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FOREIGNTRADE - COMMERCEEXTERIEUR (Continued· Sultel

B. Students enrolled - Eleves inscrits('OOO) General

Após uma parada para o café comentei com o grupo que Roberto havia dito, em um de nossos encontros, que o arquivo é uma tarefa refugada que ninguém quer fazer e que, para ele, a tarefa não tem sentido nenhum. O que tem sentido são as relações e não o trabalho realizado. Em seguida, indaguei qual o sentido daquele trabalho para o grupo. Roberto, imediatamente, respondeu que, para ele, não havia nenhum sentido; entretanto, a maioria dos trabalhadores disse considerar um trabalho importante. Apesar de já ter comentado esse assunto em outros encontros, reafirmei que na perspectiva de Clot (2010), trabalho bem feito é aquele que o trabalhador dá um sentido para ele. E, assim, o embate foi sendo aquecido:

Selma: Para mim, você faz um trabalho bem feito quando você gosta, se

doa.

Beatriz: E se ele tem um sentido para você, haverá um reconhecimento

que você dará a ele. Não interessa reconhecimento da chefia. Esse trabalho tem que ter um significado para você.

Roberto: Como indivíduo, a gente tem que estar num nível pessoal para

conseguir entender que nós temos que fazer do trabalho algo positivo. Agora, dizer que a Universidade possibilita isso, ela não possibilita, é tudo que é contrário a isso.

Selma: Não concordo com Roberto.

Roberto: Tudo que é instituído na Universidade atrapalha, o que ajuda é

Beatriz: Vamos voltar a Roberto. Vocês têm a prescrição de arquivar

documentos. Outra prescrição que não foi falada aqui é redigir ata, realizar inscrição do Mestrado, fazer exame ergométrico, manter a organização dos prédios de cada Centro, Reitoria, Pró-Reitorias e demais setores existentes na Universidade. Cada um terá a sua forma de executar a prescrição. Kézia tem uma forma de se organizar no trabalho que eu, particularmente, invejo. O modo de fazer, o sentido que ela dá ao seu trabalho. A tarefa é a execução da prescrição e, dessa forma, cada um escolhe a melhor maneira de exercê-la, que lhe traga sentido.

Roberto: Mas esse sentido é trazido de fora, é consumido pelo

indivíduo, no crescimento individual e pessoal dele, sem a contribuição da Universidade.

Kézia: Nessa parte, eu concordo com Roberto. Se eu faço, procuro fazer

meu serviço legal. Eu gosto que a pessoa entre no meu arquivo e visualize o que ele quer. Eu procuro sempre estar me comunicando com o professor, porque eu gosto de fazer mudanças e me envolvo. Se eu fosse realmente esperar pela Universidade, não faria nada.

Selma: Mas o que você esperaria da Universidade? Kézia: Um pouco de valorização.

Selma: Em que sentido? Ministrar um curso? Tem muita gente que não

vai fazer. A Universidade lhe garante uma certa condição. Não estou dizendo para o lado pessoal. O que aconteceu com Shirlei foi uma grande sacanagem, eu concordo plenamente. Agora, a Universidade lhe dá uma certa base, propõe-lhe para crescer.

(Vozes paralelas e exaltadas.)

Roberto: A Universidade não, o Governo Federal.

(Roberto não concorda e Selma fica nervosa.)

Selma: Estou falando da Universidade como um todo, como funcionário

público. Ela lhe dá um respaldo para você crescer. Você cresce ou não cresce. Não concordo com a ideia de que ela o bitola e não lhe dá nenhum respaldo.

Roberto: Tem funcionário aqui no Centro que já conseguiu tudo, não

tem como crescer mais nada e está insatisfeito.

(Vozes paralelas discordando do Roberto.)

Kézia: Eu não acredito que um bom funcionário que trabalha legal, que

está no final de carreira, vá chutar o balde. Por que vejo que entrou novo aqui e não quer nada com nada.

Roberto: Já estive disposto a certas coisas e fiquei indisponível e,

depois, disponível. Tudo isso que aconteceu comigo foi pessoal e as relações de trabalho aqui dentro só tiveram para mim exigências. Quando estava funcionando, estava bom, quando parei de funcionar, não prestava. Não tinha nenhum tipo de apoio, de orientação, de auxílio. Estou falando em todos os momentos.

Selma: Roberto, eu respeito sua posição. Eu trabalho aqui há um bom

tempo e também tive problemas e tive o maior respaldo.

