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Neste capítulo estão presentes alguns trabalhos sobre o tema da mestiçagem na Bolívia desenvolvidos nos últimos anos, estas investigações dialogam com referenciais ditos “clássicos” da mestiçagem boliviana, como Alcides Arguedas com seu livro Pueblo Enfermo, e Franz Tamayo em sua obra mais conhecida La creación de la Pedagogia Nacional. Analisarei também o trabalho de Carlos de Mesa em La Sirena y el Charango, dialogando com relatos importantes do meu trabalho de campo junto à família Chambi. Além disso, há aqui dois sub- capítulos discutindo temas muito importantes que atravessam a mestiçagem boliviana no território andino, a chola e a construção da choledad como discurso de mestiçagem.

La Sirena y el Charango158

Uma das análises mais atuais acerca do processo de mestiçagem na Bolívia, e que é contemporânea aos trabalhos de Silvia Rivera Cusicanqui, é o livro “La Sirena y el Charango”, do historiador Carlos D. Mesa Gisbert. Apresento aqui um pouco da perspectiva de Carlos D. Mesa acerca do que é a mestiçagem na Bolívia, situando suas críticas a algumas leituras da “identidade boliviana” a partir da história, religiosidade e demais práticas culturais, especialmente da Bolívia andina.

O autor começa posicionando a mestiçagem em uma leitura histórica, sempre preocupado com duas categorias: nação e estado. Para ele, a mestiçagem na Bolívia foi muito menos intensa que em outros países da América Latina, isso se dá pela migração inexpressiva por conta da localização geográfica dos povos, o que estabelece o cenário principal de análise do autor, a Bolívia andina. Essa assertiva não está somente nesta análise, mas no próprio título do livro de Mesa, a sereia e o charango, no qual ele faz referência aos símbolos localizados na catedral de Potosí e que representam a mescla entre duas culturas, o europeu e o índio andino. Sobre essa mescla o autor diz: “En los hechos se ha producido una mutua ‘contaminación’, una coexistencia subterránea pero tolerada de cosmovisiones” (MESA GISBERT, 2013, p.31)159.

158 Cheguei à esta referência graças a Abraham Delgado Mancilla, em uma de nossas conversas sobre a mestiçagem

ch’ixi de Silvia Rivera Cusicanqui.

Em defesa de uma leitura de mestiçagem própria, Carlos D. Mesa estrutura críticas às teorias “clássicas” da mestiçagem na Bolívia, me refiro aos trabalhos de Alcides Arguedas e Franz Tamayo em princípios do século XX. A obra mais criticada de Alcides Arguedas é Pueblo Enfermo (1909), nela o autor lê a mestiçagem como um abraço entre a raça branca e a raça dos índios, em suas palavras o mestiço traz como herança:

[...] de líbero su belicosidad, su ensimismamiento, su orgullo y vanidad, su acentuado individualismo, su rimbombancia oratoria, su invencible nepotismo, su fulanismo furioso y del indio, su sumisión a los poderosos y fuertes, su falta de iniciativa, su pasividad ante los males, su inclinación indominable a la mentira, el engaño y la hipocresía, su vanidad exasperada por motivos de pura apariencia y sin base de ningún gran ideal, su gregarismo, por último y, como remate de todo, su tremenda deslealdad160

(ARGUEDAS, 1909, p.56)161

Já Franz Tamayo, segundo Carlos D. Mesa, sofre uma grande influência do idealismo alemão em sua leitura da identidade mestiça. Para Tamayo a força vital da mestiçagem vem do índio, por suportar todas as dificuldades da paisagem andina. No livro La creación de la Pedagogía Nacional (1910), Tamayo determina as influências de cada identidade na formação do sujeito mestiço, sendo a herança do branco a inteligência e a facilidade compreensiva, enquanto do índio é herdada a vitalidade, como explicação de sua sobrevivência ao dificultoso cenário andino. Tamayo ainda pensa o índio em suas limitações de compreensão, para ele o índio é capaz apenas de compreender a “coisa mesma”, quando se trata do inteligível. No entanto, em sua análise do processo de mestiçagem que posteriormente se desenvolveria na

