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H. Facteur humain

2. L ES OUTILS D ’ AIDE À LA DÉCISION

2.1. La structuration hiérarchique

Mallarmé foi o primeiro crítico e teórico de dança (“Mallarmé se definiu como crítico de dança: um crítico que era um poeta e que quis acreditar que a dança poderia ser uma arte superior” (SASPORTES, 1983, p.11) e compôs vários textos, reunidos no livro Divagations (1897), nos quais elaborou uma espécie de filosofia da dança24

, também incorporada no seu trabalho poético, especificamente no poema Um lance de dados.

Importa frisar que toda a reflexão estética de Mallarmé sobre a dança coincide com a fase da desintegração do sistema poético verbal, uma vez que o poeta rompe com os rígidos esquemas da versificação tradicional, dispersando os significantes na página da mesma forma que as bailarinas se colocam coreograficamente no palco, revelando assim uma nova configuração gráfica até então despercebida pelos poetas. A confluência entre poesia e dança pode ser, inicialmente, verificada no texto intitulado Ballets (1891), no qual Mallarmé se concentra na forma de assimilação, pela figura da bailarina, de duas linguagens: a poética e a coreográfica:

Sabendo que a dançarina não é uma mulher que dança; [...] que ela não é mulher, mas sim, uma metáfora sintetizadora de nossa natureza: espada, taça, flor etc... e que ela não dança; sugere pelo prodígio da síntese ou dos ímpetos com uma escrita corporal aquilo que um texto poderia exprimir apenas com

24 Tal “filosofia” contém observações feitas pelo poeta a partir da capacidade virtuosística das

bailarinas que atuavam no ballet Excelsior em Paris. Ressaltem-se aqui os comentários que também fizera sobre as danças destituídas de qualquer lógica dramática de Loie Fuller, que foram apresentadas através da manipulação dos véus que envolviam a bailarina e eram todo o seu décor, ganhando uma mobilidade coreográfica particular graças a certos artifícios da luz. São espectadores que partilhavam do mesmo entusiasmo de Mallarmé: Rodin, Anatole France e Toulouse-Lautrec.

paráfrases em prosa dialogada e descritiva: poema livre de todo aparato do escriba.25 (MALLARMÉ, 1976, p.192-193)

Depreende-se daí a idéia de destituir a bailarina de sua função de intérprete e de mulher, para ser uma metáfora sintetizadora de todas as formas. Mallarmé chega a compará-la a uma flor, “o primeiro tom instinto poético”, conforme expressão utilizada pelo poeta. Na seqüência de suas críticas, chega a ponto de reduzir a bailarina a um sinal, um hieróglifo em movimento, já que esta apresentava uma capacidade de desenvolver uma gramática corporal no espaço. É o que se pode perceber na passagem em que Mallarmé registra a aparição efêmera da bailarina diante dos olhos do espectador: “A dançarina [...] através do último véu que sempre permanece, te confia à nudez de suas idéias e registra sua aparição, na forma de um Signo, que ela é”.26

(MALLARMÉ, 1976, p.197)

Essa observação de Mallarmé em torno da bailarina – transformando-a em flor-palavra – permite estabelecer uma imediata associação entre sons, formas e movimento, na medida em que essas correspondências atentam para a própria materialidade do signo verbal. Tudo aí indica que a palavra não é concebida como uma capa de conceitos, mas como matéria viva, em comunicação permanente. Para o crítico Max Bense quando a palavra, e não o verso, passa a ser a base material do poema, “este se liberta da distribuição linear, característica do âmbito informativo convencional da poesia clássica, passando ao arranjamento do plano” (BENSE, 1983, p.195), ou seja, para a caracterização topológica do texto.

25 Cf. no original: “A savoir que la danseuse n’est pas une femme qui danse, pour ces motifs

juxtaposés qu’elle n’est pas femme, mais une métaphore résumant un des aspects élémentaires de notre forme, glaive, coupe, fleur, etc., et qu’elle ne danse pas, suggérant, par le prodige de raccourcis ou d’elans, avec une écriture corporelle ce qu’il faudrait des paragraphes en prose dialogué autant que descriptive, pour exprimer,dans la rédations: poème dégagé de tout appareil du escribe.” MALLARMÉ.Igitur; divagations; un coup de dés. França, p. 192-193.

26

Cf. no original: “elle te livre à travers le voile dernier qui toujours reste, la nudité de tes

concepts et silencieusement écrira ta vision à façon d’un Signe, qu’elle est.” MALLARMÉ. Igitur; divagations; un coup de dés. França, p. 197.

