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Se agir prudentemente, no que diz respeito à fruição dos prazeres, é buscar agir conforme a natureza de cada um, agir respeitando os limites e as possibilidades que cada um naturalmente dispõe, a prudência surge então como a chave para compreendermos outro ponto importantíssimo do hedonismo de Epicuro: a relação entre o gozo dos prazeres e o

desejo (epithymía). Na Carta a Meneceu, Epicuro explicita essa relação na medida em que faz

uma espécie de divisão daquilo que deveria ser – e também do que não deveria ser – desejado e, consequentemente, gozado. Nessa divisão consta que há desejos que são naturais (physikós) e desejos que são inúteis (kenós: frívolos, vãos, vazios). Os desejos naturais dividem-se em duas classes: (a) os necessários, em cuja categoria encontram-se também os

114 Quer dizer: o dogmatismo de Epicuro limita-se às questões referentes ao estudo da Natureza (physiologia), na medida em que ele assume (sem colocar em questão) os pressupostos fundamentais da Filosofia de Leucipo e Demócrito: tudo é feito de átomos, os quais existem desde sempre e para sempre. Porém, o mesmo não ocorre no que diz respeito às suas considerações relativas à natureza humana, âmbito no qual se instaura a discussão sobre o prazer.

115 Nas palavras de Maximilian Forschner (2002) acerca desse ponto da doutrina epicurea: “A filosofia é uma atividade que esclarece sobre o que foi erroneamente “adicionado ao pensamento” e assim liberta disto e de suas consequências negativas para a vida” (FORSCHNER, 2002, p. 50).

desejos fundamentais para a felicidade, o bem-estar corporal e a própria vida; (b) os desejos apenas naturais (Epicur. Ep. Men. 127).116 Sobre essa divisão dos desejos, Diógenes Laércio faz o seguinte (e essencial) esclarecimento:

Epicuro considera naturais e necessários os desejos que nos livram do sofrimento, como beber quando temos sede; naturais e não-necessários são os desejos que simplesmente fazem variar o prazer, sem remover o sofrimento, como os alimentos suntuosamente preparados; nem naturais nem necessários são os desejos por coroas e ereção de estátuas em honra da própria pessoa (D.L. X. 149).

Os desejos naturais e necessários são os desejos referentes ao que garante a vida, mais especificamente o desejo por comer e beber. Essa ‘classe’ de desejos possui duas características fundamentais: (a) são os que mais contribuem para a conquista da melhor vida possível; (b) são concebidos como os desejos de mais fácil satisfação. Não é por outro motivo que Epicuro afirma: “[...] tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil”, razão pela qual “pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita” (Epicur. Ep. Men. 130-131). É interessante o fato de Epicuro colocar justamente os desejos de fácil satisfação como os desejos que mais contribuem para a felicidade.117 A razão disso é que tais desejos são frutos de carências naturais e não artificiais (forjadas). Contudo, a atitude de Epicuro não deve ser resumida a um total desprezo por aquilo que de certo modo não contribui diretamente (ou necessariamente) para a conquista da felicidade. A referência aqui é aos desejos tidos como naturais, porém não necessários.

Se, por um lado, Epicuro deixa claro que os desejos naturais e não necessários não contribuem para a conquista da felicidade, por outro, não faz referência alguma à necessidade de se rejeitar totalmente esse tipo de desejo. Na verdade, a dificuldade por trás desses desejos encontra-se em uma espécie de inversão de valores, no sentido de, por exemplo, atribuir apenas às bebidas e comidas requintadas a causa da felicidade. Assim, o problema não se encontra nos desejos em si mesmos, na sua natureza, mas sim no modo pessoal a partir do qual eles são concebidos. Aliás, é tendo em vista o esclarecimento dessa questão que Epicuro afirma:

116 Essa divisão também está presente nas Máximas Principais. Cf.: (Epicur. Sent. XXIX).

117 De fato, a Filosofia de Epicuro era claramente um projeto de vida filosófica voltada para todos (ricos e pobres, homens e mulheres, etc.). Talvez, o maior exemplo disso foi Mis, um escravo que figura entre aqueles que se dedicaram à Filosofia epicurea. Cf.: (D.L. X. 3).

[...] o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito [ἀταραξία], visto que esta é a finalidade da vida feliz [...] (Epicur. Ep. Men. 128).

Não são, portanto, os desejos que devem ser extirpados, mas o modo equivocado com que eles são pensados e gozados.

