apenas Dona Camélia, mas o próprio rapaz, que pela primeira vez mostrou uma feição relativamente alegre. Mas deixou Seu Tenório pensativo. Falamos que não conhecíamos ninguém em Campo Grande mas que poderíamos estabelecer contatos com o objetivo de conseguir uma bolsa de estudos para ele. Sublinhamos que era importante que continuasse estudando com empenho, pois com boas notas seria mais fácil conseguir uma bolsa. Foi uma longa conversa. No nal, o casal disse estar satisfeitos com a proposta. Ficamos de retornar no sábado.
No dia seguinte, fomos na casa de Seu Miguel ver como andava a construção de nossa casa. Estava praticamente concluída. A casinha (latrina) estava também quase pronta O plástico para revestir o teto havia nalmente chegado da cidade e poderíamos nos preparar para a mudança nos próximos dias. Quando retornamos com a boa notícia, à casa de nossos antriões, vimos que algo se passava. Havia um rapaz nos aguardando, com uma mensagem do capitão: Ele quer vocês na casa dele, hoje de tarde, para ter uma conversa séria. Quando ia retornando, lembrou de algo, virou-se e disse: Ah! Ele pediu para eu avisar pra vocês não levarem a criança junto, ele não quer criança lá.
Já detalhei o desenrolar desta história, que termina com nossa expulsão da aldeia às vésperas da mudança para nossa casa e da data marcada para Gabriel receber o nome kadiwéu.
5.3 Sobre crianças nos relatos históricos.
O fascínio pelas crianças, revelado nos exemplos acima, não são excepcionais entre os Kadiwéu. Guido Boggiani, por exemplo, observa que a lha do Capitãozinho é um amor de menina de apenas dois ou três anos; linda como nenhuma outra. Tem dois grandes olhos negros inteligentes e é o ídolo da tribo. Todos lhe querem bem e lhe fazem carícias e afagos, não tanto pela sua posição social como pelos seus encantos (1975 [1892]:151).
Noutra passagem, Boggiani observa que um costume gentil entre os Caduveo é aquele de acolher festivamente os que regressam da caça, ou de buscar frutos, depois de uma ausência de alguns dias ou mesmo só de alguma horas (...) Apenas aparecem ao longe, a mulher, os lhos e os escravos lhe fazem festivo encontro e, tendo-lhe dado o feliz regresso com todas as expressões de afeto, os escravos o libertam do peso das armas e da caça, ou de outra coisa que traga consigo; e se tem crianças, estas lhe são logo trazidas para que as beije e as trazendo à cavalo toca para casa onde é imediatamente rodeado por parentes e amigos que o assediam com perguntas (1975 [1892]:167).
5.3 Sobre crianças nos relatos históricos. 82
O autor também mostra-se revoltado com a complacência para com o comportamento das crianças, mesmo quando demonstram uma hostilidade extrema. Comenta, por exem- plo, o fato de um menino de sete ou oito anos que deu uma facada no braço de uma escrava, talvez porque não estivesse pronta a servi-lo em qualquer coisa, ou tivesse que- rido impedi-lo de fazer algum mal. (...) Eu queria que fosse lho meu para pôr-lhe a cabeça no lugar de uma vez por todas! Ao invés, aqui ninguém fez caso dele nem da pobre escrava que se pôs a chorar em silêncio. O rapazinho só recebeu reprimendas de mim (1975: 172).
Até meados do século XIX, as hordas dos Mbayá são descritas em contínuo movi- mento sobre seus os cavalos, para a caça, o saque e para as correrias da guerra, que eram empreendidas de noite (Colini 1975 [1945]: 270). Embrulhavam os poucos utensílios domésticos que tinham (e até mesmo os cães pequenos) em esteiras e peles, e partiam à galope. As mulheres e as crianças iam montadas em cavalos e, quando encontravam um largo curso d'água lançavam para a frente os cavalos e nadavam agarrados às caudas dos mesmos. Faziam passar as crianças e os seus utensílios domésticos sobre um couro de boi arqueado à guisa de concha por meio de dois bastões de pau. Esta canoa portátil, que fazia sempre parte dos seus móveis e que nas viagens era carregada à cavalo pelas mulhe- res, substituía com freqüência as maiores embarcações de madeira, das quais também os Mbayá sabiam servir-se com habilidade e destreza (Colini 1975 [1945]: 271).
De acordo com vários relatos, e como ca claro também nos mitos, as crianças nobres tinham sempre à sua disposição uma criada ou criado para lhe fazer companhia, cuidar, brincar e auxiliar em caso de necessidade. Como disseram à Pechincha: É por isso que os índios muitas vezes guerreavam entre si. Só por causa das crianças. Eles iam invadir outra tribo procurando as crianças, só para trazer para eles criarem, para fazer uma companhia da criançada dos Kadiwéu, porque antigamente os Kadiwéu só tinham um lho (1994: 129)7.
