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Há, principalmente, por parte dos pensadores latino-americanos, um questionamento da visão instrumental e unilateral dos processos comunicacionais. Eles propõem uma ativação receptora na decodificação de sentidos.

Cabe lembrar que a cultura é tratada pelo grupo na perspectiva dos Estudos Culturais da Escola de Birmingham, que valoriza as manifestações populares e não fica limitada à dimensão da erudição muitas vezes trazida para os debates sobre a cultura. Também guarda clara identificação com os estudos de Comunicação latino-americanos, que resgatam a figura do receptor e inserem a produção de sentidos no contexto histórico no qual se dão as relações midiáticas (BARROS, 2011, p. 8). Barros (2011) prefere pensar a comunicação no contexto sociocultural, descolando o olhar de um midiacentrismo para as mediações socioculturais e as inter-relações entre emissores e receptores, concordando com a posição da escola latino-americana de comunicação.

Martín-Barbero (1997), um dos pesquisadores representantes do estudo da comunicação na América Latina, em Dos meios às mediações: comunicação,

cultura e hegemonia, nos mostra uma das preocupações presentes nos estudos

latino-americanos nos últimos anos, tais como: a investigação sobre os processos de constituição do massivo a partir das transformações nas culturas

subalternas, sobrecarregada tanto pelos processos de transnacionalização quanto pela emergência de sujeitos sociais e identidades culturais novas.

A comunicação está se convertendo num espaço estratégico a partir do qual se pode pensar os bloqueios e as contradições que dinamizam essas sociedades-encruzilhadas, a meio caminho entre um subdesenvolvimento acelerado e uma modernização compulsiva. Assim, o eixo do debate deve se deslocar dos meios para as mediações, isto é, para as articulações entre práticas de comunicação e movimentos sociais, para diferentes temporalidades e para a pluralidade de matrizes culturais (MARTIN-BARBERO, 1997, p. 258).

Segundo o autor, as mediações podem ser compreendidas como os lugares que estão entre a produção e a recepção e nos coloca a necessidade de descentralização dos meios no sentido dos aparatos técnicos, para compreender a comunicação como práticas sociais, interligada na experiência cultural cotidiana.

De acordo com Martin-Barbero, a comunicação está se transformando em um espaço estratégico, e, por isso, é necessário reconhecer a mestiçagem característica da América Latina. É importante considerar o que nos constitui, ou seja, a “razão de ser” presente na temporalidade, nos espaços, no imaginário e nas memórias.

Nos últimos anos, contudo, uma série de acontecimentos ocorridos na América Latina parecem apontar para uma nova compreensão das relações entre política e cultura. Tais acontecimentos, segundo Jose Joaquim Brunner – um dos maiores investigadores latino-americanos de maior contribuição para a nova visão das políticas culturais – são três: a experiência dos países sob regimes autoritários, de que os modos de resistir e opor-se procederam em boa parte de espaço outros que não os considerados pela análise tradicional como as comunidades cristãs, os movimentos artísticos, os grupos de direitos humanos; a compreensão de que mesmo o autoritarismo mais brutal nunca se esgota nas medidas de força nem responde somente aos interesses do capital, e de que há sempre uma tentativa de mudar o sentido da convivência social transformando o imaginário e os sistemas de símbolos; e por último que, graças à dinâmica da escolarização e à dos meios massivos, a cultura se colocou no centro do cenário político e social (MARTIN-BARBERO, 1997, p. 75).

Os estudos comunicacionais devem considerar as mediações sociais, em que as mensagens adquirem sentido. É necessário compreender a comunicação a partir da cultura, como espelhamento das relações sociais, considerando o caráter de processo produtor de significações e não de mera circulação de informações. Da mesma forma, as mediações, considera o receptor não como apenas decodificador, mas também produtor.

Guillermo Orozco Gomes, outro expoente dos estudos da comunicação na América Latina, em O telespectador frente à televisão: uma exploração do

processo de recepção televisiva de 2005, apresenta alguns elementos e

relações fundamentais que permitam descrever um terreno amplo a complexo. Primeiramente, ao destacar a constituição do público telespectador, considerando também que a TV, ao mesmo tempo, é um meio técnico de produção e transmissão de informação e uma instituição cultural produtora de significados.

