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A STUDY ON CLIL TEACHERS AT THE UNIVERSITY CLASSROOM

perspectiva das pessoas que circulam no centro da cidade, nas vozes dessas mulheres se tornava parte importante da vida e do aprendizado das crianças. Se formos escutar uma das mulheres da cidade que comentava que as crianças poderiam ficar em ―casa‖ com alguma tia ou avô, com certeza encontraríamos que os laços familiares podiam ser suficientes para sustentar a criança em casa enquanto as mães saem para

juntar troquinho. Embora, como mencionam Ferreira (2005), Otero

(2008) e Baptista (2011), seja importante para as mães Guarani que seus filhos não sejam privados de sua presença, e que a participação das crianças no espaço urbano seja importante na medida em que isso lhes permite conhecer além do espaço doméstico e aprender outras formas de se relacionar com a sociedade ao redor.

Esse aprendizado torna-se necessário ao passo em que elas também deverão crescer e precisam saber como aproveitar bem as possibilidades que o espaço urbano pode lhes oferecer, ou, nas palavras de Ivonette, é necessário que as crianças saibam, porque cada vez os estão mais perto da cidade e é preciso ―aprender a lidar com o branco, para poder continuar a ser nós mesmos‖.

Paralelamente, a partir da observação dos papéis desempenhados pelas crianças no centro da cidade podemos observar e reafirmar — como já nos ilustra a denominada ―antropologia da criança‖ — como elas, vistas no Ocidente como pessoas incompletas ou em formação, desprovidas de autonomia e agência, são, na verdade, agentes autônomos — em maior ou menor grau — e possuem um rol social (ou vários) que contribui, efetivamente, ao desenvolvimento das dinâmicas sociais, de um determinado grupo, aldeia, população, etc. (COHN, 2005; TASSINARI, 2007). Neste caso, especificamente, a presença das crianças Guarani é um facilitador da atividade de venda de artesanato: a capacidade ―abelhuda‖ (COHN, 2000) das crianças, isto é, sua possibilidade de permear diversos espaços no centro da cidade, que os faz aparecer como janelas que ampliam a ―visão‖ das mulheres que acompanham, ou, melhor ainda, como elos que tecem a rede entre as

Guarani que circulam no local. É através do olhar e da perspectiva das crianças sobre o que acontece no cotidiano do centro que elas decidem estratégias, comunicam mensagens e apreendem informações, tornando- se, assim, também em agentes de conhecimento.

Voltando às mulheres, aliás, é interessante ressaltar também que, apesar de serem estas as que marcam mais fortemente sua presença no centro da cidade, o artesanato não constitui exclusivamente uma tarefa feminina, como pode ser visto de fora. Quando perguntava se elas próprias tinham produzido as peças expostas, respondiam que sim, mas no transcurso do tempo ouvia-se que as crianças e os maridos, ou os homens, também participavam ativamente de sua produção, e que essas tarefas tinham a ver com a procura por madeira, sementes e demais insumos para a sua fabricação, tanto na elaboração quanto na finalização das peças. Assim, a aparente ausência da figura masculina ―notada‖ pelas pessoas de ―fora‖ pode ser considerada como uma ausência relativa, marcada pela invisibilidade da figura masculina nas ruas.

Nesse mesmo sentido pude notar que, que de vez em quando, algum familiar homem circulava no centro, e fazia também o papel de ―cuidador‖ de alguns grupos de mulheres, pois, em geral, eles também realizavam alguma atividade em busca de recursos, de maneira individual (venda de pés de plantas, colares; acompanhamento de grupos de crianças que esporadicamente cantam no centro da cidade, etc.). Eles estavam prestes a colaborar com alguma eventual situação ou as acompanhavam durante os trajetos de ida e volta para a cidade. Esse papel, aparentemente, não era imprescindível, e quando havia alguém disposto a fazê-lo, era valorado por elas como algo importante, pois lhes transmitia ―segurança‖ em um meio que também poderia ser hostil, dadas as circunstâncias. Embora, de maneira geral, a figura transmissora de ―segurança‖ é representada na força de grupo das mulheres.

Geralmente, encontramos uma ou duas mulheres juntas na venda de artesanato acompanhadas por crianças, mas, no início da manhã ou no final de tarde, é possível ver, nos terminais de ônibus, os grupos de mulheres que embarcam e desembarcam juntas, e que logo se dispersam pelas ruas. Sua presença em grupo, ainda que aparentemente atomizada, torna-se importante para manter o controle das situações no centro da cidade. E essa dispersão permite ter olhos e ouvidos em vários lugares, e assim, as informações e as situações que acontecem, e que podem ser relevantes para elas, circulam rapidamente, permitindo-lhes estar preparadas. As crianças, então, aparecem como os elos que unem essa rede aparentemente inexistente, tecida entre as diferentes mulheres que

se localizam nas ruas, e é pela sua capacidade de circular nesse espaço que esses grupos conseguem, incluso, articular estratégias no cotidiano. Por exemplo, quando parece que o clima vai mudar drasticamente, e a partida deveria ser adiantada, as mulheres, através das crianças, decidem como, onde e quando voltar. Ou quando alguma delas passa mal ou deseja voltar para casa, ou precisa se ausentar, alguém pode vir e ocupar o seu lugar durante sua ausência. No caso de estarem acompanhadas de crianças que possam assumir a atividade da mulher, isto é, o cuidado, a venda e o recebimento dos donativos em sua ausência, são estas que deverão substituí-la temporariamente.

Observamos, assim, que o papel da família, que aparece ausente ou desviante aos olhares externos sobre as indígenas, obedece a estratégias muito particulares e coerentes desenvolvidas por essas mulheres para apropriar-se do espaço que as circunda e para atingir os objetivos que as levam a se deslocar até o centro, sendo, por isso, muito prezadas e avaliadas positivamente dentro do contexto Guarani. Refiro- me, por exemplo, à presença das crianças que se encontram, aparentemente, em um lugar de exposição e perigo, ao estarem nas ruas, mas que, desde a perspectiva Guarani, estão em um processo contínuo e importante de aprendizado para conhecer os ―outros‖; apreender a se relacionar com eles e estabelecer estratégias de sobrevivência no contexto interétnico. No caso dos homens ausentes — e, portanto, culpados pelo deslocamento das mulheres ao centro da cidade à luz do olhar dos cidadãos —, sua atividade aparece como relativa, pois a venda de artesanato é somente uma das fases da produção, em que a visibilidade deles — quando participantes — é geral e aparentemente reduzida ao espaço das aldeias.

4.8.3 Parênteses: os Guarani na Lagoa da Conceição

Ao leste de Florianópolis encontra-se a Lagoa da Conceição, um bairro muito importante na medida em que sua história está intimamente ligada aos colonizadores europeus que povoaram e se estabeleceram na ilha a partir de 1746, e que são reconhecidos como parte constituinte da identidade e da história da cidade, de maneira geral.