A convivência no ambiente escolar entre alunos e professores de uma forma hostil pode desgastar o processo de ensino e aprendizagem. Nesse espetáculo da vida escolar, semelhante à metáfora da peça teatral de Goffman (2007), na qual cada grupo exerce papéis que lhes são atribuídos, vividos e esperados pelos sujeitos no cotidiano, as pessoas agem de acordo com funções que lhe são conferidas na sociedade. Quando há um desvio de alguma das partes na relação das condutas socialmente construídas, os problemas parecem surgir e causar conflito nas relações interpessoais e um deles seria a indisciplina escolar.
A questão da indisciplina em sala de aula, “protagonizada pelos alunos na sua relação com os professores, representa o que é considerado, pelos olhares dominantes, um sintoma de inadequação dos alunos ao seu papel social” (COSTA, 2012, p. 7). Há uma determinada padronização e rotulação nos discursos que medeiam as relações escolares de que o aluno seja disciplinado, que se comporte e exerça sua função que seria a de estudar, se comportar e prestar atenção na aula .
A própria escola, sendo uma instituição, possui determinadas normas e regras de conduta que exercem certo controle e determinam as condutas individuais com finalidades objetivas de poder. Quando o aluno não faz o seu “papel”, a escola faz o seu punindo quem foge a sua normativa. Contudo, esses papéis não são encenados de maneira estanque, as expectativas e necessidades de alguns papéis não são aqueles socialmente tidos como aceitáveis e são negados e/ou rejeitados (GOFFMAN, 2007).
Quando um sujeito se apresenta a outra pessoa, nas conversações diárias, tenta se apresentar de maneira (des)interessada para tentar compreender e obter informações a respeito. Da mesma forma, como ocorre na escola, os alunos sempre perguntam se o professor é casado, onde reside, se tem filhos e assim por diante. A informação a respeito do indivíduo serve de base para definir a situação, ou seja, a fim de conhecer o outro. Da mesma forma, os professores o fazem quando perguntam o nome dos alunos, o que pretendem no futuro, suas expectativas, entre outras situações. Nessa cena dramatúrgica da realidade social, ambos assumem papéis no contexto escolar, esperando-se que o aluno assuma seu papel de aluno, isto é, que seja participativo, interessado, disciplinado, assíduo e comportado na visão dos professores. Nessa dramaturgia escolar, a representação dos atores escolares é de fuga, um escape aos papéis que lhes são atribuídos no contexto escolar. Ao aluno caberia o papel de estudo, de participação e de ação na sala de aula. Aos professores, o papel de mobilizadores, de facilitadores ao promover a participação dos alunos nas atividades. Às pedagogas, o papel de mediadora entre professores e alunos e à direção o papel de fiscalizadora dessas situações.
Os alunos criam expectativas em relação ao outro, espera-se que o professor explique, interaja, construa e chame à atenção dos alunos, por meio de interações que ocorrem cotidianamente assumindo papéis distintos em lugares próximos ou afastados. Porém, em alguns casos, os papéis esperados estão sujeitos à resistência e ao conflito (GOFFMAN, 2007), pois as ações de cada grupo não ocorrem de maneira desinteressada, por exemplo, quando um professor não toma uma atitude em sala de aula com um aluno igualmente como faria com seu filho em casa, são momentos distintos e que se modificam ao longo do tempo. Outro exemplo são os alunos indisciplinados que apresentam comportamentos “disciplinados” em relação a determinadas aulas e professores. Dessa forma, a indisciplina pode variar de aula para aula, isto é, nem todo aluno é indisciplinado em todas as aulas as quais ele terá no mesmo dia (FERREIRA, 2014). A vida cotidiana se assemelha a um palco de papéis, atribuições e representações, ou seja, o indivíduo não apresenta a mesma atitude em diversas situações.
A situação de papéis e suas atribuições são semelhantes às expectativas que os professores criam em torno dos alunos. Em estudo realizado por Rosso e Camargo (2013), por exemplo, os professores apresentam atitudes negativas em relação à família e à origem social dos alunos, o que contribui para um distanciamento entre as partes, mas que não se expressa completamente. Em muitos casos, os docentes já fazem um juízo de valor, um destino manifesto do futuro do aluno, isto é, uma profecia autorrealizadora (ROSENTHAL; JACOBSON, 1981), quando não, os professores escolhem um aluno preferido e deixam os
demais à margem do processo de ensino. O professor “boicota” uma parte da sala de aula em favor de um pequeno grupo de alunos que participa e interage com o mesmo. Assim, os diferentes “eus” no contexto escolar esbarram nas diferenças de papéis exercidos em sala de aula, não obstante, esses diferentes papéis não são encenados da forma como o outro gostaria que fosse, gerando conflitos na escola. São papéis sociais diversos, de modo que os indivíduos não são os mesmos em todas as circunstâncias diárias. Por isso, de acordo com Goffman (2007), há uma interação, uma influência recíproca e hierárquica de expectativas envolvidas nos processos da vida cotidiana.
