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15. ANALYSES FACTORIELLES

15.2. Structure du sexisme bienveillant

Aproximando-se o término do calendário letivo, aos professores daquela Unidade Escolar caberia a avaliação das ações decorridas até então, em termos do cumprimento daquelas que estavam previstas no Projeto Especial de Ação, da mesma forma que aconteceu ao final do primeiro semestre. Os professores nessas ocasiões põem-se a dialogar com os colegas a fim de alinhavar uma crítica comum para não serem alvos individualizados em se apresentando críticas mais contundentes. Mesmo assim costumam aparecer registros com críticas mais acentuadas.

No dia 2 de dezembro daquele ano (2004), os professores estavam reunidos em horário coletivo e, conforme avisados pelo pesquisador na semana anterior, iniciaram uma pré- avaliação dos projetos, o que deveria ser feito posteriormente em termos formais, tanto avaliações individuais quanto coletivas. A pauta da reunião foi definida a priori e já de conhecimento dos professores, qual seja um diálogo em torno da avaliação das discussões e usos da informática educativa durante o tempo de formação na escola, no horário de JEI, naquele ano. Para iniciar a reunião, o pesquisador disse que aquele diálogo seria registrado em suas notas de campo e que não seria tratado como uma avaliação da instituição nem pela instituição, muito menos seria uma avaliação dos profissionais ali envolvidos, tratando-se tão- somente de uma oportunidade para discussão sobre as limitações e alcances das práticas de formação. Falar que não se tratava de uma avaliação feita pela instituição (entenda-se pela coordenação ou direção da Unidade Escolar) foi muito importante, pois os professores assim se colocaram muito mais à vontade para emitir seus pensamentos.

Estavam presentes a esta reunião, ocorrida na sala dos professores, seis professores, identificados abreviadamente nesta parte da dissertação apenas por suas especialidades ou pelas classes às quais lecionam: uma professora de 3.ª série (Prof. 3), duas professoras de 4.ª

série (Prof. 4a e Prof. 4b), uma professora de Português (Prof. Port.), um professor de Educação Física (Prof. EF) e o professor de Inglês (Prof. Ing.), além do pesquisador (que, como informado anteriormente, também era professor da Unidade Escolar). A seguir, estão as anotações de campo feitas pelo pesquisador na ocasião da reunião. É preciso observar que mesmo as citações ipsis verbis dos professores não estão diferenciadas pois, embora haja fidedignidade às informações prestadas, não houve um registro auxiliar que permitisse a transcrição das falas por completo. As intervenções do pesquisador estão postas em caracteres itálicos, entre colchetes.

[Prof. Port.] – Na escola nada de novo foi aprendido. [Prof. 4a] – Não houve direcionamento do trabalho.

[Prof. 3] – Há um tempo disponível no nosso horário, mas esse tempo não está sendo bem trabalhado. A Prof. 4a descobriu muitos recursos por sua conta (vasculhando na Internet, descobriu muitos

sites interessantes).

[Prof. 4a e Prof. Port.] – O que foi aprendido foi em função de uma busca pessoal. [Prof. 3] – Deveria ser direcionado um trabalho em função das necessidades.

– Sempre há reuniões durante o nosso horário [reuniões da POIE durante o horário das aulas] – A POIE tem muitas reuniões, não está na escola...

– Há ainda o tempo de ocupação com a formatação das máquinas (no começo, meio e fim do ano).

– Não há sedução do professor, motivando-o, mostrando-lhe que é possível usar com os alunos... não há isso. A POIE chama para quê? [Durante o desenvolvimento do PEA, a POIE, conforme orientação que recebe da coordenação, chama os professores para fazer a reunião no LIE].

[Prof. 4a] – Também precisamos lembrar das máquinas quebradas [a partir do mês de outubro, as máquinas começaram a apresentar alguns problemas em seu funcionamento, de maneira que a esta altura do ano há 8 máquinas que os alunos não podem usar].

[Prof. 3] – O “Portal da Prefeitura” não teve uma seqüência. Segundo a POIE, o problema da não continuidade está com a Prodam (Companhia de Processamento de Dados do Município), pois esta não garantiu o acesso (impossibilitado ou demorado).

[Prof. Port.] – O que aprendi no curso [Profa] nada acrescentou às possibilidades de uso com os alunos. Há impedimentos de melhoria por parte dos profissionais envolvidos.

[Prof. 3] – A POIE não tem um planejamento... Precisei fazer gráficos no Excel e não tive ajuda – encontrei o auxílio que precisava com o professor de Matemática.

– Fiz trabalho com giz e lousa porque não tive apoio da POIE, quando deveria ser feito usando os recursos informáticos.

