De modo a concretizar o Objetivo 2.b, consideramos relevante uma revisão sistemática dos mecanismos de proteção perante a homofobia em jovens LGB, sintetização a partir dos resultados de 13 estudos publicados. O procedimento de localização de estudos, assim como os resultados da análise dos mesmos, encontra-se
descrito no artigo apresentado no Anexo: Manuscrito 2.
De forma global, os resultados desta revisão sugerem que os mecanismos de risco que os jovens LGB experienciam são diversos e afetam os jovens em diversas dimensões, nomeadamente a sintomatologia depressiva e ansiosa, a autoestima, o consumo de substâncias e a ideação suicida. No âmbito deste estudo de revisão, alguns processos destacaram-se pela sua função protetora perante o risco ou pela sua função promotora do ajustamento psicológico. A nível individual, a perceção de mestria assume-se como um mecanismo promotor da autoestima e de menores níveis de depressão em jovens LGB. O exercício físico revelou ser protetor dos efeitos do heterossexismo na sintomatologia depressiva e ansiosa. Os resultados revelaram ainda que, enquanto o uso de estratégias de coping consideradas adaptativas não revelaram ser promotoras de um ajustamento positivo, o uso de estratégias de coping mal adaptativas demonstrou ser um mecanismo de vulnerabilidade, aumentando o impacto da homofobia internalizada na ansiedade. O apoio social também não revelou exercer uma função protetora do impacto da discriminação homofóbica na sintomatologia depressiva, ansiosa e de ideação suicida. Já a nível familiar, os resultados convergem para revelar que as relações positivas com os pais são um mecanismo protetor do impacto da homofobia internalizada na depressão, ansiedade e autoestima. A influência dos mecanismos específicos à orientação sexual, como por exemplo a identificação com a comunidade LGBQ ou o número de amigos LGB, não parece ser tão unívoca: os resultados não são convergentes na demonstração da sua função protetora. Em algumas dimensões observou-se um efeito protetor, mas em outras situações, e em relações a outros indicadores de ajustamento, não se observou um efeito significativo. Assim, os processos de grupo, ao contrário do observado nas relações familiares, não demonstraram ser necessariamente protetores do ajustamento psicológico destes jovens.
3.3. Estudo dos perfis de ajustamento perante a violência social
3.3.1. Perfis de ajustamento
As variações do impacto da discriminação em indicadores de bem-estar dos jovens, patente nas revisões anteriores, tornaram mais saliente a importância do estudo dos processos de resiliência que levou a realização do primeiro estudo quantitativo. Para a resposta a esta questão de investigação remetemos o leitor para o Anexo: Manuscrito 4. Nesse anexo poderão ser consultados todos os objetivos específicos, procedimentos e
resultados do estudo. De seguida apresenta-se somente um sumário da investigação realizada.
Este estudo teve por base a abordagem centrada na pessoa (Coimbra, 2008; Fergus & Zimmerman, 2005; Masten, 2001) e teve como principal objetivo identificar os diferentes perfis de ajustamento perante a violência social, sendo expectável que um dos perfis manifestasse resiliência. Para avaliar estes perfis foi efetuada uma análise de clusters, na qual foram incluídas as variáveis relativas à violência social (escalas de vitimização por pares e a de perceção de discriminação) e as variáveis relativas ao ajustamento interno (escalas de saúde mental, autoestima, satisfação com a vida) e externo (somatório dos 6 itens de desadaptação social).
Os resultados da análise de clusters demostraram a existência de cinco perfis de ajustamento perante a violência social, tendo sido nomeados de: Não Desafiado, Externamente Desajustado, Internamente Desajustado, Resiliente e Em Risco. As análises de variância (ANOVAs) revelam que estes grupos se distinguem estatisticamente nas dimensões em estudo, para a consulta dos valores dos resultados remete-se o leitor para o Anexo: Estudo 4. O grupo Não Desafiado (n = 918, 31.8%) manifestou não ter vivido situações de violência e apresentou um ajustamento positivo, quer internamente, quer externamente. Os grupos Externamente Desajustado (n = 519, 18%), e Internamente Desajustado (n = 573, 19.8%) revelaram ter sofrido um nível comparativamente baixo de violência, no entanto, manifestaram alguma forma de desajustamento. O grupo Resiliente (n = 491, 17%) demonstrou ter sofrido um nível de violência superior à média e manifestou um ajustamento satisfatório, quer internamente, quer externamente. Os participantes Em Risco (n = 389, 13.5%) foram os que sofreram maiores níveis de violência e demonstram, comparativamente, baixos níveis de ajustamento interno e externo. Uma representação esquemática do posicionamento dos cinco perfis resultantes da interação entre risco e ajustamento pode ser consultada na Figura 2.
