2. Épreuve écrite d’admissibilité
2.2. Deuxième partie de l’épreuve de composition : exercice de traduction
A morte é uma das temáticas mais retratadas na obra, sobretudo como resultado devastador da guerra. No primeiro caderno de Kindzu tomamos conhecimento da morte do velho pastor Afonso. A escola onde ensinava as lições havia sido queimada e o pastor assassinado. Tinham-no morto, amarrando-o a uma árvore, cortado as suas mãos, pendurando-as num ramo. Segundo o narrador, estas simbolizavam uma aprendizagem sobre a exclusiva lei da morte. A morte tem um valor importante na cultura moçambicana, na medida em que esta é apenas um estado transitório para a imortalidade. Mia Couto diz- nos acerca da morte:
(…) A morte é uma espécie de passagem, de transição: os mortos ficam presentes depois. É o que se passa em África, a morte é simplesmente uma mudança de estado:
os mortos, não são arrumados num lugar inacessível, eles ficam presentes no nosso seio. (…) Também é preciso dizer que Moçambique é um país em que a morte hoje é frequente. Não é possível separar qualquer ficção que se faça hoje em Moçambique da morte.137
Segundo a tradição, e para que o espírito do morto fique tranquilo, há que enterrá-lo dignamente e respeitar os rituais ancestrais.
Na obra há várias referências à morte, a rituais fúnebres e aos espíritos dos mortos que deambulam entre os vivos.
No primeiro capítulo, o narrador diz-nos que o machimbombo onde Tuahir e Muidinga montaram acampamento estava contaminado pela morte e que os espíritos daqueles que morreram queimados ainda por lá pairavam. Para evitar conflitos com os falecidos, os dois viajantes decidiram enterrar os mortos:
Tuahir se instala no banco traseiro onde o fogo não chegara. O miúdo continua receoso, hesitando entrar.
O velho encoraja:
- Venha, são mortos limpos pelas camas.
Muidinga vai avançando, pisando com mil cautelas. Aquele recinto está contaminado pela morte. Seriam precisas mil cerimónias para purificar o autocarro.
- Não faça essa cara, miúdo. Os falecidos se ofendem se lhes mostramos nojo. (…)
O miúdo estremece. A tragédia, afinal, é mais recente que ele pensava. Os espíritos dos falecidos ainda por ali pairavam. Mas Tuahir parece alheio à vizinhança. Enterraram o último cadáver. (pp. 13-14)
É com o aparecimento deste último cadáver que a história vai tomar um novo rumo, pois junto dele estava uma mala que continha os cadernos de Kindzu.
No primeiro caderno de Kindzu assistimos ao funeral de seu pai, que teve a sua cerimónia fúnebre na água, sendo sepultado nas ondas. Mais tarde, quando quiseram saber qual tinha sido a causa da morte de Taímo, Kindzu e sua mãe consultaram um feiticeiro. Este mandou-os construir uma casa bem afastada e disse-lhes para colocarem lá dentro o barco do velho:
137 Michel Laban, Moçambique: Encontro com escritores, III vol., Lisboa, Fundação António de Almeida, p. 1026, 1027.
À noitita, junto da fogueira, me explicaram a tradição. Motivo do barco, dentro de casa: meu pai poderia regressar, vindo do mar. E assim, todas as noites passei a levar para a casinha solitária uma panela cheia de comida. No dia seguinte, a panela estava vazia, raspadinha. (p. 23)
Nas sociedades patriarcais, como é o caso da moçambicana, há certos rituais/ritos que têm de ser cumpridos para permitir a continuação da vida após a morte física de um espírito. Neste sentido, é necessário preservar os ensinamentos dos mais velhos e recorrer a eles quando se pretende saber algo sobre um defunto, pois mesmo após a morte é necessário prestar respeito aos mortos através de rituais que lhes permitam descansar em paz. Vejamos o exemplo do pai de Kindzu: este morreu e as suas cerimónias fúnebres foram realizadas no mar, onde passou grande parte da sua vida. Após a sua morte, e para o seu espírito sossegar, a sua família continuou a levar a cabo alguns rituais, porém, ele volta do reino dos mortos para ameaçar ou alertar o seu filho dos perigos que este corre na sua viagem.
No décimo caderno de Kindzu, tomamos conhecimento do Campo da Morte: um campo de refugiados, onde a miséria e a fome estão bem patentes. A descrição do campo de refugiados é lúgubre e marca o próprio estado da Nação. As pessoas sofrem enquanto estão à espera de comida e de assistência que não vem, e a única certeza é a morte.
