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The US Earned Income Tax Credit (EITC)

3.2 The Microeconometric (Structural) Approach

4.1.1 The US Earned Income Tax Credit (EITC)

Em concomitância com uma divisão de senso comum, Erving Goffman enunciou uma distribuição estrutural de estabelecimentos sociais naquilo a que designou de regiões de “fachada” e de “bastidores”. Goffman definiu região como «todo o lugar de algum modo limitado por barreiras à perceção218». Na sociedade ocidental, um certo desempenho é,

216 CRANG, Mike, Op. Cit., p. 416. 217 SELWYN, Tom, Op. Cit., p. 28.

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habitualmente, representado numa região extremamente determinada, a que diversas vezes se acrescentam limites temporais específicos.

Neste sentido, o termo “região de fachada” refere-se ao lugar onde o desempenho é representado. Por sua vez, a “região de traseiras” ou “bastidores” é o lugar, relacionado com determinado desempenho, «onde as impressões visadas por esse desempenho são contrariadas conscientemente com toda a naturalidade219.»

Como vimos acima, Dean MacCannell colocava em causa a capacidade de os turistas, efetivamente, testemunharem aquilo que é autêntico nas culturas estrangeiras que visitam. Quando muito, tratar-se-iam de pseudo-experiências. O mesmo autor sustentava que, perante um influxo de turistas de massa, as comunidades anfitriãs procuram proteger e isolar a sua cultura criando regiões de bastidores – onde os nativos prosseguem as suas tradições significativas fora do olhar dos turistas – e regiões de fachada – onde os nativos desempenham uma gama limitada de atividades para as audiências turísticas. MacCannell argumentava, ainda, que, para os turistas tomarem contacto com uma cultura estrangeira autêntica, os mesmos necessitam de sair das ruas principais, dos centros comerciais e das atrações turísticas, onde apenas vigora a autenticidade encenada. Porém, MacCannell advertiu, também, para a possibilidade de serem estabelecidas falsas regiões de bastidores com o propósito de iludir os turistas e de estas poderem, até, ser mais inautênticas do que as regiões de fachada encenadas220. FORTUNA refere-se a esta situação nos seguintes termos: «a artificialização dos ambientes e os arranjos (turísticos e promocionais) dos lugares impedem o turista de definir com clareza a fronteira entre as regiões de bastidores (autênticas e vernaculares) e as regiões de fachada (encenadas e artificiais) dos ambientes sociais ou naturais que visita221.»

Por sua parte, HUGHES222 faz referência ao facto de MacCannell se ter confrontado, aquando do seu estudo das regiões de bastidores e da demanda de autenticidade dos turistas, com a ansiedade demonstrada pelos residentes a respeito da possibilidade de estranhos conhecerem os segredos desta resguardada “região de traseiras”. De facto, convencionalmente, advogava-se que, no que toca à assimilação dos lugares no turismo, a autenticidade compreendia algum grau de participação no modo de vida da comunidade anfitriã e que essas experiências eram necessárias para compreender a identidade local e o espírito do lugar. Ao

219 Idem, p. 135.

220 REISINGER, Yvette; STEINER, Carol J., Op. Cit., p. 67-68. 221 FORTUNA, Carlos, Op. Cit., p. 62.

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procurarem as regiões de bastidores, os turistas visavam conhecer o pequeno lugar que os locais frequentavam ao virar da esquina do quarteirão principal. Ou seja, os turistas que demandavam autenticidade procuravam experienciar os artefactos (roupas, ferramentas, local de trabalho e lar) e mentefactos (arte, dança, religião e estórias) das comunidades da região de bastidores validadas pelo parentesco e preservadas pelo isolamento territorial223.

Por conseguinte, na MEH, a região de fachada é o ponto de encontro de anfitriões e hóspedes e a região de bastidores é o lugar onde os membros da família anfitriã e o pessoal se retiram entre desempenhos para relaxarem e para se prepararem. MACCANNELL apresenta vários exemplos de regiões de bastidores: cozinhas, casas de banho de executivos, a sala ou departamento de uma empresa onde o verdadeiro trabalho passa despercebido. Exemplos de regiões de fachada são escritórios de receção, salas-de-estar e similares. Ainda que haja certas configurações arquitetónicas que são suscetíveis de serem utilizadas para apoiar esta divisão224, esta é de pendor eminentemente social, escorada no tipo de desempenho social que é posto em prática num lugar e nos papéis sociais que aí se acham225.

Uma região de bastidores – encerrada ao público e a intrusos – permite o encobrimento de apetrechos e de atividades que podem descredibilizar o desempenho da fachada. Ou seja, dar a ideia de realidade social exige algum tipo de mistificação. MacCannell adverte para o facto de a realidade social que é alicerçada no logro poder vir a revelar-se “falsa”. No turismo, sucede, amiúde, que a ilusão visa criar um sentido de realidade “real”. Quando há uma diferenciação entre regiões de fachada e de traseiras, a verdade já não pode falar por si própria, tem de ser anunciada e revelada. A mistificação pode, portanto, ser o resultado do afã individual de manipular a exterioridade social. Todavia, o facto de existir uma região de bastidores cria a ideia de que existem mais coisas do que aquelas que se podem ver. Mesmo quando as regiões de traseiras não velam quaisquer segredos, estes são lugares onde, comummente, se julga que eles estão. GOFFMAN torna evidente esta polaridade social:

Uma vez que os segredos decisivos de uma exibição são visíveis dos bastidores, e uma vez que os atores se comportam independentemente das personagens que representam quando aí se encontram, é natural que a passagem da região de fachada

223 WAITT, Gordon, Op. Cit., p. 847.

224 A nossa teoria tornou explícito este procedimento. Como veremos, alguns anfitriões servem-se deste expediente para

segregarem o hóspede relativamente às regiões de bastidores, criando circuitos próprios para eles.