Figura 2. Representação gráfica dos perfis de ajustamento perante a violência social
No que concerne aos participantes de grupos minoritários, foram analisadas possíveis associações entre o perfil de ajustamento manifestado e a identificação étnica/racial e a orientação sexual, com recurso ao teste estatístico de qui-quadrado. Os resultados revelaram uma proporção significativamente mais elevada de jovens que se identificaram como negros no grupo Externamente Desajustado. Observando-se o inverso no grupo Não Desafiado, onde há uma maior percentagem de jovens brancos. Este resultado sugere que os jovens negros têm maior probabilidade de sofrer maiores níveis de violência social, comparativamente com os participantes brancos, e de manifestar desajustamento a nível externo, mas não a nível interno.
A análise de qui-quadrado, tendo em consideração a orientação sexual e o perfil de ajustamento manifestados, revelou uma associação significativa entre estas dimensões. Observou-se uma percentagem superior de jovens LGB no perfil Em Risco, enquanto os jovens heterossexuais estavam mais frequentemente no perfil Não Desafiado. Estes resultados sugerem que os jovens LGB têm maior probabilidade de serem muito frequentemente vítimas de bullying e de discriminação e, adicionalmente, têm maior probabilidade de não manifestarem um ajustamento social e psicológico positivo.
3.3.2. Mecanismos de proteção nos diferentes perfis de ajustamento
De modo a explorar diferenças nos níveis dos mecanismos de proteção entre os
AJ UST A M E NT O AL T O B AI XO Baixa, Rara Ocasional,
1 a várias vezes /ano Várias vezes/ano Frequente Elevada
VIOLÊNCIA SOCIAL Não Desafiado (n=918, 31.8%) (n=929, 32%) Resiliente (n=491, 17%) Externamente Des. (n=519, 18%) Internamente Des. (n=573, 19.8%) Em Risco (n=389, 13.5%) Não Desafiado (n=918, 31.8%) (n=929, 32%) Externamente Des. (n=519, 18%) Resiliente (n=491, 17%) Internamente Des. (n=573, 19.8%) Em Risco (n=389, 13.5%)
diferentes perfis de ajustamento perante a violência social, foram conduzidas múltiplas análises de variância (ANOVAs e MANOVAs), com recurso ao teste post-hoc Games- Howell, dado que em muitas variáveis não se verificou a homogeneidade da variância entre os grupos. Os resultados relativos às análises com os mecanismos de proteção individuais e familiares encontram-se apresentados na Tabela 6 e Tabela 7, respetivamente.
Diversas diferenças são observadas entre os cinco perfis, nesses mecanismos de proteção. De forma global, os resultados demonstram, de modo constante, que o grupo Não Desafiado apresenta os níveis mais favoráveis de mecanismos de proteção, quer a nível individual, quer a nível familiar, enquanto o perfil Em Risco manifesta os piores valores nestes mecanismos. Com o propósito de melhor compreender quais os mecanismos que poderão favorecer a resiliência perante a violência social, iremos focar a atenção apenas nas análises que comparam os perfis que sofreram algum tipo de violência: o Resiliente e Em Risco, que sofreram violência com considerável frequência, mas também o grupo Externamente Desajustado e o Internamente Desajustado que, tendo sofrido vitimização de forma mais ocasional, também manifestam alguma forma de má-adaptação.
No que concerne às dimensões de personalidade, a nossa Hipótese 1.a, foi parcialmente confirmada. Confirmou-se a expectativa que os participantes do grupo Resiliente manifestassem menores níveis de personalidade ansiosa que os outros grupos que também sofreram algum nível de violência social, o que se manifestou relativamente nos grupos Internamente Desajustado e Em Risco. Por outro lado, não se observaram diferenças sistematicamente significativas no nível de competências empáticas. Neste caso, o grupo Resiliente apenas manifesta um nível de Tomada de Perspetiva superior ao grupo Externamente Desajustado, não se distinguindo do Internamente Desajustado e do Em Risco.
