Através de sua arqueologia do saber, Foucault (1999) identifica no processo de constituição da psicologia como ciência as regras de formação dos objetos que constituíram seu domínio, de modo que o que marca sua diferença das demais ciências humanas é sua maior relação de dependência com a biologia. Na estreiteza dessa relação, passa a caber à psicologia, portanto, alçar seus domínios sobre a dimensão funcional e normativa dos processos mentais pelos quais o homem experimenta o mundo.
Se podemos arriscar uma delimitação para o domínio para a psicologia, diríamos que ela trata do estudo do homem em termos de função e norma (FOUCAULT, 2009). As funções tratam daqueles processos mentais que nos colocam em interação com o mundo: sensação, memória, percepção, atenção, emoção, linguagem etc., os chamados processos básicos da psicologia. Com relação às normas, Foucault se refere às regras naturais do organismo às quais são atribuídas funções. Segundo ele, na psicologia funções e normas podem, de maneira secundária, interpretar a partir dos conflitos e das significações, das regras e dos sistemas, sendo essas últimas categorias os modelos fundadores de outras disciplinas, como a sociologia e a linguística. Contudo, Foucault assinala que é a escolha do modelo fundamental e a oposição dos modelos secundários que permitem saber quando se “psicologiza”, o mesmo valendo para as demais ciências humanas.
Podemos identificar nas diversas correntes psicológicas a dependência à dimensão natural do ser humano, de modo que ainda nas correntes mais críticas, isto é, naquelas
que reivindicam o estatuto histórico e cultural do homem, vê-se criticar apenas a centralidade do natural. Entretanto, se há um consenso na psicologia é que a tensão entre o inato e o adquirido jamais foi superada. Assim sendo, é nas gradações dessa polaridade onde se situam as mais diversas correntes do pensamento psicológico.
Segundo Foucault (2010), a psicologia tentou alinhar-se às ciências da natureza, buscando no homem o prolongamento das leis que regem os fenômenos naturais. Para tanto utilizou-se de “determinação de relações quantitativas, elaboração de leis que se apresentam com funções matemáticas, colocação de hipóteses explicativas” (ibid, p.133). Portanto, para se manter como conhecimento positivo, a psicologia precisou considerar que a verdade do homem estava exaurida em seu ser natural e que, em consequência, todo conhecimento científico deste homem devia passar pela determinação de relações quantitativas, construção de hipóteses e verificação experimental. Entretanto, tendo fracassado em demonstrar rigor e exatidão nos processos psicológicos do homem, a psicologia foi levada a renunciar, mas não completamente, ao postulado que considerava aquele em sua condição estritamente natural. Contudo, uma vez que renunciassem a essa condição natural do homem, a psicologia não mais precisava justificar a necessidade de uma precisão objetiva e quase matemática nos seus domínios. É exatamente nesse intervalo de renúncia à concepção de homem como ser estritamente natural que, segundo Foucault, tem sido possível realizar na psicologia uma total reformulação das regras de constituição de seus domínios. Com respeito à atualidade dessa realidade, Foucault (2010, p.134) assinala de modo a abrir esperanças de novas positividades para a psicologia: “a renovação radical da psicologia como ciência do homem não é, portanto, simplesmente um fato histórico do qual podemos situar uma tarefa incompleta a ser preenchida e, a esse título, permanece na ordem do dia”.
Essa renovação da psicologia advém da contradição que a disciplina, tendo mantido sua pluralidade como positividade e não como característica negativa, encontrou-se com sua prática, ao tentar responder aos problemas concretos do homem, com suas concepções reducionistas naturalistas. Dessa forma, segundo Foucault, a renovação da psicologia em cem anos de existência (1850-1950) deveria poder dedicar-se à instauração de novas relações com a prática. Entretanto, ao se deparar com os problemas da prática, a psicologia reatualiza os próprios domínios, fechando-se, para lidar com a realidade dos problemas sem perder sua especificidade.
Na tentativa de concluir que a explicação naturalista do homem é insuficiente para explicá-lo fora do laboratório e inserido em seus reais contextos, a psicologia estende sua compreensão do homem a suas condições históricas de existência. Assim uma nova psicologia se forma sempre que é preciso entender o homem em um contexto particular. Nesse movimento é que se pode identificar o processo da multiplicação disciplinar da psicologia.
Segundo Japiassu, do ponto de vista teórico, as pesquisas interdisciplinares se defrontam com duas preocupações fundamentais: uma trata da possibilidade de uma estrutura ou de mecanismos comuns às diferentes disciplinas que são convocadas a um trabalho de colaboração interdisciplinar; outra preocupação trata dos possíveis métodos comuns a serem instaurados para as disciplinas cooperantes. Ele, entretanto, se propõe a tratar apenas das cooperações interdisciplinares, em seus desafios e suas possibilidades. Acaba por apresenta esboços de uma metodologia, que segundo ele “se não propriamente interdisciplinar, pelo menos pluridisciplinar” (ibid, p.44). Por outro lado, compreendemos que Foucault, assim como Piaget, aborda a questão das estruturas epistemológicas e dos mecanismos comuns que colocam as disciplinas das ciências humanas num processo colaborativo. Este último, tratando intencionalmente de uma possibilidade da interdisciplinaridade apresenta o “estruturalismo genético e construtivista” como uma possibilidade de uma estrutura e de um mecanismo comum às ciências humanas.
O construtivismo asseguraria uma abordagem da centralidade da atuação como definidora dos mecanismos comuns. Foucault, a nosso ver, reconstitui historicamente as raízes dessas estruturas ou mecanismos comuns às diversas ciências humanas, por meio de sua análise arqueológica, reconstituindo a posição que essas ocupam com relação aos ditames de positividade da episteme moderna. Foucault (1999) considera que é exatamente essa condição de interpositividade das ciências humanas que responde pelas suas possibilidades infinitas de intercruzamentos e de multiplicação de seus domínios. Tendo nesse ponto esclarecido os termos de Foucault utilizados por Japiassu, vejamos como podemos agora nos posicionar diante de sua questão inicialmente formulada. Ao se opor à fragmentação crescente do campo unitário epistemológico da época clássica, não viria a interdisciplinaridade reinstaurar uma nova “era da representação”, já superada pela era da positividade?
5. A MULTIPLICIDADE DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA VERSUS SUA