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Algum tempo após o Profeta ter sido sepultado, começou a surgir, no movimento islâmico, a segunda e mais importante manifestação de vontades filosóficas em conflito.

Em causa estavam, numa primeira fase, a sucessão legitimária do Profeta no topo hierárquico do novo movimento islâmico, e na segunda fase, a definição das linhas programáticas e pragmáticas a seguir pelo movimento religioso e político.

6.1.2.3.2.1. A Sucessão Legitima do Profeta

Após a morte do Profeta, o Sistema Internacional ganhava uma nova religião, um novo Estado, que apesar de forte não estava organizado, mas, e principalmente como mais adiante verificaremos, uma nova Ordem político-constitucional assente numa obra religiosa.

Todavia, a nova Ordem Religiosa sentia-se órfã e desamparada. O Profeta não deixara herdeiro varão. A situação despoletou as rivalidades que, embora até então surdas, nunca deixaram de existir. Rivalidades entre Meca e Medina, entre as seguidores próximos do Profeta, os Emigrados, e os derrotados e assimilados Coraixitas139. A solução encontrada foi a eleição de um Califa (khalîfa)140.

6.1.2.3.2.1.1. Os Califas

Foram cinco os iniciais e principais califas que sucederam ao Profeta. Primeiro, o seu sogro e amigo, Abû Bakr que reinou de 632 a 634. Seguiram-se-lhe os califados de Umar ben al-Khattâb, dito Omar, de 634 a 642, o de Uthmân ben ‘Affân, dito Otman ou Osmão, de 644 a 656, o de Alî ben Abî Tâlib, dito Ali, de 656 a 658, o genro do Profeta pelo casamento com Fátima (e pai dos únicos sucessores varões de Maomé: Hussein e Hassan) e o de Mu’âwiya ibn Abî Sufyan de 660 a 680.

139 Cf. BURLOT, Joseph, A Civilização Islâmica, PEA, pág. 29.

Por razões sociológicas, Ali acabou por ser o mais importante dos califas, dado ter sido no seu califado que surgiu o primeiro grande cisma do Islão.

De acordo com a tradição histórica do Islão, Uthmân, o terceiro califa, foi assassinado por partidários, ou a mando, de Ali. Os familiares, agrupados no clã dos Omíadas, liderados pelo Mu’âwiya Sufyan, governador da Síria, desde cedo reclamaram vingança. É o início da ruptura (fitna), a primeira, entre a Umma.

Contudo, a disputa pela primazia do califado entre Ali e os sucessores de Uthmân teve a sua precedência na falta de sucessor legítimo de Omar. O segundo califa, ao sentir o aproximar da morte, decidiu criar um conselho de “homens-bons”, Shura, composto por seis homens dos dois clãs mais importantes do novo império, que teria por missão eleger o novo califa. Os dois candidatos eram Ali, sogro de Maomé, do clã haxim, e Uthmân, do clã omíada. Este foi escolhido para terceiro califa, dado que Ali desejava criar uma dinastia haxemita, o que foi recusado pelo Shura.

Ali, apoiado nos iraquianos, destituiu Mu’âwiya Sufyan do cargo de governador e defrontou-se com os partidários deste na batalha de Siffin (26 de Julho de 657 d.C.), perto do rio Eufrates. Quando as perspectivas da batalha pareciam sorrir a Ali, os omíadas solicitaram a arbitragem do juízo de Deus, através de um Shura de Adroh.

É a segunda ruptura na comunidade islâmica. Alguns dos partidários de Ali abandonam-no. São os carijitas (khawâridji), “os que saem”; estes consideram ser inadmissível que uma tal decisão estivesse dependente do juízo dos homens.

Ali perdeu a arbitragem, em grande parte devido às suas responsabilidades no assassínio de Uthmân, e Mu’âwiya Sufyan foi aclamado califa pelos seus partidários e, mais tarde, reconhecido e aceite – embora se creia, obrigados, – por Hassan e Hussein. O governo do seu califado baseou-se na “sabedoria” e na adesão das tribos, enquanto o califa assumia a postura de um chefe tribal, evitando qualquer pretensão em chamar a si a autoridade religiosa.

O sogro de Maomé, que nunca aceitou de bom grado a destituição, constituindo- se senhor de Bagdad, passou a perseguir os carijitas procurando, acima de tudo,

esmagá-los. Foi assassinado por um carijita, em Kûfa, em Janeiro de 661. Estava consumado o terceiro grande cisma, de que resultam os xiitas.

