• Aucun résultat trouvé

EVALUACIÓN PARA EL APRENDIZAJE Y MOTIVACIÓN EN COLEGIOS BILINGÜES

que esses grupos conseguem, incluso, articular estratégias no cotidiano. Por exemplo, quando parece que o clima vai mudar drasticamente, e a partida deveria ser adiantada, as mulheres, através das crianças, decidem como, onde e quando voltar. Ou quando alguma delas passa mal ou deseja voltar para casa, ou precisa se ausentar, alguém pode vir e ocupar o seu lugar durante sua ausência. No caso de estarem acompanhadas de crianças que possam assumir a atividade da mulher, isto é, o cuidado, a venda e o recebimento dos donativos em sua ausência, são estas que deverão substituí-la temporariamente.

Observamos, assim, que o papel da família, que aparece ausente ou desviante aos olhares externos sobre as indígenas, obedece a estratégias muito particulares e coerentes desenvolvidas por essas mulheres para apropriar-se do espaço que as circunda e para atingir os objetivos que as levam a se deslocar até o centro, sendo, por isso, muito prezadas e avaliadas positivamente dentro do contexto Guarani. Refiro- me, por exemplo, à presença das crianças que se encontram, aparentemente, em um lugar de exposição e perigo, ao estarem nas ruas, mas que, desde a perspectiva Guarani, estão em um processo contínuo e importante de aprendizado para conhecer os ―outros‖; apreender a se relacionar com eles e estabelecer estratégias de sobrevivência no contexto interétnico. No caso dos homens ausentes — e, portanto, culpados pelo deslocamento das mulheres ao centro da cidade à luz do olhar dos cidadãos —, sua atividade aparece como relativa, pois a venda de artesanato é somente uma das fases da produção, em que a visibilidade deles — quando participantes — é geral e aparentemente reduzida ao espaço das aldeias.

4.8.3 Parênteses: os Guarani na Lagoa da Conceição

Ao leste de Florianópolis encontra-se a Lagoa da Conceição, um bairro muito importante na medida em que sua história está intimamente ligada aos colonizadores europeus que povoaram e se estabeleceram na ilha a partir de 1746, e que são reconhecidos como parte constituinte da identidade e da história da cidade, de maneira geral.

Mapa nº 2. Lagoa da Conceição. Fonte: Google Maps

A freguesia da Nossa Senhora da Conceição, uma das mais antigas de Florianópolis, foi oficializada em 19 de junho de 1750 pela formação e consolidação de uma comunidade de migrantes açorianos que ali se estabeleceram. Banhada pelo mar e pela própria Lagoa da Conceição, corpo lacunar de grande beleza, ―as águas determinaram a localização das famílias no território da Lagoa; e seus meios de transporte, alimentação e os afazeres domésticos eram sempre relacionados às águas da lagoa‖ (RIAL, 1987 apud VAZ, 2008).

A pesca e a agricultura eram as atividades econômicas que caracterizavam a freguesia, e o seu modo simples de vida, no qual predominava um modo de produção familiar, a pequena escala, a da subsistência, ligada, sobretudo, aos recursos naturais, foi mantida até meados de 1940 quando uma série de aspectos políticos, econômicos, populacionais e demográficos passou a incentivar mudanças rápidas e importantes no contexto do antigo bairro. Pois, assim como nos explica Vaz:

Na primeira metade do século vinte, a paisagem da Lagoa, caracterizada basicamente pela agricultura e pela pesca, refletia uma economia ainda familiar e de troca. Nas poucas vendas (armazéns) existentes, eram obtidos os gêneros

