos desintegrados dos seus contextos naturais, históricos e culturais originais associados a pessoas e coisas modernas, também elas deslocadas.
A visão cética do autor relativamente ao turismo fá-lo censurar a modernidade por isolar as atrações turísticas das pessoas e lugares que os compõem, quebrando a solidariedade dos grupos nos quais eles, primitivamente, se achavam como elementos culturais. Acresce, ainda, que este movimento emancipa as pessoas dos seus vínculos tradicionais, reportando-os ao mundo moderno onde, como turistas, podem empreender a descoberta ou a reconstrução do património cultural ou da identidade social.
120 Idem, p. 65.
121 TAYLOR, John P. – Authenticity and sincerity in tourism. Annals of Tourism Research [em linha]. Vol. 28, n.º 1 (2006),
p. 7-26 [Consult. 27 jul. 2015]. Disponível na Internet: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S016073830 0000049>.
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Em síntese, o turismo é um modo de aceder à autenticidade existencial, uma vez que resiste à lógica e à ética da realidade quotidiana e propõe uma experiência intensa e concentrada relativa a uma forma de estar alternativa. Se a vida moderna se distingue pela complexidade, artificialidade e coação autoimposta – que WANG designa de inautenticidade ontológica –, então o turismo franqueia o acesso a um mundo “utópico”, construído social e culturalmente, no qual as pessoas se entregam à lídima experiência da simplicidade, naturalidade e ao espírito comunitário. Ainda que o turismo seja um mundo de fantasia e utopia, tal não impede que, se os turistas tiverem a perceção de terem atingido uma sensação de autenticidade interpessoal, então os sentimentos que foram despertados pela sua experiência sejam, para si, ontologicamente reais122.