3. Épreuves orales d’admission
3.1.1. Option A – littérature
Logo nas primeiras palavras do romance, deparamo-nos com um cenário desolador, resultante da guerra. Os dois primeiros parágrafos da obra, com a sua descrição lúgubre de tristeza, sujidade, morte, onde os verbos desflorir, apodrecer, incendiar nos dão conta dos resultados destruidores da guerra, aumentam o interesse do leitor e indiciam a natureza do livro: a procura da identidade de um país apesar do seu constante estado ruinoso.
Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte. (…) Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. (p. 11)
A guerra é um tema frequente na narrativa de Mia Couto, pois o autor tem o intuito de revelar os seus efeitos na sociedade moçambicana durante os vários anos que fustigou o país. Durante este tempo, o povo moçambicano sofreu, vitimizado, tendo de fugir e abandonar a casa, a família, os seus pertences, e de se abrigar em campos de refugiados. As crianças eram, frequentemente, raptadas para irem lutar, ou então perdiam-se das famílias quando estavam em fuga. A fome, a falta de condições humanitárias e a morte transformaram os homens em animais, tendo estes de agir como tal, pelo instinto de sobrevivência. A guerra tornou os homens selvagens, levando-os a esquecer os seus valores para conseguirem sobreviver.
Logo no Primeiro Caderno de Kindzu, quando é narrada a história de Junhito, assistimos a uma inversão de estatutos entre homem e animal. Com o início da guerra civil, o pai de Kindzu prevê a morte de um membro da família: o seu filho mais novo, Junhito, estava condenado. Esta suposta morte representa não só o começar da dissolução familiar, como também a fragmentação nacional. Porém, o pai de Kindzu encontra uma alternativa para não lhe levarem o filho: aloja-o no galinheiro e dá-lhe aspecto de galinha. Assim, «os
bandos quando chegassem não lhe iriam levar. Galinha era bicho que não despertava brutais crueldades» (p. 21). Inicialmente, a ideia pode parecer absurda, mas não o é, dado que corporiza uma importante metáfora que irá acompanhar todo o desenvolvimento da acção: o único estatuto que permitirá ao homem sobreviver ao período de guerra será o de animal. Esta atitude do pai de Kindzu, o velho Taímo, revela ser um acto de desespero, pois para proteger o filho mais novo da guerra, coloca-o no galinheiro e ensina-o a comportar-se como um galo.
Segundo Kindzu, a guerra é como uma cobra que nos morde com os nossos próprios dentes, contaminando o nosso corpo, levando-nos, por vezes, à total degradação. Diz-nos, ele, acerca dos seus efeitos na sua família:
Aos poucos, eu sentia a nossa família quebrar-se como um pote lançado no chão. Ali onde eu sempre tinha encontrado meu refúgio já não restava nada. Nós estávamos mais pobres que nunca. (…) Mesmo para nós, que tínhamos bens, a vida se poentava, miserenta. Todos nos afundávamos, menos meu pai. Ele saudava nossa condição, dizendo: a pobreza é a nossa maior defesa. (p. 19)
A degradação da estrutura familiar está patente na obra e ganha ênfase através de Kindzu e do inexplicável desaparecimento do irmão da capoeira, que provoca o enfraquecimento e a morte do pai, assim como a tristeza infinita da mãe. «O
desaparecimento de meu irmão treslouqueceu toda nossa casa. Quem mais mudou foi meu pai» (p. 22). O velho Taímo foi definhando, dia após dia, até falecer:
O estado dele se foi reduzindo até ficar menos de uma lástima: carapinhoso, aguardendo nos bafos. A sura136 era o seu único conteúdo. (…) Foi vazando como um saco rompido e, quando já só era pele, tombou sobre o chão com educação de uma folha. (p. 22)
Após a morte do pai, esta personagem vai iniciar uma longa jornada para se juntar aos guerreiros naparamas, narrando as suas aventuras e desventuras, que surgem pela voz de Muidinga, que lê os cadernos de Kindzu.
Na obra, a guerra deixa um rasto de miséria e de destruição por onde passa. Todas as personagens estão sujeitas aos seus efeitos nefastos, sendo obrigadas a procurar a sua identidade e a essência do seu país.
Ao longo de toda a obra, está bem presente a ruína urbana, fruto da guerra. As descrições feitas pelos dois narradores, Muidinga e Kindzu, comprovam esse cenário.