Levando em conta as armações de Azara de que os caciques Mbayá gozavam de prerrogativas semelhantes às dos Guaná e Paiaguá, Colini sugere que a seguinte descrição dos Guaná, pelo autor, pode nos dar o conceito do governo dos Mbayá: Cada horda, diz ele, tem muitos caciques ou capitães hereditários e cada uma delas tem um certo
7Além deste relato, a autora cita outros dois, também de cativos Kadiwéu. Eu me considero um
escravo. Foram trazidos para cá os índios Xamakoko e os Enimaya. Eles traziam crianças para brincar com as crianças kadiwéu. Então pegavam as criancinhas e traziam. A gente trazia aquelas crianças para ser companhia de nossos lhos ou nossos avós. Busca outro índio para ajuntar. Dentro. Para car muito. Busca outra nação de índio. Quando traz algum guri ou menina, já ca criando e o idioma dele já não compreende mais. Já é considerado como Kadiwéu. O que eles buscavam, criavam igualzinho irmão, lho. Não tem diferença (1994:129).
5.3 Sobre crianças nos relatos históricos. 83
número de índios sob a sua dependência, sendo uso nacional olhar como súditos do lho do cacique, e não do cacique mesmo, todos aqueles que nasçam dentro de um dado número de luas, ou primeiro ou depois de um tal lho (Azara [1875] in Colini 1975 [1945]: 278. Os genitores, escreve Colini, nutriam um afeto extraordinário pelos seus lhos, mas estes não retribuíam com idêntico amor e davam com freqüência provas de pouco respeito a eles.
Colini (in Boggiani 1975 [1892]:259), por seu lado, arma que todos os lhos machos dos caciques, apenas nascidos, eram entregues a pessoas de conança para que os criassem (...) Durante a infância, os genitores os viam excepcionalmente. No dia em que o lho do chefe se desmamava e naquele em que começava a correr com os outros rapazes, eram celebradas grandes festas por tôda a comunidade (1975: 259).
Almeida Serra observa que após a captura, algumas crianças consideradas mais lin- das eram escolhidas para serem tratadas como livres e adotadas como lhas, enquanto outras, mais torpes eram designadas as atividades mais grosseiras (1845:206 in Pechin- cha, 1994:33). Além disso, menciona o direito de herança desses cativos adotados quando crianças.
Nas transcrições de falas de informantes fornecidas por diversos antropólogos ca sem- pre evidente o seu cuidado Kadiwéu por assinalar a presença das crianças, ou a impor- tância a elas destinada. Nos escritos de Darcy Ribeiro, por exemplo, podemos encontrar uma variedade. Num deles, o informante conta: Quando morreu o lho de Bonifácio, um menino assim (3 anos), falaram que fui eu, mas não fui eu. Eu só curo gente, não mato. Noutro: Eles mataram nossa gente toda, homem, mulher, criançada (...) matou mui- tas mulheres e homens, velhos e meninada (1980:201, grifo meu). Também costumam dizer que as histórias são contadas, ou os cantos cantados, especialmente para elas: Estes padres são mesmo safados. João Gordo está cantando aí toda noite, não tem ninguém doente e ele está cantando. Já foram falar com ele para não cantar mais, o velho cou com medo e disse que tinha muita doença chegando, por isto cantava. Mas largou de fazer isto, só cantou ontem por causa da criançada (1980:198). Darcy Ribeiro conta, ainda, a história de um homem Kadiwéu que deu a um xamã uma vaca, um cavalo e dinheiro para que curasse sua neta, que acabou morrendo (1980:210).
Descrevendo os ritos funerários Kadiwéu, Darcy Ribeiro faz uma observação que re- força nossa hipótese sobre o lugar central ocupado pelas crianças na sociedade Kadiwéu. Diz ele: Segundo informações que obtivemos em Lalima, de um Kadiwéu que nos acom- panhou até a aldeia, e que, infelizmente, não pudemos aprofundar, existe ainda um ritual
5.3 Sobre crianças nos relatos históricos. 84
muito complexo pelo qual se consagra uma criança a uma família que perdeu um mem- bro importante. Consiste numa cerimônia pela qual a criança muda de nome e passa a ser designada por aquela família com certos termos reverenciais. No caso que nos foi relatado, o Cap. Laureano pretendia devotar sua lha à família do Capitão Ma- tixúa, que acabara de perdê-lo e estava de luto (...) A criança seria como o capitão e quando qualquer de seus parentes estivesse fazendo alguma coisa errada, bastava sua presença para acalmá-los; além disso, a criança teria autoridade para lhes dar ordens que seriam imediatamente cumpridas. Como se vê, parece tratar-se da substituição simbólica de um parente morto por uma criança que passa a representá-lo, sendo investida de toda a autoridade e prestígio que o falecido gozava em sua família (1980: 193).