6.1.2.4. A Diversidade de Ritos

De um lado, temos os defensores da teoria do consenso (Ijma), os sunitas (ahl al- sunna), que se apoiam nos califas; de outro, os Purificadores do Islão141, adeptos do ultra rigorismo corânico, os carijitas; por fim, a ala radical, os teorizadores da legitimidade espiritual (Shi'ia) e da evicção (recuperação) do califado de Ali, os xiitas (chi’at ‘Alî).

Além destes, surgiram, mais tarde, os sufistas, com base na Síria, e os Ibaditas (ou Abaditas), estabelecidos no Norte de África e Omã. Os Ibaditas são, em alguns casos, embora incorrectamente, conotados com a doutrina sunita142

6.1.2.4.1. Sunitas

Os Sunitas são considerados como integrando o grupo islâmico mais numeroso, estimando-se que seja seguido por 60% a 80% da umma Muçulmana.143

A sua principal característica filosófica, aliada à teorização do consenso, a Ijan, resulta da interpretação teológica do Alcorão, no que se refere ao califado.

No entanto, existem autores como Charles-H. Favrod144, que defendem a teorização da cisão com a dissensão verificada entre os descendentes de Ali, marido de Fátima, que resultou no aparecimento dos Xiitas, e os antigos companheiros do Profeta, os Sunitas, casta ortodoxa.

141 Cf. BURLOT, op. cit., págs. 30 e 31.

142 Cf. Collier’s Encyclopedia, vol. 13, págs. 312 e 313. 143 Idem, pág. 313.

Para os Sunitas, o Alcorão e os Hadiths são as únicas autoridades da teologia e doutrina étnica muçulmana. O califa é, unicamente, um chefe administrativo, não gozando da graça divina, de santidade ou de sapiência iluminada145.

O período áureo dos Sunitas verificou-se com a dinastia Abássida, entre 750 e 1258 d.C., sendo de destacar as escolas teológicas sunitas, grandes impulsionadoras das novas doutrinas islâmicas, Maliki, Hanafi, Shafi e Hanbali146.

Actualmente, os Sunitas têm a sua principal força teológica no reino da Arábia Saudita, onde goza do estatuto oficial de Doutrina do Estado; a Jordânia, o Paquistão e a Indonésia fundamentam a sua Doutrina oficial no postulado sunita.

6.1.2.4.2. Xiitas

Ao contrário dos Sunitas, os Xiitas, consideram o Iman147 o herdeiro espiritual do Profeta, não só por via familiar, como por via da interpretação teológica do Alcorão. Ele é o chefe administrativo, mas é igualmente o chefe espiritual e a única autoridade com capacidade para interpretar as leis corânicas. Contrariam na sua essência as distorções sunitas148.

A principal escola teológica xiita surgiu no século IX, dentro dos muros da Mesquita de Samarra.

Conceptualmente e ao contrário dos Sunitas, os Xiitas têm diferentes interpretações teológicas e doutrinárias no seu seio. Umas mais radicais, actualmente próximas do movimento fundamentalista islâmico que tem nos últimos vinte anos, e com certa acuidade, emergido no Sistema Internacional. Outras, mais conservadoras – na situação os moderados – sem no entanto se poderem considerar ortodoxas, são mais teológicas e doutrinárias e menos administrativas, havendo quem as que coloque muito próximo das teses defendidas pelos sunitas. Estão contadas mais de seis dezenas de seitas e subseitas xiitas.

145 Cf. Collier’s Encyclopedia, vol. 13, pág. 313.

146 “As escolas malaquita, hanafita, xafeíta e hambalita”; Idem, Ibidem.

147 Chefe religioso, legislativo, administrativo e, por vezes, militar. Ali ibn Abi-Talib, o quarto califa é

considerado, pelo xiismo, como o primeiro Iman.

Entre os conservadores destacam-se os Ithma-Ashariyya149 e os Sete, agrupados à volta da doutrina teológica Ismaelitas (ou Ismaelianos), liderados actualmente por Aga Khan. Genericamente, os Sete são reconhecidos por os “comunistas do Islão” 150.

Porém, nem sempre os Sete tiveram atitudes tão moderadas, bem pelo contrário. Os Ismaelitas, têm a sua ascendência reportada ao século IX e aos Qarmatas.

Os Qarmatas criaram o primeiro Estado Islâmico independente, na Costa Ocidental do Golfo Pérsico, com capital em Al-Ahsa. Estenderam a sua influência desde a região oriental do Iémen, à Síria e ao Iraque151.

Ao Estado Qarmatiano está ligado um longo rol de guerras sanguinárias contra os inimigos do Islão. Apesar disso, até porque a jihad é prática comum entre os islâmicos, não conseguiram sobreviver muito tempo. Porém, as doutrinas Qarmatianas foram seguidas e adoptadas pelos egípcios152.

