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3.2 Capteur multi-caméras

3.2.2 Support tri-caméras

Os protestos que ocorreram em Portugal entre a GAR e o QSLT estiveram inseridos numa vaga internacional denominada por Donatella della Porta como "movimentos de crise" (crise económica e política) que começou com as revoltas na Islândia em 2008 (della Porta, 2015a: 2, 3):

Outubro de 2008 – início dos protestos semanais em frente ao parlamento da Islândia; 25 de janeiro de 2011 – inicio dos protestos na Praça Tahrir, Cairo, Egito; 12 de março de 2011 – manifestação da GAR em Lisboa, Portugal; 15 de maio de 2011 – inicio da Acampada nas Portas do Sol em Madrid, Espanha; 28 de maio de 2011 – inicio da Acampada na Praça Syntagma, Atenas, Grécia; 17 de setembro – início do OWS, Nova Iorque, Estados Unidos.

Todos estes momentos foram marcantes na abertura de ciclos de protesto nos respetivos países, num contexto de grande contágio dos reportórios de contestação que deram lugar a dinâmicas diferenciadas. Anteriores dinâmicas haviam levado a que as diferenças nacionais se tivessem apagado e dado lugar a "movimentos sociais globais" (Tilly, 2007: 21-22), mas com as mudanças ocorridas neste período essa tendência já não se verificou. No discurso popular há pouco entendimento de como os problemas do quotidiano se ligam a estruturas mais amplas (Hall, 2013: 19). "Os grupos sociais subalternos não lutam por ideias abstratas" (Godinho, 2017: 352) e apesar de estarem inseridas numa crise estrutural do neoliberalismo global, os protestos tenderam a ter alvos mais localizados. A mudança ocorrida neste período foi no sentido inverso ao dos movimentos

globais, verificando-se o recentramento das contestações nos palcos domésticos, a reivindicação da recuperação das bases dos sistemas democráticos nos diferentes Estados-Nações.

No contexto das democracias ocidentais dominadas pelo capitalismo neoliberal, o Estado- Nação passou a estar cada vez mais despojado de poder, o qual se evaporou na realidade dos fluxos supra-nacionais do capital-global, na rede de produção global. Criando um paradoxo no coração da sociedade democrática capitalista: os representantes eleitos – dos quais ainda se espera que oiçam as necessidades dos constituintes – estão condicionados pelos constrangimentos estruturais impostos pela globalização e a financiarização, tornando-se por isso cada vez mais incapazes de o fazerem, o que leva a um sentimento de não representatividade (Roos, 2015: 122).

Em reação a essa realidade de complexos condicionamentos transnacionais que contornaram as instituições democráticas e determinaram medidas de empobrecimentos das populações, as grandes mobilizações populares foram no sentido inverso, da reação direta a alvos mais próximos, reivindicando uma relegitimação das instituições democráticas de base.

Desde a crise financeira global de 2008, registava-se um aumento da insatisfação com a democracia na Europa, com a perceção pelos cidadãos da perda de soberania e a deterioração económica. O surgimento de movimentos de indignados em países como Portugal, Espanha e Grécia ocorre na sequência do aumento do descontentamento com o modo de funcionamento da democracia (Armingeon, K. & Guthmann, 2013: 3, 4, 10). Naquilo que surgiu designado como a esfera pós-política, a democracia representativa está intimamente ligada à economia liberal e é mobilizada como forma de restringir o debate público sobre a ordem social, sobre o neoliberalismo e sobre o Estado liberal (Fominaya, 2017: 3). As reações contestatárias surgiram à revelia dessa suposta ausência de alternativas, em que a naturalização dos critérios neoliberais no senso comum permitiu apresentá-los em nome de uma suposta tecnicidade, que procurou dar uma aparência despolitizada ao ideário neoliberal.

A crise do sistema norte-americano de 2008 propagou-se à Europa na forma de uma crise das dívidas soberanas, que colocou os diferentes países em situação de ainda maior dependência e vulnerabilidade, de perda de soberania, perante instâncias internacionais que impuseram medidas austeritárias de cortes nos Estados Sociais. Apesar de as mobilizações ocorrerem dentro de diferentes quadros nacionais, todas contaram com o elemento comum de as redes da Internet terem

tido um papel fulcral no desenvolvimento de dinâmicas autónomas aos atores políticos usuais que atraíram um número muito amplo de participantes.

As redes sociais da Internet também tiveram um importante papel na difusão de imaginários, símbolos, ideais de um país para o outro e dentro do próprio país. A difusão das táticas de protesto e de ideais passam também a poder ter destaque em sites alternativos como o Indymedia (Mattoni, 2015: 282-283). Circuitos que vão para lá das narrativas e atitudes predominantes no mainstream veiculado nos mass media e que passam a assumir um papel no desenvolvimento de movimentos contra-hegemónicos.

