De acordo com a história da lexicografia, nem sempre o foco foram os dicionários. As primeiras manifestações envolvendo a prática lexicográfica surgiram a partir de listas de palavras e/ou glossários organizados por ordem alfabética.
Desde a Antiguidade, têm-se notícias de práticas lexicográficas. Tais práticas antecedem a emancipação e a consolidação da lexicografia enquanto ciência. Os glossários foram as primeiras obras produzidas nesse período. Os principais precursores dessas produções, de acordo com Biderman (1984), foram a escola grega de Alexandria e, entre os latinos, o Appendix Probi.
Vale ressaltar que, na maioria das vezes, esses glossários eram encabeçados por filólogos ou gramáticos, cuja preocupação era a de garantir a compreensão de textos literários por meio de listas de palavras. Os filósofos alexandrinos, por exemplo, buscaram elaborar léxicos e glossários referentes aos textos homéricos para melhor compreendê-los. Já o gramático romano Varrão (I séc. A.C.) na obra De lingua latina, empenhou-se em fornecer dados de natureza semântica e etimológica a respeito de algumas palavras latinas (BIDERMAN, 1984).
Na Idade Média, as produções ainda eram voltadas para os glossários e também para os repertórios etimológicos, embora estes últimos não tivessem valor científico ou linguístico. Hwang (2010) ressalta que os referidos glossários eram geralmente bilíngues e correspondiam a obras resultantes da compilação de glosas oriundas de anotações, comentários e explicações de cunho claramente pedagógico, realizadas para ajudar na interpretação de palavras ou passagens que representavam dificuldades na leitura de textos clássicos e literários. Para Dubois (1971, p. 34, apud HWANG, 2010), a situação de bilinguismo imposta nos glossários e nas listas lexicais teve um caráter determinante no surgimento dos dicionários de forma geral.
A lexicografia começou a estruturar-se como disciplina desde a primeira metade do século XVI no continente europeu. Segundo Verdelho (2002), neste século, uma espécie de pré- lexicografia surgia motivada pelas solicitações do ensino do latim como língua não materna nas escolas medievais, sobretudo em forma de glossários. Para o autor, a demanda emergencial da escrita entre os vernáculos europeus, paralelamente à escolarização do latim, deu origem à dicionarização das línguas vulgares.
Os pressupostos da lexicografia conhecida nos dias de hoje tiveram início na modernidade. Surgem então os primeiros dicionários da história. No século XVI, devido ao Renascimento, período de ruptura nas estruturas medievais e de transição do feudalismo para o capitalismo, o homem passou a ampliar seus horizontes em busca de conhecimento sobre outras culturas, línguas e povos, além do interesse no desenvolvimento de relações comerciais e culturais, o que posteriormente favoreceria o intercâmbio linguístico e os negócios.
A necessidade de aprender uma nova língua abriu margem para uma nova era da lexicografia: a proliferação de repertórios lexicais bilíngues. Por conta do período seiscentista e da expansão cultural da época, vários dicionários bilíngues e gramáticas foram produzidos, sobretudo nos países europeus. No entanto, “esses repertórios lexicais compreendiam um número limitado de unidades lexicais que representavam, em certos campos das relações sociais entre comunidades de diferentes línguas e culturas, algum tipo de dificuldade de comunicação e interação” (HWANG, 2010, p. 35).
Considerando que as obras bilíngues produzidas nesse período não se preocupavam em descrever o léxico das línguas envolvidas, mas sim estabelecer relações de equivalência entre elas, e que esses dicionários, por sua vez, foram os primeiros produtos da lexicografia moderna, sendo descendentes diretos dos glossários, percebe-se que a concepção que se tem atualmente sobre os dicionários bilíngues não era a mesma daquela época.
Já o marco lexicográfico do século XVII foi a produção dos dicionários monolíngues e o aprimoramento das técnicas utilizadas no processo de sua elaboração. Espanha e França, por exemplo, publicaram obras bastante significativas para a época, obras citadas até hoje pela qualidade e técnicas utilizadas, dentre elas: O Tesoro de la Lengua Castellana (1611) de Covarrubias, o Diccionario de Autoridades (1739), produzido pela Real Academia Española, o Dictionnaire François contenant les mots et les choses (1680), de Pierre Richelet, o dicionário da Academia Francesa (1694), entre outros.