160 “[...] do líbero a sua belicosidade, a sua auto-absorção, o seu orgulho e vaidade, o seu individualismo acentuado,

o sua bombástica oratória, o seu nepotismo invencível, o seu fulanismo furioso e, do índio, a sua submissão aos poderosos e fortes, a sua falta de iniciativa sua passividade diante dos males, sua inclinação indominável a mentir, engano e hipocrisia, sua vaidade exasperada por motivos de pura aparência e sem nenhuma base ideal, seu gregário, enfim e, no final de tudo, sua tremenda deslealdade”

161 Existem trabalhos sobre os discursos de mestiçagem no Brasil que podem dialogar com as perspectivas da

mestiçagem de Alcides Arguedas na Bolívia, a autora Giralda Seyferth (2002), apresenta as políticas de branqueamento do Estado brasileiro até o Estado Novo, anos 1930, em especial no Sul do país, aliadas às leis de imigração. A partir dos debates sobre a imigração, a autora situa a questão racial como um elemento que gravita na preocupação do Estado e dos intelectuais com a entrada de determinadas nacionalidades. Para autores que pensavam a mestiçagem como presente à constituição do Brasil, é o caso de Nina Rodrigues, o mestiço carregava um desequilíbrio mental. Para Rodrigues, o predomínio de mulatos na população brasileira aparece como um problema nacional, os mestiços de negros e índios são caracterizados por este autor (e por autores que ele influenciará) como biologicamente inferiores. Entre os anos 1920-1940 Oliveira Vianna considerou que a variedade racial e miscigenada do país deveria ser encarada como um problema nacional, a influência das raças negras e índias determinaria a “configuração atual de um povo cromatizado e de baixa estatura (os tipos cruzados ainda muito próximos das raças inferiores que ajudaram a formá-los).” (SEYFERTH, 2002, p.133). Para esta perspectiva sustentada por Oliveira Viana a arianização da sociedade brasileira por meio da entrada de imigrantes brancos (arianos) seria uma saída à “degradação racial”.

Bolívia, a personalidade do branco seria a que pereceria sobre a personalidade do índio contidas no sujeito mestiço. Para Carlos D. Mesa, as análises de Arguedas e Tamayo não estão distantes no sentido de que ambos sustentam uma leitura de falta de inteligência criativa do índio (MESA GIBERT, 2013, p.36-37).

O objetivo de Mesa em voltar às análises do princípio do século XX é que, para o autor, essas são as bases do atual subconsciente boliviano acerca da mestiçagem, bases especialmente racistas. Assim, segundo Mesa, a identidade boliviana pode ser lida como uma superposição enriquecedora. Para ele, existe uma problemática a ser solucionada no aprofundamento de trincheiras identitárias que tentam tirar a legitimidade dos mestiços que: “a lo largo de la historia formaron parte del corpus nacional boliviano.” (MESA GISBERT, 2013, p.43)162.

Sobre o que Mesa entende por mestiçagem, existe uma contradição intrínseca em seu texto, a mestiçagem ora aparece como uma carga biológica, ora com uma descrição puramente cultural y étnica. Em alguns fragmentos, Mesa associa a mestiçagem a um processo de mescla de sangue: “Porque está inevitablemente mesclada en nuestras venas y en nuestra cultura” (MESA GISBERT, 2013, p.50)163. Utiliza, para enfatizar esta perspectiva na América Latina, o trabalho de Carlos Fuentes Todos los gatos son pardos (1970), em que uma índia Malintzin dá a luz ao seu filho e do “conquistador” Hernán Cortés no México, entre os pedidos da mãe está: “sal, hijo de las dos sangres enemigas”164. Carlos D. Mesa, examinando o fragmento de Carlos Fuentes chega à conclusão de que: “Ese es el terrible principio de esta América Latina nuestra. Ese el sello de los hijos de una violación, y a la vez de una extraña seducción de sangre, humo y violencia” (MESA GISBERT, 2013, p.48)165. Em passagens do livro, o autor

demonstra uma leitura mais poética dos processos de mestiçagem, aqui a utilização da palavra seducción, para ler a violação sofrida pelas indígenas, parece harmonizar o processo de violência colonial. Em outra passagem, o autor nega a existência das violações de mulheres durante o processo colonial, sustenta que a mestiçagem é de caráter cultural mais do que étnico, uma vez que grande parte da população não tem uma gota de sangue espanhol (MESA GISBERT, 2013, p.193). Esta afirmação é a contradição do que o autor diz anteriormente acerca do sangue nas veias do mestiço.

