3.4 Bilan des travaux
4.1.1 Présentation de la zone d’étude
A nossa participação na manifestação "Que Se Lixe a Troika – O Povo É Quem Mais Ordena!" já ocorre com uma perspetiva desse principio de entrosamento, que nos permitiu ter algum conhecimento da lógica interna dos grupos e estruturas organizativas. Para obter uma visão 'panorâmica' percorremos algumas vezes o desfile, que surgia encabeçado pela faixa do QSLT transportada por muitos dos seus membros, seguida pela faixa dos PI, que contava com uma carrinha de apoio, com a distribuição de panfletos e elementos a gritarem ao megafone palavras de ordem contra a austeridade, pela do MAS, que tinha um modelo semelhante ao dos PI, o MSE, IAC e a CGTP-STAL (Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local e Regional, Empresas Públicas, Concessionárias e Afins) eram outras estruturas que desfilavam com faixa, assim como o CENA. Embora sem integrar formalmente o desfile, o BE distribuiu ao longo do percurso o seu folheto "Cartão Vermelho": "Passos e Troika rua!". No meio do desfile surgiam ainda as diversas marés e vários grupos de setores profissionais. Também presentes, de forma discreta, estavam algum membros do M12M, exibindo alguns cartazes com a sigla do grupo e frases de protesto.
A média etária dos manifestantes era superior à dos que tinham participado nas anteriores manifestações. Os cortes nas pensões foram um incitamento à participação. Se nas primeiras centenas de metros existia uma maior dinamização, nomeadamente pelo gritar de palavras de ordem, recuando mais um pouco passámos a notar um ambiente de tristeza e desalento entre os participantes. Algo que também foi referido nos media, mas que viria a ser contestado numa posterior reunião do QSLT por alguns membros que encaravam essa perspetiva como um sinal de derrotismo e de menor capacidade de reação.
O desfile seguiu até ao Terreiro do Paço, e a larga adesão provocou uma demora na entrada da praça. Quando tiveram lugar as intervenções finais no palco, parte dos manifestantes ainda não haviam conseguido lá chegar (o que gerou numerosos protestos contra o QSLT). Após toda a
indecisão sobre a utilização do palco, acabou por ter lugar a leitura do manifesto associado ao protesto e o cantar da "Grândola" pela generalidade dos membros do QSLT que o enchiam. Um momento marcante, com as imagens captadas da multidão que tinham diante e dos cravos a serem posteriormente colocadas nas fotos de apresentação do perfil do Facebook de alguns dos seus membros.
Algumas dezenas de metros adiante, membros do MAS tentariam dar continuidade ao protesto gritando palavras de ordem ao megafone, ao mesmo tempo que outros apelavam à iniciativa do Cerco ao Parlamento.
A manifestação do 2 de março surgiu como um crescendo da afirmação do QSLT enquanto novo ator na convocação de protestos e na contestação política aos poderes vigentes. Se a adesão ao protesto do 15 de setembro podia ser vista como um sucesso circunstancial e pontual, a manutenção da rota de crescimento e a adesão ainda maior que se registou no 2 de março apontava para uma consolidação da sua capacidade de mobilização, que neste último caso tinha contado com a capacidade de inovação em termos de repertório.
Esse sucesso teve impacto tanto a nível externo como interno. Enquanto cresciam as expectativas sobre qual seria a continuidade a dar aos movimentos de contestação, dentro da estrutura o entusiasmo e a vontade de incrementar as suas ações cresceu, embora apenas momentaneamente. Por essa altura, as tensões já faziam com que parte dos seus membros estivessem prestes a afastar-se, embora nessa altura não nos dessemos conta do facto.
Uma reunião preparatória no Teatro São Luiz, que contou com a participação de cerca de 30 pessoas, foi seguida por um plenário na Fábrica do Braça de Prata, uma semana após o protesto. Foi dos mais participativos a que assistimos. Entre os cerca de 50 presentes, encontravam-se alguns membros de grupos como SPGL e Attac, que tinham aderido para o último protesto, mas não voltariam a marcar presença nas suas reuniões e plenários.
