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CHAPTER 5. START-UP SYSTEM
Antes de nossa construção histórica sobre o uso da imagem no Cristianismo é necessário salientar que três termos e concepções são predominantes na relação entre as imagens a instituição e os fiéis, os conceitos de iconoclasmo, iconolatria e iconofilia. Segundo Helmut Renders:
• iconoclasmo descreve uma atitude de radical rejeição a qualquer tipo de relação entre representante / representação e representado; • iconolatria descreve a confusão entre representante / representação e representado que leva a uma união mística com Deus mediante a contemplação;
• iconofilia descreve uma mística da presença, entre representação e representado, que providencia uma relação entre o representado e o sujeito humano sem pretensões de anular o sujeito humano e sem confundir o divino com o ser humano (RENDERS, 2008, p. 93).
Assim, quem faz parte do grupo do iconoclasmo rejeita o uso da imagem; os do grupo da iconolatria percebem na imagem o próprio representado e a contemplam misticamente e o grupo da iconofilia ama2 as imagens, contudo não percebem um poder divino na imagem em si. Essas três formas de perceber e se relacionar com as imagens geram constantes tensões no Cristianismo, pois, na maioria dos momentos elas coexistem. Apesar dos períodos em que uma tenha sido considerada modelo estabelecido pela instituição a religiosidade popular faz diferentes leituras dessa percepção, em algumas práticas individuais ela são bastante hibridas, uma mesma pessoa pode rejeitar um formato representação da linguagem visual religiosa pode aceitar outro com profundo apreço.
A tradição de não produzir imagens para adoração de Deus pelo Cristianismo remonta as interpretações acerca dos escritos bíblicos, na relação do povo hebreu com a
cultura e religiosidade dos outros povos em narrativas como a do livro do profeta Jeremias, capítulo dez nos versículos de dois a cinco9, que crítica o uso de imagens feitas por humanos para adoração, tal qual fazem os outros povos:
Assim diz o Senhor: Não aprendais o caminho das nações, nem vos espanteis com os sinais dos céus, porque com eles se atemorizam as nações. Porque os costumes dos povos são vaidade; pois cortam do bosque um madeiro, obra das mãos do artífice, com machado. Com prata e com ouro enfeitam, com pregos e com martelos o firmam, para que não se mova. São como a palmeira, obra torneada, mas não podem falar; necessitam de quem os leve, porquanto não podem andar; não tenhais receio deles; pois não podem fazer mal, nem tampouco têm poder de fazer bem (Jr 10.2-5).
Essa interpretação sobre a proibição do uso das imagens entre o povo hebreu continuou presente nas primeiras décadas de expansão do cristianismo. Além disso como a práticas cristãs eram proibidas pelo Império Romano a falta de imagens em seus lugares de encontro marcava também uma força de proteção aos fiéis, pois, eles eram: “Apontados como inimigos do gênero humano, alvo de perseguição sangrenta, com necessidade de ocultar aos profanos os mistérios da religião, cujas as práticas deviam subtrair-se aos olhos indiscretos da autoridade”(MONTERADO, 1978, p. 38).
No entanto, o destaque para o uso das imagens entre os primeiros cristãos está relacionado as manifestações de pintura nas catacumbas, como nos relatam os historiadores da arte. As catacumbas eram as galerias subterrâneas em que os cristãos romanos enterravam seus mortos. Nessas catacumbas imagens eram pintadas, de forma muito simples, rude, e as vezes grosseira. Essas imagens com tornaram-se símbolos do cristianismo. Elas possuíam temas relacionados a vida de Cristo: a cruz, simbolizando o sacrifício, a palma do martírio, a âncora símbolo da salvação, o peixe, em alusão a palavra em grego, ichtys, que é semelhante a sigla da expressão Iesous Christos, Theou Yios, Soter, ou seja, “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador” (PROENÇA, 1999).
