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Chapitre VI. Résultats : l’expression du déplacement chez les locuteurs natifs

6.4 Synthèse comparative des données natives

A evolução do significado de cultura no debate entre estes dois países marcou a formação das duas concepções de cultura que estão na base dos estudos das Ciências Sociais. O entendimento francês de cultura como característica do gênero humano deu origem ao conceito universalista. Já a concepção alemã da cultura como conjunto de características que constituem o patrimônio de uma nação de forma definitiva e fundadora de unidade origina o conceito particularista da cultura.

Em fins do século XVIII e início do século XIX, o termo alemão kultur e a noção francesa de civilization foram sintetizados por Edward Tylor (1832 – 1917) no vocábulo inglês culture, definido por ele como: ―este todo complexo que inclui

conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade‖. (LARAIA, 2009, p.25). Sua definição abrange em uma palavra todas as possibilidades de realização humana, marcando fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à ideia de aquisição inata e natural. O conceito de cultura como utilizado nos dias de hoje foi definido pela primeira vez por Tylor, que foi considerado o fundador da Antropologia.

Para Laraia (2009), o conceito antropológico de cultura vai ter um conteúdo puramente descritivo, afastando-se de dizer o que é a cultura e atendo-se a descrever o que ela é tal como parece nas sociedades humanas. Esta definição aponta a cultura como expressão da totalidade da vida social do homem, caracterizando sua dimensão coletiva. O pensamento de Tylor é herdeiro do Iluminismo, aderindo igualmente à concepção universalista da cultura dos filósofos do século XVIII.

Taylor se defronta com a ideia de natureza sagrada do homem, apontando como um dos obstáculos para a compreensão humana às concepções teológicas e metafísicas. Mais do que preocupado com a diversidade cultural, Tylor a seu modo preocupa-se com a igualdade existente na humanidade. A diversidade é explicada por ele como o resultado da desigualdade de estágios existentes no processo de evolução. Assim, uma das tarefas da Antropologia seria a de ‗estabelecer, grosso modo, uma escala de civilização‘, simplesmente colocando as nações europeias em um dos extremos da série e em outro as tribos selvagens, dispondo o resto da humanidade entre dois limites (LARAIA, 2009, p.32). O autor desejava provar a continuidade entre cultura primitiva e a cultura mais avançada contra os que estabeleciam uma ruptura entre o selvagem e pagão, e o civilizado e monoteísta. Ele se esforçava para demonstrar o elo essencial que os unia e a inevitável caminhada do selvagem em direção ao civilizado.

Laraia (2009) alerta que, para entender Tylor, é necessário compreender a época em que viveu e consequentemente o seu background intelectual. ―O seu livro foi

produzido nos anos em que a Europa sofria o impacto da Origem das espécies, de Charles Darwin, e que a nascente antropologia foi dominada pela estreita perspectiva do evolucionismo unilinear‖ (LARAIA, 2009, p.33). Porém, o evolucionismo de Tylor não excluía certo sentido da relatividade cultural. Sua concepção do evolucionismo não era rígida, ele não estava convencido totalmente do paralelismo total na evolução cultural das diferentes sociedades.

Contrário à concepção evolucionista, Franz Boas (1858-1942), segundo Laraia (2009), foi um dos pesquisadores que mais influenciaram o conceito contemporâneo de cultura na antropologia americana. Ele é apontado como o inventor da etnografia por ter sido o primeiro antropólogo a fazer pesquisas com observação direta das sociedades primitivas. Laraia (2009) aponta que Boas, em seus estudos, concluiu que a diferença fundamental entre os grupos humanos era de ordem cultural e não racial ou determinada pelo ambiente físico. Sendo assim, defendia que, ao estudar os costumes particulares de uma determinada comunidade, o pesquisador deveria buscar explicações no contexto cultural e na reconstrução da origem e da história daquela comunidade. Assim, dessa constatação, Laraia (2009), conclui o reconhecimento da existência de culturas, no plural, e não de uma cultura universal.

As reflexões que realizei até o momento levam-me a concordar com Laraia (2002), quando ele diz que ―a discussão não terminou – continua ainda – e,

provavelmente nunca terminará, pois uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana, tema perene de uma incansável reflexão humana.‖ (LARAIA, 2002, p.65).