Segundo relata Diógenes Laércio, o próprio Epicuro fomentava tais desejos e fazia isso abertamente em sua comunidade. O relato aludido é baseado em uma carta de Epicuro endereçada a um de seus discípulos. Nessa carta consta o seguinte pedido: “Manda-me um pequeno pote de queijo, para que eu possa banquetear-me quando tiver vontade” (D.L. X. 11). Ora, o desejo de Epicuro em “banquetear-se” com um pote de queijo quando estivesse com “vontade” (e não ‘necessidade’) evidencia a ideia de que do cultivo dos desejos não

necessários não se segue necessariamente qualquer aspiração aos vícios.118 O que importa é que em relação a esse tipo de desejo haja uma espécie de ‘cálculo’ (um ‘cálculo prudencial’) a partir do qual é possível reconhecer não apenas quais são os desejos não necessários, mas também até que ponto o gozo do prazer advindo desse tipo de desejo irá contribuir ou prejudicar o percurso em prol da vida feliz. João Q. de Moraes aborda ambas as questões partindo do pressuposto de que a satisfação dos desejos naturais e não necessários deve levar em conta o tipo, a ‘natureza’, do objeto desejado (comentário a Epicur. Sent. Vat. 71).

O desejo natural e não necessário tomado como exemplo na análise de João Q. de Moraes é o desejo erótico. Esse tipo de desejo é ‘admitido’ por Epicuro somente mediante algumas ressalvas, tais como: que lei alguma seja violada em nome dessa inclinação; que pessoa alguma (inclusive aquela que irá gozar do prazer advindo) seja prejudicada; e que não haja desperdício do que é necessário. Porém, vale ressaltar, mesmo que todos esses critérios sejam respeitados, Epicuro não deixa de pontuar: “As paixões amorosas, com efeito, nunca fazem bem [...]” (Epicur. Sent. Vat. 51). É preciso chamar a atenção aqui para o fato de que embora não se mostre favorável às inclinações amorosas,119 Epicuro não rejeita a fruição desse prazer. E isso por um motivo bem simples: negar o desejo erótico seria negar a própria natureza humana, visto tratar-se de um desejo natural. Disso surge então o impasse: como

118 Não fazia dele um ‘escravo do prazer’, como afirmou Sêneca. Cf.: (Sen. Vit. Beat. XI).

119 O que, aliás, torna curiosa e explicitamente mentirosa as acusações de que Epicuro era um devasso, um “pregador de obscenidades”, como teria a ele se referido o estoico Epiteto (50 d.C. – 135 d.C.). Cf.: (D.L. X. 6).

regular o desejo erótico, tendo em vista que a fruição desse prazer, ao mesmo tempo em que não pode ser negada, aparentemente acarreta mais malefícios do que benefícios? A proposta defendida por Epicuro é a de que nesses casos a natureza humana deve ser “persuadida” (Epicur. Sent. Vat. 21). João Q. de Moraes interpreta essa persuasão da seguinte forma:

Se o ímpeto passional tornar pesado demais o custo psíquico de renunciar à satisfação desejada, talvez seja melhor não impor a si próprio uma privação que poderá ser mais dolorosa do que os sofrimentos do amor. No entanto, se a tentação à qual nos entregamos nos fizer mais mal do que bem, devemos nos persuadir a combatê-la firmemente (comentário a Epicur. Sent. Vat. 71).

A persuasão serve como um mecanismo cujo intuito é enfraquecer ao máximo os

desejos que prejudicam a conquista da felicidade. Essa persuasão ocorre na medida em que se

‘calcula’ o quão benéfico poderá ser o acolhimento ou a rejeição dos desejos não necessários. Assim, podemos afirmar que a base em que estão fundamentados os argumentos de Epicuro em prol desse modo de viver – no qual os desejos “que simplesmente fazem variar o prazer” (D.L. X. 149) são admitidos – é a mesma base sobre a qual ele fundamentou a sua defesa dos prazeres, a saber: a phrónesis. Isso porque, assim como nas questões relativas ao prazer, sobre essa classe de desejos em questão paira a necessidade da prudência na ação, tendo em vista que é tênue a ‘linha’ que separa o que é necessário para a satisfação de ‘carências reais’ daquilo que são meramente ‘carências artificiais’.120 Dito de outro modo, a prudência surge como o fator determinante no controle dos desejos não necessários já que é através dela que o

desejo por aquilo que apenas faz variar o prazer deixa de ser confundido como a real causa da

felicidade. Nesse sentido, vale mencionar que o mesmo ocorre com os desejos não naturais e

não necessários: fruto de uma carência forjada, esse tipo de desejo é extirpado mediante a

reflexão filosófica daquele que examina sua própria condição humana no intuito de reconhecer a justa medida do que lhe é necessário para uma vida feliz.

120 Por ‘carências reais’ se entende tudo aquilo que garante a vida (por exemplo, a alimentação), ao passo que as ‘carências artificiais’ seriam aquelas como “os desejos por coroas” (D.L. X. 149).