É perceptível que muitos séculos depois, as imagens símbolos utilizadas por esses primeiros cristãos resistiram ao tempo e, ainda hoje na contemporaneidade, são imagens símbolos utilizadas em igrejas, nos programas religiosos, e mesmo nos videoclipes (como
9 BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada Letra Extragigante. Tradução João Ferreira de Almeida. Quarta Impressão. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2016. Edição Almeida Revista e Corrigida.
veremos em outros momentos dessa pesquisa). É interessante notar também que no uso das imagens nas catacumbas pelos primeiros cristãos preservou uma das primeiras características da utilização de imagens pela humanidade: a ideia de vencer a morte. Pois: “O triunfo da fé sobre a morte, a ressureição do Cristo, a sobrevivência dos mártires. As primeiras imagens dessa nova fé, que dizia recusar a imagem, foram como que suscitadas pelos mitos bíblicos da imortalidade” (DEBRAY, 1993,p. 27).
Com o passar do tempo o cristianismo passou a ser permitindo no Império, com a conversão do imperador Constantino em 313, e posteriormente oficializado como a religião do Império em 391, durante o governo de Teodósio, começaram a surgir os primeiros templos cristãos, especialmente porque o número de adeptos do cristianismo aumentou significativamente. Dessa forma, as antigas construções da administração jurídica romana, conhecida como basílica foram transformadas em lugares de culto. No processo de transformação arquitetônica:
(...) os construtores procuraram criar amplos espaços e ornamentar as paredes com pinturas e mosaicos que ensinavam os mistérios da fé aos novos cristãos e contribuíram para o aperfeiçoamento de sua espiritualidade (PROENÇA, 1999, p. 46).
O propósito maior da arte medieval é a transmissão do conteúdo religioso pelas imagens: “Os artistas não se dispunham a apresentar uma imagem fiel da natureza, nem a criar algo belo; seu intento era transmitir a seus irmãos na fé o conteúdo e a mensagem da história sagrada” (GOMBRICH, 2013, p. 124). Entretanto, havia a preocupação em como fazer a decoração das basílicas, que chegaram a desencadear discórdias violentas, pois, não poderia haver estátuas na Casa do Senhor, pois, como já vimos, tais estátuas esculpidas eram parecidas demais com a dos deuses pagãos, logo surgiu a questão, como os pagãos recém convertidos poderiam perceber a diferença entre sua antiga religião e as suas novas práticas de fé (GOMBRICH, 2013). Essa possível confusão poderia dificultar profundamente “(...)o entendimento da mensagem de um Deus uno, Todo-poderoso e Invisível, a cuja semelhança fomos feitos” (GOMBRICH, 2013, p. 104). Todavia, se existia um certo consenso dos primeiros cristãos no que tange a não utilização das imagens esculpidas na forma de estátuas nas Basílicas, isso não se pode dizer em relação às imagens pintadas. Pois, um grupo defendia a ideia que seu uso era útil por (...) ajudar a congregação a recordar os ensinamentos recebidos e manter viva a lembrança dos episódios sagrados”. (GOMBRICH, 2013, p. 104). Essa ideia tornou-se forte no século
VI, através do Papa Gregório Magno que considerava o uso das imagens positivo para auxiliar a população, que em sua grande maioria era analfabeta, a conhecer através das imagens as histórias Bíblicas, pois, para ele as imagens na igreja tinham uma função de ensino, em suas palavras: “As pinturas podem fazer pelo analfabeto o que a escrita faz pelos leitores” (GOMBRICH, 2013, p. 105). Entretanto, um cuidado com as pinturas dessas imagens deveria ser observado pelos pintores: “(...) a história tinha que ser contada da maneira mais clara e simples possível, e tudo que pudesse desviar a atenção dessa finalidade principal e sagrada deveria ser omitido” (GOMBRICH, 2013, p. 105). Um dos grandes argumentos do grupo defensor do uso das imagens consistia na vinda de Jesus para a Terra, pois: “Se Deus, em sua misericórdia, decidiu revelar-Se aos olhos mortais na natureza humana de Cristo”, alegavam, “porque não Se disporia também a manifestar- se em imagens visíveis” (GOMBRICH, 2013, p. 106). Ademais, eles frisavam que não adoravam as imagens em si, mas, a utilizavam como um meio para cultuar a Deus e aos santos, no conceito de iconofilia.