Por ora, o que já me foi possível discutir serve de fundamentação para compreender as concepções de cultura que permeiam o projeto de formação cultural da ONG em análise. Sendo assim, com a exposição que realizei até o momento sobre os laboratórios e projetos da Fundação Casa Grande, percebi que a ONG traz nas atividades que ela desenvolve uma mistura entre as duas concepções mais predominantes do conceito de cultura nas ciências sociais: a universalista e a etnocêntrica.

Da dimensão universalista, que se mostra de forma mais homogênea, a Casa Grande utiliza-se da valorização das artes e do intelectual. Com o cuidado em relação à qualidade das músicas que tocam na rádio Casa Grande FM, como também de todo o conteúdo que é veiculado pela ONG. A fundação se alinha também à oposição do processo de industrialização da cultura e dos objetivos ―alienadores‖ dessa industrialização, características marcantes da dimensão universalista do conceito, mas também próxima a ritica a industria cultural ou ao imperialismo norte-americano, be, difundidos no Brasil e incor´porados pelos movimentos de esquerda no pais e na America Latina.

Com um cunho mais particular da natureza antropológica, a dimensão etnocêntrica também pode ser observada na atuação da Fundação Casa Grande quando esta volta o olhar das atividades que realiza para o cotidiano e o local da cidade de Nova Olinda e, consequentemente, da região do Cariri. É importante alertar que esse olhar produz, de certa forma, uma projeção desse cotidiano e desse local, à medida que é uma visão pré-concebida pela ONG e não dá conta da cultura local de todos daquele lugar.

Dessa forma, surgem-me pistas das reflexões futuras desta pesquisa. A primeira, a ser feita ainda neste capítulo, é o fato de a ONG Fundação Casa Grande colocar a cultura à frente de todos os projetos que ela realiza, utilizando-a como solução para as temáticas educativas, o que exige uma discussão sobre a instrumentalização da cultura.

A segunda reflexão é o que a ONG define como cultura local e qual contexto influencia essa definição. Essa discussão só será feita no terceiro capítulo, mas é possível adiantar algumas possibilidades dessa reflexão. Por ora, destaco que a ONG trabalha com os sentidos de autêntico e de local, ligados às vertentes universalista e

etnocêntrica respectivamente, resultando numa visão para a cultura da cidade na qual ela se situa como uma cultura local e autêntica, sem influências do massivo.

Antes dessas discussões acima citadas, analiso mais detalhadamente dois dos projetos da Fundação Casa Grande nos quais pude perceber melhor essas concepções de cultura: Formação de Plateia e Casa Grande FM.

2.4 O projeto de formação cultural da ONG Fundação Casa Grande

Tenho contato com a ONG Fundação Casa Grande e as atividades que ela desenvolve há 12 anos. Desde que viajei até Nova Olinda em 2002 para ministrar uma oficina de rádio por intermédio do projeto de extensão PARC, acompanho, mesmo que de longe, a atuação da ONG. Complementando esse acompanhamento, está a leitura de pesquisas realizadas sobre os mais diferentes programas e laboratórios da Fundação Casa Grande. Pesquisadores como Acioli (2002), Oliveira (2007) e Noronha (2008) trazem, em suas pesquisas, descrições dos projetos da Fundação Casa Grande que norteiam como, de fato, é a atuação da ONG. A pesquisa sobre o programa Submarino Amarelo, programa infantil da grade de programação da rádio comunitária Casa Grande FM, que realizei na monografia, também contribuiu para as reflexões que inicio agora.

O contato permanente, a leitura de outras pesquisas e a observação mais constante em 2012 e 2013 direcionaram meu olhar para o projeto de formação cultural da ONG Fundação Casa Grande, objeto desta pesquisa para compreender a relação existente entre a instituição e os jovens moradores da cidade de Nova Olinda. O laboratório do programa de comunicação rádio comunitária Casa Grande FM e o projeto de formação de plateia, que envolve vários laboratórios, são, das atividades da Casa Grande que acompanhei mais de perto na pesquisa de campo, as duas que percebi mais detalhadamente elementos que constroem a concepção de cultura na atuação da ONG. Tomo, então, as experiências vividas com essas duas atividades como amostragem para as concepções de cultura mais presentes na proposta educativa da Casa Grande como um todo.

2.4.1 Casa Grande FM, a rádio que educa

Apesar de já ter estudado a rádio comunitária Casa Grande FM e ter lido algumas pesquisas sobre a mesma, foi somente no primeiro ano do mestrado que lancei

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