[O que acham deste espaço aberto a discussões desta natureza, destas possibilidades e de ter o LIE?] [Prof. 3] – Ter abertura para discussão é importante para a nossa formação enquanto profissionais, para

poder utilizar a ferramenta com os alunos. [Prof. Port.] – É positivo.

[Prof. Ing.] – Não adianta nada ter o espaço, discutir e nada acontecer, nada mudar. [Que possibilidades de melhor aproveitamento vocês podem apontar?]

[Prof. Port.] – Não sei se está dentro dos objetivos, mas aprender lidar com os diversos programas seria bom (tabelas, gráficos...).

[Prof. 3] – Ficamos muito na dependência [da POIE].

[Prof. 3 e Prof. Port.] – Teria que ter formação sobre a utilização dos programas [software a serem utilizados nas atividades desenvolvidas com os alunos].

– Ela [POIE] não dá aula.

[Prof. 3] – Mas como vou dar aula se não sei?

[Prof. EF] – Nós temos que aprender para poder utilizar os recursos.

[Prof. 3] – Para montar problemas que use gráficos, PowerPoint ou qualquer outro recurso tem que ter conhecimento [sobre o software].

[Prof. 3 e Prof. 4a] – Precisa ter clareza sobre a função do POIE.

[Prof. EF] – Imagina um professor que até três anos atrás nem sabia sentar diante do computador... como esse professor pode levar os alunos hoje para usar o computador? Precisa ter formação adequada.

[Prof. Port.] – Fiz um curso e tive que usar o que aprendi com os alunos, ainda durante a formação. [Prof. 3] – O que aprendi na capacitação, em informática, do PEC deu um banho no que aprendi aqui. [Como deve se dá a programação do PEA para que haja uma eficácia nas discussões e estudos acerca

da informática na escola?]

[Prof. 3] – Estruturar uma seqüência de trabalho, de maneira que funcione, para que realmente o professor tenha tal formação, que use o laboratório [LIE] com segurança.

[Prof. Port.] – Falta mesmo é aula de informática.

[Se houvesse formação suficiente acerca do uso de software, o trabalho docente com o uso de

computadores estaria garantido? Nada mais seria necessário?]

[Prof. Port.] – Sim, seria preciso mais... Discutir projetos, envolvendo todas as disciplinas.

[Prof. Ing.] – O professor tem que ter curso... Como para passar notas [está se referindo a passar os conceitos dos alunos para uma planilha no Excel]... No concurso não está sendo cobrado do professor que este tenha conhecimentos em informática, mas depois tem que usar. O professor é obrigado usar na marra!

[Prof. Port.] – Muito aprendi com minha filha.

[Prof. 3] – Dá para trabalhar com várias matérias na informática. [Prof. Port.] – Dá para fazer um trabalho maravilhoso!

[Prof. 3] – O que cada série irá trabalhar? O que em cada disciplina? A segunda série dará continuidade ao trabalho da primeira? E assim em diante. Tudo tem que ser planejado, discutido. É realmente trabalhoso, não é fechar as portas e trabalhar cada qual do jeito que quer. O PEC dá outra visão do que é escola... os vários usos dos multimeios (TC, VC, PA, PO, PT...)46. Isto

tudo devido à idéia de uma revisão na formação... Tudo isso já está aí e precisamos utilizar com os alunos.

[Formação e projeto são tudo que precisamos para promover um bom uso dos meios de que a escola

dispõe?]

[Interrupção da coordenação, que veio falar sobre as comissões de classe. Após, dispersão dos professores, que tinham que se preparar para a Comissão de Classe].

Este diálogo durou pouco mais de meia hora, pois, conforme registrado, uma Coordenadora Pedagógica entrou na sala, interrompendo a conversa e, imediatamente, começou avisar a todos que se preparassem para as Comissões de Classes. Ao sair, os professores já estavam dispersos com esta ou outras obrigações que lhes cabem no dia-a-dia

46 Estava se referindo aos recursos e aos professores do PEC – Formação para Docentes: TC: teleconferência;

da escola.

O que estes professores disseram suscitou a elaboração de um roteiro para uma entrevista individual a alguns deles (entrevistas já vislumbradas e com intenções declaradas aos professores antes mesmo do diálogo estabelecido), sendo que os professores para as entrevistas ainda não haviam sido escolhidos.

Neste diálogo e nas entrevistas, os professores falaram de sua formação, de sua prática, de seus anseios e expectativas, como que fazendo uma avaliação do trabalho desenvolvido na Unidade Escolar, pensando tanto no que foi trabalhado com os alunos quanto em sua formação contínua.