O seguinte relato evidencia a importância da captura das crianças dos outros como forma de honrar a memória dos antepassados, além de revelar a importância da guerra no imaginário do grupo.
Não chegava ninguém sem a ordem do governo (...). Quando os soldados começaram a querer falar para eles não continuarem a ser ruins para as outras pessoas, eles viravam contra os soldados (...) É por isto que os civilizados antigamente tinham medo dos índios, porque antigamente os índios não eram amigos dos civilizados, eles mostravam que eram índios (...) E até hoje, se eles se recordassem desse passado, eles poderiam até pegar crianças das outras tribos para mostrar que não se esqueceram do passado dos avós deles. Se eles um dia resolverem fazer isto, eu poderia até fazer com esta tanta gente que já está entrando nesta área, porque esta área não é dos brancos, é dos Kadiwéu. Guerreavam não por um motivo qualquer, mas o que era mais importante para eles é que eles lutavam por esta terra que até hoje ainda nós temos (1994:117)
Como podemos ver, a captura de crianças aparece como elo principal entre passado e presente. Além de ser uma forma de referir à memória dos antepassados (que eram ruins para as outras pessoas pois faziam guerra para pegar suas crianças), cativar crianças é uma possibilidade sempre aberta, existindo em potência.
Vimos, anteriormente, relatos que destacavam que os motivos que levavam os homens à guerra relacionavam-se com sua relação com as esposas. Quando batiam nas esposas, elas os acusavam de covardes, que batiam nelas porque não tinham coragem de bater nos inimigos e os desaavam a mostrar como é homem mesmo, trazer índio de lá. Para mostrar como a raça é verdadeira (Pechincha 1994:122). Além disso, precisavam pagar aquela alteração causada dentro do grupo, batendo noutra indiada.
5.3 Sobre crianças nos relatos históricos. 85
pelos informantes homens - como motivos para a invasão de outros povos, a principal razão apontada por homens e mulheres tanto nos relatos atuais quanto nos passados - é a captura de crianças, como ca claro no relato de uma senhora:
Era por causa de criança. E iam, não era para brigar; ele quer pegar o lho do outro índio para fazer cativeiro. Pegavam e traziam qualquer tamanho de criança. Vai criar e vai car como índio Kadiwéu. Acabou o idioma dele (1994:127). Em seguida, quando a antropóloga pergunta o por quê deste interesse, é o casal, em conjunto, que explica:
Porque ele foi criar outro índio? Índio Kadiwéu fazia lho. Quando está grande, quando nasce (outra) criança, já mata. E enterra ali mesmo, já vai saindo para o mato. Não tem lho. Só quando está grande este lho, quando ele pode andar, e daí já vai fazer outro lho. Daí que ele vai criar. Quando tem outro lho, já mata. Isso é partição de negócio de mulher. Sempre Deus fez esse costume (1994:127).
Como ca claro no relato, não é que os Kadiwéu tivessem aversão ao fato de ter seus próprios lhos. Embora a estética corporal, o trabalho na cerâmica e a mobilidade nas correrias de antigamente, sejam apontadas como motivos importantes da prática de controle natal, a preocupação fundamental parece ser com o cuidado que uma criança demanda e a atenção especial que merece, por isso a exigência de um espaçamento de idade entre uma criança e a próxima.
Preferencialmente, o mais velho tinha que já estar, no mínimo, caminhando. Como explicou um homem de meia idade: Antigamente, dava para o Kadiwéu percorrer a linha, porque andava com a família, cavam parado num lugar e, quando acabava a caça, o capitão batia a caixa e chamava o pessoal para ir para outro lugar. Os Kadiwéu viviam brigando. Só tinham dois lhos, um menino e uma menina (...) O resto matava tudo. Só criavam dois, um para o pai, outro para a mãe carregar. Porque viviam brigando (Pechincha 1994:127). Este mesmo informante já havia explicado à antropóloga que os antigos matavam as crianças não porque não gostassem delas: Mas os lhos que criavam eram tratados com todo luxo. Não era qualquer coisa que comiam, qualquer pedaço de carne, qualquer mel. E cavam maus. Eram ruins mesmo. Mas naquela época, rapaziada tinha respeito, falava sim senhor, sim senhora (1994:122).
Uma velha Kadiwéu explica o impedimento da natalidade ainda em outros termos: Kadiwéu antigo não gostava de ter lhos. Tinha um só. Esta missão aí foi bom porque a gente já estava acabando. Kadiwéu antigo fazia guerra com os Chamacoco para pegar criancinhas. Pegava uma criança e dava para algum menino ou menina Kadiwéu para ser seu criado. Esses Chamacocos eram quem faziam os serviços da casa: cozinhavam,