O grupo dos iconoclastas agiam de forma violenta para combater o uso das imagens: “Como todo movimento de reforma, a iconoclastia se apoia num fervor belicoso, e o sinal de convocação para a luta já está à espera: derrubemos os ídolos, queimemos as imagens” (BESANÇON, 1997, p. 203). O problema dos iconoclastas estava ligado às imagens produzidas com fins religiosos, e não com todas as produções das imagens, eles não eram contra a arte, tanto é que quando destruíam as imagens religiosas em substituição por pinturas com motivos florais ou figuras de animais, outra categoria de imagens que podia ser mantida era aquela que produziam material relacionado ao imperador, nesse caso a figura humana retoma o direito de ser produzidas. (BESANÇON, 1997).
Ademais, outra característica que vamos destacar acerca do uso da imagem pelo Cristianismo reside nas questões arquitetônicas, pois, os temas utilizados nas edificações dos templos durante a Idade Média transitavam por dois conceitos: “Igreja Militante” e “Igreja Triunfante”. No conceito de “Igreja Militante” havia uma preocupação com aspectos relacionados com a vivência da fé cristã católica romana na terra, na “Igreja Triunfante” uma preocupação com as coisas relacionadas ao céu, na vida no porvir. Tais conceitos interferem na forma como essas igrejas são construídas e em que mensagem visual e religiosa elas pretendiam transmitir. Partimos aqui do pressuposto de que a própria edificação do templo é uma imagem em meio as outras edificações nos espaços sociais em que ela está inserida, e é carregada de conteúdos e mensagens simbólicas.
Destarte nas igrejas da região da Inglaterra, no século X, o que predomina são os aspectos da “Igreja Militante”, que deveria oferecer abrigo aos fiéis contra as investidas do mal, e que tem como característica: arcos redondos assentados sobre pilares maciços, robustez compacta, com poucas janelas, com paredes frias e ameaçadoras e torres invencíveis, eram erigidas com pedras, com poupa de poder e desafiadoras (GOMBRICH, 2013). Pretendiam, transmitir a ideia: “(...) de que aqui na terra é função da Igreja combater os poderes das trevas até que a hora do triunfo depoente, no dia do juízo final” (GOMBRICH, 2013, p. 130). Já as igrejas que seguiam o conceito de “Igreja Triunfante”, localizadas especialmente na França nos séculos XII e XIII, transmitiam em suas edificações a ideia de proclamar as glórias dos céus. Tinham como base a imagem de como seria a grandiosidade celestial, num deslumbre no presente do que seria a vida no porvir, que tinha como características: transmitir aos fiéis uma amostra do outro mundo, desse porvir que eles já estavam acostumados a ouvir nos sermões e nas canções, definida como Jerusalém Celeste, baseadas na narrativa bíblia do livro de Apocalipse 21, que descreve essa cidade com portões de pérola, joias, avenidas de puro ouro e cristal transparente, as paredes eram compostas de vitrais, pilares, nervuras e rendilhado que cintilava ouro (GOMBRICH, 2013). Dentro delas: “Os fiéis que se rendiam à contemplação de tamanha beleza sentiam-se mais próximos de compreender os mistérios de um reino além do alcance da matéria” (GOMBRICH, 2013, p. 141-142)
Ao destacarmos esses aspectos das construções das Igrejas Católicas Romanas da Idade Média, pretendemos evidências como os aspectos relacionados aos textos bíblicos, e as interpretações se revelam e se manifestam no uso da imagem, no amplo leque de possibilidades que o conceito de imagem nos permite. Já que, como já ressaltamos anteriormente a própria edificação de um templo se revela como uma imagem da paisagem social. Ademais, muitos videoclipes gospel brasileiros, fazem uso de igrejas como cenário, seja dentro ou fora do templo. Os templos escolhidos para essas locações cenográficas são templos evangélicos com edificações elaboradas, tais como essas católicas romanas que acabamos de descrever.