não produzidos em casa, como sal, querosene, fósforo, etc., os quais eram pagos muitas vezes com produtos agrícolas (...) (Na segunda metade do mesmo século) torna-se notável a velocidade da transformação da sociedade e da paisagem da Lagoa em um período relativamente curto de tempo. Note-se que apenas seis décadas atrás, a economia era de subsistência e o processo de produção e venda de produtos eram feitos basicamente em família (...). O final deste período histórico está bem caracterizado na extinção destes meios de trabalho; e principalmente, na impossibilidade de se continuar nestes ofícios (...). A extinção dos engenhos de produção de aguardente e farinha, os alambiques e as tecelagens foram, aos poucos, desaparecendo da paisagem da Lagoa (VAZ, 2008, p. 52-53). No campo econômico, Vaz chama a atenção ao fato de que a industrialização, na produção de alimentos e na pesca, afetou as antigas práticas de subsistência, levando as famílias da localidade a se sujeitar às novas dinâmicas do modo capitalista de produção, incluindo a adaptação à vida assalariada. A essas grandes mudanças somou-se, na década de 1990, o ―boom‖ do turismo na Lagoa da Conceição, quando o bairro começou a ser explorado como polo turístico, intensificando, assim, as atividades de comércio e serviços, e estimulando a venda de grandes territórios (antes posse de famílias locais) para a construção de infraestrutura para atender ao turismo nas temporadas de verão. O interesse na localidade intensificou-se, sendo que a dinâmica agitada da temporada de verão passou a se manter ao longo do ano, trazendo consigo a permanência de novos atores, interesses e empreendimentos na região.

Apesar dos fortes impactos que essas mudanças têm causado nas dinâmicas sociais e na paisagem da Lagoa da Conceição, observamos que a população local continuamente procura desenvolver estratégias que permitam a atualização e a patrimonialização de saberes ligados ao seu ancestral europeu: a pesca artesanal, as rendeiras, as manifestações culturais, como o boi de mamão, e a arquitetura colonial são constantemente atualizadas e tornam-se um lugar de resistência, assim como um atrativo para os visitantes.

De reduto açoriano que perdurou com estas características até as décadas de 1970 e 1980, a Lagoa transformou-se em um potencial centro gastronômico e de entretenimento da Capital, assim como local de morada das classes mais

abastadas, apresentando atualmente uma

economia mais forte do que a de muitos municípios catarinenses. Bares, boates, lojas, restaurantes, hotéis e pousadas dividem espaço nas estreitas ruelas com casas e prédios. O movimento, que no passado era restrito apenas à temporada de verão, hoje é verificado durante todo o ano. Com o desenvolvimento, vieram muitas pessoas de outras partes do país, e motivaram as transformações: tanto sociais, através da mudança do perfil do habitante; como espaciais, através dos sistemas de circulação criados (VAZ, 2008, p. 85).

É no contexto desse bairro onde história, memória, tradição, modernidade, resistência e turismo se encontram, que indígenas Guarani circulam vendendo artesanato e marcando presença na cidade de Florianópolis. Sobre as imagens e minhas aproximações, comento a seguir:

Há cinco anos que moro, aproximadamente, na Lagoa da Conceição, bairro ao leste da capital. Na minha chegada ao lugar, que aconteceu algumas semanas antes do carnaval, fui surpreendida pela presença de indígenas Guarani vendendo artesanato no centrinho do bairro. Geralmente, um par de mulheres oferecia colares e bichinhos perto dos maiores supermercados que operam na região, permanecendo lá por longas horas. Nesse período observei também que as crianças deambulavam pelo centrinho oferecendo colares coloridos, e que eram tiradas dos restaurantes e cafés nas ruas Manoel Severino de Oliveira e Henrique Veras do Nascimento, e na avenida Alfonso Delambert Neto, visualizadas a seguir:

Mapa nº 3. Localização das ruas de circulação e venda de artesanato no centrinho da Lagoa da Conceição.

No verão do ano de 2011 percebi que a mesma dinâmica se repetia, e que a situação se intensificava aos finais de semana, quando a clientela nos estabelecimentos aumentava, e com ela, o número de crianças oferecendo seus artefatos coloridos. Eu ficava indignada com o tratamento que o pessoal dos estabelecimentos dirigia às crianças: mal os enxergavam e já ficavam na porta, ―convidando-as‖ a se retirar, sendo que a insistência delas só piorava a situação. Nos verões de 2012 e 2013 percebi que o ritmo dessas atividades na região havia diminuído. As mulheres que eu havia conhecido, e que vendiam artesanato regularmente, não voltaram mais, e também não consegui visualizar as crianças nesses espaços. Contudo, percebi que a presença Guarani na região estava se articulando através de novos mecanismos: mulheres, sobretudo, apareciam de maneira irregular algumas tardes na praça do centrinho da Lagoa — ou Praça Pio X, como consta no mapa —, e eventualmente, também, algumas crianças, que cantavam ou vendiam peças de artesanato aos sábados pela manhã, enquanto acontecia a feira orgânica na praça, e para onde confluíam uma centena de pessoas

interessadas em formas alternativas de vida e alimentação que, no geral, curtem e contribuem com as crianças que ali se apresentam.