A indefinição sobre o QSLT, o seu papel e modelo organizativo, tornava-se então mais evidente face às expectativas exteriores. Nesse encontro já foram colocadas em cima da mesa as duas iniciativas às quais iriam dedicar os seus principais esforços: a recolha de assinaturas para uma moção popular pela demissão do Governo, a entregar ao Presidente da República; e a internacionalização da vaga de protestos através de uma manifestação inicialmente planeada como
ibérica, e que depois tomou a forma de um protesto europeu.
"Os diferentes governos da Troika não nos representam. Este governo não nos representa. Este governo é ilegítimo. Foi eleito com base em promessas que não cumpriu (...) Basta! Obviamente, estão demitidos. Que o povo ordene!" (blogue Que Se Lixe a Troika, 2013b), referia o texto da moção, colocando deste modo a ênfase na demissão do Governo. A moção de censura popular era algo sem reconhecimento no quadro constitucional, surgindo apenas como elemento de pressão. A ideia de a entregar ao Presidente da República não foi aliás consensual dentro do grupo, com diversos elementos a manifestarem o seu repúdio pela figura do então Presidente Cavaco Silva, e a considerarem que essa seria uma via institucional, longe do espírito do QSLT.
Para promover a moção popular, foi decidida uma ida a Grândola a fim de recolher assinaturas (que veio a contar com fraca adesão). Para a organização da manifestação ibérica, foi decidido que 4 membros do grupo iriam a Madrid participar numa reunião da Maré Cidadã. A reunião ocorreu numa altura em que o QSLT havia ganho destaque, mesmo internacionalmente, num contexto em que, através das redes sociais da Internet e também dos mass media, as iniciativas de protesto inovadoras facilmente se tornavam conhecidas a nível global – em especial, é claro, dentro dos círculos ativistas. Os ativistas portugueses que participaram no encontro acabaram por constatar que a sua presença foi determinante para os jornalistas espanhóis fazerem a cobertura do mesmo. Algo que criou receios de aproveitamento.
Diversos grupos tradicionais – BE, PCP, JCP, Interjovem (CGTP) – assim como outros sindicatos solicitaram reuniões. O QSLT optou por apoiar, mas não integrar, os protestos promovidos por esses grupos. Face ao enorme êxito dos dois protestos que convocara, organizações dos diversos quadrantes, em torno dos quais o QSLT fora desenvolvido, faziam tentativas de aproximação. Ao mesmo tempo, os media começavam a pretender obter declarações do QSLT sobre diversos assuntos que marcavam a atualidade a nível político, económico e social. A tomada de posições revelou-se, contudo, problemática face à heterogeneidade e indefinição da estrutura.
Como atrás referimos, a moção de censura contava com maiores apoios dos membros da área do PCP, enquanto a manifestação congregava mais gente da área do BE. Um artigo publicado no jornal "i" a 30 de março e intitulado "Que Se Lixe a Troika – Militantes do Bloco de Esquerda e do PCP dominam núcleo duro" – a par de referir a natureza fechada do grupo, indicava que,
embora fosse apartidário, "quatro dos seis membros do núcleo duro são militantes ativos do Bloco de Esquerda e do PCP" (Santos, 2013: 18-21). O artigo acabaria por ser referido numa posterior reunião do grupo, num clima de grande desconforto (sobretudo entre os ativistas não afetos aos partidos políticos) com as suspeitas lançadas que, apesar da ausência de líderes, existiria o tal "núcleo duro" que determinaria as suas ações em função do decidido pelos partidos em questão30.
Dentro desse ambiente, cresceu o debate sobre o caminho a seguir: abertura, ou manter a estrutura fechada. Na ausência de decisão, manteve-se o modelo existente. A par da questão da identidade, cresciam os problemas de funcionamento, com as decisões tomadas nas reuniões e plenários a serem depois continuamente postas em causa nas comunicações entre o grupo pela Internet.