Os resultados relativos à frequência de uso de diferentes estratégias do coping confirmam a nossa Hipótese 1.b, na qual se esperava que o perfil Resiliente fizesse maior uso de estratégias adaptativas e um menor uso de estratégias de evitamento ou culpabilização, comparativamente aos outros grupos que sofrem algum nível de violência. Deste modo, observou-se que o perfil Resiliente manifesta: mais uso de estratégias de coping ativo e reinterpretação positiva do que os outros três perfis que sofreram violência; maior expressão de sentimentos e uso de humor que os perfis
Internamente Desajustado e Em Risco. O perfil Resiliente manifesta ainda menor desinvestimento comportamental que os outros três perfis que sofreram violência: menor negação e uso de substâncias que o perfil Em Risco, menor autoculpabilização que os perfis Internamente Desajustado e Em Risco; e também menor consumo de substâncias que estes perfis. É de sublinhar que a frequência no uso das estratégias de coping adaptativo do grupo Resiliente é similar à do grupo Não Desafiado, sendo que no caso da expressão de sentimentos é até superior. O mesmo já não se observa em relação à frequência do uso de estratégias de coping mal-adaptativo.
No que se refere aos mecanismos de proteção relacionais, sobretudo do sistema familiar, os resultados confirmam a nossa hipótese 1.c. Na grande maioria das dimensões estudadas - otimismo familiar, satisfação, conflito, intimidade e valorização nos relacionamentos com a mãe e o pai - o perfil Resiliente manifesta resultados mais favoráveis que o perfil Em Risco. Adicionalmente, os valores do grupo Resiliente nas variáveis otimismo familiar, satisfação na relação com a mãe e com o pai, são também superiores aos do grupo Internamente Desajustado.
De forma global, a análise dos tamanhos de efeito, relativos à magnitude das diferenças observadas entre os cinco grupos, sugere que os mecanismos de proteção a nível individual que mais distinguem os grupos são, por ordem de relevância: a autoculpabilização (explicando 18.6% da variância entre grupos), o desinvestimento comportamental (13 %), a personalidade ansiosa (12.4%), o consumo de substâncias (6.8%), a negação (6%), a reinterpretação positiva (5.4%) e o coping ativo (3.7%).
Os mecanismos de proteção a nível familiar que diferenciam mais os grupos são: o otimismo familiar (12.4%), a satisfação na relação com a mãe (11.4%), a perceção de valorização por parte da mãe (11.1%) e do pai (10.9%), a satisfação na relação com o pai (8.4%) o conflito na relação com a mãe (6%), a intimidade na relação com o pai (4.3%) e o conflito com este (3.9%).
Tabela 6. Mecanismos de proteção individuais nos perfis de ajustamento
Não Desafiado Externamente Des. Internamente Des. Resiliente Em Risco ANOVAs F
M (DP) M (DP) M (DP) M (DP) M (DP)
Personalidade Ansiosa 3.21 (0.57) A 3.22 (0.58) A 3.68 (0.55) C 3.36 (0.58) B 3.72 (0.61) C F (4, 2900) = 102.852***, η2 = .124
Empatia: Pillai’s trace = 0.025, F (8, 5788) = 9.166, p < .001, ηp2 = .013, = 1.000
Tomada de Perspetiva 3.64 (0.61) A 3.42 (0.71) C 3.53 (0.61) B, C 3.51 (0.63) B, C 3.46 (0.64) B, C F (4, 2894) = 12.039***, η
p2 = .016
Preocupação Empática 3.82 (0.60) A 3.69 (0.69) B 3.87 (0.59) A 3.80 (0.60) A, B 3.85 (0.69) A F (4, 2894) = 6.622***, η
p2 = .009
Coping: Pillai’s trace = .363, F (40, 11524) = 28.765, p < .001, ηp2 = .091, = 1.000
Coping Ativo 3.41 (0.89) A 3.26 (0.89) B 3.12 (0.79) B 3.47 (0.76) A 3.02 (0.79) C F (4, 2887) = 27.489***, η p2 = .037 Suporte 2.82 (1.06) 2.72 (1.05) 2.80 (0.98) 2.86 (1.04) 2.79 (1.11) F (4, 2887) = 1.380, ηp2 = .002 Reinterpretação Positiva 3.22 (1.06) A 2.98 (1.05) B 2.73 (0.99) C 3.12 (1.00) A, B 2.54 (1.03) D F (4, 2887) = 41.104***, η p2 = .054 Expr. Sentimentos 2.60 (1.06) C 2.67 (1.10) B, C 2.53 (1.03) C 2.81 (1.01) A, B 2.57 (1.11) C F (4, 2887) = 5.401***, η p2 = .007 Humor 2.70 (1.10) A 2.76 (1.17) A 2.32 (1.05) B 2.70 (1.08) A 2.30 (1.10) B F (4, 2887) = 21.890***, η p2 = .029 Religiosidade 1.87 (1.08) 1.72 (1.00) 1.80 (1.07) 1.89 (1.14) 1.88 (1.14) F (4, 2887) = 2.022, ηp2 = .003 Desinvestimento comport. 1.35 (0.63) A 1.77 (0.84) C 1.93 (0.83) D 1.62 (0.75) B 2.26 (1.02) E F (4, 2887) = 107.847***, ηp2 = .130 Negação 1.86 (0.89) A 2.16 (0.98) B 2.27 (0.92) B 2.23 (0.90) B 2.58 (1.06) C F (4, 2887) = 45.915***, ηp2 = .060 Autoculpabilização 2.02 (0.85) A 2.42 (1.00) B 2.98 (1.00) C 2.51 (0.95) B 3.33 (1.11) D F (4, 2887) = 164.536***, η p2 = .186 Consumo de Substâncias 1.08 (0.39) A 1.43 (0.87) C 1.12 (0.46) A, B 1.20 (0.62) B 1.55 (0.96) C F (4, 2887) = 52.386***, η p2 = .068
Nota: Médias estatisticamente significativas (p <.05) são assinaladas com diferentes letras. Para facilitar a compreensão dos resultados, a letra A designa sempre o valor mais favorável ao ajustamento positivo, de acordo as hipóteses previamente estabelecidas.
