Structuration Multi-échelle de la Connaissance In-extenso d’Entreprise
5.4. STRUCTURATION MULTI-ÉCHELLE DE LA CONNAISSANCE IN-EXTENSO 55
Da interacção cultural e biológica entre os grupos humanos presentes no arquipélago de Cabo Verde surge o mestiço, resultado da interpenetração de dois grupos étnicos que “obedece à necessidade de obviar à escassez do capital escravo. Daí, a miscigenação em grande parte, sendo que os filhos resultantes da união de senhores e escravos viriam a constituir o recurso necessário de mão-de-obra para a lavoura.”287 O mestiço assume
paulatinamente na esfera pública cabo-verdiana um reconhecimento político e cultural. O
286 PIERRE TEILLARD DE CHARDIN, O Fenómeno Humano, (6ª ed.), São Paulo, Cultrix, 2003, p. 31.
287 BALTAZAR LOPES DA SILVA, Infância, in Claridade: Revista de Arte e Letras, Nº 2, São Vicente, Agosto
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escritor cabo-verdiano Pedro Sousa Lobo afirma que “cultural e sociologicamente, Cabo
Verde já não é África, embora etnicamente não seja Europa.”288Acrescenta ainda que “o povoamento e a colonização de Cabo Verde puseram em contacto dois elementos raciais totalmente diferentes (…) fundiram-se em secular interpenetração. A fusão decorreu sem sobressaltos nem violências, dando lugar, por uma contínua miscigenação, a um tipo humano de maior interesse antropo-sociológico.”289 Em consequência de todo este processo, surge o
mestiço, que passou a assumir uma forma de estar, de viver e de se expressar diferente dos colonos e dos escravos, e foi assim que veio posteriormente a definir-se a tal cabo-
verdianidade.290
O cabo-verdiano é o resultado da miscigenação que marcou indubitavelmente o período da colonização neste arquipélago. David Hopffer Almada, escritor, advogado e consultor jurídico cabo-verdiano, considera que neste modelo, a miscigenação mostrou-se indispensável
na própria projecção do colonizador, afirmando que “o recurso, não apenas às populações
autóctones, aos escravos mas, mais do que isso, à miscigenação, aparecia como uma “conditio sine quo non” de todo o processo expansionista português.”291 Na visão de
Gilberto Freyre quanto ao processo de miscigenação, os portugueses destacam-se entre os
colonizadores modernos que se foram misturando “gostosamente com mulheres de cor logo
ao primeiro contato e multiplicando-se em filhos mestiços que uns milhares apenas de machos atrevidos conseguiram firmar-se na posse de terras vastíssimas e competir com povos grandes e numerosos na extensão de domínio colonial e na eficácia de ação colonizadora.”292O processo de mestiçagem deverá ser encarado sob dois ângulos: o africano
e o europeu, acompanhado de uma certa interdependência cultural que conduziu à formação da cultura cabo-verdiana e, de facto, foram aqui lançadas as bases para a construção de uma sociedade.293
Proveniente do cruzamento entre brancos europeus e de escravos africanos, oriundos da costa africana, o homem cabo-verdiano é confrontado nos mais variados debates sobre a sua origem e identidade, protagonizados em eventos científicos que têm lugar, tanto em Cabo Verde como no estrangeiro. Assiste-se ultimamente a uma vasta produção científica de
288 PEDRO SOUSA LOBO, A originalidade humana de Cabo Verde, in Revista Claridade n.º 9., São Vicente,
Dezembro 1966, pp. 67.
289 Idem, pp. 64-69.
290 Entrevista a Olívio Mlício Pires (ver Relação das Entrevistas em anexo).
291 DAVID HOPFFER ALMADA, Pela Cultura e pela Identidade: Em defesa da caboverdianidade, Praia, Instituto
da Biblioteca Nacional e do Livro, 2006, p. 47.
292 GILBERTO FREYRE, Casa-Grande & Senzala: Formação da família brasileira sob o regime da economia
patriarcal, (48ª ed.), São Paulo, Global, 2003, p. 70.
