3. NATURAL CIRCULATION MODELLING
3.5. System codes description
As emoções são elementos presente quando os headbangers falam sobre o heavy
metal e sua época adolescente, que de alguma maneira criou um tipo de comunidade
emocional, utilizando rótulos para descrever seus sentimentos em relação a eles e aos outros. No recorte de jornal citado no início deste capítulo, eles se referem aos punks
como “sujeitos adeptos da violência como forma de protesto”, como se estivessem demarcando também seu espaço em relação a outras cenas e se diferenciando. Estas comunidades emocionais foram se formando muito pelas informações compartilhadas, as imagens das revistas com seus artistas em shows, a maneira como se descreve cada música, as melhores músicas, os nomes das bandas e todas as experiências que foram capazes de fazer os leitores criarem até os seus primeiros zines com as suas impressões. Emoções que estavam embutidas no corpo e na mente através das músicas, roupas, tatuagens, e em tudo aquilo que agregava e os definia enquanto sujeitos da cena
headbanger, criando as relações e a natureza dos laços afetivos entre pessoas que eles
reconheciam, e os modos de expressão emocional que eles pressupunham, encorajavam, toleravam e deploravam: emoções como instrumentos da sociabilidade, reforçando e sustentando sistemas culturais. Nesse sentido, as expressões devem ser lidas como interação social (ROSENWEIN, 2011).
Para Tuan (2013), a experiência é um termo que abrange as diferentes maneiras que um sujeito constrói realidades. Variando desde os sentidos mais diretos, como os visuais, o olfato, o paladar, até os indiretos, como as emoções. A experiência é aquilo que sentimos, percebemos, concebemos, suportamos, sofremos, aprendemos, vivenciamos, criamos e vencemos. Já as emoções são constituídas de pensamentos e sentimentos e dão o “colorido” às experiências humanas. A exemplo disso Andréa Regis relata que pra ela
O universo metálico foi e é algo sui generis. Como dito, os
headbangers old school, ou das antigas, das primeiras gerações, se
reconhecem e compactuam de algo grandioso. Todos são, naturalmente, colecionadores amadores, saudosistas assumidos. Amizades profundas e aprendizado de um segundo idioma, aprofundamento de outras culturas nasceram, em muitos, devido ao
Heavy Metal. Eu sou um exemplo disso (Depoimento de Andréa
Régis, 2016).
Ao notar que parte de sua vida tem relação com a música, Andrea constrói uma narrativa em que se insere enquanto headbanger. Nessa narrativa, ela fala das suas vivências na adolescência, do convívio com uma geração mais antiga de jovens e da frequência a lugares que hoje já não existem mais. Ela faz parte de uma rede de pessoas que se conheceram em um universo grandioso, saudosistas, colecionadores e de amizades profundas. A imersão e as influências foram tão fortes que influenciaram suas vidas, por considerarem o heavy metal como uma escola/filosofia de vida. Muitos desse
grupo tiveram até mesmo sua carreira profissional influenciada pela militância heavy
metal. Na década de 80, Andrea pegava as letras das músicas que gostava e as traduzia
para saber que mensagens estavam sendo difundidas. Essa prática acabou influenciando-a na escolha de se tornar professora de inglês. Já Claudio Slayer, pintava as camisetas dos amigos com figuras das bandas de heavy metal, e, anos depois, veio a se tornar professor de artes e baixista da banda Expose Your Hate.
O colecionismo é também um fator importante para muitos headbangers. Andréa Regis, Mitchell Pedregal, Claudio Slayer, Herval Padilha e Dedê Thrash, entre outros, guardam ainda hoje discos que compraram há mais de trinta anos. Os discos comprados na épocaa, muitas vezes em sebos, tornaram-se peça de coleção nos tempos atuais.
A maior parte das narrativas dos antigos membros da cena heavy metal é marcada por um tom saudosista. Eles fazem questão de ressaltar os laços de amizade estabelecidos na época de juventude, e de guardarem vários objetos como lembranças. Entre esses objetos estão fotos, revistas e discos de uma história morta pelo tempo e revivida pelo saudosismo. Assim, esse saudosismo pode ser entendido como um sentimento em que o sujeito se vê perdendo pedaços queridos do seu ser, daquilo que construiu para si. Um sentimento coletivo que pode afetar todo um grupo ou comunidade que perdeu suas referências espaciais ou temporais, uma classe que perdeu sua posição, onde tudo aquilo que foi construído por eles se destruiu (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2011).
O fim da loja Whiplash, ainda no início dos anos 90, assim como a morte do seu proprietário, tiveram um forte impacto sobre a cena. Ela perdeu uma pessoa empoderada naquele lugar que não somente era amigo, mas que olhava para o cliente e dizia a ele quais bandas ele poderia gostar, e assim criava vínculos com a clientela. A loja era uma extensão do seu “eu”, pois esta surgira de dentro de sua casa, no pequeno espaço de um quarto com caixas empilhadas.
