Estudar cientificamente o amor é uma árdua tarefa em razão de dificuldades metodológicas e impropriedades conceituais intrinsecamente relacionadas a este tipo de investigação. Ao tratar de um tema como este se corre o risco de cair na banalidade do senso comum, na ambiguidade, no espiritualismo, na autoajuda e no sentimentalismo barato. As várias definições e teorias existentes refletem a dificuldade dos autores de conceituá-lo mais precisamente e, dessa forma, possibilitar sua diferenciação de outros sentimentos/comportamentos afins.
Pelo fato de ser um conceito tão familiar, muitos supõem que os pesquisadores da área estão de acordo sobre o que constitui o amor e como se pode mensurá-lo. Mas, isto não é o que de fato ocorre. A maioria das pesquisas sobre o amor é baseada em concepções teóricas definidas a priori. Usualmente o pesquisador começa definindo o que ele entende por amor, e, então, desenvolve uma escala para quantificar e/ou qualificar este sentimento. E seus resultados como não poderiam deixar de ser, tendem a concordar com o que o investigador espera encontrar.
Pelo fato de serem relativamente recentes as teorias e os estudos sobre o amor e de haverem muito poucas pesquisas empíricas sobre o que se deve entender por amor no ser humano, mormente em nosso meio, este é um campo propício à investigação científica. Assim sendo, parece justificado um estudo que tenha por diretriz identificar características que pessoas comuns atribuem com maior frequência ao amor, uma vez que seus resultados podem ajudar a conceituar empiricamente o fenômeno amoroso dado que, como visto, muito do que se propôs acerca dessa área de conhecimento são constructos predominantemente teóricos, produtos da reflexão de um enorme número de pensadores ao longo dos séculos. Tendo em mente que: 1) o conceito que as pessoas têm de amor pode ser considerado algo que se aprende e que evolui ao longo do desenvolvimento humano e 2) que o conceito de amor predominante em cada cultura e estrato social pode diferir em função do gênero, da faixa etária e do grau de escolaridade, o presente estudo se propõe aos seguintes objetivos:
a) Identificar as características mais comumente atribuídas e/ou associadas à palavra amor por sujeitos brasileiros de diferentes idades e condições sociais;
b) Verificar se há diferenças estatisticamente significantes em função das variáveis: gênero, faixa etária e grau de escolaridade.
CAPÍTULO 4
MÉTODO
4.1 Sujeitos.
Inicialmente, no delineamento original desse estudo foi pensado em constituir três grupos de sujeitos de acordo com a faixa etária e o grau de escolaridade. Seriam eles:
Grupo 1: 100 participantes (50 homens e 50 mulheres) de, pelo menos, três cidades do interior do estado de São Paulo alunos de instituições de ensino públicas e privadas, adolescentes de 14 a 17 anos, que corresponde à idade esperada para se cursar o Ensino Médio no sistema educacional brasileiro, no ensino regular.
Grupo 2: 100 participantes (50 homens e 50 mulheres) de, pelo menos, três cidades do interior do estado de São Paulo alunos de instituições universitárias de ensino públicas e privadas, na faixa etária de 18 a 30 anos.
Grupo 3: 100 participantes (50 homens e 50 mulheres) de, pelo menos, três cidades do interior do estado de São Paulo ouvintes/participantes de uma palestra gratuita conduzida pelo pesquisador e proponente deste projeto, maiores de 30 anos de idade.
