• Aucun résultat trouvé

A oposição epicurea à ideia de que os deuses seriam os responsáveis, tanto pela origem, quanto pela ordenação do Cosmos consiste em uma oposição, não só aos preceitos da religião grega, mas também aos fundamentos da Filosofia estoica. Isso porque, tal como discutido ao longo da primeira parte da presente tese, o Estoicismo propunha a existência de um Deus “demiurgo do universo” (D.L. VII. 147), o qual também era concebido sob os

termos de uma reta razão divina que seria responsável pela ordenação da Natureza. Contra essa pressuposta manifestação de racionalidade ou inteligência divina no surgir do Cosmos ou na ordenação da Natureza, Epicuro apresenta o seu raciocínio atomista, segundo o qual tudo na Natureza pode ser explicado sem a interferência do divino. Sobre esse aspecto da Filosofia epicurea, a Carta a Heródoto nos é fundamental, pois nela Epicuro faz as seguintes afirmações:

Quanto aos fenômenos celestes, não se deve crer que os movimentos, as revoluções, os eclipses, o surgir e o pôr dos astros e fenômenos similares ocorram por obra ou por disposição presente ou futura de algum ser dotado ao mesmo tempo de perfeita beatitude e imortalidade [...] Não se deve também crer que massas de fogo esféricas

possuam beatitude e ao mesmo tempo assumam esses movimentos segundo a sua vontade [...] Cumpre-nos, portanto, admitir que a necessidade e a periodicidade dos

movimentos celestes ocorrem segundo a inter-relação originária desses aglomerados de átomos na gênese do mundo (Epicur. Ep. Hdt. 76-77, grifo nosso).

Da passagem acima citada, temos que, para Epicuro, a ordenação existente na Natureza se deve em razão de um movimento dos elementos originários (os átomos), que, por pura casualidade (týche), culminaram nesse modo de ser do mundo tal qual nós o temos agora. Não há, portanto, uma providência divina a que podemos atribuir a causa do governo da Natureza. Na verdade, todo o esforço empregado por Epicuro nas questões referentes à

physiologia se dá no sentido de retirar do imaginário humano o status de divino atribuído a

tudo o que carece (de certo modo) de alguma explicação para além do mito; para além do senso comum, ou ainda, para além da simples conjectura. Contudo, é preciso deixar claro que a concepção estoica da Natureza (enquanto ordenada por um lógos divino) está longe de ser uma simples crença fomentada por uma (ainda mais simples) conjectura ou opinião carente de profundidade filosófica. Trata-se, isto sim, de um reflexo das contribuições feitas por filósofos como Heráclito e Pitágoras acerca do princípio de movimento e ordenação percebido na Natureza (1.2). A questão é que, para Epicuro, a conquista da felicidade exige a rejeição de qualquer atribuição ao plano do divino que não corresponda à ideia de imperturbabilidade e, consequentemente, de indiferença para com tudo o mais.

Epicuro também se opôs ao pressuposto estoico de acordo com o qual os astros seriam divinos.102 Tal oposição está expressa em sua Carta a Heródoto sob os seguintes termos: “Não se deve também crer que massas de fogo esféricas possuam beatitude e ao mesmo tempo assumam esses movimentos segundo a sua vontade” (Epicur. Ep. Hdt. 77). Ullmann explica a oposição de Epicuro a esse pressuposto estoico da seguinte forma:

[...] se dos movimentos dos astros se cria uma imagem de necessidade, de destino implacável e, se essa necessidade é atribuída à vontade dos deuses, a conclusão é que todos os acontecimentos, no mundo, principalmente os que afetam o homem, são ordenados por decretos das divindades. Não há como fugir ou subtrair-se a eles (ULLMANN, 2010, p. 43).

Daí o motivo pelo qual Epicuro afirma que “a principal perturbação das almas humanas” é a crença de que “esses corpos celestes são bem-aventurados e indestrutíveis, e que ao mesmo tempo têm vontades [...]” (Epicur. Ep. Hdt. 81). Confundidos agora com a lei suprema do Universo, o divino estoico se apresenta a Epicuro de uma forma muito mais terrível do que os deuses olímpicos (o divino da religião tradicional). Isso porque, agora não é mais possível esperar nem mesmo uma barganha a fim de evitar os castigos divinos. Não que Epicuro estivesse de acordo com aquela concepção tradicional que remonta a Homero e Hesíodo. O problema está no fato de que, ao coincidir a vontade divina com a periodicidade do movimento dos astros, ao humano resta apenas o medo de padecer, por exemplo, com as intempéries do tempo (com a seca ou a geada) que assola a sua plantação.

Para Epicuro, o movimento dos astros é explicado a partir da já mencionada “inter- relação originária desses aglomerados de átomos na gênese do mundo” (Epicur. Ep. Hdt. 77). Epicuro não nos oferece maiores detalhes quanto a esse ponto (ao menos não nos textos remanescentes), e isso se deve fundamentalmente por ele não estar interessado em descobrir qual é o princípio desse movimento. É em Lucrécio que encontramos duas hipóteses possíveis acerca da causa do movimento dos astros: (i) ou os astros são arrastados pelo movimento da esfera celeste; (ii) ou o céu é imóvel, enquanto que os astros se movimentam de forma independente (Lucr. Fragmenta Nat. 5. vv. 510-530). Sobre essa última causa, vale mencionar

102 “Que los cuerpos celestes son seres vivos no es opinión de Anaxágoras, Demócrito o Epicuro en el epitome a Heródoto, pero si de Platón en el Timeo y de Aristóteles en el libro segundo Sobre el cielo y de Crisipo en el libro Sobre la providencia y Sobre los dioses” (DAROCA & CONTRERAS, 2006, I, fr. 127; Aquiles. Isagogé. 13).

ainda a conjectura feita pelo tradutor da edição brasileira da De Rerum Natura, Agostinho da Silva (1973), segundo a qual:

[...] a causa deste movimento poderia ser um movimento do éter que procura uma saída, uma corrente de ar vinda do exterior ou um movimento próprio dos astros que iriam buscando o éter de que se alimentam (1973, p. 111, nota 77).

Dada a falta de interesse por parte de Epicuro quanto a esse princípio de movimento, a elaboração de maiores considerações sobre ele resulta em uma tarefa não muito simples. Esse desinteresse de Epicuro em relação às questões específicas acerca dos fenômenos celestes se justifica pelo fato de que, do seu ponto de vista, a apresentação de explicações plausíveis para esses fenômenos já seria suficiente para: (i) retirar dos deuses o estigma de ‘força natural’ responsável, por exemplo, pelas intempéries do tempo; (ii) reestabelecer a tranquilidade no humano sobre o que se passa na Natureza. É, pois, nesse sentido, que temos Epicuro como alguém desinteressado em realizar uma reflexão atomista que seja capaz de solucionar todas as questões referentes aos fenômenos naturais. O que lhe interessava na investigação desses fenômenos era tão somente a evidenciação de que não há interferência alguma da parte dos deuses na ordenação da Natureza. Ao buscar tornar claro o que seria (e o que não seria) coerente atribuir aos deuses, Epicuro surge como o pretendido ‘reformador’ da religião (e do modo religioso) a qual ele se opõe.