A 26 de abril teria lugar na Fábrica de Braço de Prata uma reunião internacional, com a presença de ativistas de Espanha, Inglaterra, Escócia, Irlanda e França, com o propósito de organizar a manifestação internacional. O mote lançado pelo QSLT foi "Povos Unidos Contra a Austeridade". O debate decorreu com alguma insatisfação dos ativistas de outros países, que consideraram que o QSLT estava a procurar dominar as decisões e que as opiniões públicas dos diferentes países não só se referiam a situações diferentes (apenas Portugal estava submetido ao resgate) como também possuíam diferentes sensibilidades e referências, dado os passados políticos diversos31. Discordaram por isso de parte das formulações para o mote e manifesto dos protestos,
que acabariam por ser diferentes em cada país. O encontro contou também com uma conferência de imprensa, à qual apenas afluíram quatro jornalistas (dois de Portugal e dois correspondentes de órgãos de comunicação social estrangeiros) não conseguindo grande destaque noticioso.
Ainda sob o entusiasmo do êxito da promoção da anterior manifestação, os membros da estrutura desdobraram-se em iniciativas, repetindo o modelo de procurarem envolver ativistas de grupos exteriores através de reuniões abertas, atraindo nomeadamente ativistas do MAS e a Revista Rubra, numa colaboração contudo marcada por acesas desconfianças e disputas.
30Mais adiante, será referido como a ideia de criação do QSLT surgiu imbuída da tentativa de estabelecer pontes entre os
grupos de ativismo e os partidos políticos de esquerda, nomeadamente o PCP, que se situava à partida mais distante e numa zona de disputa em relação a este campo mais próximo do Bloco de Esquerda. Esses laços irão contudo revelar-se problemáticos e gerar desconfianças, a nível externo – face ao espírito de repúdio aos partidos tradicionais que estivera associado ao espoletar das grandes manifestações – mas também interno.
31O que é carismático para uma audiência pode não ser apelativo para outra, o que resulta numa cultura pode falhar
noutra (Scott, 1990: 222). Os diferentes antecedentes e referências históricas, a par das disparidades entre as situações atuais, dificultaram a organização de protestos internacionais eficazes. Apesar de inseridos em contextos globais, os grandes protestos ocorridos neste período ficaram por isso sobretudo limitados a dimensões nacionais.
Colagem de cartazes e distribuição de panfletos foram algumas das ações levadas a cabo. Uma das distribuições de panfletos decorreu junto ao estádio onde teve lugar a final da Taça de Portugal. A ideia era aproveitar a presença do primeiro-ministro no evento, para, após o hino nacional, levar o público a gritar "Demitam-se". Essa foi uma de muitas ideias que não foi possível concretizar.
A promoção de buzinões em vários pontos da cidade, onde se apresentavam faixas do protesto, foram outras das iniciativas em que os ativistas se empenharam. Promoveu-se um protesto em frente ao Palácio do Presidente da República, em Belém, enquanto decorria a reunião do Conselho de Estado. Também se colocaram bonecos de enforcados nos semáforos, em representação das vítimas da Troika. Um dos principais objetivos era criar ações que se tornassem virais e acabassem por adquirir destaque mediático. Para isso, tentava-se inovar em termos de repertório32.
A 14 de maio, quando o ministro Vítor Gaspar efetuava a apresentação do livro "Desta vez é diferente. Oito séculos de loucura financeira" no Corte Inglês, membros do QSLT levaram a cabo mais um protesto ao estilo das "grandoladas". Desta feita, em lugar da música, o descontentamento expressou-se através da interrupção do ministro com sonoras gargalhadas que o ridicularizaram. O autor da ideia referiria posteriormente numa reunião que a ideia lhe surgiu espontaneamente no momento. Os risos conseguiram o desejado impacto, através de reportagens televisivas que foram partilhadas nas redes sociais da Internet. Gerou-se alguma mimetização, embora muito aquém da que fora alcançada anteriormente com as "grandoladas".
Um Google Group criado para os membros do QSLT surge por essa altura como um dos meios de partilha de informações e discussões sobre as ações que, levadas a cabo a um ritmo quotidiano, acabam por se revelar desgastantes para os envolvidos, em especial por terem deixado de conseguir o anterior destaque e em larga medida passarem agora quase despercebidas nos mass
media.