Todavia, ao final da coleta de dados foi possível aumentar substancialmente o número inicialmente previsto de tal forma que a amostra total foi constituída por 600 sujeitos (390 mulheres – 65%; 209 homens – 34,83% e uma pessoa que não identificou o sexo – 0,17%), que foram distribuídos em sete grupos, a saber:
• GRUPO 1 - Adultos da cidade de São Carlos: compuseram este grupo 57 indivíduos, 26 mulheres (45,6%) e 31 homens (54,3%);
• GRUPO 2 - Adultos da cidade de São Paulo: compuseram este grupo 171 indivíduos, 118 mulheres (69%) e 53 homens (31%);
• GRUPO 3 - Alunos do Ensino Médio de uma escola da rede privada de São Paulo: compuseram este grupo 50 indivíduos, 27 mulheres (54%) e 22 homens (44%) e uma pessoa (2%) não identificou seu gênero;
• GRUPO 4 - Alunos do Ensino Médio de uma escola da rede pública de São Paulo: compuseram este grupo 108 indivíduos, 80 mulheres (74,1%) e 27 homens (25,9%);
• GRUPO 5 - Alunos do Ensino Médio de uma escola da rede pública de São Carlos: compuseram este grupo 167 indivíduos, 101 mulheres (60,5%) e 66 homens (39,5%);
• GRUPO 6 - Alunos universitários da rede privada de São Carlos: compuseram este grupo 24 indivíduos, 17 mulheres (70,8%) e 7 homens (29,2%);
• GRUPO 7 - Alunos universitários da rede pública de São Paulo: compuseram este grupo 23 indivíduos, 22 mulheres (91,3%) e 2 homens (8,7%).
A escolha por se multiplicar os grupos se deveu ao fato de que se fosse investigado apenas três grupos, como originalmente delineado, muitas das observações descobertas poderiam se confundir. Por exemplo, quando o pesquisador realizou o desenho do experimento a fim de coletar os dados, não lhe aventou encontrar tantos alunos com uma faixa etária superior ao que ele buscava ou também quando acorreu aos locais para coletar os adultos participantes, não considerou uma adesão tão alta de pessoas de outras faixas etárias. Logo, para se evidenciar melhor os resultados obtidos, optou-se por redistribuir os participantes em sete grupos, como os anteriormente apontados. Consequentemente, a média das idades dos participantes foi de 23,82 anos (valor mínimo = 14, valor máximo = 73, desvio padrão = 11,8), sendo 34,83% do sexo masculino e 65% do sexo feminino, um entrevistado não indicou o sexo, correspondendo a 0,17% da amostra total, conforme apresentado nas Tabelas 1 e 2).
Tabela 1. Descrição geral da amostra para os sete grupos analisados.
GRUPOS % n
9,5 57
GRUPO 1 - Adultos da cidade de São Carlos
GRUPO 2 - Adultos da cidade de São Paulo 28,5 171
GRUPO 3 - Alunos do Ensino Médio de uma escola da rede
privada de São Paulo 8,33 50
GRUPO 4 - Alunos do Ensino Médio de uma escola da rede pública
de São Paulo 18 108
GRUPO 5 - Alunos do Ensino Médio de uma escola da rede
pública de São Carlos 27,83 167
GRUPO 6 - Alunos universitários da rede privada de São Carlos 4 24
GRUPO 7 - Alunos universitários da rede pública de São Paulo 3,83 23
TOTAL 100 600
Tabela 2. Idade dos entrevistados: mínimo, máximo, média e desvios padrão de cada
categoria.
GRUPOS Mínimo Máximo Média
Desvio Padrão GRUPO 1 15 73 33,82 13,82 GRUPO 2 17 60 34,63 12,59 GRUPO 3 14 17 15,84 1,00 GRUPO 4 15 21 16,63 1,08 GRUPO 5 15 19 16,57 0,89 GRUPO 6 18 42 23,65 6,80 GRUPO 7 18 34 21,17 3,73 TOTAL 14 73 23,82 11,80
Dos participantes, conforme podemos observar, as médias de idade para os grupos 1, 2, 3, 4, 5 6 e 7 são respectivamente, 33,82 (d.p.= 13,82), 34,63 (d.p.=12,59), 15,84 (d.p.= 1,00), 16,63 (d.p.= 1,08), 16,57 (d.p.= 0,89), 23,65 (d.p.= 6,80) e 21,17 (d.p.=3,73).
Como, podemos verificar, em média os grupos têm uma idade próxima do que se foi pensado originalmente para este estudo. Quanto ao grau de escolaridade dos participantes desta pesquisa, podemos observar a seguinte distribuição na Tabela 3.
Tabela 3. Escolaridade dos entrevistados: frequência absoluta e porcentagem dos níveis de
escolaridade.