Até mesmo a exigência em relação às tarefas escolares e ao desempenho do aluno pode variar de acordo com a expectativa do professor, ela pode ser positiva ou negativa. O professor pode auxiliar “positivamente mais as ações dos alunos aos quais credita a possibilidade de terem um rendimento melhor e, contrariamente, estimular menos aqueles alunos que já possuem um histórico de reprovação” (VIECILI; MEDEIROS, 2002, p. 235). Além disso, em alguns casos, a análise feita pelo professor pode ser influenciada por “estereótipos” e a sua perspectiva ser “modulada pelo perfil de sua turma” (SOARES et. al., 2010, p. 169). O professor de antemão traça um perfil ideal de aluno e elege alunos “preferidos” que apresentam um melhor desempenho nas atividades e outros “periféricos”que ficam a margem do processo e que acabam sendo negligenciados no desenvolvimento de ensino e aprendizagem.
A representação do professor em relação ao aluno indisciplinado ou disciplinado funciona não só como um filtro, direcionando o docente a interpretar o que os estudantes fazem, mas também como um meio de lidar com as aprendizagens e de reagir de forma diferente ante seus progressos e dificuldades. Os indivíduos nas interações “representam”, semelhante a atores em uma peça teatral, com conceitos relacionados ao teatro, como: desempenho, cenário, expressão e plateia (GOFFMAN, 2007).
Goffman (2007) afirma que grande parte do comportamento cotidiano é semelhante ao de atores no palco, sendo que os indivíduos e os grupos estão constantemente representando uns para os outros. A trama ocorre em três regiões coexistentes: a região de fachada, a região dos bastidores (ou região de fundo) e a região do exterior. A primeira região seria o local onde ocorre a interpretação e a ação dos sujeitos. No caso da relação entre professor e aluno, a escola seria o espaço onde ocorrem essas interações. O professor tenta fazer com que os expectadores, no caso, os alunos, acreditem “que o personagem que veem, no momento em questão, possui os atributos que aparenta possuir” (SALVINI; SOUZA; MARCHI-JÚNIOR, 2015, p. 562). A segunda região, dos bastidores, é onde a representação expressa algo que não
precisa estar mais escondido, por exemplo, no caso dos docentes, seria a sala de professores, na qual agem de forma aberta, descontraída, falam dos alunos, das políticas públicas estaduais, etc. Nesse espaço, a representação “pode expressar algo além de si mesma” (SALVINI; SOUZA; MARCHI-JÚNIOR, 2015, p. 562), é o aqui “onde as ilusões e impressões são abertamente construídas, pois, o ator pode descontrair-se, abandonar a sua fachada, abster-se de representar e sair da personagem” (SALVINI; SOUZA; MARCHI- JÚNIOR, 2015, p. 562). Nessa região, as práticas surgem de maneira desinteressada e mais aberta, sem a necessidade de meandros em torno das suas ações. Por fim, a região do exterior pode ser também chamada de “o lado de fora”, por exemplo, pode ser que uma representação seja influenciada por “estranhos”, no caso das escolas, pode ser na forma de agentes públicos que interferem na política pública da escola, pelos familiares que podem inibir a prática docente. São ações exteriores ao contexto em que ocorrem as cenas dos atores escolares que podem causar estranhamentos e surgirem problemas nas impressões (GOFFMAN, 2007).
A relação do-discente é marcada pela interação, isto é, pela influência recíproca dos sujeitos em contato diário, estabelecida de acordo com uma prévia de hierarquias e expectativas nos encontros diários. Cada relação acontece a partir de (des)acordos e negociações numa dada interação, na qual o indivíduo apresenta o eu (self) em relação a impressões anteriormente estabelecidas, a fim de alcançar objetivos posteriores. Assim sendo, as interações sociais se estabelecem com a plateia de modo que os atores reunidos em grupos, ou não, atuam de acordo com as suas expectativas (GOFFMAN, 2007).
A indisciplina ocorre na escola, mas extrapola os muros escolares, uma vez que alunos, professores e pedagogas, incluem nas suas explicações a família e a sociedade como coresponsáveis pela indisciplina. Todas essas expectativas aliadas à metáfora da peça teatral podem auxiliar na compreensão e nos desafios lançados pelos conflitos relacionados à indisciplina escolar.