Em certo sentido, pode-se pensar na definição de “centro de suspense vibratório” dada por Mallarmé (MALLARMÉ, 1976, p.278-279), a propósito da função da palavra em “O mistério das letras”. Nesse texto, ele reconhece as várias possibilidades ou facetas que as palavras desempenham no obscurecimento dos sentidos e no gozo das formas e dos sons. Se Mallarmé designa as palavras como um “centro de suspense vibratório”, Octavio Paz entende que elas são apresentadas pelo poeta francês como um “centro de irradiações semânticas”, já que elas vibram e irradiam sentidos múltiplos. Uma palavra contamina outra palavra, assim como na dança, em que um movimento reflete e desencadeia um outro. Em Um lance de dados, há uma tentativa de reproduzir os efeitos que a dança enquanto arte do espaço possui: corpo, visão, cheiro, contato direto, movimento. No entanto, o poema está impresso na brancura rígida da página e não em um palco; as palavras não se deslocam dali, porque estão fixas, impressas (cada palavra se mantém em uma única posição estabelecida previamente pelo poeta ao editar o poema); não têm músculos; não transpiram, mas deixam rastros luminosos, sentidos; não têm cheiro, mas possibilitam apresentar os dados como um sistema de significação aberto, móvel, portanto, múltiplo em direção ao receptor: a frase ou a palavra passa a se abrir e, conforme Blanchot,

por essa abertura, sobrepõem-se, soltam-se, afastam-se e juntam-se, em diferentes níveis de profundidade, outros movimentos de frases, outros ritmos de falas, que se relacionam uns com os outros segundo firmes determinações de estrutura, embora estranhas à lógica comum – a lógica de subordinação – a qual destrói o espaço e uniformiza o movimento. (BLANCHOT, 2005, p.347)

O que se pode depreender diante desse efeito da dança, que institui uma surpreendente coreografia dos signos, é que a idéia de incluir a simultaneidade como meio de absorver, ler o poema em questão, tido como o mais radical da

poesia moderna, não exclui, mas reata, a contragosto de alguns pesquisadores, a idéia de sucessividade, por um motivo justo e simples que é o fato de que há outro modo de produzir significação e este está na leitura e que, portanto, instaura temporalidades mesmo que provisórias. O leitor terá que atuar como um operador, pois os elementos são espaciais, são jogados em “diferentes níveis de profundidade”, diz Blanchot, e é preciso que outra instância produza, faça o trabalho de composição que não é dada previamente. O trabalho de coletar, combinar os dados, que significa montar e desmontar seqüências, está no leitor.

É pertinente pontuar que há uma forte tendência de se dizer que quem lança os signos é o autor, mas, na verdade, simultaneamente e contrário a ele, também quem joga os dados é quem os lê, é quem compõe o poema. Qualquer efeito de continuidade se dá na leitura por meio da mobilidade do escrito. Quando se é atraído pelo silêncio e/ou pela “brancura rígida derrisória em oposição ao céu”, de Um lance de dados, escolhas têm que ser tomadas pelo leitor: os fragmentos de idéias vão sendo agenciados por parte de cada um, ou como quer Mallarmé, toda emoção sai de cada um de nós, “alarga um meio; ou em nós se funde e o incorpora”. Portanto, o poema é espacial.

Quando se assiste a um ballet também se fazem escolhas, pois não é possível captar todas as variações, todas as seqüências coreográficas executadas por parte de cada bailarino, todos os detalhes (ausência e presença de objetos cênicos, por exemplo) ao mesmo tempo. Ao considerar a palavra como “centro de suspense vibratório” ou “centro de irradiações semânticas”, isso de fato ocorre na linguagem verbal, pois a última palavra contagia a primeira, e assim por diante. Todo tipo de interferência pode existir. Todas as palavras podem ter a mesma potência dentro de um texto. Através da leitura, de um momento de concatenação

de idéias, uma palavra pode irradiar mais do que a outra, sem, contudo, excluir alguma. Em suma, o leitor envolve outro modo de produzir significação, que é mais coordenativo do que subordinativo, e isso é fundamental, porque envolve a questão da leitura.

Além disso, não existe modelo que estabeleça previamente a leitura. Mallarmé, no prefácio de Um lance de dados, não procura, por exemplo, estabelecer, categoricamente, um modelo único e exclusivo para ler o poema, apenas orienta o leitor ingênuo para que este considere de antemão a importância do branco que ladeia as palavras; e que isso não é um mero “espaçamento da leitura” porque a ficção, formada de constelações móveis, institui outra lógica textual e esta não estará representada em linha reta porque “assomará e se dissipará, célere, conforme a mobilidade do escrito, em torno de pausas fragmentárias de uma frase capital desde o título introduzida e continuada. Tudo se passa, para resumir, em hipótese; evita-se o relato” (MALLARMÉ, 1991, p.151). [Grifos meus]

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