Em decorrência da natureza e complexidade do objeto de estudo em questão, optamos por valorizar a multiplicidade de perspectivas e pensamentos por considerarmos que, salvaguardadas as distinções, possibilidades inúmeras de articulações em diferentes planos, que englobassem desde o plano conceitual até o operacional, desembocariam em um melhor entendimento dos problemas práticos. Desse modo, utilizamos os preceitos da triangulação, expressos neste trabalho mediante imbricamento metodológico, por acreditarmos que “em lugar de rejeitar a priori um estudo quando desenvolvido a partir de outra perspectiva, conviria considerar a possibilidade de empregar outras perspectivas teóricas como estratégias complementares” (BOSI; MERCADO, 2007, p. 45).
Nessa direção, o reconhecimento de que “a ‘triangulação’ não representa um conceito metodologicamente integrado, mas uma metáfora com um vasto campo semântico” (DUARTE, 2009, p. 3-4) é legitimado nesse trabalho, expressando não uma limitação do modelo, mas uma possibilidade crítica de posicionamento frente à escolha metodológica realizada.
Assim, diante da amplitude de interpretações que permeiam o conceito de
triangulação, destacamos o pensamento de Samaja (1992) com a defesa da
interdisciplinaridade (perspectiva integral) como um dos seus fundamentos básicos, assinalando a necessidade de se dialetizar o tratamento das diferentes metodologias como estratégia de investigação. Aliada a esta questão, Minayo (2010, p. 362) concebe a
triangulação como uma técnica “particularmente recomendada para estudos de avaliação”,
por permitir aprofundar diversas facetas de um mesmo fenômeno via discussão interdisciplinar, interativa e intersubjetiva.
As considerações tecidas por Denzin (1989) na delimitação de quatro tipos diferentes de “triangulação”: a “triangulação de dados”, a “triangulação do investigador”, a
“triangulação teórica” e a “triangulação metodológica”, da qual nos utilizaremos aqui da
noção de “triangulação metodológica” - uso de múltiplos métodos/técnicas para estudar um
determinado problema de investigação - encontra-se também expresso neste trabalho. A opção das pesquisadoras em utilizar diferentes técnicas ao longo do estudo, a saber: análise
documental, observação livre e realização de entrevistas visou à superação do enfoque
dicotômico, que acirra e legitima o debate distintivo entre quanti e quali; entre macro e micro; entre interior e exterior; entre sujeito e objeto (MINAYO, 2010). Para tanto, propusemos o intercambio de métodos e técnicas como uma potencialidade dos estudos de natureza qualitativa, estando, pois em consonância com o referencial teórico metodológico desta dissertação.
3.4.1 Análise Documental
A técnica de análise documental consistiu na leitura, sistematização e integração de diversas fontes de informações pertinentes à pesquisa no desenvolvimento do trabalho. Assim, foram analisados documentos oficiais tais como: a Portaria GM 154, de 24 de janeiro de 2008, que regulamenta o NASF; o documento intitulado “Diretrizes do NASF”, elaborado pelo Ministério da Saúde; a Portaria nº 2.488, de 21 de outubro de 2011 que aprova a Política Nacional de Atenção Básica; a Portaria 4.279 de 30 de dezembro de 2010 que estabelece as diretrizes para a estruturação da Rede de Atenção à Saúde (RAS) no âmbito do SUS; a Portaria nº 3.088, que regulamenta a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com vistas à organização e reestruturação dos serviços de cuidado em saúde mental e demais documentos fornecidos pela Secretaria de Saúde de Fortaleza-CE, etc28.
A referida análise visou uma melhor compreensão dos fundamentos, estruturação e funcionamento das atividades realizadas no âmbito da saúde mental na atenção básica de Fortaleza-CE, possibilitando assim confrontar conteúdos normativos vigentes em leis e documentos técnicos com o observado na realidade cotidiana dos serviços, via observação livre, bem como nos discursos dos profissionais submetidos à entrevista.
28 A sistematização das informações obtidas mediante análise documental encontra-se diluída ao longo do corpus
deste trabalho, integrando principalmente os capítulos referentes ao marco teórico e resultados e discussão da presente dissertação.
3.4.2 Observação Livre
Além da análise documental, optamos por realizar observações do tipo livre, as quais consistem em “recolher e registrar fatos da realidade sem que o pesquisador utilize meios técnicos especiais ou precise fazer perguntas diretas” (LAKATOS; MARCONI, 2010, p. 276). Esta estratégia, também conhecida por observação não sistemática, permitiu o contato com o que irrompe na realidade estudada, mostrando-se uma ferramenta favorável ao entendimento de rotinas e da dinâmica de interação entre os profissionais (crenças, comportamentos, relações de poder, hierarquização de saberes, pontos discordantes, modo como se dão os diálogos, instalações físicas, material, disponibilidade de recursos, apoio institucional, etc.).
