• Aucun résultat trouvé

Dynamic semantics

Segundo Biderman (1999), é a partir da palavra que as entidades da realidade podem ser nomeadas e identificadas, e a partir da denominação dessas realidades cria-se um universo significativo revelado pela linguagem. Biderman (1998) referencia, ainda, que são vários os ângulos sob os quais essa complexa matéria – a palavra – pode ser observada e analisada. Dentre eles, destacam-se as dimensões religiosa, cognitiva e linguística.

Do ponto de vista religioso, a palavra revela uma força que transcende a humanidade, salva e tem potencial de criação, isto é, a palavra é dotada de poder. Como prova disso, há alguns versículos bíblicos tais como em Gênesis 1:3, em que Deus disse: “Haja luz” e houve luz; em João 1:1, ao afirmar que “no princípio era aquele que é a Palavra”; e em Hebreus 4:12, ao considerar que “a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e as intensões do coração”. Percebe-se, neste sentido, que no âmbito religioso a palavra “palavra” assume diferentes significações.

Na dimensão cognitiva, Lenneberg (1975, apud BIDERMAN, 1998) cita uma reflexão interessante, em que afirma que as palavras são utilizadas para rotular os processos cognitivos conforme os homens interagem cognitivamente com seu meio ambiente. Desse modo, tal interação pode ainda despertar nesses homens a capacidade de organizar e categorizar as palavras de acordo com seus respectivos campos do conhecimento.

No entanto, dentre as diversas lentes, interessa a este trabalho se ater à dimensão linguística. Do ponto de vista linguístico, segundo Biderman (1999), conceituar “palavra” é um problema complexo em linguística, não sendo possível fazê-lo de modo universal, uma vez que este conceito se torna relativo e varia a depender da língua, o que impossibilita chegar a um conceito de palavra que tenha valor absoluto e que sirva para qualquer língua, considerando os vários tipos existentes (isolantes, aglutinantes, flexivas e polissintéticas5). É por isso que “[...] só se pode identificar a unidade léxica, delimitá-la e conceituá-la no interior de cada língua” (BIDERMAM, 1999, p. 82).

Segundo a autora, quando a palavra se materializa no discurso, ela pode ser observada a partir de diferentes critérios: fonológico, morfossintático e semântico (BIDERMAN, 1999). No primeiro critério, a palavra pode ser vista como uma sequência fonológica que constitui uma

5 Para maiores informações sobre a tipologia linguística, conferir o artigo PRIA, ALBANO DALLA. Tipologia linguística: línguas analíticas e línguas sintéticas. SOLETRAS, Ano VI, N° 11. São Gonçalo: UERJ, jan./ jun.2006. Disponível em <https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/soletras/article/viewFile/4652/3431>. Acesso em 25/07/2020.

emissão completa, precedida e seguida de pausa. Essas pausas podem ser determinadas por vários níveis de análise e de interpretação do enunciado, dada a autonomia fônica das palavras, que as individualiza dentro do sistema da língua (BIDERMAM, 1999). Por ser o português uma língua acentual, um dos processos de segmentação da palavra se dá por meio dos acentos tônicos (na modalidade oral e/ou escrita), como é o caso das palavras oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas. Esse processo de segmentação também auxilia na segmentação do discurso em unidades lexicais.

Numa análise morfológica, a consubstancialidade dos segmentos fônicos pode revelar a existência de unidades simples e/ou complexas do sistema da língua, utilizadas para exprimir categorias linguísticas. Assim, no critério morfossintático, a palavra constitui-se a partir de dois aspectos que atuam simultaneamente, a saber, a sua classificação gramatical (preposição, artigo, substantivo, adjetivo6, etc.) decorrente dos marcadores morfossintáticos que ela apresenta, e a função que a palavra exerce na sentença (adjunto adnominal, sujeito, objeto direto7, etc.), estabelecendo uma superposição de um critério formal a um critério funcional (BIDERMAM, 1999).

