5. CONCLUSIONS AND RECOMMENDATIONS OF THE
5.4. General
Como as mulheres participavam da cena, ou como elas fizeram parte deste espaço que ainda hoje é majoritariamente masculino? Poucas foram as mulheres que fizeram parte do cenário heavy natalense. Aqui, algumas iam para shows, formaram grupos de 5 ou 10 garotas, não se sabe ao certo, mas existia uma expressão muito ínfima delas. Em Natal, algumas garotas pensaram em formar uma banda do estilo. É provável que essa ideia de montar uma banda com mulheres em Natal tenha a ver com a influência da Volcana, banda feminina da mesma época. Entretanto, a iniciativa ficou apenas na ideia e o máximo que conseguiram chegar foi juntar três ou quatro garotas e ensaiar na casa de um amigo que emprestou os instrumentos.
A ideia de formar uma banda surgiu, com muito entusiasmo de Páris Witchhunter e força de Dedê Thrash, cuja guitarra fora emprestada pra Vivi. Chegamos a “gazear aula” para ensaiar na casa de Páris, o que na verdade era uma grande farra, visto que pouco sabíamos, tendo como base meus parcos conhecimentos de violão clássico passados por meu irmão e muita paixão pelo thrash metal. Até os estudos falarem mais alto, assim como a preguiça de estudar guitarra e de inventar desculpas para sair aos pais preocupados e decepcionados com as filhas esquisitas que só andavam de preto, calça jeans e tênis, feito meninos. Tempos depois, realizei o desejo de tocar em um show com o Metal Cover, num festival do Marista, com meu irmão Mitchell, Marcus Paulo, Kaio e Adriano Bambam. Fugi de casa, toquei, bati cabeça e, no fim do show, minha mãe estava me esperando atrás do palco. (Karen Pedregal. NATAL ASSAULT - Heavy Metal na Terra do Sol. 22 de agosto de 2013)
No depoimento acima, dado por Karen Pedregal, fica expressa a dificuldade das mulheres em se envolverem com o trabalho musical. Apesar de alguns incentivos, havia, entre outras coisas, o medo de “decepcionar” os pais. Tempos depois, ainda na escola, Karen teve seu lugar no palco com amigos tocando em um festival de uma escola particular. Neste local pôde dividir espaço de palco com seu irmão Mitchell, que já fazia parte de outras bandas e tinha uma vivência diferente da dela.
A forma de se vestir e pensar das headbangers em Natal não era diferente da dos homens. No geral, elas não tinham a preocupação de usar maquiagem e de se comportar como garotas recatadas e do lar. Essa maneira diferente de ser refletia também em como a sociedade olhava para essas garotas que curtiam heavy metal. Um dos depoentes contou um episódio em que sua irmã headbanger fora vista como lésbica pela mãe de outra garota, que estava temerosa que uma garota vestida daquela maneira e gostando
daquele tipo de música estivesse mais propensa a tentar ter um relacionamento amoroso com sua filha.
A era bem discriminado. Minha irmã chegou a ser xingada na rua, mães de algumas amigas que não eram parte da cena taxaram ela de lésbica e as piores depreciações possíveis. A mãe de uma amiga dela de antes dessa época do metal, ela se envolvia e a menina não. Ai um dia a mãe dessa menina a colocou pra fora da casa dela chamou de lésbica, “não está vendo como ela se veste? Ela está querendo você, ela não gosta de homem (Depoimento de Fortunato Regis, 2016).
Neste exemplo podemos notar que até mesmo uma parte da sociedade olhava para o heavy metal como uma “coisa de macho” e toda mulher que adentrasse nesse espaço seria vista de forma suspeita. O discurso homofóbico procurava discriminar aquelas meninas por gostarem de usar preto, e geralmente andarem acompanhadas por homens. Esse discurso estava baseado na ideia de que aquelas roupas e comportamentos eram exclusivamente masculinos, assim como a música que escutam. Muitos imaginavam que tais garotas se tornariam lésbicas apenas por estarem com um jeans rasgado, um tênis esportivo, e uma blusa preta de uma banda de rock/metal. Das meninas, esperava-se que elas andassem arrumadas, se limitassem à vida doméstica, brincando de boneca, olhando para o galã da novela. Enquanto que para os garotos não havia tantos empecilhos para o uso do preto, dos cabelos longos, do uso de brinco ou pulseiras e braceletes, nem por andarem acompanhados por pessoas do gênero oposto.
Muitas vezes, este comportamento e mentalidade eram repetidos pelos seus praticantes, e até mesmo pelas pessoas que sofriam preconceitos por não estar de acordo com a norma social. Um exemplo disso era como elas olhavam para outras garotas da cena que eram desconhecidas e frequentavam a loja Whiplash.
Anos depois, na “casa” Whiplash do amigo Luziano, pude conhecer amigas que continuam em minha vida até hoje. Acho que toda garota que curtia Metal era muito desconfiada com outras naquela época. O ceticismo existia porque já era duro estar em um meio predominantemente masculino, cuja consideração custava muito papo e amizade, para sermos confundidas com outras que estavam ali apenas por uma fase ou curiosidade por tanto cara cabeludo junto. Mas eis que me tornei amiga de Viviane, cujo primeiro papo foi regado a Coca-Cola, e Giovanna e Rosaly, colegas de escola (Karen Pedregal. NATAL ASSAULT - Heavy Metal na Terra do Sol. 22 de agosto de 2013).
