Chapitre I : Design de ligands pour l’époxydation et complexation d’anions
I. 2. 2. Synthèse des ligands de type N 4
Mais uma vez, a presença dos amadlozi [ancestrais] em qualquer casa exigia uma transformação do espaço que independia de sua forma original. A casa quadrada de Thembeni assumia contornos redondos que abrigavam o umsamo [espaço das “oferendas” para os ancestrais]. O espaço reservado para a cabra recém-sacrificada, para o fogo propiciado pela vela, para a umqobothi, para os ramos trazidos de Umkhamba, assim como o imphepho e o sangue colhido no sacrifício, foi novamente transformado na manhã de sábado. Ali, o umsamo “improvisado” na noite anterior, onde a cabra “dormiu” com sua cabeça decepada, foi devidamente criado.
Os chifres da cabra e alguns de seus órgãos foram dispostos sobre umcenge [bandejas de madeira] e seu sangue permaneceu na tina onde já estava; agregou-se à caixa de fósforos e às cinzas do imphepho, um potinho de rapé; as ukhamba borbulhavam
umqobothi e os ramos da árvore continuavam no saco plástico com algumas folhas à
mostra; foram colocadas garrafas de Coca-Cola, Sprite e brandy, além de uma vasilha com salgadinhos industrializados (Nik Naks e Sheetos) e, em baixo dela, duas maçãs verdes; o candelabro que sustentava a vela - agora apagada - permanecia no umsamo.
O umsamo de Thembeni continha “oferendas” um pouco diferentes das que eu estava acostumada a ver. Quanto aos refrigerantes e salgadinhos, Thembeni disse que era possível colocar o que se desejasse no umsamo. Naquele dia, ninguém poderia comer as “oferendas”, mas no domingo, quando ela as retirasse do umsamo, as crianças pequenas poderiam comer os salgadinhos e os mais velhos poderiam tomar a umqobothi [Prancha
Procurei saber sobre um nome específico para designar este conjunto de elementos dedicado aos amadlozi [ancestrais], porém sempre me falavam sobre o lugar, sobre o
umsamo. Aparentemente, os termos que designam “oferenda” em isiZulu são umhlabelo, umhlatshelo, umnikelo. Entretanto, nenhum deles é usado para as “coisas”
colocadas no umsamo. Conforme explica Thembeni, a qualidade de “oferenda” não parece estar dissociada do umsamo, essas “coisas” podem inclusive ser consumidas depois de um certo tempo, quando são retiradas do lugar que cria uma relação especial de comunicação com os amadlozi.
O couro da cabra estava esticado no chão do terreno e coberto com sal para espantar as formigas. Thembeni havia amanhecido com a isiphandla [pulseira feita com o couro, ainda com pelos, da cabra sacrificada] no pulso e disse que Bongiwe (eDeD) também iria colocar uma isiphandla - porém, na caso dela, isso aconteceria somente quando chegassem in the other side [do outro lado], lá na fazenda.
Ao longo da manhã de sábado, Bongiwe passou bastante tempo sentada nos fundos do terreno da casa de Thembeni, enquanto cuidava das porções da cabra que eram assadas no fogo feito no chão. Naquele momento, Bongiwe tinha 18 anos, enquanto no white
wedding, contava com 5 anos. Disse que lembrava-se do evento passado, especialmente
do vestido branco, mas, na ocasião, não sabia exatamente do que se tratava - não sabia que era um casamento. Se não estava enganada, ela lembra que mataram uma vaca e uma cabra para o white wedding.
Perguntei para Bongiwe se depois do umabo ela estaria livre para se casar, e ela respondeu que ficaria livre somente depois que sua mãe fizesse um umsebenzi [ritual para os ancestrais] to clean [para limpá-la], embora ninguém nunca lhe houvesse dito que ela estivesse impedida de qualquer coisa. Ela não sabia explicar com certeza, mas imaginava que “as coisas eram assim” e que depois do umsebenzi dedicado à ela, estaria, sim, livre.
A fugacidade da resposta de Bongiwe tem muito mais a ver com a pergunta que faço - “Você ficará livre para se casar?” - a uma pessoa que não se pensa enquanto um indivíduo não relacional e que entende a liberdade de uma maneira diversa daquela que
evoco. Bongiwe ficará livre, embora ninguém tenha lhe dito que não era. Bongiwe poderá finalmente se casar, ainda que não pense nisso. As conclusões a que Bongiwe chega com a minha pergunta são de que, aparentemente, “as coisas eram assim”. O que era assim? Para mim, de acordo com o conhecimento que tinha e das minhas próprias expectativas, depois do umabo Bongiwe teria cumprido a sua missão de avatar da avó, logo, ela mesma poderia seguir o seu caminho. Entretanto, Bongiwe jamais esteve presa ou impedida, ela e sua família entendem que o que Bongiwe faz não é cumprir com uma obrigação da qual é possível se livrar. Ser livre não diz respeito a chegar a um termo nas relações sociais por meio de rituais que, como se sabe, nunca terminam. Todas essas pessoas entendem que dependem umas das outras, umas dos rituais das outras para se constituírem enquanto pessoa.