O terceiro e último critério indicado por Bidermam (1999) considera a palavra pelo prisma semântico. Nessa perspectiva, a autora, assim como Ulmann (1952, p. 33 apud BIDERMAM, 1999, p. 87), considera a palavra como uma unidade semântica indecomponível e defende que “se existem unidades gramaticais significantes menores do que a palavra, elas não têm significação autônoma”. (BIDERMAM, 1999, p. 87)

Traçando um paralelo entre a língua portuguesa e a Libras, ambas discutidas nesse trabalho, a explanação de Biderman (1999) faz todo sentido, mas apenas para a primeira língua, pois os critérios elencados pela autora não se aplicam à língua de sinais. Assim, a noção de palavra na Libras se instaura de outra forma, principalmente pelo fato de essa língua possuir uma modalidade distinta das línguas orais, como é o caso do português. Em outras palavras, mesmo que o falante tenha consciência da palavra por meio dos critérios apresentados, levando em consideração a segmentação das unidades léxicas por processos fonológicos, morfossintáticos ou semânticos, a identificação da palavra pelo critério fonológico da língua oral (LO) é um conceito associado a uma informação sonora, tornando-se irrelevante e/ou sem sentido para a língua de sinais (LS) e para as pessoas surdas, falantes nativos dessa língua.

6 Empregou-se aqui a terminologia da Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB). 7 Idem.

Do ponto de vista fonológico, Figueiredo e Lourenço (2019) afirmam que, para as línguas orais, a produção linguística se dá por meio do um único articulador principal – a boca – de base sonora e linear/sequencial. Já para as línguas de sinais, as unidades fonológicas são produzidas por meio de outros articuladores, a saber, as mãos (articulador primário) e as expressões não manuais, isto é, expressões faciais e corporais (articuladores secundários), são emitidas simultaneamente no fluxo temporal. Para exemplificar as características apontadas de linearidade e simultaneidade presentes na produção das unidades lexicais da LO e da LS, observe-se a Figura 2.

Figura 2 – Representação linear das unidades mínimas das línguas orais (à esquerda) e a representação simultânea dos parâmetros das línguas de sinais (à direita). μ = morfema

Fonte: (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 49)

Ainda em Figueiredo e Lourenço (2019), um dos principais efeitos de modalidade reside justamente no modo como a palavra sinalizada, ou o sinal, é produzido e compreendido, valendo-se, sobretudo, do conceito de simultaneidade e linearidade inerente à Libras e ao português respectivamente, ilustrados na Figura 2,

uma vez que as línguas de sinais possuem dois grandes articuladores principais, as duas mãos, e também faz uso gramatical e sistemático de expressões corporais e faciais, a língua faz um uso muito mais intenso de estruturas simultâneas do que as línguas orais (FIGUEIREDO; LOURENÇO, 2019, p.79).

Do ponto de vista morfológico, as unidades mínimas de significado que constituem as palavras, isto é, os morfemas, podem ser simples ou complexos. De acordo com Quadros e Karnopp (2004), a palavra na língua portuguesa constitui-se de diferentes processos, tais como a sufixação, a prefixação, a composição, entre outros; processos esses evidenciados também na Libras.

Essa reflexão sobre a palavra, seja ela falada, escrita ou sinalizada, é importante para pensar na sua realização numa língua oral e na língua de sinais, pois ela integra o léxico que, por sua vez, revela-se nas obras lexicográficas.

A partir do momento em que o homem, por meio das palavras, passou a nomear as entidades pertencentes ao mundo que o circundava e criou categorias para tudo aquilo que estava ao seu redor, gerou-se desse processo de nomeação o léxico das línguas naturais (ZAVAGLIA, 2012).

Conforme aponta Krieger (2006), o léxico é um componente multifacetado, em constante mobilidade, cujo funcionamento, se comparado ao corpo humano, assemelha-se ao pulmão das línguas. Essa importância vital dada ao léxico é destacada por Zavaglia (2012, p. 232) ao referir que “o léxico de uma língua está intimamente vinculado à cultura de um povo, de uma nação e, portanto, a sua história”. É por meio dele que conceitos, costumes e conhecimentos são transmitidos entre gerações.

Para Biderman (1996), o léxico representa ainda o tesouro vocabular de uma língua, armazenado de forma codificada na memória do indivíduo e acessado sempre que necessário para se expressar ou se comunicar.

Ora, se o léxico de uma língua constitui uma forma de registro do conhecimento, e o conhecimento pode ser expresso a partir de representações linguísticas – símbolos ou signos verbais – por meio de uma língua natural, logo, o registro dessa língua é essencial. Ao se registrar o léxico de uma língua, vários mecanismos são acionados simultaneamente, indo ao encontro não apenas da documentação, mas da preservação, manutenção e herança linguística de um grupo social.

Por isso que estudos dessa natureza tornam-se relevantes, uma vez que refletir sobre essas questões pode contribuir para que os dicionários atinjam níveis desejáveis de qualidade para atender às demandas dos seus consulentes, sobretudo os consulentes surdos.

Documents relatifs