Pelo fato de eu me encontrar somente com crianças nesses espaços, não me senti à vontade para estabelecer uma conversação a fim de discutir questões abordadas nesta tese. Isso poderia incorrer em possíveis más interpretações a respeito da ética de meu trabalho ao abordar crianças sem a permissão de um adulto.

Em algumas ocasiões, tive a possibilidade de encontrar algumas mulheres Guarani nesse espaço, embora, assim como acontecia com as do centro, existia muita dificuldade para estabelecer um contato, manter uma conversa, e ainda mais, criar um relacionamento. Isso porque, além do mais, sua presença nessa localidade era descontínua, esporádica e assistemática, de modo que a possibilidade de construir uma relação a partir das experiências conjuntas tornou-se impossível. No entanto, apesar da impossibilidade de me aprofundar nesse relacionamento, gostaria de sinalizar a presença Guarani na região como um prelúdio para indicar que a venda de artesanato não é uma atividade restrita ao centro da cidade, como se tende a pensar. E que tampouco o lugar do Guarani em Florianópolis é o centro da cidade, mas que este também circula e se apropria de outros espaços interessantes para o desenvolvimento de suas atividades.

De modo geral, através do relacionamento com as mulheres Guarani no centro, e de outros atores sociais que se relacionam com elas no local, podemos observar a existência de olhares divergentes. Percebe- se, na fala das pessoas, como estas vão elaborando discursos sobre os indígenas, sua presença e sua vida, sem necessariamente tentar esclarecer suas ―intuições‖ e suposições. Pelo contrário, seus posicionamentos são postos como válidos, e em sua argumentação encontramos sempre vestígios de discursos políticos, sociais e midiáticos, nos quais o bom e o ―mau” selvagem coexistem, se confrontam e se mesclam. Essa coexistência cria, como sugerido anteriormente, um duplo vínculo (BATESON, 1972) no qual, grosseiramente interpretado, aconteça o que aconteça, essas mulheres nunca terão a chance de se livrarem, pois, independentemente de sua forma de ser e estar, nunca conseguirão se encaixar inteiramente na perspectiva que os ―outros‖ sustentam acerca delas, do que são ou ―deveriam ser‖.

A partir da perspectiva das mulheres indígenas que circulam no local, observamos que há uma outra e vasta gama de leituras sobre o seu fazer no centro da cidade, assim que as ideias de mendicância, de

desarticulação do núcleo familiar, da impossibilidade de se comunicar, etc., vão se desmanchando na medida em que as minhas interlocutoras trazem à superfície detalhes sobre o seu cotidiano, expectativas e interesses em relação à urbe.

Cumpre notar que esses interesses, aliás, são realizados a partir do desenvolvimento de estratégias que lhes permitem navegar entre as diferentes concepções e discursos que constantemente escutam dos ―brancos‖, que também circulam nos mesmos espaços. Nota-se, assim, sua capacidade de lidar com situações diferentes, de apropriar-se de estratégias para reafirmar seu espaço e identidade, de atrair aquilo que tem sido incorporado do mundo dos juruá e que possui algum significado ou exerce um papel importante no cotidiano da sua vida nas aldeias, e finalmente, de negociar e lidar com a assimetria constante que pressupõe a situação de contato na qual se encontram em relação à sociedade envolvente que enfrentam todo dia, sentadas nas calçadas, expondo seu artesanato e esperando um troquinho.

Através do ―parêntese‖ apresentado neste capítulo, percebe-se que a presença indígena na cidade de Florianópolis não se restringe ao centro da cidade. Especificamente, no caso dos Guarani, parece que circulam também ao leste da Ilha, mas essa circulação pode abarcar também outros bairros e espaços da cidade. Particularmente, durante o meu trabalho de campo, tive a possibilidade de me aproximar de vários grupos de indígenas Kaingang, que através da venda de artesanato permanecem e circulam na cidade. Estes, pela particularidade de sua movimentação, criam novos desafios para as imagens e os discursos hegemônicos que a sociedade ao redor pressupõe sobre eles, mostrando- nos como sua capacidade de agência e negociação é acionada na zona que indica Florianópolis. No próximo capítulo, serão apresentadas essas dinâmicas e seus desdobramentos.