162"Ao longo da história faziam parte do corpus nacional boliviano." 163"Porque é inevitavelmente mesclada em nossas veias e nossa cultura"

164 “Sai, filho dos dois sangues inimigos”

165"Esse é o princípio terrível desta nossa América Latina. O selo dos filhos de uma violação, e ao mesmo tempo de uma estranha sedução de sangue, fumaça e violência "

A leitura harmônica da mestiçagem boliviana atinge outros patamares quando Carlos D. Mesa analisa o que ele chama de simbiosis religiosa (MESA GISBERT, 2013. p.74)166. Para ele, o Santo Tiago (Santiago), que chega da Espanha como “mata índios”, mescla-se ao ponto de se fundir à divindade andina Illapa do relâmpago e do trovão, pontuando que o primeiro não é mais dos católicos assim como o segundo não pertence mais aos aymaras ou incas. Outra associação religiosa, e que dá o título ao livro, é a da sereia. Para Mesa, o mito pré-incaico de Tunupa, divindade castigada por ter relações com duas mulheres-peixe do Titicaca (Qesintu e Umantu), é fundido com a representação das sereias que sustentavam os europeus, em suas palavras: “La sirena como tantos otros personajes y elementos que en su origen fueron o europeos o indígenas, son ya referentes mestizos.” (MESA GISBERT, 2013, p.77)167.

O autor ainda faz uma análise acerca do Barroco, como expressão da identidade mestiça e como resultado criativo da mescla de duas culturas. O artista plástico Raul Lara, para Mesa, é a grande expressão artística deste Barroco, mas a preocupação de Mesa está mais vinculada com a representação iconográfica e artística do que com uma hermenêutica destas representações, um exemplo é a obra de Lara “Van Gogh en el altiplano”, uma imagem de Van Gogh com sua “bola de coca” em uma bochecha, vestido de mineiro. No fundo da obra é possível ver um nevado e diante de Van Gogh um sujeito de costas com seu ch’ullo parece estar dialogando com a figura principal. Contudo, o grande mérito de Raul Lara parece ser o de trazer o pintor holandês para a realidade dos mineiros de Oruro, sua terra natal.

Outro aspecto que para Mesa determina o processo de mestiçagem é a escrita, ou como ele situa, a burocracia imperial espanhola. Para o autor, a massiva utilização por parte dos indígenas da “América Andina” de selos em papéis e assinaturas para confirmar sua autenticidade, é um símbolo do legado da palavra escrita espanhola, esse legado é evidenciado para o autor como um elemento da mestiçagem. Para colocar em dúvida esse legado como construção de uma identidade mestiça, relato um evento que aconteceu durante o meu trabalho de campo no mês de outubro de 2018. Roger Chambi e eu fomos convidados para auxiliar na organização do Primer Encuentro de Autoridades de Justicia de Abya Yala, na comunidade Aymara de Parcopata, no decorrer do evento fui tomada como representante internacional em

166Desenvolverei mais adiante um pouco da religiosidade andina que tive acesso, colocando os sujeitos interlocutores e possibilitadores desta pesquisa em diálogo com as premissas de Mesa.

167"A sereia, como tantos outros personagens e elementos que eram originalmente europeus ou indígenas, já são referências mestiças "

favor da justiça originária e me fizeram falar algumas palavras que fomentassem a existência do evento. O que enfatizo deste evento foi o último dia em que todas as autoridades de dezenas de Ayllus me pediram para assinar o caderno que levavam, observei o caderno de uma das mulheres autoridades que dialogou comigo no caminho que percorremos até Parcopata, nele havia uma descrição detalhada de tudo o que foi apresentado durante as reuniões, a senhora Aymara relatou que necessitava explicar tudo para a sua comunidade, porque estava ali como representante, disse enquanto eu assinava seu caderno, que o cargo de autoridade não deveria apagar os deveres que uma pessoa tem com a comunidade, é uma responsabilidade a mais que se assume. Esse evento parece demonstrar que a apropriação da escrita entre os aymaras não está desvinculada de sua relação com a comunidade, tampouco de sua própria ontologia, a escrita se configura como um instrumento para consolidar e legitimar a responsabilidade que a autoridade tem com o Ayllu.