A seguir, serão apresentados os dados relativos a cada professora, dados estes obtidos em entrevistas abertas com cada uma delas com o pesquisador. As entrevistas foram gravadas num aparelho de áudio e, posteriormente, transcritas. É preciso dizer que antes de iniciar a gravação, o pesquisador explicava à professora que seria feita a transcrição e que esta lhe seria encaminhada, podendo haver alguma interferência nas respostas, se este fosse o seu desejo. As professoras, todas elas, não demonstraram qualquer insatisfação com estas condições e manifestaram total apoio e interesse para que as finalidades das entrevistas fossem atingidas. Finalidades que lhe foram descritas e explicadas, como sendo para contribuir para uma dissertação de mestrado, que iria avaliar e discutir as condições de formação contínua dos professores, não se constituindo em avaliação individual do trabalho do professor, nem mesmo daquela unidade de ensino em particular. Foi acrescentado ainda que os nomes, das entrevistadas ou de terceiros que porventura surgissem na conversa, seriam substituídos por siglas, pseudônimos ou códigos, que não os identificassem diretamente por pessoas estranhas àquela comunidade escolar. Assim foi que na redação final da dissertação foram escolhidos os códigos P1 a P8 para a identificação das oito professoras entrevistadas,

sendo que a numeração 1 a 8 não estabelece nenhuma ordem quanto às entrevistas, sendo totalmente aleatória.

As entrevistas ocorreram numa sala de aula convencional (no caso das professoras P2 e

P3, em suas respectivas salas de aula, coincidentemente), exceto no caso da Professora P8,

cuja entrevista ocorreu no Laboratório de Informática Educativa.

Como as entrevistas foram progressivamente se desenvolvendo em tom de diálogo, conforme já justificado nos procedimentos de coletas de dados (no Capítulo 1), as perguntas foram surgindo no desenrolar do diálogo, porém, abordavam principalmente os seguintes

pontos que constituíram o seu roteiro:

a trajetória profissional do professor; sua formação inicial;

sua formação contínua, contemplando oportunidades de formação nos espaços interno e externo à escola e aquelas que envolvem o uso de Tecnologias de Comunicação e Informação;

realização de sua formação na sala de aula com os alunos;

importância, possibilidades e limites do espaço de formação na escola.

A escolha destes tópicos foi suscitada pela reunião coletiva tratada na seção anterior deste capítulo e, embora esteja além dos horizontes desta pesquisa e fuja de sua delimitação, foi constituída de tal maneira a deixar o professor voluntariamente falar de suas reflexões sobre os pontos que mais interessam. Além disto, nestas entrevistas não poderia deixar de se considerar o entrelaçamento que existe entre as diversas situações institucionalizadas na escola, entre os contextos de formação de professores, estando todos eles de alguma maneira imbricados. Por exemplo, a formação inicial do professor e a sua trajetória profissional também fazem parte de sua formação contínua, assim como o seu trabalho diário com os alunos. Desta maneira, qualquer tentativa de separação desses aspectos seria equivocada, embora necessária.

Afora isto, todos estes pontos de alguma maneira ou em algum momento eram tratados pelo entrevistador de tal modo a convergir para discussões sobre o uso de Tecnologias de Comunicação e Informação no espaço de formação e, em particular, para a exploração e apropriação do Laboratório de Informática Educativa da Unidade Escolar enquanto contexto de formação de professores.

Como as professoras entrevistadas se sentiram bem à vontade com o pesquisador, comprometendo-se à fidedignidade nas informações pela própria situação, já que se abriu o precedente para isto pela situação institucional de avaliação das atividades relacionadas à formação contínua ocorridas durante o ano e porque o inquiridor tinha como propósito a pesquisa e mostrou-se solidário aos professores durante todo o tempo em que conviveram e não somente nos momentos em que mirava principalmente a sua pesquisa, as perguntas iam sendo formuladas à medida que a entrevista ocorria, tendo como norteador o roteiro apresentado acima, que não era de conhecimento das professoras. Entretanto, pretendia-se que as professoras, de maneira natural e voluntária, tocassem em alguns pontos, sem que a

pergunta direcionasse a sua resposta. Assim, o pesquisador foi questionando, segundo as respostas dadas e segundo suas intenções. Por exemplo: no que se refere a Tecnologias de Comunicação e Informação em sua prática docente, o pesquisador gostaria de ouvir da própria professora em que momento ela sentiu a necessidade de seu uso e quando aconteceram os primeiros contatos; entretanto, como em alguns casos tal assunto ou menção não surgiu, o pesquisador foi intensificando as perguntas que indiretamente poderiam levar a tais reflexões. Isto, no entanto, foi feito com muito cuidado uma vez que havia o receio de se configurar o que Brousseau denominou “efeito Topázio”47.

Uma vez feitas essas considerações, a seguir estão apresentadas as oito professoras escolhidas, com dados fornecidos por elas mesmas ou originados nas observações focais, lembrando que as motivações e critérios para escolha destas professoras estão detalhados nos procedimentos de coleta de dados, no Capítulo 1.