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Switching Characteristics

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Muitas situações de distração, indisciplina e inquietude que são da competência da escola acabam sendo “terceirizados” para outras esferas de conhecimento como a: Medicina, Psiquiatria, Neurologia e outras. Por isso, muitas vezes, o fenômeno da indisciplina é explicado “como uma doença que deve ser curada com remédios. Então, prescreve-se ritalina para todos. A indisciplina vira problema para especialistas, médicos ou psicólogos, e deixa de ser um problema que concerne ao professor ou aos pais” (PARRAT-DAYAN, 2008, p. 6). Disso, resulta uma proliferação de ideias e muitas classificações que evidenciam um problema, no qual os alunos são alocados em diagnósticos de hiperatividade/desatenção, dislexia, transtorno opositivo-desafiador (TOD), transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), sem ao menos se ter a clareza e o suficiente entendimento para encaminhamentos específicos. Além disso, o modo como se chegam aos diagnósticos é preocupante e apresenta riscos aos alunos (RICHTER, 2012).

Os diagnósticos são realizados – algumas vezes – por meio de questionário e, por vezes, de uma maneira simplista. É aplicado pelo médico aos pais e professores e eventualmente ao paciente – podendo incluir testes neuropsicológicos, o teste é realizado por meio de perguntas com graus de intensidade como “nada”, “pouco” ou “muito”, para quesitos como, por exemplo, “fala em excesso”. Richter (2012, p. 12) questiona: “Como é possível quantificar ‘o falar em excesso’?” e complementa que o teste pode ser “passível de erro”, uma vez que depende do momento e de juízo de valor. É preocupante, uma vez que, alguns casos de alunos que apresentam atos indisciplinados ligados às relações sociais são deslocados para uma possível resolução médica, isto é, “fenômenos de origem social e política são convertidos em questões biológicas, próprias de cada indivíduo” (MEIRA, 2012, p. 136), reduzindo-se as diversas variáveis existentes.

Os professores almejam a ordem e o controle, os alunos o desvio das atividades e novas abordagens metodológicas ou pelo menos algo que faça sentido na escola. Assim, os discursos de professores em relação a comportamentos tidos como disruptivos acabam sendo estereotipados em TDAH e Transtorno opositivo-desafiador (TOD), que acabaram invadindo o espaço escolar e responsabilizando o aluno pela sua falta de atenção e a recorrência de medicamentos para o suposto tratamento.

O TDAH se apresenta em três bases importantes, sendo elas a desatenção, a hiperatividade e a impulsividade. A desatenção apresenta-se por alguns sintomas: dificuldade em prestar atenção às atividades escolares; não seguir as instruções dadas pelo professor; dificuldade de organização das tarefas escolares; desviar o foco em outras atividades alheias à tarefa proposta e esquecimento de situações diárias. A hiperatividade tem como sintoma: a agitação; o ato de levantar da cadeira sem motivo aparente; a ação de correr em situações que não são habituais e o falar demasiadamente. A impulsividade tem como característica: se antecipar a fatos, de responder a perguntas que ainda não foram elaboradas; na dificuldade em esperar a vez ao falar ou fazer alguma atividade prática e, por vezes, se intrometer ou interromper assuntos alheios. (ROHDE et. al, 2000). A questão não é negar que não aconteçam casos pontuais, mas incorre-se no erro de generalizar as situações de TDAH e minimizar as discussões em torno da indisciplina escolar.

A indisciplina é uma situação que também ocorre nas escolas e que, por vezes, pela falta de ação dos professores e demais profissionais incorrem na medicalização. Acaba-se “terceirizando” a gestão do problema e levando a possíveis soluções médicas que talvez não fossem necessárias, caso houvesse uma conversação e atuação por parte dos profissionais da escola. Torna-se “cômodo” levar o assunto para uma resolução por meio de remédios e terapias e tranquilizam-se as pessoas do entorno, pois nesses casos haveria um tratamento para uma solução ((MEIRA, 2012).

Outro exemplo é o TOD, que pode se dizer que é confundido com atos indisciplinados, mas que não são a mesma coisa. Há alguns sintomas que definem o conceito do transtorno e as ações dos indivíduos que se seguem: o sujeito exalta-se com frequência; discute e afronta figuras de autoridade “culpa os outros pelos seus próprios erros; sente-se ofendido com facilidade; tem respostas coléricas quando contrariado; é rancoroso e vingativo quando desafiado ou contrariado” (APA, 1995). Pode-se notar que há uma diversidade de situações que podem ocasionar o sintoma, mas que, por vezes, se confunde novamente com outras situações similares a da indisciplina e que podemos perceber que não se limitam ou se restringem ao espaço escolar.