A guerra crescia e tirava dali a maior parte dos habitantes. Mesmo a vila, sede do distrito, as casas de cimento estavam agora vazias. As paredes, cheias de buracos de balas, semelhavam a pele de leproso. (…) E agora, sem residentes, as casas de cimento apodreciam como a carcaça que se tira a um animal. (pp. 25-26)
A descrição da vila, feita por Kindzu, no segundo capítulo, demonstra o estado ruinoso em que esta se encontrava, comparando o estado das casas à pele de um leproso. Ainda no mesmo capítulo, o narrador dá-nos a conhecer a morte do Pastor Afonso e
também a destruição da escola onde este leccionava: «A escola tinha sido queimada,
restavam ruínas de cinza. (…) O professor tinha sido assassinado» (p. 31). Os bandos armados tinham queimado a escola, morto o pastor, cortado as suas mãos, pendurando-as numa árvore.
No sétimo caderno de Kindzu, ficamos a saber que este foi a um bar com Antoninho e que houve uma grande explosão. Um homem que estava no bar falou sobre a guerra e os seus efeitose do proveito que muitos tinham à sua custa, sobretudo aqueles que estão no poder:
(…) Eu sei quem está a matar aqui. Não são só bandos. Há outros, também.
Os bebedeiros se encolheram: as palavras de Quintino soaram como a explosão de há pouco. Quintino insistia: há coisas que todos sabem mas ninguém diz.
- Agora, em Moçambique, a guerra é como se fosse uma machamba.
E se explicou: a guerra gerava altos tacos, cada um semeava uma guerra particular. Cada um punha as vidas dos outros a render. (p. 142)
Nessa mesma noite, também no bar, Kindzu fala com Juliana Bastiana, que o aconselha a arranjar uma arma e a ensinar Gaspar a utilizá-la, caso encontre a criança.
Para fazerem face à guerra, os moçambicanos têm de arranjar meios para se defenderem:
- Tens uma arma, estrangeiro? Não tens? É muita pena: porque era bom que ensinasses a esse menino maneiras de matar, bons métodos de roubar. (…) Encontras o miúdo, mas ficas proibido de lhe dar caneta ou enxada. Isso não dá vida para ninguém. Vale a pena uma arma, estrangeiro. Nestes dias, uma arma é que faz a vida. Rápida e boa. (p. 145)
Kindzu, após a sua estada no barco naufragado, acede ao pedido de Farida e vai procurar o filho desta, Gaspar, em Matimati. Ao regressar a esta vila, ele apercebe-se que o sentimento que nutria por Farida o fazia ver as coisas de forma diferente. O estado da vila já não lhe parecia tão sinistro, pois a felicidade e o ânimo de Kindzu faziam-no ter outra perspectiva da cidade.
Ao avistar a praia de Matimati, comprovei como são nossos olhos que fazem belo. Meu estado de paixão puxava um novo lustro àquela terra em ruínas. (…) A vila era mais pequena do que parecia, suas casas estavam mais inteiras que as da minha terra.
Havia, no entanto, excessivos refugiados. Dormiam nas ruas, nos passeios. Por todo o lado, se viam corpos estendidos, esteirados ao sol. (pp. 116-117)
Mia Couto, ao escrever esta obra, também acreditava que Moçambique pudesse superar todas as dificuldades, sarar as suas feridas e reerguer-se das cinzas, como a Fénix renascida. Mia Couto, através das palavras do feiticeiro que aparece no sonho de Kindzu, pretende anunciar que a paz é possível de alcançar e que um novo mundo renascido está para breve:
No final, porém, restará uma manhã como esta, cheia de luz nova e se escutará uma voz longínqua como se fosse uma memória de antes de sermos gente. E surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da primeira mãe. Esse acanto, sim será nosso, a lembrança de uma raiz profunda que não foram capazes de nos arrancar. Essa voz nos dará a força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o ingénuo entusiasmo dos namorados. Tudo isso se fará se formos capazes de nos despirmos deste tempo que nos fez animais. Aceitemos morrer como gente que já não somos. Deixai que morra o animal em que esta guerra nos converteu. (p. 218)
Para poderem avançar para um futuro melhor, os moçambicanos têm de despir a sua condição de animais em que a guerra os transformou e procurar nas suas raízes culturais o alento para criar um novo país.