Enquanto isso, Portugal só veio a produzir seus primeiros dicionários monolíngues na segunda metade do século XVIII. Segundo Verdelho (2002), nesse período de efervescência lexicográfica em terras portuguesas, foram publicadas inúmeras obras, dentre elas se destacam os dicionários de Bernardo Bacelar (1783), de Antônio Morais Silva (1789) e da Academia das Ciências de Lisboa (1793). Vale mencionar que Antônio Morais Silva foi um nome predominante na história da lexicografia portuguesa. Sua obra, intitulada Dicionário da língua portuguesa, foi considerada a primeira da lexicografia moderna, teve dez edições e grande repercussão tanto em Portugal quanto no Brasil. Segundo Verdelho (2002), a segunda edição desse dicionário, que veio a público em 1813, constitui um marco na lexicografia de língua portuguesa.
No século XVIII, além das obras monolíngues e bilíngues, a lexicografia novamente surpreende com o surgimento das obras enciclopédicas, que se ocupavam do registro do repertório geral dos conhecimentos humanos. No cenário da língua portuguesa, não se pode
deixar de lado a grandiosa obra bilíngue do padre Rafael Bluteau, denominada Vocabulario Portuguez e Latino, publicado em Coimbra entre os anos de 1712-1721.
Já o século XIX teve como destaque novas edições do dicionário Morais na língua portuguesa e as obras lexicográficas espanholas, italianas, francesas e inglesas, todas pautadas pela qualidade e rigor. Dentre os espanhóis, podem-se citar as dez edições do Diccionario de la lengua española, produzidas pela Real Academia Española. No cenário italiano, pode-se citar o Dizionario della Lingua Italiana, de Nicolò Tommaseo e Bernardo Bellini, conhecido como Tommaseo-Bellini. Entre os franceses, são dignos de nota o primeiro volume do dicionário Larousse e o Littré, considerado uma obra-prima da lexicografia francesa. Na língua inglesa, impossível não citar a imponente obra intitulada Oxford English Dictionary, bastante conhecido pela sigla OED.
Nota-se que a segunda metade do século XIX foi muito produtiva para a lexicografia. Em Portugal, por exemplo, não só se produziram bons dicionários de língua, como também foram feitas adequações para possibilitar o seu uso cotidiano, sobretudo no contexto escolar. Com isso, segundo Verdelho (2002), a lexicografia portuguesa foi se reestruturando e se aprofundando nas pesquisas lexicográficas.
Do século XX em diante, a lexicografia se consolida. Sobre isso, Biderman (1984, p. 3) salienta que “atualmente a lexicografia se expande e assume modalidades várias em função do vasto público, das grandes massas sequiosas de informações sobre a sua língua, sobre as línguas estrangeiras e sobre o universo”.
O dicionário se tornou um objeto de consumo de primeira necessidade. Vale ressaltar também que, entre os anos de 1960 e 1970, vários trabalhos relevantes foram realizados, tais como os desenvolvidos por Rey-Debove, Dubois, Quemada, Wagner e Matoré (Hwang, 2010), o que contribuiu para uma fundamentação teórico-metodológica e, sobretudo, histórica da lexicografia.
No século XXI, já se observa uma profusão de obras e suportes8, ficando evidente que o dicionário (monolíngue ou bilíngue) passa a ser parte integrante do cotidiano dos indivíduos. No cenário português, podemos citar os seguintes dicionários publicados no século XXI: Dicionário da língua portuguesa contemporânea (2001), versão portuguesa do
8 Dicionários impressos, on-line (disponíveis na web) ou mesmo dicionários em forma de aplicativos para serem baixados no celular.
Dicionário Houaiss da língua portuguesa (2002-2003) e o Grande dicionário da língua portuguesa (2004), publicado pela Porto Editora.
No Brasil, as primeiras obras lexicográficas foram produzidas em meados do século XVI pelos jesuítas. Segundo Biderman (2002), nos primeiros séculos da colonização do Brasil, os jesuítas tentavam ensinar os indígenas a falar português, todavia, o processamento e a apropriação dos nativos do idioma português eram lentos. Tal dificuldade devia-se ao fato de que a língua franca, empregada na maior parte do território brasileiro era a língua geral, utilizada para a comunicação com e entre os indígenas, como também entre os demais povos, oriundos de diversos lugares, que habitavam a colônia portuguesa na América. No intuito de evangelizar e catequizar os indígenas, os jesuítas aprenderam essa língua geral e a utilizavam para se comunicar com os nativos.
