As análises dos mecanismos familiares juntos dos jovens dos cinco perfis de adaptação à violência social revelam que o que mais os diferencia é, por ordem de tamanho de efeito, o otimismo familiar, a satisfação com a relação com a mãe, a perceção de valorização por parte das figuras parentais, a satisfação na relação com o pai e o conflito na relação com a mãe. Apenas menos de 5% da variância do conflito com a figura parental masculina e dos níveis de intimidade com ambas as figuras parentais é associada aos perfis de ajustamento à violência social. O perfil Resiliente, na maioria das dimensões, não se diferencia dos perfis Externamente e Internamente Desajustados que sofreram menores níveis de violência, ao contrário do que foi observado nos mecanismos individuais. Pelo que a qualidade das relações familiares no perfil Resiliente, ainda que não atinja os valores mais altos, também não manifesta os mais baixos. Observa-se ainda que o perfil Em Risco apresenta os níveis significativamente mais baixos em todas as dimensões avaliadas, o que sugere que o
desajustamento manifestado por estes jovens poderá também dever-se à ausência de proteção experienciada no seio da família (Bowes et al., 2010), para além da violência social sofrida. A hipótese da qualidade das relações familiares oferecer proteção perante a violência social não encontra muito suporte nos resultados obtidos (visto que o grupo Resiliente não demonstra os valores mais elevados), porém, é possível que a influência das relações parentais no ajustamento seja mediada pelos mecanismos individuais (Laursen & Collins, 2009), nomeadamente as características da personalidade e as estratégias de coping mais utilizadas, ou ainda por outras dimensões não avaliadas no estudo. Também não foi avaliada a influência moderadora das relações familiares no impacto da violência social, nem a perceção retrospetiva longitudinal da qualidade das relações e apoio familiares. Esta análise é importante visto que as relações familiares podem desempenhar uma função mais determinante em jovens que foram vítimas de bullying do que os que não o foram (Bowes et al., 2010). Isso foi realizado apenas no estudo com a amostra de jovens LGB (ver Anexo: Manuscrito 5), observando-se que o conflito com ambas as figuras parentais exacerbava os efeitos nocivos da discriminação. Deste modo, à semelhança do que foi observado nos jovens LGB, é possível que o grupo Em Risco apresente um desajustamento elevado porque as suas relações familiares, por serem pouco satisfatórias e com elevado conflito, poderão funcionar como um mecanismo (adicional) de vulnerabilidade, por exemplo, podendo aumentar a sua reatividade aos stresses interpessoais (Luthar et al., 2000), agravando o impacto negativo da violência social sofrida. Adicionalmente, dada a natureza correlacional do estudo, não nos é possível excluir a possibilidade desta violência vivida estar também associada a piores relações parentais. Nomeadamente, os jovens poderão manifestar um efeito de spillover emocional, pelo qual há um aumento da reatividade aos stresses interpessoais (ativado pela violência social sofrida) que poderá debilitar as relações do contexto familiar (Riina & McHale, 2012).
As análises diferenciais em função da pertença ao grupo minoritário revelam que os jovens negros reportam ter relações familiares de menor qualidade, comparativamente aos jovens brancos. Mais precisamente, estes apresentam menor satisfação com as relações com os progenitores do sexo masculino, menor intimidade e perceção de valorização na relação com ambos os progenitores. Não obstante, foi ainda observada uma tendência para que os jovens negros percecionem as suas famílias como
mais otimistas. Um estudo português com adolescentes já havia revelado que crianças com um passado imigrante apresentam menor qualidade nas relações com os pais (Gaspar et al., 2010; Matos, Gonçalves, & Gaspar, 2004). A apreciação mais negativa das relações familiares apresentada pelos jovens dos grupos minoritários poderá sugerir um efeito de spillover do stress. No caso da experiência de discriminação racial, alguns estudos revelam que a discriminação sofrida pelas figuras parentais está associada a maior conflito nas relações com os seus filhos (Riina & McHale, 2010), menor satisfação nestas relações e a manifestação de um estilo educativo menos atencioso e cuidadoso (Murry et al., 2001). Também a perceção de discriminação, por parte dos jovens afrodescendentes, está associada a uma avaliação menos positiva das relações filiais por parte das suas figuras parentais (Riina & McHale, 2012). Assim, a discriminação sofrida por qualquer elemento da família (pais ou filhos) parece afetar as suas relações.