No final daquela manhã, muitos convidados chegaram, especialmente mulheres. Nos organizamos na pequena cozinha da casa de Thembeni para servir os pratos de comida do umsebenzi. UmamaRato, a vizinha e amiga, foi incumbida de organizar a quantidade destinada a cada um - a depender se criança ou adulto - e a contabilizar os ausentes - para quem seriam preparados pratos que ficariam à espera no microondas. Quer seja em um umsebenzi ou em uma refeição cotidiana, sempre guarda-se a comida daqueles que deveriam estar lá, mas ainda não chegaram. Não há risco de perder um jantar na casa em que espera-se que você jante, bem como há pouco risco de que alguém pegue a comida guardada e destinada a outro. Essa prática revela que comer não é algo que se faça sozinho, de modo independente e que recaia sobre uma responsabilidade individual - as pessoas de uma casa compartilham a comida e isto significa que todas as pessoas daquela casa estão incluídas.
UmamaRato iniciava a feitura do prato com duas colheres de arroz amarelo, depois passava-o para Danisile, que acrescentava o purê de batata e outro de abóbora laranja, mais uma salada de repolho. Zanele servia o frango e uma salada de cenoura e repolho. Eu colocava a beterraba cozida, a salada de feijão apimentado e a maionese de macarrão com legumes. Por fim, Thembeni punha uma colher de plástico no prato que ficava pronto para ser servido.
Tipicamente, durante um umsebenzi, as mulheres comem na casa redonda e os homens ao ar livre, especialmente se o evento não conta com tendas alugadas. Embora essa
configuração não seja necessariamente observada por todos os convidados, as primeiras mulheres que chegam, em especial as mais velhas, são comumente convidadas a ficar na casa redonda, onde aguardam a comida ritual sentadas sobre amacansi [esteiras] no chão. Prescreve-se ali o olhar voltado para baixo (para o phansi, chão) e uma curvatura no corpo, que fica levemente agachado ao adentrar o recinto (ambos gestuais fazem parte do tabu comportamental de evitação denominado de hlonipha). A presença masculina na casa redonda ocorre somente quando algum homem deve pegar a
umqobothi.
Na casa de Thembeni não foi diferente, ou melhor, o que houve de particular foi que Bongiwe recebeu o primeiro prato de comida do umsebenzi, seguida pelas mulheres que, assim como ela, sentavam-se dentro de casa, no chão, próximas ao umsamo [espaço das “oferendas” para os ancestrais] [Prancha 37],
A comida ritual típica do umsebenzi, embora apresente algumas variantes - como papa ao invés de arroz -, sempre conta com legumes e saladas - que não são cotidianamente consumidos, tal como os purês de abóbora e de batata. O frango pode compor a comida de umsebenzi, o que alguns descrevem como uma mudança devido a muitas dietas que evitam o consumo de carne vermelha. Ao contrário da alimentação cotidiana, que encontra no jantar a refeição principal, o umsebenzi é, invariavelmente, um almoço
tardio.
Thembeni serviu sua comida de umsebenzi na louça que tinha em casa, mas, como cerca de 50 pessoas passariam por ali e a quantidade de louça poderia ser insuficiente, ela comprou pratos descartáveis e talheres plásticos, caso fosse necessário. A insuficiência de louça era não apenas um sinal de que naquela casa nunca tinha sido realizado um
umsebenzi, mas também da juventude da anfitriã, uma mulher com menos de 40 anos -
nas casas de pessoas mais velhas jamais faltam copos, pratos ou talheres, mesmo que 200 pessoas sejam recepcionadas, e sempre pode-se contar com a louça emprestada de algum parente. Os potes - neste caso, a louça - são “conteiners” das relaçõe sociais (Forni, 2007). índices dos “presentes” recebidos em diferentes ocasiões, afirmam a quantidade de umsebenzi realizado numa casa e, consequentemente, a extensão das relações sociais daquelas pessoas.
Ao final da refeição, chegou o momento de comer a carne de cabra cozida, que foi servida juntamente com o ugeqe [traduzido pelas pessoas como “pão tradicional”]. Uma parte da carne da cabra assada já havia sido posta sobre uma bandeja de madeira no
umsamo e a outra fora consumida pelos familiares da casa antes que os vizinhos
chegassem para o umsebenzi.
Por fim, vieram os amakhekhe [biscoitos] e o pudding [uma espécie de pão cozido na panela, como o ugeqe, mas doce, acrescido de canela e passas, ligeiramente semelhante a um panetone], Para beber, foi servido um ponche, feito com vodka e ju si [neologismo para juice, suco], além da umqobothi [cerveja ofertada aos ancestrais] - que normalmente não é consumida acompanhada por nenhum alimento.
A maior parte dos convidados eram os vizinhos de Thembeni em Madadeni. E, com exceção das pessoas da casa, não havia nenhum outro Kubheka. Geralmente, os vizinhos participam do umsebenzi, mas nunca são os convidados por excelência. Naquela ocasião, no entanto, os papéis de todos estavam invertidos - os Kubheka na casa de Thembeni e os vizinhos eram o sparents in law de Mangaliso, já que a casa de Madadeni era a casa dos pais de Sesi em Thokosa e Bongiwe era Sesi.