Para finalizar os aspectos relacionados ao uso da imagem pela Igreja Católica Romana durante a Idade Média, especialmente nos séculos VI E VII, vamos discorrer sobre o ícone. O ícone é uma imagem móvel cristã, que podia ser transportado em viagens. Nessas imagens eram representadas algum santo ou Maria, mãe de Jesus. O ícone “(...) assemelha-se a coisa, mas não é a coisa. Não é arbitrário, mas motivado por uma identidade de proporção ou de forma. Reconhece-se o santo através de seu retrato, mas
esse retrato é acrescentado ao mundo da santidade, não fazia parte dele. É uma obra” (DEBRAY, 1993, p. 213). Seu passado remonta a tradição de culto aos imperadores, como descreve Alain Besançon, que comenta sobre a existência de um retrato do apóstolo São João que teria sido conservado por um discípulo, no século II, que o utilizava sobre uma mesa, com dois sírios acessos. Tal organização, segundo Besançon, remete ao culto aos imperadores, e o molde do culto as relíquias, que para além da imagem sagrada, venerava-se todos os materiais que tivessem tido alguma espécie de contanto físico com eles, tais como palácios, insígnias, escritos (BESANÇON, 1997).
O uso do ícone foi bastante popular, era encontrado nos quartos de dormir, em lojas, nos mercados, em livros, nas roupas, em utensílios domésticos, nas joias, nos vasos, nas muralhas, nos sinetes (BESANÇON, 1997). Com o transcorrer da história foi tornando-se uma das formas de representação por imagem mais utilizado dentro da cultura da religiosidade popular. Seu conceito ampliou-se e foi ressignificado, ao ponto de ser usado muito além do campo religioso.
Já a relação dos cristãos protestantescom as imagens acontece a partir das novas bases doutrinárias propostas por Matinho Lutero. Lutero transformou a maneira de ser e pensar dos novos fiéis em diversos aspectos, dentre os quais no que se refere ao o uso da imagem. Dentre as suas percepções em relação a essa questão estão: a palavra e a imagem não são uma oposição; a imagem passa do estatuto de objeto para o de signo visual; a imagem não é um símbolo que remete a uma realidade exterior; a imagem não tem valor em si mesma; a imagem pode ser uma simples ilustração da Escritura (HIGUET, 2009). Seu olhar em relação a imagem fica ainda mais positivo a partir de 1525, pois, argumentou que a Bíblia era favorável ao uso de imagens, já que Jesus Cristo falava ao povo através de imagens e parábolas, acreditava ainda que a imagem se faz necessária para a catequese das crianças e a da propagação da fé evangélica para o povo mais simples, nesses casos, segundo Lutero a visualização reforçaria a palavra (HIGUET, 2009). “A justificativa é que o ser humano não pode apreender as coisas sem imagens. Em particular, não podemos compreender as coisas espirituais sem apreendê-las primeiro em imagens” (HIGUET, 2009, p. 78). Lutero transforma a interpretação bíblica sobre a imagem para utilizá-la através de outras perspectivas. Etienne A. Higuet resume a três usos positivos que Lutero percebe na utilização das imagens: A imagem didática, a imagem querigmática e a imagem de mediação (HIGUET, 2009). Segundo Etienne a imagem didática “(...) ajuda a entender melhor os dados da fé, permite dirigir-se a todos e comunicar o mais amplamente possível o Evangelho (Bíblia pauperum)” (HIGUET, 2009, p. 78). Já a
imagem querigmática: “(...) prolonga ou acompanha a palavra da pregação, sem ser ela mesma essa palavra (retábulo litúrgico)” (HIGUET, 2009, p. 78). E a imagem de meditação: “(...) que ajuda a uma apropriação pessoal da fé e torna possível uma interiorização da salvação (Andachtsbild)” (HIGUET, 2009, p. 78).