Muitos ativistas começaram a reportar diretamente o que estava a acontecer nos protestos, nomeadamente através de live streamings (Castells, 2015: 178, 179). Este tipo de estratégia – ao denunciar em direto abusos das autoridades policiais, procurava dissuadir este tipo de comportamento e ao mesmo tempo apelava a que outros ativistas se juntassem aos protestos que estavam a ser asfixiados – teve especial relevo nos Estados Unidos, mas também em Espanha, enquanto em Portugal teve bastante menor dimensão.

Os mass media começaram por ignorar inicialmente as Acampadas mas acabaram por as tornar visíveis uma vez que as praças estavam cheias de gente (Castells, 2015:123).

O neoliberalismo descurara a proteção social e os bens coletivos, desde os cuidados de saúde ao emprego. A globalização levara ao aumento da importância das forças de mercado globais, ao mesmo tempo que limitou a importância dos atores estatais. Países periféricos da zona euro – Grécia, Portugal, Islândia, Chipre e Espanha – tornaram-se alvo de ataques dos especuladores. As ameaças criam pressão sobre os países do sul da Europa para que aceitem programas de resgate e levem mais longe a implementação de medidas neo-liberais (Kousis, 2015: 138, 139).

O aumento do desemprego, a ansiedade relacionada com o trabalho e um sentimento crescente de insegurança social, minou a fé nos representantes políticos (European Social Survey in Roos, 2015: 124). A vulnerabilidade dos cidadãos comuns surgiu como um fator capaz de ligar diversas subjetividades políticas, desde eco-feministas a ativistas sindicais, juntando velhos e Novos Movimentos Sociais apesar das suas diferenças. Os participantes nas Acampadas ou no movimento

Occupy, o equivalente surgido nos Estados Unidos, partilharam o sentimento de vulnerabilidade, de

vulnerabilidade a inibir a sua mobilidade social ascendente, levando-os a desenvolverem uma retórica anti-elite (Fadaee, 2014: 778,779).

Em Espanha, as pessoas descreviam a sua vulnerabilidade financeira como uma morte civil, que remetia para uma situação de vergonha, isolamento, nervosismo e exclusão social (Gonick, 2016: 217). Um dos aspetos fundamentais na distinção do discurso do 15M5 para moldar uma

identidade coletiva foi a aposta num antagonismo identitário, num 'nós' elástico, ambíguo, aberto e inclusivo, constituído em torno de noções de 'nós' as pessoas e cidadãos comuns, ao mesmo tempo que o movimento teve um papel crucial ao definir o 'eles' contra quem se mobilizavam (Fominaya, 2017: 14).

Os movimentos de crise ou anti-austeritários do sul da Europa enfatizaram a cidadania como uma arma de oposição às oligarquias e ao entrincheiramento no poder das elites políticas e económicas do neoliberalismo (Gerbaudo, 2017: 37). Para romper com as restrições e a apatia, os ativistas/cidadãos não pediram menos política, mas mais política. Saíram às praças para fazê-lo. A lógica dos ativistas espanhóis era "nós não somos anti-sistema, o sistema é anti-nós". Afirmaram-se como contra-hegemónicos quando procuraram uma rutura com o consenso 'pós-político' em torno da ordem neoliberal, que constrangia o Estado e a democracia representativa. Surgiram dentro de uma crise da legitimidade da democracia representativa localizada primariamente no quadro do Estado-Nação (Fominaya, 2017: 4, 9, 15). Face à crise financeira e ao condicionamento transnacional, o regresso ao Estado-Nação e ao cidadão como sujeito político central surgiram numa tentativa de contraposição e de resgate da legitimação democrática do sistema político.

Nos estudos desenvolvidos sobre os anteriores movimentos de ativismo político alter- globalização foram apontados três elementos da mobilização internacional: internalização – conflitos de origem externa têm efeitos no território doméstico; difusão – adoção ou adaptação de formas organizacionais, de ação coletiva e de objetivos; externalização – os movimentos tornam-se ativos internacionalmente (Tarrow, 2005: in passim).

Nos movimentos de crise que lhes sucederam verificaram-se sobretudo os primeiros dois elementos, com as redes de ativistas a virarem-se para os seus campos nacionais, dando lugar a uma

5 O movimento espoletado em Espanha com as Acampadas passou a ser denominado como movimento 15M,

referente à data de 15 de maio de 2011 em que ocorreu a concentração inicial que daria lugar aos acampamentos de protesto

nova situação. A tendência global de descentramento dos sujeitos e organizações já vinha sendo testada desde a década de 90. A conetividade virtual contribuiu para uma mescla com redes de afinidade e micro-confiança, em coletivos mais heterogéneos e menos centrados num sujeito político claramente delimitado (Bringel, 2015: 70).

