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Chapitre 5 : Modélisation du générateur éolien

IV) Stratégie de maximisation de la puissance

Os argumentos – até este momento – utilizados por Lucrécio sobre a função clarificadora da razão são ampliados na passagem seguinte:

Exatamente como trêmulos meninos que tudo receiam nas obscuras trevas, assim nós tememos à luz do dia o que em nada é mais de recear do que as fantasias que atemorizam os meninos no escuro. E a este terror do espírito e a estas trevas não afastam nem os raios do Sol, nem os luminosos dardos do dia: só o fazem o estudo da natureza e suas leis (Da natureza, II, 54-61).

Quando influenciados pelos temores da religião, os homens são como crianças no escuro, cujo medo se dirige a algo que não é real. Somente a luz da razão é capaz de dissipar as brumas do terror, desvelando a sua irrealidade. Até mesmo a claridade do sol é ofuscada pela luz da physiología, a qual dispersa verdadeiramente as nuvens do engano. Como havia insinuado antes240, os medos que infestam a existência dos homens não são removidos pelo inútil fulgor e splendor do mundo; tais adornos apenas acentuam a escuridão do espírito. Para sair da ignorância, é necessário a naturae species ratioque241. É extraordinário como essa sentença, em Lucrécio, perde todo o tecnicismo terminológico que lhe é peculiar, e se torna sutilmente uma fórmula descritiva para o tema do poema (SEDLEY, 2003, p. 39). Em uma primeira análise, natura species ratioque indica, sem dúvidas, o procedimento racional da Filosofia de “olhar a natureza e raciocinar sobre isso”. Mas, ao mesmo tempo, o latim permite – e até mesmo incentiva – uma leitura adicional, a saber, “a aparência racional da natureza”, enfatizando o poder desta última em confrontar o homem com a verdade – um motivo que Lucrécio voltará a abordar em uma boa parte do poema242.

Sob ambos os aspectos, a passagem reproduzida do poema oferece um contraste gritante entre a natureza enquanto objeto de investigação – aquilo que se apresenta à análise do raciocínio – e relutância em nomear claramente esse objeto. Isso pode ser verificado, através da análise dos termos atribuídos à área ou disciplina investigada pelo filósofo romano,

240 DRN, II, 37-53. 241 Ibidem, 61.

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mas que não aparece explicitamente no texto latino. O DRN é um poema sobre a física, a qual os próprios contemporâneos de Lucrécio chamavam de physica, mas em nenhuma parte da obra ele usa esse termo ou mesmo seus cognatos podem ser encontrados. Apesar dessa lacuna – se é que se trata disso –, Lucrécio oferece um propósito para o conhecimento físico que está investigando. O estudo da physica só se justifica se os medos dos ignorantes e supersticiosos puderem ser dissipados pela natura species ratioque243.

Apesar da ênfase positiva no conhecimento como antídoto para a ignorância, De Rerum Natura é uma obra sombria se comparada, por exemplo, aos escritos de Epicuro (a Carta a Meneceu principalmente)244. Com efeito, as conclusões do Livro VI de Da natureza são trágicas, em certo sentido245, e, do ponto de vista do leitor, apesar da ênfase na importância do conhecimento da natureza, a descrição que o poeta romano faz da peste de Atenas246 envolve elementos de retórica poética, como de um pessimismo singular. Apesar do tom melancólico contido principalmente no encerramento dos Livros I, II e III247, estamos diante de uma ética fundada em um naturalismo que se aproxima bastante de um realismo invulgar. A máxima procede: o saber liberta. Contemplar a natureza das coisas e entender a sua linguagem e expressão através do raciocínio (natura species ratioque)248, age como a própria luz do sol para dissipar a escuridão.

Mas, a maneira de pensar a relação ratio/species se divide em duas linhas de argumentação249. Inicialmente, species tem o sentido de se articular com a observação empírica. Por outro lado, ratio está relacionado ao movimento intelectual de inferência do visível ao invisível, através do qual são estabelecidos os princípios da física epicurista250, um movimento que permite inferir pelo intelecto, a existência dos elementos (corpora prima) a partir do sensível. Porém, se a metáfora do móvel é utilizada para relacionar as dimensões do corpóreo – isto é, uma macroestrutura a uma microestrutura –, o modelo cinético adquire um

243 DRN, I, 148. 244 DL, X, 122-135. 245 Fowler, 2007, p. 199-233. 246 Da natureza, VI, 1138-1286. 247

Da natureza, I, 1116: “[…] a escura noite não te impedirá o caminho sem que tenhas contemplado a natureza

última: os fatos darão luz aos fatos”; Da natureza, II, 1172: “[…] e não vê que tudo se enfraquece a pouco e pouco e se dirige para o esquife, fatigado pelo pelo decrépito tempo da idade”; Da natureza, III, 1090-1092: “Podes, portanto, durante o tempo da vida, enterrar quantas geração inteiras queiras; nem por isso a morte ficará menos eternal: não existe menos aquele que hoje vê o termo da vida do que outro que já morreu há muitos meses, há muitos anos”.

248 Da natureza, I, 148. 249 Gigandet, 2001, p. 10.

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novo status, que explica como se forma o todo sensível e o todo pensável, reunidos sob um imanentismo extremo251.

Seguindo essa linha interpretativa, Gigandet (2001, p. 10) afirma que a noção de species está relacionada a uma visão do espírito, ou, mais precisamente, à projeção, “salto” ou impressão do pensamento (animi injectus)252. Esta “projeção do espírito” possui uma cinética mais complexa, uma rapidez e uma mobilidade extremas, articulando-se com a teoria epicurista do conhecimento. Tais projeções, juntamente com as afecções (páthe), estão relacionadas ao critério sensível de discriminação da realidade, isto é, referem-se a duas das três formas de conhecimento – ou melhor, três critérios de verdade253 – propostas por Epicuro. O outro critério são as prolepseis, as prenoções ou antecipações que se articulam com as duas dimensões já citadas, possibilitando o discurso fundamentado em evidências empíricas.254

Lucrécio retomou esse conceito de Epicuro (epibolé tes dianóias)255, cujo sentido é tornar possível imaginar realidades que existem além da experiência e aquém de um limiar sensível. De um lado, é a faculdade que permite, a partir dos dados empíricos, desenvolver e esclarecer as realidades invisíveis, o todo e o infinito, e assim ultrapassar o fenômeno e chegar ao conhecimento universal dos elementos primordiais256. Na outra ponta, ratio refere- se ao pensamento discursivo, que tem a função de acompanhar e organizar essa percepção do espírito, encadeando tais desenvolvimentos e esclarecimentos em uma epistemologia257 coerente. A canônica epicurista se fundamenta justamente sobre tais alicerces, cujo propósito é se apoiar no critério da certeza sensível, a fim de estabelecer a possibilidade de um olhar construído sobre o invisível.258