Podemos concluir que as propostas de Lutero para o uso da imagem não estão ligadas a uso de forma idolátrica e sim para fins didáticos, no sentindo ilustrativo que a imagem poderia oferecer ao texto bíblico. Há um deslocamento em termos de função da imagem, que não poderá ser entendida por si mesmo, e sim precisará das palavras para ser compreendida. Além disso, através dessas mudanças de perspectiva na relação do uso religioso da imagem pelos cristãos protestantes, Lutero também incluí as imagens plásticas utilizadas pelos católicos, elas poderiam ser utilizadas através da reinterpretação, e não simplesmente abandoná-las ou destruí-las, e passa a interpretar os signos visuais a partir da função de sua própria teologia (HIGUET, 2009): “(...) As imagens não revelam Deus, mas o anunciam. Retomadas, interpretadas e iluminadas pela Escritura, as imagens são querigmáticas, elas são uma espécie de pregação visual” (HIGUET, 2009, p. 78).
Além de Lutero, outro importante reformador e que desenvolveu a teologia protestante no século XIV, João Calvino, elaborou algumas perspectivas sobre o uso da imagem pelos cristãos protestantes. Para ele, as imagens nada ensinam sobre Deus; Deus se revela através de sua palavra; no uso das imagens há uma inclinação do espírito humano e não do espírito divino; o símbolo não pode ser uma mediação com o divino; a imagem não poderia ter a pretensão de representar o divino. Entretanto, sua relação com a imagem da arte é bastante positiva, pois considerava lícito pintar, pois, isso era um dom que Deus dava ao ser humano, dessa maneira acaba por divinizar o artista e sua obra (BESANÇON, 1997). Dessa maneira Calvino também contribui para uma mudança no conceito da arte religiosa, pois, se dentro da arte religiosa católica romana a obra era coletiva e não trazia o nome de seu pintor, no cristianismo protestante o nome do pintor era importante, logo, a arte torna-se mais individual, os estilos podem ser analisados a partir das características individuais de seus pintores, bem como revelarem aspectos de suas experiências religiosas. Que também serviram como uma contribuição significativa para a construção da história da arte cristã religiosa. Segundo Abraham Kuyper para Calvino todas as ramificações da arte eram um dom de Deus, ele:
(...) não se opôs ao uso legítimo da arte, mas encorajou e até mesmo recomendou como suas próprias palavras prontamente provam.
Quando a Escritura menciona a primeira aparição da arte nas tendas de Jubal, que inventou a harpa e o órgão, Calvino recorda-nos enfaticamente que esta passagem trata dos “excelentes dons do Espírito Santo”. Ele declara que, quanto ao instinto artístico, Deus tinha enriquecido Jubal e sua posteridade com raros dons naturais. E, abertamente, declara que esses poderes inventivos da arte são o mais evidente testemunho do favor divino. Ele declara mais enfaticamente ainda, em seu comentário sobre Êxodo, que “todas as artes vêm de Deus e devem ser consideradas como invenções divinas” (KUYPER, 2018, p. 2).
Como podemos perceber na argumentação de Kuyper, Calvino baseia sua relação positiva com a arte através de suas interpretações dos textos bíblicos. Nessas interpretações além do destaque para o personagem Jubal, que na narrativa do livro de Gênesis é considerado o “pai de todos que tocam flauta e harpa”, Calvino também considera que as artes são “invenções divinas” porque o ser humano só consegue as produzir através do dom concedido pelo Espírito Santo. Logo, apesar de sua restrição ao uso da imagem na forma de iconolatria, Calvino, pode ser considerado como pertencente ao grupo da iconofilia.
Assim, percebemos nesse item os modelos estabelecidos e as transgressões acerca do uso das imagens, em suas mais diferentes formas entre o desenvolvimento do cristianismo, tanto entre o catolicismo romano, como entre os reformadores protestantes. Em muitos momentos a transgressão foi apenas uma volta a um modelo que já tinha sido estabelecido anteriormente. Não necessariamente uma novidade ou uma aproximação com o espírito da época cultural. É possível perceber que o uso da linguagem visual pelo cristianismo constantemente gera controvérsia e múltiplas interpretações, que não são uniformes ou hegemônicas por essência, tanto em termos do próprio sujeito ao da Instituição.
1.2.2. O início do uso da linguagem visual entre os católicos romanos e os