Roberto: Você está falando do seu setor.

Selma: Estou falando de Universidade. Eu tive um respaldo que, se eu

não o tivesse tido, eu não estaria aqui hoje.

(Vozes paralelas.)

Roberto: Se for pensar em nível de Secretaria, é tranquilo o

relacionamento, só que o seu setor não se mistura.

Selma: Engano seu. Eu tive respaldo do meu setor, do Centro e da

Universidade.

Roberto: Estou falando de relação de trabalho.

Selma: Mas é de trabalho, mesmo. É o que estou falando, eu respeito

sua posição. A gente, no meu setor, compromete-se com a forma que tem que funcionar. Se eu não puder ir, pode ter certeza que uma colega irá para mim. Nesse Centro, tem gente sobrando em todos os sentidos.

Sumara: Aqui, no Centro também. Quando eu entrei na Ufes, às vezes,

Beatriz me pedia para ficar na secretaria e eu ficava.

Durante todos os encontros houve controvérsias entre Roberto e os outros participantes do grupo, uma vez que sua posição em relação aos assuntos discutidos destoava da dos demais. Cabe destacar que tais embates constantes foram salutares porque propiciaram a construção do coletivo e tornaram possível a análise do trabalho sob o ponto de vista da atividade a partir do olhar para uma fotografia que funcionou como dispositivo de análise, pois fazia pensar o trabalho a partir da confrontação de ideias. Acompanhando Clot, diríamos que:

[...] a última palavra nunca é dita. Por definição isso se discute. Se o objeto do trabalho é a definição de qualidade e o critério da qualidade é o critério do trabalho, então a cooperação pode se desenvolver [...]. É por isso que a melhor resistência prática e crítica é essa que se faz em nome do trabalho bem feito e de seu desenvolvimento. Isso demanda controvérsia, diálogo profissional e, sobretudo, romper com a ordem da

organização sobre a qual muitos trabalhadores funcionam (CLOT, 2008, p. 67).

Os embates provocavam uma discussão acirrada entre os servidores que contestavam as formas de viver-trabalhar na Universidade como servidor público federal. Alguns enalteciam sua atividade, a autonomia conquistada pelos anos trabalhados como servidor público; outros promoviam críticas quanto à forma de fazer e a cobrança da chefia, que, geralmente, é exercida por um docente e, também, críticas quanto à postura do colega novato recém-admitido que, para muitos, ‘não veste a camisa da Universidade’26

e não possui o compromisso que um servidor público deve ter. O grupo demonstrou uma disputa não declarada, que pode ser vista até mesmo como um ressentimento, pelo fato de que determinados cargos de chefia somente podem ser ocupados pelos docentes. Na opinião dos trabalhadores, os docentes deveriam destinar mais tempo para as atividades de ensino, pesquisa e extensão e deixar a parte administrativa a cargo dos servidores técnico-administrativos.

De acordo com o Estatuto da Ufes27, em seu art. 37, parágrafo único, art. 57, parágrafo terceiro e art. 63 e art. 66 (p. 18, 22-24), os cargos de Reitor, Vice- Reitor, Chefes de Departamentos, Coordenadores de Colegiados de Curso28 serão exercidos por docentes, em regime de integral dedicação ao serviço. Entretanto, o cargo de Pró-Reitor, mediante a instituição da Resolução número 01/2012, datada de 20 de dezembro de 2012, que alterou o Estatuto da Ufes por meio do art. 42 (§ segundo), que estabelece que os Pró-Reitores deverão ser, obrigatoriamente, servidores do quadro Permanente da Universidade, abrindo, assim, um precedente para que servidores técnico-administrativos possam

26

Essa expressão foi utilizada por uma colega durante o percurso do trabalho de campo.

27

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO. Estatuto. Vitória, 2003. Disponível em: <www.daocs.ufes.br/>.

28

A Coordenação do Colegiado de Curso conforme a Resolução número 11/87, do Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão, que estabelece Normas de Funcionamento dos Colegiados de Curso de Graduação, em seu art.primeiro, parágrafo único estabelece “O coordenador será substituído em suas faltas ou impedimentos pelo subcoordenador e, na falta deste, pelo membro do Colegiado mais antigo no magistério da Universidade”. Dessa forma, apenas nessa Resolução foi mencionado que deverá ser escolhido um docente para ocupar o cargo de Coordenado de Curso de Graduação nessa Universidade.

exercer esse função. Atualmente, a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas é exercida por uma funcionária técnico-administrativa.