Naquela época, Karen Pedregal, ainda jovem queria se sentir parte da juventude e se aproximar de outras pessoas com os mesmos interesses. Este momento parece indicar também que ela não era ainda aceita no meio segregador da cena heavy metal,
em que era necessário ser merecedora para pertencer a um grupo, ainda mais por ser mulher. O conhecimento de bandas se fazia necessário naquele momento para dar ao sujeito um lugar e visibilidade como uma carta de visita imposta tacitamente. Não possuir esses conhecimentos a colocaria em uma situação de exclusão, em que teria que provar ser merecedora de ouvir a música, poder usar a camiseta da banda e poder ter os acessórios. O fato de comprar não era suficiente para que a pessoa fosse da cena. Karen Pedregal, tempos depois, conheceu outras garotas e juntas tentaram montar uma banda feminina. Contudo, a questão da mulher em um palco na cena era um tabu que muitos não aceitavam. Como a mesma falou, era um espaço muito masculino em que os entraves da aceitação dentro da cena por si só já eram barreiras, inclusive para ela mesma. Nesse sentido, ela aceitou que ali existia uma regra de reconhecimento entre os pares que era feita pela maioria e sua permanência precisava ser confrontada a todo momento.
Mas isso não as impediram de ir a shows e de participarem da cena. Mesmo que nos eventos a participação das jovens entre 15 e 20 anos fosse baixa, as garotas estavam lá presentes.
Eu lembro bem do meu primeiro show de Metal. Foi o do Viper, em 1988, com o então adolescente André Matos nos vocais, no Centro de Turismo. As bandas locais Auschwitz, Horus e Lotus Negra também tocaram naquela noite inesquecível para mim, uma menina de 12 anos, iniciada na música pesada desde cedo pelo irmão mais velho, mas muito jovem para ter a permissão dos pais para ir para shows de Heavy
Metal (Karen Pedregal. NATAL ASSAULT - Heavy Metal na Terra
do Sol. 22 de agosto de 2013).
Portanto, para as mulheres, ser headbanger era ainda mais problemático que para os homens. Se os homens se sentiam mal vistos socialmente, as mulheres tinham que fazer um esforço ainda maior para se sentirem reconhecidas dentro do meio que era a cena. Mesmo quando aceitas, as dificuldades dentro e fora de casa existiam por que a sociedade via a presença da mulher no espaço público, e junto com homens, como características de uma pessoa mal falada, de má reputação, rebelde, transgressora, desequilibrada.
Os pais de Karen permitiram que ela frequentasse os shows, ou seja, convivesse com homens com calça rasgada, bebendo, fumando e pulando freneticamente. Mesmo assim, ela só podia ir acompanhada do irmão mais velho.
Os locais onde as headbangers curtiam as músicas, nem sempre eram agradáveis para garotas. Mitchell Pedregal conta, a partir do que ouvia dos homens, que muitos comentários dirigidos às mulheres eram machistas. Sua irmã, Karen Pedregal, começou a gostar do heavy metal através do contato com os ensaios que aconteciam em sua casa, muitas vezes na sala:
Depois de muito tempo é que... já por que não tinha [muitas mulheres], é que teve aquele preconceito, aquele machismo por parte dos caras... Como era estranho, para você ver, não tinha [mulher]. Ai, quando apareceu... quando uma tentava se inserir no meio e tal, os caras já falavam: “aí vem as caça-metal aí”, “as caça-metal aí” (Karen Pedregal. NATAL ASSAULT - Heavy Metal na Terra do Sol. 22 de agosto de 2013).
Esse preconceito não se limitava apenas às garotas que ouviam a música, mas também às que tentavam formar bandas. No Rio Grande do Norte, da década de 80, não havia bandas de Metal que fossem formadas por mulheres, já na Paraíba e em outros estados as bandas só de mulheres surgiram, mesmo que ainda em pequeno número. Hoje em dia as mulheres estão presentes na cena em Natal e no mundo, mas o machismo ainda as impede de se aproximar do meio.31
Segundo Andréa Régis, houve uma época em que apenas três garotas frequentavam tanto a Whiplash quanto os shows em Natal: além dela mesma, Martha e Ana Cláudia. Surgira ainda, antes delas, Tereza Cristina, que fazia parte de uma geração mais antiga de headbangers. Estas garotas estavam juntas nos eventos de heavy metal, nos ensaios, nas praças, na Whiplash Discos, com os amigos ou nas sessions. Em momentos esporádicos, outras novas garotas surgiram, mas estas não tiveram a dedicação esperada pelo grupo em relação à música. Eram “curiosas”, como disse Karen Pedregal, não tendo uma frequência maior na cena.
Para Andrea Régis, o machismo na cena heavy metal foi inevitável, visto que a sociedade como um todo era e continua sendo machista. O heavy metal seria uma “produção social”. Para ela “as bandas femininas ou com uma mulher na formação
31 Segundo o site metaleros.de, algumas bandas nacionais de heavy metal foram compostas apenas por mulheres ainda na década de 1980. Entre elas estavam: Placenta, Prepúcio, Havoc, Cova, Volkana, Flammea e Excruciation. Existe uma dificuldade muito grande para encontrar material dessas bandas, mesmo nos dias de hoje. Nesse sentido, assim como o número de bandas, poucas mulheres puderam participar da cena, se comparar a expressividade masculina de grupos musicais, artistas, escritores, produtores e jornalistas.
receberá tanto críticas descabidas por causa desse fator de gênero específico como elogios que, muitas vezes, não mereceria. Apenas por um tipo de protecionismo”.
O tratamento diferenciado e até preconceituoso em relação às headbangers não veio apenas dos participantes masculinos da cena, mas também dos críticos. Muitos comentaristas de revistas e de sites expressavam um cuidado ou um excesso de zelo em relação às garotas, ao mesmo tempo em que, haviam as piadas de mau-gosto e os comentários preconceituosos. Poucos críticos foram objetivos, justos ou honestos em relação as bandas exclusivamente femininas.