Mesa associa a migração às cidades, que acontece já no período republicano, com um processo intensivo de mestiçagem, determinando que a ruralidade é o único sinônimo territorial de etnicidade.

Todos los Santos, Ñatitas e a suposta simbiose religiosa

Entre os dias 1 e 2 de novembro se realizam as mesas em memória dos mortos de cada família, a data é conhecida como “Todos los Santos”, compreendi em todo o processo de preparação desta celebração que a memória materializada nas mesas representa muito da concepção Aymara sobre a morte, ainda que, como supõe Mesa Gisbert (2013), ela esteja muito “relacionada” com um tipo de catolicismo, a complexificação desta relação me pareceu mais clara entre esta data e a festividade das Ñatitas, que ocorre no dia 8 de novembro.

Uma semana antes do dia de Todos los Santos, Dona Hilda Chambi reúne alguns componentes da família para a preparação de pães em um forno público. O lugar, localizado na Avenida Costanera em El Alto, estava repleto de pessoas desde a madrugada do domingo anterior ao dia de Todos los Santos. Aguayos coloridos e repletos de ingredientes, enfeitavam a longa fila composta por crianças, adultos, jovens visivelmente irritados por terem acordado cedo e cholas sentadas sobre suas polleras, aguardando o momento para sovar a massa que será necessária na produção dos diversos tipos de pães que serão ofertados nas mesas aos seus mortos.Dona Hilda me explicou, enquanto esperávamos na fila, que este ano fariam apenas três

arrobas de farinha, uma vez que não estávamos mais nos três anos após a morte de seu marido: “Cuando una persona muere hay que hacer por três años una mesa grande, de un quintal de harina, esa es la tradición!”168. Levamos todo um dia na preparação dos pães, separamos a

massa e deixamos que crescessem em grandes recipientes preparados pelos responsáveis do forno público. O lugar era extremamente quente e com menos ar que o normal dos andes, uma mesa central estava disposta para o corte das massas e para a preparação das T’ant’awawas169 pelos trabalhadores do forno, enquanto as famílias retiravam os pedaços de massa já descansados e levavam para uma mesa externa, onde enchiam as empanadas de queijo misturado com ají amarillo, o papel dos filhos, em geral, era cruzar as beiras das empanadas delicadamente para que o queijo não vazasse dos pães, lembrando que a qualidade da estética das empanadas, estava simbolicamente relacionada com o carinho que se sente pelo visitante170.

Mulheres mais solitárias e mulheres com muitas pessoas da família auxiliando na preparação, a relação de prestígio estava aí estabelecida, Dona Hilda se vangloriava para outras senhoras em Aymara: “Brasilanax purta” (Ela veio do Brasil). Impressionadas com a possibilidade de uma estrangeira estar ali produzindo pães, em um forno público, as senhoras sorriam com seus dentes de ouro demonstrando carinho pela minha presença, enquanto eu, tentava sem muito êxito, encher as empanadas com queijo o mais depressa possível. Roger, acostumado com a produção de pães, porque a família há anos possuía um forno na comunidade de Achacachi, trançava as beiras das empanadas com rapidez e elegância.

Produzimos empanadas e sarnitas, pães redondos, enquanto Dona Hilda auxiliava o corte das t’ant’awawas feitos pelos trabalhadores do forno. Escadas, coroas, cavalos e cholitas como T’ant’awawas, cada um representando um suporte para o visitante que chegaria cansado de sua viagem. Em grandes pedaços de latas posicionávamos cada oferenda para ser levada ao forno, que era aquecido por mangueiras de fogo. Depois de vários minutos aquecendo eram inseridas diversas latas no interior do forno, esperando não mais que dez minutos para que os pães estivessem totalmente assados. Um trabalhador retirava com uma pá extremamente comprida as latas do forno enquanto outro trabalhador, neste caso um menino de uns quatorze

168"Quando uma pessoa morre, você tem que fazer uma grande mesa por três anos, de um quintal de farinha, essa é a tradição!"