A indisciplina no contexto escolar está ligada à relação com as regras e normas e à recusa ou esquiva dos alunos perante essas. O aluno pode contrariar as regras, não entender as regras ou não ser informado sobre as regras da escola, assim, quando há uma situação que difere com as normas, ocorrem os atos indisciplinados. Podendo ser confundido com outros temas com a hiperatividade e o TOD. As regras e normativas escolares normalmente não são (re)discutidas, estando a muito tempo defasadas e já não mais atendendo aos valores e ensejos

do mundo contemporâneo. Assim, a escola acaba constituindo-se como uma estrutura que resguarda os moldes tradicionais, um espaço institucionalizado hierárquico e normativo. Tais normatizações cerceiam e fazem com que não se coloque responsabilidade aos alunos e muito menos aos educadores, principalmente em questões pontuais da escola, como a relação de ensino e aprendizagem, que vem sendo uma das principais dificuldades do espaço escolar (ESTRELA, 2002). Numa visão pragmática, as normas heterônomas acabam deixando a desejar aos educadores, ocasionando conflitos e desajustes no meio educacional. Muitas vezes, a sala de aula se apresenta como uma geopolítica imaginária (AQUINO, 1996b), com demarcações entre professores e alunos, ambos buscando seu espaço numa batalha simbólica por lugares instituídos.

A “onda” de terceirização na gestão dos conflitos prejudica ainda mais as tensões nas escolas e tem como base as ações precipitadas adotadas pela escola para resolver os casos de indisciplina escolar, decorrentes da resolução externa da indisciplina (FERREIRA; ROSSO, 2014; FERREIRA; SANTOS; ROSSO, 2016; SANTOS; ROSSO, 2014). A infinidade de distorções e incompreensões em torno da indisciplina escolar pode acarretar na resolução imediatista e em alguns casos na banalização dos atos indisciplinados, o que acaba dispensando a escola de sua responsabilização e conduz a pareceres de especialistas (PARRAT-DAYAN, 2008), na crescente medicalização desenfreada e descuidada do alunado brasileiro (MEIRA, 2012); da resolução pelo conselho tutelar (FERNANDES; ARAGÃO, 2011); da polícia na escola (BERLATTO, 2011) e demais pessoas e instituições, muitas vezes, alheias às práticas educacionais.

A relação de professores e alunos, muitas vezes, é conflituosa, mas uma possível medicalização está invadindo o espaço escolar a fim de “combater” os atos disruptivos dos alunos. Porém, muitos sintomas apresentados em sala de aula não seriam ações comuns de desobediência estudantil, próprias da adolescência? Quem sabe somente atos indisciplinados que ocorrem no meio escolar relativo à recusa das normas? Ou, como questiona Meira (2012), advertindo sobre as expressões desafio e oposição, a que tipo de ordem desobedecem os sujeitos? Qual o propósito da oposição? Quais regras são desafiadas? Não podemos negar o fato de distúrbios patológicos que exigem uma análise de profissionais na área, mas vale advertir para o fato da crescente medicalização no meio escolar, que é “altamente vantajosa para a indústria farmacêutica, que vem cada vez mais vem ocupando um lugar central na economia capitalista” (MEIRA, 2012, p. 136).

A “onda” da terceirização do trabalho pedagógico é extremamente grave, uma vez que a resolução se dá fora do ambiente escolar. Assim, situações pertencentes à escola são

revertidas em práticas avessas ao processo de ensino e aprendizagem, o que possivelmente não trarão resultados positivos, mas possíveis e eventuais reincidências dos atos transgressores, já que se recusa o diálogo e a conversação em relação aos fatos ocorridos.

A indisciplina escolar analisada na sua forma positiva, criativa e de contestação é pouco estudada nas pesquisas (GOLBA, 2008) e prevalecem estudos sociológicos, psicológicos, ora culpabilizando a família, ora culpando a escola. Por isso, ao dilema da indisciplina não cabe ficar achando culpados ou até mesmo terceirizar a discussão, é necessário problematizar e abrir um leque de possibilidades e novas teorias educacionais, a fim de se chegar a apontamentos que favoreçam encontrar caminhos para uma possível minimização dos atos indisciplinados de modo mais colaborativo e não na sua medicalização a todo custo.

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