Similarmente, foi observado um efeito da orientação sexual nas relações filiais, sendo que os jovens LGB manifestam menor satisfação e mais conflito nas relações com ambas as figuras parentais e percecionam ainda menos valorização por parte da figura parental do sexo masculino. Adicionalmente, observou-se uma tendência para serem menos valorizados por parte da mãe e as suas famílias serem menos otimistas do que as dos jovens heterossexuais. Resultados similares foram observados em outras amostras, que demonstraram a menor qualidade das relações filiais dos jovens LGB, comparativamente aos heterossexuais (e.g., Pearson & Wilkinson, 2013; Ueno, 2005). De forma similar aos jovens negros, a perceção de violência social por parte dos jovens LGB poderá advir do efeito de spillover emocional, pelo qual estes jovens manifestam uma maior reatividade emocional às situações negativas. Contudo, para além desta hipótese, os estudos revelam que as figuras parentais também podem reagir negativamente à revelação da orientação sexual dos seus filhos (D’Augelli et al., 1998; LaSala, 2000) e, mesmo previamente à revelação de uma orientação sexual, os pais podem ter conflitos com os seus filhos motivados pela perceção de não conformidade de género nas suas atitudes e comportamentos (D’Augelli, Grossman, & Starks, 2006). Desta forma, vários elementos podem contribuir para a deterioração das relações familiares dos jovens de minorias sexuais.
importância de alguns mecanismos familiares para o ajustamento positivo. Começaremos por analisar o impacto destes no ajustamento interno, para depois abordarmos o ajustamento externo. O otimismo familiar revela-se um fator promotor da saúde mental, autoestima e satisfação com a vida de jovens brancos, heterossexuais e/ou negros. Deste modo, o otimismo familiar revela ser um forte promotor do ajustamento interno em situações de adversidade, à semelhança do que tem sido reportado noutros estudos para o otimismo individual (e.g., Herman-Stahl & Petersen, 1996). Beneficiar de um clima familiar mais otimista poderá potenciar o desenvolvimento de estratégias de coping mais flexíveis, em função dos eventos stressantes, em prol de uma melhor adaptação. Noutros estudos foi observado que, quando o stress é incontrolável, o otimismo associa-se ao uso de estratégias focadas no processamento das emoções. Já quando o elemento stressante é controlável, o otimismo está mais fortemente associado ao uso de estratégias focadas no problema (Carver & Connor-Smith, 2010; Carver & Scheier, 2002). A flexibilidade é também uma característica das famílias resilientes, que se vão adaptando com sucesso a situações de crise (Walsh, 2002, 2003). Os jovens do presente estudo, que manifestam melhor ajustamento poderão, assim, ter beneficiado de modelos que lhes transmitem esperança no futuro e, como tal, os incentivam a desenvolver os esforços adequados quando têm que lidar com situações adversas. Este efeito não parece observar-se nos jovens LGB. O otimismo familiar revelou ser preditor da saúde mental nos jovens LGB (ver Anexo: Manuscrito 5 e Tabela 9), porém quando equacionado junto com outras dimensões, esta variável deixou de ser significativa (ver o modelo final na Tabela 13), pelo que outros mecanismos, nomeadamente os de violência social e individuais, são mais determinantes, não só na saúde mental, mas também na autoestima e na satisfação com a vida destes jovens. A orientação sexual modera assim a influência do otimismo familiar, sugerindo que o efeito positivo desta variável no ajustamento interno será mediado por outros fatores.
No que concerne às qualidades positivas das relações com os pais, observou-se que, nos jovens de grupos maioritários, a satisfação na relação com a mãe é promotora da saúde mental e a perceção de valorização pelo pai promove a satisfação com a vida. Adicionalmente, observou-se que sentir-se valorizado pelo progenitor do sexo masculino potencia a perceção positiva de si próprio (autoestima) em todos os jovens, com exceção dos negros. A genderização das interações familiares pode ser uma hipótese explicativa para estas associações diferenciais. Estudos revelam que os
adolescentes passam mais tempo com as mães e, com maior probabilidade, partilham assuntos emocionais com estas (Laursen & Collins, 2009; Smetana et al., 2006), pelo que a satisfação com a relação que estabelecem com esta figura assume também um maior valor preditivo do ajustamento da saúde mental. Já os progenitores do sexo masculino são vistos como sendo figuras mais distantes, de maior autoridade e de definição de valores sociais, estabelecendo também relações de menor proximidade com os filhos (especialmente os do sexo feminino) e mais procuradas para aconselhamento sobre assuntos mais materiais (Laursen & Collins, 2009; Smetana et al., 2006). Neste contexto, alguns estudos parecem sugerir a importância do carinho expresso pelo pai, comparativamente à mãe, como determinante do ajustamento interno e externo dos jovens (Rohner & Britner, 2002). Algumas evidências sugerem que quando as figuras parentais, especialmente as do sexo masculino, não facilitam a expressão dos interesses dos adolescentes, estes apresentam menores níveis de autoestima (Laursen & Collins, 2009). Também no estudo de Herman-Stahl e Petersen (1996) se observou que os adolescentes resilientes, perante diversos acontecimentos de vida negativos, apresentavam relações de maior intimidade com os progenitores do sexo masculino e tinham melhores relacionamentos com a família. Os nossos resultados demonstram também esta associação diferencial do género do progenitor a favorecer o ajustamento positivo, em diferentes dimensões psicológicas. De forma global, os resultados sugerem que ter relações que satisfazem as necessidades dos adolescentes e nas quais eles se sentem valorizados, é promotor de um ajustamento positivo na presença de situações de violência social. Contudo, de forma a averiguar se da satisfação com a mãe e a valorização sentida na relação com o pai exercem uma função protetora perante a violência social (e não apenas promotora do ajustamento positivo), futuros estudos deverão explorar o possível efeito moderador destas qualidades relacionais, nas associações entre a violência social e os diversos indicadores do ajustamento em estudo.