77 intelectuais cabo-verdianos, tentando partilhar as suas reflexões sobre a realidade do seu país, tendo como foco principal a sua multiplicidade e plasticidade que, na óptica de Cláudio
Furtado, constituem “olhares disciplinares, os mais diversos, têm procurado compreender
esta nossa realidade mutante, num mundo a múltiplas vozes e velocidade.”294
Jorge Querido, engenheiro e coordenador entre 1959 a 1968 da Secção do PAIGC em Portugal, observa que, de facto, o contexto cabo-verdiano foi sempre marcado por contrastes de pensamentos, e da própria natureza dos cabo-verdianos, que, de certa forma, marcaram a organização social e económica do arquipélago. Neste sentido, para o antigo dirigente da Casa
dos Estudantes do Império, a sociedade cabo-verdiana foi “paulatinamente, sofrendo
transformações de vária ordem, com os principais intervenientes, cada um à sua maneira, a protagonizar disputas, choques e até lutas sérias, por vezes graves, que acabariam por introduzir no espaço das ilhas, mudanças profundas tanto no plano social como no plano económico.”295
Descortina-se a origem do mestiço cabo-verdiano, questionando-se a sua progénie africana e/ou europeia. Neste contexto, surge a questão central de saber se os cabo-verdianos são africanos, europeus ou simplesmente cabo-verdianos? Na óptica de David Hopffer Almada a questão reveste-se de particular importância e traz à tona uma ambiguidade “considerada politicamente explorável e explorada: sendo Cabo Verde um arquipélago, não pertencendo, portanto ao continente e tendo sido povoado por populações europeias e africanas, onde inserir Cabo Verde? Ou, como alguns colocaram a questão: Cabo Verde pertence ao espaço português (Europa) ou Africano?”296
Retomando especificamente a problemática sobre a génese da formação do homem cabo- verdiano, o que conduz ao debate em torno da pertença de Cabo Verde à África ou à Europa, podemos destacar vários pontos de vista:
Em 1957 Almerindo Lessa e Jacques Ruffié publicaram pela Junta de Investigações do Ultramar um volume contendo dois trabalhos intitulado Seroantropologia das Ilhas de Cabo Verde: Mesa Rendonda sobre o Homem Cabo-verdiano. Esse estudo centra-se sobre as raízes genéticas da população cabo-verdiana numa perspectiva antropológica. Os autores chegaram à seguinte conclusão: Cabo Verde constitui um exemplo de miscigenação biológica,
294 CLÁUDIO FURTADO, Prefácio, in DAVID HOPPFER ALMADA, Pela Cultura e pela Identidade: Em defesa da
caboverdianidade, Praia, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2006, p. 11.
295 JORGE FERREIRA QUERIDO, Um demorado olhar sobre Cabo Verde: O país, sua génese, seu percurso, suas
certezas e ambiguidades, (1ª ed.), Lisboa, Chiado Editora, 2011, p. 87.
296 DAVID HOPFFER ALMADA, Pela Cultura e pela Identidade: Em defesa da caboverdianidade, op. cit., pp. 80-
78 determinante na formação do seu povo, sendo que o estudo sobre a sua génese revela-se
importante para a análise histórica acerca da origem do homem mestiço.297
Seroantropologicamente, a população cabo-verdiana é homogénea e diferenciando-se das populações do Sul de Portugal, e não existindo diferenças significativas entre o grupo do
Barlavento e o de Sotavento. “A população cabo-verdiana dispõe, apenas, de 35% de genes
predominantemente brancos e 65% de genes predominantemente negróides.”298 Ambos
defendem que, apesar de se reconhecer a contribuição da mestiçagem no enriquecimento do património genético e cultural do homem cabo-verdiano actual, constata-se que não há
consenso no ajuizamento sobre o novo tipo de homem que surgiu do cruzamento de “raças” e
de culturas.299
Um outro estudo de 2013 apresentado pela equipa de Jorge Rocha, professor associado do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), numa conferência intitulada “A diversidade genética de Cabo Verde” revelou que a população do arquipélago de Cabo Verde é a mais “miscigenada” do planeta. Primeiro, o arquipélago constitui um ponto de encontro de populações de várias regiões do mundo, o que já acontecia desde os primórdios do povoamento, permitindo uma enorme quantidade de biodiversidade nas novas gerações que apresentam características de miscigenação acentuada. Segundo, a miscigenação tem marcas genéticas africanas, em 57%, e europeias, em 43%, que se reflectem
na pigmentação da pele e na cor dos olhos.300 Jailson Lopes, Mestre em Biodiversidade,
Genética e Evolução na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, actualmente docente na Universidade de Cabo Verde, constatou, na tese de mestrado apresentada na Universidade do Porto em 2013, que a miscigenação foi assimétrica e envolveu quase
exclusivamente uniões entre homens europeus e mulheres africanas. Concluiu que “o cálculo
do tempo decorrido desde o início da miscigenação (300 a 500 anos) está de acordo com a história conhecida do arquipélago e sugere que o processo de mestiçagem, à semelhança da
297ALMERINDO LESSA E JACQUES RUFFIÉ, Seroantropologia das ilhas de Cabo Verde: Mesa redonda sobre o
homem cabo-verdiano, op. cit., p. 19.