O autor se utiliza das ideias de Raymond Williams, em que as qualidades dos recursos técnicos da TV estão culturalmente determinadas. Consideram-se apenas qualidades meramente técnicas, mas sim considerados são formas culturais a partir das quais se realizam associações e efeitos da linguagem televisiva. O conteúdo da programação é polissêmico e pode ser percebido e interpretado de maneiras distintas pelo telespectador.

Assumir o telespectador como sujeito – e não só como objeto- frente à TV – supõe, em primeiro lugar, entendê-lo como um ente em situação, e, portanto, condicionado individual e coletivamente, que “se vai constituindo” como tal de muitas maneiras e se vai também diferenciando como resultado da sua particular interação com a TV, e sobretudo das diferentes mediações que entram em jogo no processo de recepção. É nesse sentido que o público da TV não nasce, mas se faz (GÓMEZ, 2005, p. 27).

Com relação frente à programação, o autor apresenta que existe uma sequência que passa pelas seguintes etapas: atenção, compreensão, seleção, valoração do que foi percebido, armazenamento e integração com informações anteriores e, posteriormente, uma apropriação e produção de sentido. O processo de conhecimento e da capacidade cognitiva de um receptor não está restrito apenas geneticamente, mas também associado aos aspectos socioculturais nos quais está inserido.

Além da mediação cognitiva, é importante também considerar a mediação situacional. É importante considerar os limites físicos do espaço em que se assiste à televisão. O processo de recepção “sai do lugar” ao transitar e circular por outros cenários, ou seja, ele comenta o que assistiu na televisão na escola, no trabalho ou em outro espaço social em que estabelece suas relações. Nesses cenários, o estudo de recepção vai sendo mediado tanto pelas novas situações como pelos agentes e instituições envolvidas. É importante considerar também, no processo de mediação, as seguintes referências, tais como: gênero, etnia, idade, origem social ou geográfica.

A produção de sentido realizada pelo telespectador se dá pela combinação individual ou da combinação de vários componentes. As premissas que orientam a análise da receptiva tais como: a interação, que está mediada de múltiplas maneiras e, posteriormente, que a interação está circunscrita ao momento de estar vendo a tela.É importante também considerar, em um processo de investigação, além de dados estatísticos, a investigação de como o telespectador interage com a TV, descobrindo, dessa forma, os processos de recepção e as práticas de mediação dos quais são objetos e também analisar a recepção televisiva a partir da emancipação dos telespectadores.

O mexicano Jorge González, outra referência no Pensamento Latino Americano, no texto Frentes Culturais: para uma compreensão dialógica das culturas contemporâneas (2001), destaca o estudo da dimensão simbólica da vida. “Frentes Culturais” é definido pelo autor como um conceito aberto que nos permite conhecer como foram criadas e compartilhadas representações e sentimentos. A ideia proposta, nos abre a possibilidade de entender o desenvolvimento e a construção de diversos modos, convergências e integrações simbólicas.

As frentes culturais podem também ser entendidas como espaços ou arenas de luta, que são geradas mediante um trabalho de elaboração discursiva que traz a dinâmica de diferentes tensões e conflitos (GONZÁLEZ, 2001, p.19 Tradução nossa).

González, nos dá vários exemplos de frentes culturais, como por exemplo, as festas. As celebrações podem ser compreendidas como espaços de lutas

simbólicas. O autor também sugere que a construção e a análise de qualquer frente cultural, sejam elaboradas a partir de quatro tipos de fontes e formatos:

 Informação estrutural: multidimensionalidade de todo espaço social;  Informação histórica: identificação das trajetórias e trocas entre diferentes

agentes e estratégias em jogo;

 Informação situacional: considerar a descrição dos contextos etnográficos dos conflitos e lutas, assim como, as complexas mesclas resultantes de atividades, tempos e atividades desenvolvidas por um agrupamento;  Informação simbólica: descrição da construção de sentidos socialmente

localizada.

Verificamos que, no pensamento latino-americano, os estudos são fortemente marcados pelas realidades similares (considerando suas configurações assimétricas e distintas) presentes nesses países. Os processos comunicacionais consideram e revelam sua trajetória histórica, as diferenças sociais, identitárias e políticas, movimentos sociais e a hibridismo cultural tão peculiares.