…era coisa de pasmar a tristeza. O centro se espalhava como ruínas da própria terra, castanhas da cor do chão. Aquela gente dormia ao relento, sem manta, sem côdea, sem água. Se cobriam com cascas de árvores, vegetantes cheios de poeira. (pp. 197-198)
Podemos verificar que existem dois tipos de morte na obra, a física e a psicológica, com maior ênfase na primeira. O pai de Kindzu, embora já tenha morrido, surge perante o filho inúmeras vezes, sobretudo em sonhos, quando este exprime o desejo de partir para se juntar aos Naparamas. O pai não queria que o filho deixasse a sua terra e a sua herança cultural para ir ter com os guerreiros, abandonando os costumes do seu povo, para lutar com estranhos:
Ele me comparou aos mortos. Eles andavam com ossos desencontrados; eu andava com alma de outro.
- Podes ter certeza: minhas ordens não são. Lá, só ouço teus passos. O que procuras afinal?
- Vou ajudar a acabar com esta guerra. Me acredita pai.
Ele sorriu, desprezador. Eu, se me pensava esperto, não descobrira a razão da vida estar a correr às mil porcarias? Tudo aquilo era castigo encomendado por ele, meu legítimo pai. Minhas desavenças, os tropeços que sofria, provinham de eu não ter cumprido a tradição. Agora sofria castigos dos deuses, nossos antepassados. Lamentava-se da cansativa morte:
- Sou um morto desconsolado. Ninguém me presta cerimónias. Ninguém me mata galinha, me oferece uma farinhinha, nem panos, nem bebidas. Como te posso ajudar, te livrar das tuas sujidades? Deixaste a casa, abandonaste a árvore sagrada. Partiste sem me rezar. Agora, sofres as consequências. Sou eu que ando a ratazanar teu juízo. (pp. 47-48)
O facto de Kindzu ter abandonado o seio familiar e ter deixado de fazer os rituais ao pai irritou o velho Taímo, este surgindo do mundo dos mortos para assombrar a viagem do filho. Mais uma vez, verificamos que as tradições ancestrais e os seus ritos são importantíssimos na cultura africana, pois permitem a continuidade dos espíritos dos antepassados e, consequentemente, a protecção destes contra os perigos que possa surgir. Ana Ferreira138, acerca das aparições dos mortos, afirma que:
As visitas que os mortos fazem aos seus familiares constituem-se parte do papel tutelar que os antepassados exercem como protectores da família e dos seus membros. Através desta capacidade, oferecem guia e conselho aos vivos, são considerados por estes e dirigem-se a eles de maneira muito semelhante à que fazem os mais novos com os membros mais velhos do grupo.139
E continua:
A relação entre os vivos e os mortos encontra-se plasmada num sistema de ritos rigorosamente codificado, revelador de ampla natureza do papel que têm os antepassados e que é, em grande medida, disciplinador. (…) E essa relação assume aspectos variados que vão da dependência unilateral (defuntos que é preciso apaziguar a todo o custo) à troca mútua de serviços: os vivos, pelas suas ofertas, levam alimento
138 Ana Maria Teixeira Soares Ferreira, Traduzindo Mundos: os mortos na narrativa de Mia Couto, tese apresentada à Universidade de Aveiro para a obtenção do grau de Doutor em Literatura, Universidade de Aveiro, 2007. Esta autora, na sua tese de doutoramento, fez um estudo sobre os mortos na narrativa de Mia Couto, demonstrando a importância destes na cultura africana e, consequentemente, nas obras do autor. 139 Ibid., p. 345.
aos mortos e estes, pelo seu saber e poder, protegem os vivos contra o infortúnio e a doença, dão-lhes sábios conselhos, facilitam-lhes a realização dos seus projectos.140
Neste sentido, podemos afirmar que em Terra Sonâmbula o velho Taímo está inquieto devido à falta de cumprimento dos ritos ancestrais, mas também pelo afastamento do seu filho, que decide partir para lutar contra a guerra.
Um outro exemplo da aparição de espíritos é o de Romão Pinto, que dez anos após a sua morte, ressurge do mundo dos mortos para continuar com os seus negócios em Matimati:
O colono roubava o lustro da iniciativa do administrador. Naquele solene assento, o português lhe prometia coisa grossa, choruda. A ideia sendo a seguinte: que ele mesmo, óbito reconhecido, ainda por cima carregado de raça e nacionalidade, não mais podia reaver seus antigos negócios.
- Já bastava ser branco, ainda por cima portuga. Agora, tudo isso e falecido é que não vale a pena. (p. 181)
Na cultura moçambicana, como já referimos anteriormente, os espíritos daqueles que já faleceram são reverenciados, sendo encarada como normal a aparição destes em momentos importantes na vida das personagens. Mia Couto narra-nos o aparecimento dos mortos sem manifestar quaisquer hesitações ou receios, naturalizando esses acontecimentos, dado que é comum na tradição moçambicana.