Uma das questões que surgem no Google Group é a aproximação da Cimeira Alternativa,
32As mobilizações de base e levantamentos populares que aparecem como espontâneos contam muitas vezes com a ação
de elites locais, nacionais ou mesmo transnacionais que se misturam nos protestos pelos pobres e excluídos (Fox. 1997: 11). De modo informal, estes ativistas por um lado desempenharam um papel de estabelecimento de pontes entre diferentes organizações, por outro empenharam-se em gerar inovações de repertório que fossem apelativas para uma camada o mais ampla possível da população.
que em junho terá lugar em Atenas sob o lema "Acabar com a austeridade antes que a austeridade destrua a democracia. Por uma Europa democrática, social, ecológica e feminista". Discute-se a eventual participação de algum membro do QSLT. Dois elementos do grupo já tinham previsto a sua participação no encontro como elementos do CENA e dos PI, pelo que se entende não ser necessário enviar mais ninguém.
Por essa altura tem também lugar o primeiro encontro do Congresso Democrático das Alternativas, congregando forças políticas de esquerda, nomeadamente próximas do BE e da CGTP, que pretendem unir-se face à austeridade imposta pelo Governo. O congresso iria manifestar o seu apoio ao QSLT, assim como às restantes plataformas. O M12M e P15O participaram aliás no evento (Accornero, 2015: 413) Alguns membros do QSLT participam mas apenas a título individual. A referência nos media de que o QSLT esteve oficialmente representado gerou aliás alguma celeuma interna, por não corresponder ao que realmente sucedeu. A questão foi bastante sintomática das diversas forças em disputa no seu interior, que para além do BE e do PCP incluíam também aquelas que se distanciavam nos modos de funcionamento dos aparelhos partidários e sindicais.
Em Espanha, ativistas do 15M decidem desvincular-se do protesto "Povos Unidos Contra a Austeridade", devido a denúncias chegadas do meio ativista português de que o QSLT não era uma organização aberta e horizontal nem tomava as suas decisões por consenso. As supostas ligações partidárias também eram uma questão. A zona de confluência e a larga abrangência que a estrutura procurara abarcar começa a revelar-se cada vez mais problemática, com acusações e pressões vindas das mais diversas áreas. Ao mesmo tempo, os laços para com o exterior possuíam fraca densidade, e no momento em que a capacidade de mobilização diminui isso provoca uma reação em cadeia, diminuindo também muitos dos apoios que obtivera.
Numa das reuniões abertas de organização da manifestação, são apresentadas três propostas de locais possíveis. A votação decorre num ambiente de alguma disputa e desconfiança entre grupos, com questões associadas a cada uma das propostas. A frente da Assembleia da República surge como um local eventualmente desmotivador para muita gente, devido aos receios de novos confrontos, após a manifestação que terminara com o apedrejamento das forças policiais e a subsequente carga policial indiscriminada sobre os manifestantes. Por outro lado, entende-se que o local teria uma carga simbólica, no sentido de dirigir o protesto diretamente contra as forças partidárias ali representadas (e alguns ativistas lançam a desconfiança de que se pretende escolher
outro local para afastar o protesto dessa contestação). O Palácio de Belém é outra escolha defendida, para pressionar o Presidente da República a demitir o Governo, mas tem o risco de centrar demasiado a contestação na figura do Presidente, e fica numa zona pouco central da cidade, à qual muita gente dificilmente se deslocaria. A Alameda Dom Afonso Henriques, local simbólico das celebrações do Dia do Trabalhador, é outra opção. As suas amplas dimensões tornariam mais óbvio o fraco número de participantes, mas acabou por ser o local eleito, apesar de, por essa altura, a generalidade dos ativistas já ter a a noção que, perante o fraco destaque conseguido nas redes sociais e sobretudo nos mass media, o protesto não iria ter grande dimensão, quer em termos internacionais quer nacionais.
Em Lisboa, o protesto "Povos Unidos Contra a Troika", seguiu de Entre-Campos até à Alameda, novamente com a faixa do QSLT na dianteira, seguida pela dos PI e depois as da P15O e do MAS. Chegado ao destino final, foi patente o sentimento generalizado de deceção. Com o pouquísssimo destaque mediático, grande parte da população praticamente nem deu conta do fracasso do protesto. Mas dentro do meio ativista o revés teve um enorme peso, em especial dentro do QSLT, cujos membros se haviam desdobrado em iniciativas incapazes de gerar o impacto pretendido33.
Em apenas três meses, a onda de entusiasmo e de confiança dentro do grupo tinha dado lugar a frustração e exaustão, o que contribuiu para mais conflitos e cisões.