Dez anos após a emergência do Movimento Justiça Global, a nova vaga de protesto que varreu a Europa, em sequência da crise financeira, manteve a mesma linguagem cosmopolita, reivindicando direitos globais e culpando o capital financeiro global, mas o grau de coordenação transnacional tornou-se mais baixo, dando mais importância à contestação aos governos nacionais (della Porta, 2012: 274, 275).

Enquanto no Movimento Justiça Global ativistas de países ricos frequentemente se mobilizavam em nome de outros menos afortunados e longínquos, após o crash de 2008 estas injustiças tornaram-se visíveis e próximas. As pessoas já não se mobilizam em nome de um outro abstrato mas em nome delas próprias, das suas famílias e dos seus cidadãos. Os alvos prioritários passam do supranacional e das instituições intergovernamentais, tais como o Banco Mundial e o FMI, para alvos específicos de nível nacional: as oligarquias políticas e financeiras (Fominaya, 2017: 5) Reagindo a medidas austeritárias que os afetam diretamente, passaram a estar em maior sintonia com uma ampla camada da população do seu país, mas desviaram-se dos anteriores alvos, apesar destes terem passado a condicionar ainda mais os seus espectros nacionais.

Muitos ativistas dos protestos de Seattle de novembro de 1999 contra a Cimeira da Organização Mundial do Comércio ainda continuavam ativos e trouxeram as suas visões associadas à participação radical na democracia. No anterior movimento inúmeras associações, em parte locais, em parte globais, convergiram para os protestos, criando redes em torno de causas como o desemprego, direitos de género, proteção ambiental, direitos humanos. Grupos enraizados sobretudo a nível local contribuíram, integrando redes e coligações transnacionais, com diversos ativistas a estabelecerem pontes entre o local e o global e vice-versa. Ocorreram grandes protestos sob a forma de contra cimeiras, assim como fóruns com visões alternativas sobre políticas mundiais, em torno da ideia de justiça global. Mas agora tal passa a ocorrer apenas de forma marginal. Se na altura era como que um aviso do pior que estava para vir para os grupos mais vulneráveis, neste segundo momento essa realidade já chegou (della Porta, 2015a: 4, 5).

Esta crise surge num contexto de condicionamento determinado por organizações internacionais como o FMI e a União Europeia, que já haviam sido os principais alvos dos anteriores protestos, mas agora a abordagem passa a ser a reivindicação do poder dos cidadãos dentro dos seus Estados-Nações, surgindo a soberania nacional como um desejado escudo protetor, o que dá aos diferentes protestos dimensões mais localizadas e diferenciadas.

A difusão internacional de reportórios é enorme, mas o nível de coordenação transnacional parece mais baixo. Passa a ocorrer um maior embrenhamento dos ativistas em organizações formais, mais assentes nas ligações entre sites de redes, plataformas de Internet e microblogues. Indivíduos sem anteriores filiações organizacionais e por vezes mesmo sem cultura política definida assumem um papel central. A lógica de rede na organização da mobilização foi em certa medida tomada pela lógica de agregação do nível individual dos manifestantes que se reconhecem num amplo leque de formas de ação coletiva – apresentam-se numa conceção unificada de "pessoas" – com referências ao sentido comum de indignação (della Porta, 2015a: 8-10 ).

Nas condições de esvaziamento da legitimidade democrática impostas pelo neoliberalismo, o poder está nas elites e nos especialistas, representando interesses empresariais. Os movimentos horizontais desafiam a retirada do poder aos cidadãos, que esteve por detrás da austeridade fiscal (Hayes, 2016: 29).

Os ativistas envolvidos nos movimentos de crise procuraram interagir com as dinâmicas espoletadas em reação ao impacto das medidas austeritárias sobre a generalidade da população. O que esteve em causa foi a capacidade de conseguirem projetar os movimentos defensivos para lutas por utopias, gerando mobilizações alargadas que dessem um novo horizonte capaz de romper com a hegemonia da suposta via única dos modelos neoliberais.

"O novo é, também o ainda não de Ernst Bloch, a utopia concreta que depende do esforço, da vontade, da capacidade de construir coletivos, por oposição à utopia abstrata, na espera de si, dependente do acaso, do aleatório, da sorte (…) Embora pareça um programa ingénuo, reencantar o mundo é dar-lhe um horizonte, porque ninguém sonha com o precário e o imediato (Godinho, 2017: 353).

1.4. Do enquadramento polarizado dos Novos Movimentos Sociais para os movimentos