Andréa Regis (2016) afirma que o heavy metal foi um estilo de vanguarda, os
headbangers e bandas tinham uma indumentária própria, ostentada a todo momento,
pois eram inspirados pelos seus ídolos e amigos a se vestirem assim. “Diferentemente de outros estilos musicais, o Metal estava além da difusão da música pesada em si. Os fãs desse estilo se reconheciam como tal, e como iguais, criando um campo antropológico totalmente novo”. Para os dias de hoje, tudo isso, segundo ela, parece
inacreditável, visto que vivemos um tempo onde conhecer bandas e estilos é muito mais fácil.
Dessa forma, o saudosismo, além de um sentimento de pertencimento e perda, é algo que está com aqueles que viveram experiências que os mais novos não puderam ou quiseram viver, e ao sentir a mudança das relações de poder, precisam fazer um movimento inverso, trazendo à tona toda sua herança guardada para demonstrar sua importância. Não são apenas discos e revistas antigas, são testemunhos de seu passado materializados no presente, testificando suas histórias. A cena hoje perdeu seus ritos de iniciação, de novidade, de poder dizer quem era headbanger, de estar com um grupo e serem amigos. Tudo isso fazia parte de um jogo de emoções ritualizadas ouvindo e emprestando discos, gravando fitas cassete, assistindo shows em fitas VHS, compartilhando fotos de bandas, posters e, assim, dividindo essas experiências.
Em relação às dificuldades, as barreiras são citadas pelos depoentes como se assemelhassem a uma “medalha”, pois hoje eles podem dizer que tudo que conseguiram foi com esforço por serem adolescentes, estudantes, considerando também que muitos não tinham trabalho ou condições financeiras para comprar aquilo que lhes desse prazer. A cena para eles perdeu aquilo que ela representou, um momento de emoção, até mesmo porque hoje em dia há uma facilidade muito maior em se conseguir tudo sobre os artistas pela internet. O heavy metal hoje já não causa espanto, os shows acontecem com mais frequência, mas a expressividade de público ainda é baixa.
A facilidade com que o mundo moderno entrega ao headbanger uma banda desconhecida não tem o mesmo valor que antes. Quer dizer, as barreiras eram no pasado um problema do tempo e do contexto vivido. No presente, elas ganham novos sentidos. Anderson Soares conta que, no seu contexto, a dificuldade existia sim, mas para discos importados. Já os discos de fabricação nacional e das bandas brasileiras eram bem mais acessíveis e ainda podiam manter uma frequência em sebos da cidade, buscando outros discos por preços menores, além das trocas por carta e gravação. Neste sentido, essa dificuldade parece pessimista, ou muito variável de acordo com o contexto, pois mesmo com o momento de dificuldade econômica vivida no país, muitos conseguiram fazer viagens para ver bandas fora do estado, como Pedregal, que foi ver o Sepultura em Campina Grande (PB), e Andrea, que ganhou uma viagem de presente nos seus 15 anos e foi para São Paulo comprar discos nas lojas da cidade, ou Páris, que teve sua bateria comprada pelo pai que era juiz. Dessa forma existia um certo apoio dos pais de muitos
headbangers para que os mesmos pudessem ter seus desejos realizados: comprar disco,
viajar, ver show, montar bandas.
A perda do que foi a cena, um submundo, em que a dificuldade de encontrar seus objetos agora se perdeu, pois o individualismo e a valorização da informação, que antes existiam, foram banalizados graças à facilidade de acesso a informações e material através da internet. Dessa forma, o underground e saudosismo é uma tentativa de manter aquilo que ela foi para não deixá-la morrer.
Underground é quando é um círculo fechado, aquela coisa a que
poucas pessoas têm acesso, aquela coisa tipo submundo, fora do comum, é o underground, pô. Então assim, poucas pessoas sabem realmente o que é underground, e usam o underground como modo de rótulo mesmo, pra dizer que aquilo dali é diferente, mas na verdade essas coisas que eram underground, que eram de mais difícil acesso, de um círculo mais fechado, hoje estão mais banalizadas. Na verdade não é banalizada, quero dizer que na verdade estão mais populares. Quando eu falei “banalizada” anteriormente, é quando eu quero dizer que está mais conhecida, com mais livre acesso, entendeu? Que hoje em dia qualquer pessoa pode digitar ali “o que é underground?” e vai aparecer o que é underground, com esse vocabulário (Depoimento de Luis Claudio Calixto Júnior, 2016).
Não é possível definir o que será a cena daqui a alguns anos, mas muitos traços que um dia ela teve já estão se perdendo em função do tempo e da transformação das práticas de ouvir música e conseguir informação, que mudaram com o avanço da tecnologia. O underground aos poucos se renova também, dando espaço para novos artistas se tornarem conhecidos através da internet e rede sociais. Cabe à história mostrar o que foram estas cenas e como elas se comportavam.