298 ALMERINDO LESSA, O homem cabo-verdiano: Suas raízes, sua multiplicação, suas doenças- Linha vertebral
de um ensaio demográfico, com uma introdução critica aos métodos para o estudo do mestiço luso-tropical, in
Colóquios Cabo-verdianos, Nº 22, Lisboa, Junta de Investigação do Ultramar, 1959, p. 123.
299 ALMERINDO LESSA E JACQUES RUFFIÉ, Seroantropologia das ilhas de Cabo Verde: Mesa redonda sobre o
homem cabo-verdiano, op. cit., p. 97.
300 JORGE ROCHA, ET. ALII, Genetic Architecture of Skin and Eye Color in an African-European Admixed
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formação do crioulo cabo-verdiano, se iniciou no primeiro ciclo de povoamento do arquipélago.”301
Em relação à problemática acerca da origem e do processo da miscigenação em Cabo Verde, as opiniões divergem quanto à questão da pertença de Cabo Verde à África ou à Europa, ou se é simplesmente uma região tropical, que se apresenta como peculiar na sua organização social, cultural, económica e política, tanto no país como na diáspora. Almerindo
Lessa considera extremamente interessante que uma população “onde existem apenas 35% de
genes, digamos, ocidentais, ou que percentualmente existem com destaque no homem ocidental, se manifeste, actue, raciocine e se produza, tanto no campo literário, como no campo social, como no campo filosófico, quase como se fosse composto apenas por homens ocidentais.”302
Segundo o antropólogo cabo-verdiano Augusto Mesquitela Lima, Cabo Verde não é África e nem tão pouco Europa, uma vez que se deve considerar que Cabo Verde é uma região dos trópicos, que tem, sem dúvida, na sua génese uma parte da Europa e da África, geograficamente mais próximo da África, mas culturalmente singular, com características sociais próprias que o distingue das duas civilizações presentes nos primórdios da sua
história.303 Na concepção de Elisa Andrade, historiadora e ex-combatente da liberdade e
pátria, os cabo-verdianos souberam, durantes séculos, distanciar-se e diferenciar-se do europeu e do africano, tendo criado, ainda no antigo império colonial, perante limitações contextuais, uma identidade própria e expressiva, imbuída de significados simbólicos
eternizados na sua memória.304 Manuel Veiga, linguista cabo-verdiano, acredita que Cabo
Verde culturalmente é singular, mas alerta os cabo-verdianos a nunca se esquecerem da sua
origem africana, e que, neste sentido, Cabo Verde é África, partilhando o universo africano.305
O debate em torno da origem do cabo-verdiano e da sua identidade, tem vindo a ser analisado,
301 JAILSON VALDIQUE SEMEDO LOPES, Distribuição de segmentos do cromossoma X com ancestralidade
europeia e africana na população de Cabo Verde: implicações para o estudo da miscigenação em populações humanas e para a história do povoamento do arquipélago, (Tese de Mestrado), Porto, Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, 2011, p. 1.
302 ALMERINDO LESSA, O homem cabo-verdiano: Suas raízes, sua multiplicação, suas doenças- Linha vertebral
de um ensaio demográfico, com uma introdução critica aos métodos para o estudo do mestiço luso-tropical, op. cit., p. 123.
303 AUGUSTO MESQUITELA LIMA, Dinâmica da Cultura Cabo-verdiana, in Emigrason, Nos 38/39, Iª Série, 1996,
p. 4.
304 ELISA ANDRADE SILVA, Cabo Verde: Povo, Cultura, Identidade Cultural, in Cultura: Revista Semestral, Ano
1, Nº 1, Praia, Publicom, 1997, p. 17.
305 MANUEL VEIGA, Cabo Verde: Que cultura, que direito, que dinamismo, in Pré-textos, Número Especial,
80 não apenas no campo da biologia e genética - distinção entre o europeu e o africano, mas igualmente no percurso histórico desse povo, desde a colonização à independência nacional.