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para a região de traseiras seja vedada aos membros da audiência, ou que o conjunto dos bastidores lhe seja escondido226.

Nas sociedades ocidentais, por todo o lado, tende a evidenciar-se uma linguagem informal ou de bastidores e uma outra linguagem comportamental, típica de períodos em que é representado um determinado desempenho. Usualmente, portanto, o comportamento dos bastidores distingue-se por consentir pequenos gestos que, facilmente, seriam considerados como atos simbólicos de intimidade e falta de respeito pelos demais presentes, enquanto a conduta da região de fachada se opõe a esses gestos ou atos potencialmente ofensivos227.

Na nossa investigação, apurámos que algumas casas informalizam mais do que outras. Na fase da improvisação, esta propensão é mais clara, consubstanciando-se numa maior permeabilidade da família anfitriã à audiência. Aqui, existe a tendência para transformar os bastidores em toda e qualquer região da casa. É claro que uma total porosidade de espaços não é possível em nenhuma casa, por razões que GOFFMAN torna manifestas:

Quando está na cama, a dormir, o indivíduo encontra-se igualmente imobilizado, expressivamente falando, e poderá, durante alguns minutos após o despertar, não estar em condições de participar numa interação ou de assumir com o rosto uma expressão de sociabilidade adequada – o que até certo ponto explica a tendência no sentido de o quarto de cama ser montado longe da parte mais ativa da casa. A utilidade desta distância revela-se maior quando pensamos que é nos quartos de cama que se presume ter lugar a atividade sexual; esta última é a forma de interação que torna os atores incapazes de assumirem de um momento para o outro os seus papéis no quadro de uma interação diferente228.

Igualmente, a nossa teoria salientou que, na fase de profissionalização da MEH, a formalização começa a adquirir cada vez mais relevo. Haverá, portanto, uma tendência para se erigir uma região de fachada mais vincada e sobrevirá uma menor fluidez entre as duas regiões do que aquela que sucedia na primeira fase. Por outro lado, o pessoal que é socialmente menos idóneo (e.g. não sabe falar inglês) passa a estar confinado à região de traseiras. Com efeito, a pessoalização – que é mais intensa se o hóspede é frequente e se fica instalado muito tempo na

226 GOFFMAN, Erving, Op. Cit., p. 138. 227 Idem, p. 154.

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casa – permite que o hóspede de sinta um membro da família anfitriã, ou seja, que partilhe as regiões de bastidores com a família anfitriã. Autoriza-se, assim, que os hóspedes sensíveis à MEH vislumbrem mais além dos meros desempenhos profissionais da família anfitriã, compreendendo e aceitando a mesma tal qual ela é.

MacCannell amplia a dicotomia de Goffman entre regiões de fachada e de bastidores, apresentando seis regiões que, segundo o primeiro autor, são teoricamente discerníveis:

I. Fase Um: a primeira região enunciada por Goffman – aquela em que os turistas,

supostamente, querem penetrar e superar;

II. Fase Dois: aqui, MacCannell sustenta a existência de uma região de fachada turística

que foi decorada para se parecer superficialmente uma região de traseiras;

III. Fase Três: uma região de fachada totalmente organizada para representar uma região

de traseiras/bastidores;

IV. Fase Quatro: ambientes abertos a estranhos, mas que devem ser, fundamentalmente,

considerados regiões de bastidores;

V. Fase Cinco: ambientes de acesso mais limitado a estranhos;

VI. Fase Seis: a região de bastidores de Goffman.

As experiências disponíveis nas fases dois e três são designadas de “autenticidade encenada” por MacCannell. Portanto, num contexto turístico, as pessoas da região de fachada são aquelas que estão conscientes de estarem a criar uma exibição em benefício do turismo, enquanto os indivíduos da região de bastidores são aqueles que estão ausentes dos holofotes da atividade turística. Estas pessoas da região de traseiras podem ser, quer aquelas que apoiam as pessoas da fachada e que fazem com que o desempenho nessa região funcione (e.g. mulher de limpeza, mecânico, equipa de catering, jardineiros, etc.), quer pessoas que levam a efeito papéis que não estão associados ao turismo (e.g. trabalhadores, profissionais; camponeses)229.

O controlo praticado sobre a região de fachada é um modo de segregação da audiência. A impossibilidade de manter esse controlo deixa o ator na situação de desconhecer que personagem deverá encarnar a cada momento, tornando árduo alcançar o êxito dramático em qualquer dos seus papéis. Quando a segregação da audiência é mal sucedida e um estranho tem

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acesso a um desempenho que não foi produzido para ele, geram-se problemas difíceis no que toca à gestão das impressões230.

O nosso estudo contribui positivamente para corroborar esta teoria e expandi-la em alguns domínios. Duas propriedades da MEH, que designámos de “segregando” e “aproximando” trazem uma confirmação empírica à teorização de Goffman e MacCannell. Verificámos que a requalificação dos anexos permite segregar hóspedes insensíveis à MEH. Na fase de profissionalização da MEH, há uma tendência maior para uma separação física dos aposentos dos hóspedes, de modo a assegurar a intimidade da família anfitriã. Hospedar nos anexos permite exercer um maior controlo sobre os hóspedes. A auscultação que é feita ao hóspede ditará se este será objeto de segregação ou de acercamento espaciais.

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CAPÍTULO II

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