Muitos autores consideram a observação um artifício essencial do trabalho de campo na pesquisa qualitativa (MINAYO, 1994/2010; VÍCTORA, 2000), uma vez que explora elementos que não podem ser apreendidos por meio da fala ou da escrita. Para Triviños (2006) as aproximações iniciais com o objeto, entendidas como “contemplação viva” do fenômeno, são partes constituintes da pesquisa dialética, uma vez que ajudam a identificar diferenças, contrastes e rupturas de sentido.
Nessa direção, foram realizadas observações livres da dinâmica do centro de saúde pesquisado durante os meses de novembro e dezembro de 2011, totalizando 18 encontros. As observações abrangeram diversas atividades presentes no cotidiano do serviço, a exemplo de reuniões de equipe, rodas de gestão, discussões de casos envolvendo equipe SF e NASF, dinâmica de atendimento, sala de espera, visitas domiciliares, atividades comemorativas, etc.29 Cada visita à unidade teve duração média de 4 horas, durante três vezes por semana, completando aproximadamente 72 horas de observação das atividades do serviço.
Cabe salientar que as observações foram registradas em diários de campo, favorecendo assim a descrição de fatos, conversas informais, práticas de saúde, contextos e realidades observadas, assim como serviram para o registro de impressões, vivências e afetos da mestranda, emergidos durante a etapa de campo.
29 Mesmo sendo considerada uma atividade relevante para a pesquisa, não foi possível a participação da
mestranda em nenhum encontro de Apoio Matricial. Segundo relato dos profissionais, a unidade não contava com a ação há aproximadamente 2 (dois) meses, sendo atribuídas as seguintes causas para a não realização da atividade: data do encontro coincidiu com as férias da psiquiatra; mudança de horário do carro disponibilizado pela Regional para o transporte da equipe do CAPS, o que gerou incompatibilidade de agendas. Durante o mês de dezembro também não houve reunião de apoio matricial, totalizando 3 (três) meses sem a ação.
3.4.3 Entrevistas
Para a apreensão dos depoimentos dos participantes da pesquisa foram realizadas entrevistas com todos profissionais da equipe Saúde da Família descritos anteriormente, tendo sido gravado o conteúdo de suas falas após consentimento. O roteiro com as perguntas condutoras das entrevistas baseou-se no modelo de entrevista individual semiestruturada30, com perguntas abertas (FLICK, 2009a).
De um modo geral, as questões constituintes deste tipo de entrevista são respondidas dentro de uma conversação informal, dialógica, na qual o entrevistador e o entrevistado têm a liberdade para desenvolver cada situação na direção que considera adequada (MINAYO, 2010; POUPART, 2010). Nesse sentido, por se tratar de uma modalidade de investigação que possibilita “conhecer o significado que o entrevistado dá aos fenômenos e eventos de sua vida cotidiana, utilizando seus próprios termos” (LAKATOS; MARCONI, 2010, p. 278), o uso da entrevista do tipo semiestruturada vai ao encontro do referencial teórico metodológico norteador da presente dissertação estando, pois, de acordo com os preceitos da pesquisa qualitativa de vertente crítico interpretativa.
A opção por essa modalidade de entrevista fundamentou-se, dentre outras razões, na consideração feita por Gadamer (2008) acerca do conceito de “conversação”, entendido como um processo favorável ao entendimento em profundidade de determinados fenômenos. Nas palavras do autor, “toda verdadeira conversação implica nossa reação frente ao outro, implica deixar realmente espaço para seus pontos de vista e colocar-se no seu lugar” (GADAMER, 2008, p. 499).
Objetivando colocar em prática o conceito de conversação proposto por Gadamer (2008), utilizamos, para obtenção do material discursivo, um roteiro de entrevista composto por perguntas abertas, o qual se fundamentou na seguinte questão norteadora: “Fale-me um pouco sobre o modo como vem se dando, em sua equipe, as experiências em saúde mental desenvolvidas com os profissionais do NASF”. A partir das considerações feitas
pelos entrevistados, novas questões puderam ser colocadas, desdobrando assim a conversação em novas perguntas e aprofundamentos.
Além das questões relacionadas às ações de saúde mental desenvolvidas com o NASF, o roteiro também contemplou questões referentes à formação, trajetória e prática dos
30 O roteiro de entrevista semi estruturado, utilizado por nós no estudo, encontra-se no Apêndice C desta
profissionais entrevistados, assim como sentimentos e significados decorrentes da experiência do trabalho na ESF.
As entrevistas foram realizadas pela mestranda no próprio centro de saúde e registradas em gravador de áudio. As gravações foram iniciadas apenas após o consentimento dos profissionais convidados mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)31. Em momento posterior, as entrevistas foram transcritas, em sua maior parte pela mestranda, ficando as transcrições feitas por terceiros sob supervisão da mesma, que seguidamente executou adaptações e correções32. O tempo médio de conversação das entrevistas foi de 36 minutos, descartando-se as interrupções e comentários não ligados à temática da pesquisa.