As percepções do tempo e do espaço na América Latina encontram, nas dinâmicas culturais, a presença da mídia muitas vezes na posição hegemônica, voltada aos interesses políticos e econômicos. Nessa perspectiva, muitos estudos se voltam a discutir e propor outras possibilidades de comunicação, tais como a comunicação comunitária, popular, entre outras.

José Marques de Melo (2008), em Mídia e cultura popular: história,

taxionomia e metodologia da folkcomunicação, ao se referir ao contexto

brasileiro, afirma que nossa cultura foi resultado de uma mistura de símbolos oriundos de povos multifacetados,

O contingente lusitano trouxe um legado híbrido de tradições euro-latinas, incorporando traços civilizatórios assimilados nos territórios africanos e asiáticos, onde suas naves aportaram pioneiramente. Essa atriz hegemônica incorporou traços inconfundíveis das civilizações ameríndias que habitavam nosso litoral, nos tempos de colonização, e que foram expulsas da faixa atlântica, sobrevivendo isoladamente na selva amazônica e outros focos bravios. A elas se juntaram os costumes e expressões das comunidades africanas, trazidas compulsoriamente por navios negreiros para desempenhar funções produtivas nas plantações

açucareiras, na pecuária extensiva ou nos complexos auríferos (MELO, 2008, p. 42).

Assim como Canclini e Martin-Barbero, Marques de Melo afirma que dessa imbricação simbólica resultou uma cultura popular que se reproduziu heterogeneamente em nosso território. Contudo, o autor nos alerta que os traços explicitamente homogêneos da cultura brasileira foram herdados da cultura erudita euro-latina, disseminados pelas instituições respaldadas pelo aparato estatal.

Trata-se do dualismo cultural que se foi alterando, no decorrer do século XX, pela penetração de padrões consentâneos com a fisionomia plifacética da emergente cultura de massas, importada de matrizes inicialmente europeias e ultimamente das indústrias simbólicas norte-americanas. Essa corrente teve efeitos significativos na configuração de nosso perfil contemporâneo, que deixa de refletir o “arquipélago cultural” outrora identificado por Manuel DIÉGUES JÚNIOR (1960), projetando aquela faceta que Renato ORTIZ (1988) rotulou apropriadamente como a “moderna tradição brasileira” (MELO, 2008, p. 43).

Nossa sociedade brasileira é marcada e influenciada por uma mídia elitista, articulada pelos interesses políticos e econômicos, o que faz com que a comunicação, em muitas ocasiões se reduza apenas a um negócio e não a um direito. A imprensa, assim como o rádio e a televisão e, mais recentemente, a internet não alcançam a compreensão de um vasto contingente populacional, a partir das diferenças geográficas e culturais que caracterizam o território brasileiro. A sua abrangência e acessibilidade, assim como outros bens da globalização, são excludentes; não são para todos, mas para alguns. Os grandes bolsões culturalmente marginalizados, em que se encontram a maioria das comunidades e povos tradicionais, reagem através de sistemas midiáticos alternativos e rústicos, já que muitas vezes são invisíveis, ignorados ou até mesmo estereotipados pelos grandes conglomerados comunicacionais.

A folkcomunicação adquire cada vez mais importância pela sua natureza de instância mediadora entre a cultura de massa e a cultura popular, protagonizando fluxos bidirecionais e sedimentando processos de hibridação simbólica. Ela representa inegavelmente uma estratégia contra-hegemônica das classes subalternas (MELO, 2008, p. 25).

A Folkcomunicação (à qual nos dedicaremos no terceiro capítulo) é uma disciplina que se volta ao estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressões de ideias, tendo sido fundada por Luiz Beltrão na década de 1960. Reconhecido por outros autores do pensamento latino- americano, o segmento de investigação encontra-se na “encruzilhada” entre o folclore (reconhecimento e interpretação da cultura popular) e a comunicação de massa (difusão em massa de ideias e símbolos através de meios impressos ou eletrônicos). São nesses cruzamentos inseridos nas mediações socioculturais que muitas expressões das culturas populares se mantêm vivas, resistem e negociam na arena global.

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