Os Sete, por sua vez, estão fragmentados por várias subseitas. Na Síria, são actualmente conhecidos por Nusayris, e noutras regiões, nomeadamente em Marrocos pela assimilação de certas festividades cristãs, por Alawitas153(ou alauitas); na Turquia, por Alevitas (região de Istambul) ou Aluis (nas montanhas); na Índia por Boharas (região de Bombaim) ou por Khojas (região fronteiriça com o Paquistão); e na região montanhosa jordano-palestiniana e nos Golã, por Drussos.

Entre os radicais, que serão merecedores de maior e mais aprofundado desenvolvimento ao longo deste ensaio, encontramos a sociedade secreta Drusa, igualmente septistas, com origem na Síria ao tempo dos Qarmatas. Actualmente, tem maior peso no Líbano.154

149 Igualmente conhecidos por os Doze, são originários dos doze imãs: o primeiro foi Ali e o último

Mohammed al-Mah’di, sebastianizado pelos islamitas – desaparecido misteriosamente, crêem no seu reaparecimento quando for anunciado o fim do Mundo. Predominam no Irão e no Afeganistão; cf. Collier’s Encyclopedia, vol. 17, pág. 86.

150 Consideram que o sétimo imã, Ismael, foi o último; cf. Collier’s Encyclopedia, vol. 13, págs. 314 151 Anexos: Mapa 7 “O Estado Qarmatiano”.

152 Cf. Collier’s Encyclopedia, vol. 13, idem. 153 Idem, ibidem.

Além destes, igualmente credores de um maior desenvolvimento, existem outras facções radicais xiitas, (na prática são os que levaram a este estudo), destacando-se os iranianos, afegãos e algumas facções nacionalistas palestinianas. São os chamados de “Integristas” (no Maghreb) ou “Fundamentalistas Islâmicos”.

6.1.2.4.3. Carijitas155

Os Carijitas, também denominados por “dissidentes”, surgiram de uma dissensão verificada no seio dos partidários de Ali, em 640 d.C., na disputa sucessória de Maomé com os partidários de Uthmân, agrupados no seio da seita islamita Muri’ah156.

Defendem, intransigentemente uma moral rigorista e ultra corânica, condenam todo e qualquer luxo, exigem que o califado seja transmitido por via eleitoral, não sectária, ou seja, o califa deverá ser qualquer muçulmano sem distinção de raça, tribo ou proveniência (um escravo negro é, era, tão elegível como qualquer homem livre). Todavia, logo que alguma falta fosse cometida cessava a legitimidade de ser eleito.

Dado o seu carácter democrático (será por isso que o presidente líbio Kadhaffi declara que a democracia tem a sua raiz junto dos árabes!?) os carijitas eram predominantemente recrutados entre os populares e os recém-convertidos (os mawali) do Império Omíada.

6.1.2.4.4. Sufistas

Os Sufistas têm a sua sede em Bagdad, estando ligados, conceptualmente, aos cristãos e aos budistas. Remontam aos primórdios do século IX, sendo o seu inspirador teológico Maruf al-Karkhi157. Espalharam-se desde Java a Marrocos entre os séculos XII e XIII d.C.

155 Cf. BURLOT, op. cit., págs. 30 e 31.

156 Uthmân na sua disputa sucessória com Ali, porque este era apoiado pelos carijitas, criou uma seita

islamita para o apoiar. Esta seita cujo significado árabe é “os que adiam o julgamento temporal”, consideravam que só Alá tinha competência exclusiva para julgar os actos religiosos de um muçulmano.

Obtiveram uma grande importância doutrinal no século XVI, quando se tornaram na doutrina oficial dos Turcos Otomanos. A partir do século XIX começaram a decrescer de importância.

Presentemente os Sufistas, que têm buscado sistematicamente refúgio junto do Irão, procuram, quase em exclusivo, desenvolver o estudo da teologia, da filosofia e da arte poética. Pode-se dizer que abandonaram as práticas político-doutrinais.

6.1.2.4.5. Ibaditas

Os Ibaditas (ou Abaditas)158, fundados por Abd-allah-ibn-Ibad, formam uma comunidade islâmica auto-segregada. É a menos importante e encontram apoio populacional no Omã, Zanzibar e parte do Norte de África, em particular na Argélia. Defendem um conceito próprio sobre a fé e as leis corânicas. Segundo alguns autores, estão ligados aos sunitas, por vezes com estes se confundindo. Outros, como Burlot, consideram-nos um ramo do carijismo.

Tal como outros movimentos, igualmente os Ibadistas registam no seu seio diferentes facções teológicas e doutrinárias, entre elas os Kakkaritas, os Khafitas e os Nafatistas.