Tabela 7. Mecanismos ao nível familiar nos cinco perfis de ajustamento
Não Desafiado Externamente Des. Internamente Des. Resiliente Em Risco ANOVAs F
M (DP) M (DP) M (DP) M (DP) M (DP)
Otimismo Fam. 4.00 (0.60) A 3.65 (0.67) B 3.53 (0.65) C 3.75 (0.66) B 3.26 (0.76) D F (4, 2881) = 101.549***, η2 = .124
Satisfação nas relações: Pillai’s trace = 0.154, F (12, 7701) = 34.807, p < .001, ηp2 = .051, = 1.000
Mãe 4.54 (0.63) A 4.19 (0.87) B, C 4.03 (0.95) C 4.23 (0.80) B 3.60 (1.12) D F (4, 2567) = 82.700***, η
p2 = .114
Pai 4.29 (0.92) A 3.84 (1.10) B, C 3.67 (1.12) C 3.97 (0.99) B 3.36 (1.19) D F (4, 2567) = 58.705***, η
p2 = .084
Conflito nas relações: Pillai’s trace = 0.077, F (12, 7656) = 16.864, p < .001, ηp2 = .026, = 1.000
Mãe 2.48 (0.82) A 2.83 (0.85) B 2.81 (0.88) B 2.78 (0.87) B 3.16 (0.90) C F (4, 2552) = 40.870***, η
p2 = .060
Pai 2.34 (0.85) A 2.67 (0.90) B, C 2.65 (0.92) B 2.64 (0.91) B 2.86 (1.00) C F (4, 2552) = 25.591***, η
p2 = .039
Intimidade nas relações: Pillai’s trace = 0.055, F (12, 7662) = 12.006, p < .001, ηp2 = .018, = 1.000
Mãe 3.22 (1.21) A 2.84 (1.19) B, C 2.85 (1.22) B 2.93 (1.16) B 2.60 (1.24) C F (4, 2554) = 19.012***, ηp2 = .029
Pai 2.65 (1.14) A 2.34 (1.12) B 2.16 (1.07) B, C 2.33 (1.04) B 1.98 (1.08) C F (4, 2554) = 28.873***, η
p2 = .043
Valorização nas relações: Pillai’s trace = 0.151, F (12, 7698) = 33.986, p < .001, ηp2 = .050, = 1.000
Mãe 4.37 (0.64) A 3.92 (0.89) B 3.92 (0.89) B 3.96 (0.86) B 3.45 (1.05) C F (4, 2566) = 80.166***, η
p2 = .111
Pai 4.22 (0.81) A 3.71 (1.02) B 3.62 (1.02) B 3.79 (0.95) B 3.21 (1.11) C F (4, 2566) = 78.284***, η
p2 = .109
Nota: Médias estatisticamente significativas (p <.05) são assinaladas com diferentes letras. Para facilitar a compreensão dos resultados, a letra A designa sempre o valor mais favorável ao ajustamento positivo, de acordo as hipóteses previamente estabelecidas.
Os resultados apresentados reforçam a importância do estudo da resiliência perante a violência social. Contudo, a repartição não uniforme dos jovens de grupos minoritários nos diversos clusters, não nos permite saber quais os determinantes do ajustamento psicossocial dos jovens que são alvo do preconceito racista e homofóbico. Deste modo, de seguida, apresentaremos os resultados dos estudos conduzidos com vista a esclarecer os preditores do ajustamento dos jovens dos grupos minoritários e maioritários.
3.4.Estudo do ajustamento em função da pertença a grupos minoritários