De forma surpreendente, os níveis de intimidade com ambas as figuras parentais (e.g., partilha de assuntos pessoais, o que implica boa comunicação e confiança nas relações) não revelaram ser preditores do ajustamento. O que parece ser determinante é a avaliação global da qualidade da relação, incluindo todas a dimensões consideradas importantes do ponto de vista dos jovens (satisfação). Sendo que, ainda que as relações possam ser de partilha, comunicação e confiança, traduzindo-se numa relação diádica globalmente positiva, isto coloca em questão a hipótese de os jovens não estarem
atentos ao apoio providenciado, por estarem assoberbados pela violência sofrida ou pela inadequação das suas características pessoais. O fato de a intimidade com os pais não ser um mecanismo determinante do ajustamento poderá estar também, muito provavelmente, relacionado com a maior procura de intimidade junto dos pares, atendendo a que estão no período final da adolescência (Furman & Buhrmester, 1992; Lempers & Clark-Lempers, 1992).
No que concerne ao conflito, a única qualidade negativa das relações que foi avaliada (Laursen & Collins, 2009; Smetana et al., 2006), observou-se que, nos jovens de grupos maioritários, este não está associado ao ajustamento interno e externo. Contudo, junto dos jovens negros, o conflito com a mãe é debilitador da satisfação com a vida (enquanto a satisfação com a mãe é promotora de maior satisfação). Também junto dos jovens LGB observou-se que o conflito com ambas figuras parentais predizia piores níveis de saúde mental e intensificava o impacto negativo da discriminação neste indicador de ajustamento interno (ver Anexo: Manuscrito 5). Estes resultados vão de encontro a outros observados anteriormente junto de uma população discriminada, nos quais se demonstrou que os conflitos familiares exacerbavam o efeito da discriminação na ansiedade e solidão (Juang & Alvarez, 2010). Assim, estas constatações indicam que junto de populações que já sofrem estigma social, experienciar conflito no ambiente familiar tem um impacto nocivo que não é amortecido por mecanismos individuais, contribuindo para o efeito cumulativo do stress. No entanto, o ajustamento interno dos jovens de grupos maioritários não sujeitos a estigma (brancos e heterossexuais) não é debilitado pelos conflitos nas relações filiais.
Ainda relativamente à apreciação das relações familiares e ao ajustamento dos jovens, destaca-se a ausência de associações relevantes e constantes entre estas dimensões junto dos jovens LGB. Apenas foi observado que o conflito com a mãe diminui a autoestima, porém, no modelo final, esta dimensão deixou de ser significativa, indicando que a autoestima dos jovens LGB é mais explicada por outros fatores. Assim, ao contrário do observado em outros estudos, nos modelos de regressão estimados no quarto estudo, as qualidades das relações que estes jovens têm com os pais não predisseram, de forma constante e revelante, nem o ajustamento interno, nem o ajustamento externo. Estes dados não significam, contudo, que as relações familiares não sejam importantes. Aliás, no estudo relativo à discriminação, relações familiares e saúde mental (ver Anexo: Manuscrito 5), um estudo com modelos de regressão com
menos variáveis preditores, revelou que o otimismo familiar e a perceção de valorização pelo pai (figura parental do sexo masculino) eram promotores da saúde mental. Contudo, quando todas as dimensões avaliadas são incluídas em modelos de regressão, é notório que a vitimização e os mecanismos individuais têm um impacto mais influente no ajustamento interno e externo dos jovens, do que a qualidade das relações parentais. Sobre este tópico, remetemos o/a leitor/a para o artigo em anexo (Anexo: Manuscrito 5), para uma discussão mais abrangente da influência das relações parentais junto dos jovens LGB.
No que concerne ao ajustamento externo, seria expectável observarem-se associações significativas entre as relações familiares e a competência social e académica (Laursen & Collins, 2009; Masten et al., 1999). Contudo, esta ausência de relações relevantes, poderá dever-se aos comportamentos que foram selecionados para avaliar o (des)ajustamento externo, que representam situações extremas de insucesso escolar e problemas de conduta (e.g. ter problemas com a polícia e o sistema de justiça) combinados num único indicador. Provavelmente, o tipo de práticas familiares que predizem o insucesso escolar são diferentes daqueles a que estão associadas as condutas sociais desajustadas. Adicionalmente, a nossa avaliação incidiu sobre a apreciação global de quatro dimensões das relações familiares e não propriamente nos estilos educativos parentais e práticas educativas específicas que estão associadas ao desajustamento dos adolescentes (e.g., negligência parental) (Laursen & Collins, 2009). Contudo, o ajustamento externo revelou estar associado ao nível de escolaridade parental, algo já discutido anteriormente e que sugere que os jovens de famílias com menores níveis de educação formal apresentam percursos com maior insucesso escolar e comportamentos socialmente considerados como desviantes.