• Aucun résultat trouvé

The Statement Part

Dans le document Turbo Pascal® Tutor (Page 96-101)

De acordo com Soares (2004) letramento é um termo usado em referência às práticas de leitura e escrita mais avançadas e complexas que as práticas de ler e escrever resultantes da aprendizagem do sistema escrito (alfabetização). Portanto, poderíamos dizer que letramento crítico (do inglês critical literacy) corresponde a tais práticas perpassadas pela criticidade. Caberia, assim, refletir sobre o que é ser crítico dentro dessa perspectiva.

Primeiramente cabe dizer que a conceituação de letramento (e de letramento crítico) passa pela concepção de língua(gem). De acordo com Jordão (2007), com a pós-estruturalismo, a língua(gem) passa a ser concebida como discurso, ou seja, um espaço de construção de sentidos ancorado no contexto social, histórico e cultural. Conceber a língua(gem) como discurso implica entender que a linguagem não é uma construção individual, mas um sistema desenvolvido culturalmente e adquirido socialmente. Em outras palavras, “ao invés de um código que faz a intermediação entre o sujeito e o mundo, a língua passa a ser entendida como uma série de procedimentos interpretativos que constroem sentidos no mundo, ou melhor, que constroem os nossos mundos” (JORDÃO, 2007, p. 24).

Juntamente com a visão de discurso vem a visão de realidade/verdade, já que no mundo discursivo a realidade não é exterior ao sujeito, mas é construída pela perspectiva do sujeito. Ou seja, pensar o mundo como discurso é pensar que os valores e os significados são relativos,

16 Mais sobre o tema em: ROJO, R. Multiletramentos e Multimodalidade; ações pedagógicas aplicadas à linguagem. Campinas: Pontes, 2016.

uma vez que se constroem de acordo com a “cena social (e, claro, cultural) em que são percebidos” (JORDÃO 2007, p. 21). Desta maneira, tanto a linguagem quanto a realidade/verdade nunca são neutras, mas ideológicas, ou seja, determinadas pelas perspectivas daqueles que as constroem e utilizam.

Se são as perspectivas dos sujeitos que constroem os significados, pode-se dizer que dentro do letramento crítico tanto a escrita quanto a leitura são concebidas como atos de produção de sentidos. Esses atos são complexos, sócio-históricos e coletivos, uma vez que o leitor (produtor de significação) pertence simultaneamente a diferentes comunidades, que constituem um conjunto social coletivo, e aporta para o momento da leitura perspectivas dessas comunidades. Ser crítico, portanto, seria reconhecer que enquanto leitores/autores de textos somos frutos do nosso contexto sociocultural, cujos valores e significados se originam na coletividade (MENEZES DE SOUZA, 2011).

Em outras palavras, considerando que os significados não são dados, mas construídos, e que a suposta verdade nunca é neutra, ler dentro do letramento crítico não é buscar pela intenção do autor e sim perceber que a construção de sentidos acontece de forma situada, que é produto da coletividade a que pertence. É perceber que o significado não está depositado no texto, mas é construído no momento da leitura e que essa construção depende do lócus enunciativo, por isso que os significados sempre são múltiplos, pois mudando o lócus mudam- se os sentidos (JORDÃO, 2013).

O trabalho com o letramento crítico (que não pode ser interpretado como uma metodologia de ensino e sim como uma filosofia educacional) deve desenvolver no aluno a consciência dessa heterogeneidade, para que possa compreender a ideologia presente nos textos, ou seja, para que possa entender o que possibilita a construção de certos pontos de vista e suas implicações. (MATTOS, 2010; JORDÃO 2007).

O letramento crítico, então, apresenta-se como uma alternativa para ressaltar aos nossos olhos a multiplicidade de maneiras de construir sentidos e entender o mundo, as relações de poder que se estabelecem entre elas, a produtividade dos confrontos decorrentes de tais relações, e a necessidade de especular sobre o que possibilita a existência de cada uma das perspectivas, bem como quais podem ser suas consequências no mundo”. (JORDÃO 2007, p. 24)

De acordo com Menezes de Souza (2011), ler criticamente implica em perceber não somente como o autor produziu determinados significados dentro de determinados contextos, mas perceber que, enquanto leitores, nosso entendimento desses significados é resultado do nosso próprio contexto e das interpretações que dele adquirimos, é “perceber que nossas

próprias crenças e valores também são sócio-historicamente construídos” (JORDÃO, 2013 p. 83).

Assim, a criticidade é entendida como a consciência da localização das diferentes perspectivas presentes no discurso. É a compreensão da relação entre linguagem e visões de mundo, problematizando não só os sentidos do texto, mas a construção desses sentidos na relação leitor-texto.

Também é importante ressaltar que a perspectiva do letramento crítico supõe que os sujeitos e os saberes são hierarquizados socialmente, não por alguma característica que possuem, mas pelo valor que as sociedades lhes atribuem. Assim, a criticidade também implica na tomada de consciência dessa hierarquização, concordamos com Jordão (2013, p. 84) que ao trabalhar com letramento crítico:

as escolas deveriam se constituir em espaços para questionamento das práticas de construção de sentidos e representação de sujeitos e saberes, para problematização dos sistemas sociais de hierarquização desses sujeitos e saberes, para investigação dos sentidos no mundo e seus processos de construção, distribuição, reprodução e transformação.

Um leitor crítico, portanto, é um sujeito ativo, que não aceita passivamente a mensagem do texto, pois o questiona, o examina e problematiza as relações de poder nele existentes. Compreende que as verdades e valores são construções coletivas e localizadas, nunca universais.

Concordamos com Jordão (2006) que se a língua é um sistema que constrói sentidos, a LE é espaço de construção de sentidos diferentes fornecidos pela LM. Assim, aprender uma LE é aprender “procedimentos interpretativos de construção de sentidos, de percepções de mundo diferenciadas, independentemente do grau de proficiência atingido” (JORDÃO, 2006 p. 8). Em outras palavras, através da LE podemos ampliar nossas formações discursivas e construir novos procedimentos interpretativos. Aprender procedimentos interpretativos criticamente “é aprender a exercer a cidadania”, pois permite a consciência das relações de poder em seus aspectos positivos e negativos e a compreensão do que possibilita a construção de certos pontos de vista (JORDÃO, 2007 p. 28).

O desenvolvimento da criticidade e o exercício da cidadania são explicitados (ainda que com diferentes entendimentos) nos documentos oficiais que regulam o EF-AF e o EM, sobre os quais falaremos a seguir.

Dans le document Turbo Pascal® Tutor (Page 96-101)

Documents relatifs