169 Em Aymara t’ant’a é traduzido como pão e wawa como criança, na tradição de Todos los Santos, esse é o pão

que será doado às crianças que virão rezar para os mortos, as t’ant’awawas são feitas em diversos formatos, como cholitas, cavalos, homens aymaras com seus ch’ullos, todas elas representando os mortos. Nas t’ant’awawas são inseridas carinhas de gesso de cholitas, de homens aymaras com seus ch’ullos e imagens de cavalos, dependendo a figura que se deseja representar.

anos, despejavam os pães assados sobre os aguayos estirados pelas senhoras. Cada família era responsável por levar algo que identificasse suas latas, no nosso caso, eram as latas com pedaços de papelão da marca de produtos Kris.

FOTO 7. Empanadas que produzimos para Todos los Santos – Foto minha.

FOTO 8. T’ant’awawas que serão oferecidas para Don Ascencio Chambi, do lado esquerdo pode-se perceber os pedaços de papelões Kris – Foto minha.

Dona Hilda me deixou responsável por levar os pães no aguayo até a parte externa do forno, neste espaço, muitas mulheres com suas wawas (crianças) estavam sentadas perto de

panos estirados no chão, esperando a chegada dos pães quentes para espalhá-los e esperar que esfriassem. Os panos de Dona Hilda estavam em um canto que ela havia preparado, ela se posicionou em uma das pontas esperando que eu trouxera as oferendas quentinhas. Quando todas as prendas estavam mais frias sobre os tecidos, Dona Hilda juntou as quatro pontas fazendo um embornal e cada um de nós carregou os pães cuidadosamente até a casa. O aroma da massa, uma mescla de farinha de trigo com farinha de milho, perfumava o ambiente.

No decorrer da semana, parte dos pães foi consumida pela família, outra parte foi presenteada aos seres queridos que vieram visitá-los, mas as oferendas principais foram guardadas carinhosamente para a ilustre visita, que chegaria no dia primeiro de novembro.

Para compreender o significado de cada elemento da mesa, Roger me apresentou uma microprodução cinematográfica independente, totalmente em Aymara, o título “Ajayu” pode ser traduzido vulgarmente como “Alma”. A trama envolve a morte de um homem e sua filha em um naufrágio do seu barco de totora171 no lago Titicaca, são feitas as ritualizações Aymara para a morte e, quando a alma necessita traçar o caminho até a comunidade dos mortos, atravessa muitos desafios, tendo que caminhar por montanhas e por terras áridas, a lógica é que sempre que alguém morre, com ele devem ser enterrados pedaços de cana para que possa servir de bastão no caminho, folhas de coca e álcool para a fadiga. As mesas aymaras para o dia de Todos los Santos tem muita relação com a ideia de caminho ou ponte, Thaki, que as almas cruzam para voltar às casas de seus familiares, cansados necessitam de água, comida, escadas para subir em espaços altos e cavalos para cavalgar quando estiverem esgotados de caminhar, todos esses elementos são representados nas mesas em forma de pães, produzidos pela própria família.

A festividade de Todos los Santos tem início ao meio dia do 1 de novembro, é nesta hora que chegam as almas. A mesa de Don Ascencio Chambi, o falecido esposo de Dona Hilda, começou a ser preparada às 11:00, enfeitávamos tudo enquanto a filha mais velha preparava a comida preferida do pai. Construímos a mesa com todos os elementos e no ápice, foi colocada a foto do visitante. Roger me advertia: “Hay que acompañar el papá, no tenemos que dejarlo solito!”172. Almoçamos juntos à mesa e passamos toda a tarde em família, conversávamos sobre

como foi Don Ascencio, vimos fotos antigas, assistimos filmes, era um momento em que a família compartilhava tudo com o visitante, com sua presença.

171 Planta aquática utilizada por aymaras e quéchuas para a construção de barcos.

FOTO 9. Mesa de Todos los Santos para Ascencio Chambi Verástegui - Foto minha173