Legenda: FA= Frequência absoluta. 1 - Primeiro grau incompleto; 2 - Primeiro grau completo; 3 - Segundo grau incompleto; 4 - Segundo grau completo; 5 - Terceiro grau incompleto; 6 - Terceiro grau completo; 7 - Pós-Graduação (mestrado, Doutorado ou Pós-doc); NR= Não resposta.
Dos participantes, 0,17% possuíam o primeiro grau incompleto, 1% o primeiro grau completo, 55,17% o segundo grau incompleto, 4% o segundo grau completo, 10,33 o terceiro grau incompleto, 19,33 o Terceiro grau completo e 8,5% possuíam Pós-Graduação (mestrado, doutorado ou pós-doc), sendo que 9 entrevistados não indicaram a escolaridade, correspondendo a 1,5% da amostra.
Há de se evidenciar que não houve a participação de alunos de escolas do ensino médio particulares e de alunos universitários na cidade de São Carlos, tampouco de universidades particulares em São Paulo, embora o pesquisador tivesse estabelecido contato com as respectivas diretorias e centros de coordenação de cada local, conforme procedimento e protocolos adotados nos outros locais de origem dos dados.
GRUPOS 1 2 3 4 5 6 7 NR FA % FA % FA % FA % FA % FA % FA % FA % GRUPO 1 0 0 4 7,02 5 8,77 14 24,56 11 19,3 12 21,05 11 19,3 0 0 GRUPO 2 1 0,58 2 1,17 1 0,58 10 5,85 51 29,82 57 33,33 40 23,39 9 5,26 GRUPO 3 0 0 0 0 50 100 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 GRUPO 4 0 0 0 0 108 100 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 GRUPO 5 0 0 0 0 167 100 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 GRUPO 6 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 24 100 0 0 0 0 GRUPO 7 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 23 100 0 0 0 0 TOTAL 1 0,17 6 1 331 55,17 24 4 62 10,33 116 19,33 51 8,5 9 1,5
4.2 Material.
Cada participante utilizou um bloco de papel com duas páginas (duas metades de folhas de papel sulfite, tamanho A4, Anexo 4). Na parte superior da primeira folha, cada participante informou alguns dados pessoais (sexo e série escolar, se acaso fosse aluno, ou grau de escolaridade); na parte inferior dessa mesma página estavam impressas as seguintes instruções:
“Estamos interessados em conhecer as características comumente associadas ao termo amor. Assim sendo, venho solicitar sua colaboração neste trabalho de pesquisa.
Na parte superior da página seguinte, você encontrará a palavra amor. O que lhe pedimos é muito simples: leia o termo e, a seguir, no período de um minuto e meio, escreva no espaço em branco todas as características que lhe vierem à mente diante desse estímulo. A sua primeira impressão é muito importante, portanto, você não deve se preocupar em saber se suas respostas são adequadas ou não. O que nos interessa são suas evocações ou associações diante do estímulo apresentado.
Muito obrigado por sua colaboração.”
Na parte superior da segunda folha, estava impressa, em letras maiúsculas, em negrito e centralizada, a palavra AMOR. Todo o restante dessa página estava em branco.
A aplicação do instrumento foi realizada de forma coletiva. O pesquisador esclareceu as dúvidas que, porventura, foram a ele dirigidas e salientou a sua preferência pelo preenchimento da folha com palavras únicas ou com respostas curtas. Também foi informado que não havia limite no número de respostas dadas. A partir disso, os participantes tiveram 90 segundos para realizarem a tarefa. Há de se ressaltar que esta estratégia de coleta de dados não é criação do proponente de pesquisa; ela foi concebida por Lomônaco e utilizada em vários estudos (e.g. Lomônaco et al., 2012; Cazeiro & Lomônaco, 2011; Lomônaco & Campos, 2003; Lomônaco et al., 2006; Lomônaco, Nunes & Sano, 2004).
Findo o tempo proposto, o pesquisador recolheu cada folha, de forma aleatória, e as guardou dentro de um envelope, a fim de evitar a possibilidade de os respondentes serem identificados ou ainda de serem reveladas as respostas das pessoas que participaram dessa aplicação coletiva.