Com sua partida da costa litorânea rumo ao sertão do Brasil, os bandeirantes9, conforme iam adentrando no país, iam dominando novos territórios e, com isso, se apropriavam desses espaços não apenas fisicamente, mas também linguisticamente. Por onde passavam, difundiam a língua geral e demarcavam esses lugares com uma bandeira.
Não há muitos documentos e registros da época que retrata o cenário, no entanto, em um testemunho, Padre Vieira afirma que a língua na qual se comunicavam era a língua dos índios, o português era ensinado apenas aos meninos, nas escolas (Biderman, 2002). Com a vinda maciça dos portugueses para o Brasil, foi necessário que a Coroa e o Marquês de Pombal iniciassem um processo civilizatório a fim de ampliar, estruturar e burocratizar uma política de ocupação e colonização.
Esse movimento, que fazia parte das chamadas reformas pombalinas, provocou um grande impacto no status da língua geral no país, obrigando a todos a aprenderem o português para se comunicar. Vale ressaltar que mesmo com o desaparecimento da língua geral, os idiomas indígenas marcaram profundamente a língua portuguesa, sobretudo no léxico. Outra grande influência exercida sobre essa língua que se instaurava no país foi a vinda dos escravos africanos para o Brasil. Durante os quatro séculos de importação desses escravos, do século XVI ao século XIX, não apenas a língua foi influenciada, mas também os aspectos culturais (costumes, religião, músicas) e gastronômicos.
9 Denominação dada aos sertanistas, em sua maioria descendentes de primeira e segunda geração dos portugueses e capitães de outras bandeiras oriundas de outras nacionalidades. Informação disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Bandeirantes> (Acesso em: 17 jul. 2020).
Segundo Biderman (2002, p. 69), nesta primeira fase da história do português brasileiro, deve-se supor a existência de uma situação de bilinguismo, ainda não suficientemente estudada pelos pesquisadores. Partindo dessa premissa, supõe-se também a existência de obras lexicográficas bilíngues, considerando os pares linguísticos português-tupi / tupi-português ou português-língua geral / língua geral-português. A necessidade dessas obras reforça ainda mais a importância de se olhar para o dicionário não apenas como um instrumento linguístico ou um acervo lexical, mas também como uma obra que se ocupa de documentar, preservar e vitalizar a língua de um povo.
Diante de todo esse contexto histórico, não poderia ficar de fora o nascimento da lexicografia brasileira, marcada e datada no século XX. Foi nesse período que surgiram os primeiros dicionários de nacionalidade brasileira, ainda que alguns deles tenham sido coeditados em Portugal. Conforme aponta Krieger et al. (2006, p. 174), “é também no século XX que a Academia Brasileira de Letras vê concretizar, mesmo que tardiamente, seu projeto de publicar um Dicionário da Língua Portuguesa”, interrompendo um verdadeiro vazio lexicográfico de aproximadamente quatro séculos.
Vale observar que, ao longo da história, o Brasil nunca contou com uma política linguística que valorizasse alguma obra lexicográfica, a despeito do projeto da Academia. De qualquer forma,
os primeiros dicionários que, por diferentes razões e interesses, passam a contemplar a realidade lingüística do Brasil, desempenharam também o papel de fixar a unidade e a pluralidade do português aqui falado. A identificação das estratégias lexicográficas de fixação de nosso léxico contribui para a história da identidade do PB, tema em torno do qual muita polêmica já se estabeleceu. (KRIEGER et al., 2006, p. 174-175)
É importante mencionar que essa lexicografia que acabara de nascer no Brasil, apesar de ser inaugural, era consciente quanto à emergência da catalogação e dicionarização do léxico usado e falado aqui, abarcando, inclusive, questões identitárias da língua. Krieger et al. (2006, p.175) afirmam que só nesse século aproximadamente 70 dicionários de língua portuguesa foram publicados no Brasil, dentre eles, “obras de grande porte, do tipo padrão ou enciclopédico, dicionários ilustrados, escolares, minidicionários, entre outras tipologias que pretendem cobrir o léxico do português falado no Brasil, incluindo os dicionários de regionalismos”.
Em suma, no cenário da língua portuguesa, foi feita essa breve contextualização histórica referente à lexicografia portuguesa e brasileira, porque na Comunidade de Países de
Língua Portuguesa (CPLP), apenas esses dois países construíram, ao longo de sua história, seus próprios dicionários. Nos demais países de língua oficial portuguesa10, não há registro de produção de dicionários monolíngues de português. Quando há a necessidade de consulta, os indivíduos utilizam os dicionários produzidos em Portugal e, eventualmente, no Brasil.