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PAPER D Appendix: Consolidated Financial Tables

Dans le document 2004 Ontario Budget (Page 160-164)

buscavam água, as Xamakôka acompanhavam as moças Kadiwéu no banho (Pechincha 1994:128).

5.4 As crianças na mitologia

O objetivo aqui é apenas ilustrar o lugar especial reservado às crianças na mitologia Kadiwéu, assim como destacar o caráter sobretudo criativo que lhes é atribuído. Iniciarei transcrevendo duas outras histórias coletadas por Darcy Ribeiro:

A criançada quando junta prá brincar não quer largar mais. A mãe chama para ir embora, mas eles estão aí brincando, não querem parar. Passou meia noite e a meninada está brincando. Aí um falou: Vamos dormir companheirada, daqui a pouco nós acor- damos e vamos brincar até amanhecer o dia. Eles dormiram. Ficou aquela meninada dormindo ali no terreiro. Aí veio o Cipó e carregou todos. agora estão lá em cima no céu, aquela roda grande de meninada (Corona Australis?)

O senhor vê aquelas sete estrelas bem juntinhas? Eu sei a história delas. É assim: Os meninos e as meninas estavam brincando no terreiro em frente de casa, bem de noite, eram sete meninos. O pai os mandava dormir, mas elas não iam. O pai dizia: Vão dormir meninada, senão bicho vem e pega vocês. Os meninos continuavam brincando bem juntinhos. À meia noite veio o bicho, pegou a meninada e levou para o céu. Agora eles estão lá em cima. Chama Nibetád (Plêiades). Em junho, na festa do meu São João, elas aparecem na Serra da Bodoquena, cam lá muito tempo, depois vão subindo e a gente não vê mais. Antigamente, quando elas vinham, os velhos cavam acordados para ver e faziam festa grande. Agora, só eu é que dou festa de São João que é meu santo. Os outros só sacodem os tarecos que têm prá carem fortes outra vez (Ribeiro 1980: 93-94)8.

Observando que a história de Nibetád (Plêiades, as sete estrelinhas), é diferente, Darcy Ribeiro sugere que a história acima referida deve ser de outras estrelas. Nibetád, como vimos, é o homem-estrela que desce do céu para satisfazer o desejo de uma jovem

8As crianças são também protagonistas importantes em outros mitos: Como Gü-ê-krig enganou as

meninas ( Wilbert & Simoneau 1989:70); A vingança das meninas (idem:72); Como Gü-ê-krig roubou as crianças (idem:77); A criança relâmpago (idem:41); As aventuras dos dois irmãos desobedientes (idem:87) e O Homem-estrela e seu lho humano(idem:46). Além disso, são freqüentes as observações sobre o comportamento e gosto das crianças. Às vezes, nota-se que a criançada quando junta prá brincar, não quer largar mais (Wilbert and Simoneau 1989.42, Ribeiro 1980:93-99). Outras, observa-se que; He forbade the children to leave, but you know children, they dont obey (Wilbert & Simoneau 1989:84); ou You know that children like owers, they cant see a ower without running to pick it (Wilbert & Simoneau 1989:55); ou ainda Gu-ê-krig talked a lot and the boy stood there in silence; you know how children are in the presence of people they do not know (1989:69).

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Kadiwéu e casar-se com ela. Não deixa de ser curioso, no entanto, que numa versão (a primeira), as crianças sobem ao céu, à meia noite, e formam as Plêiades, que depois serão reverenciadas pois estimulam, a cada aparecimento seu, a renovação das forças das pessoas. Enquanto na outra versão é o homem estrela que desce, à meia noite, do céu, casa-se com uma mulher Kadiwéu, produz, a pedido da esposa, vegetais (milho, mandioca etc.) que crescem da noite para o dia e lhe dá dois lhos, que se tornam poderosos xamãs. O mais interessante nesses mitos, no entanto, é a insistência no tema das crianças roubadas: no perigo que correm, o medo de perdê-las, a desobediência que as coloca em risco e o descuido dos pais . Como vimos, a sociedade Kadiwéu enfatiza a necessidade de cuidado das crianças. Além disso, gostam muito de mimá-las e, na medida do possível, sempre satisfazer seus desejos, evitando contrariá-las. Se considerarmos que estas histórias são, como pude constatar, muito conhecidas pelas crianças Kadiwéu, poderíamos dizer que, pelo menos em parte, servem como uma estratégia pedagógica, eminentemente lúdica, para induzir as crianças a obedecerem seus pais, e aplacar, assim, o medo terrível que têm de perdê-las. Mas essa é uma visão muito parcial, cujo signicado pode ser melhor elucidado através da atenção a posição que ocupam noutros mitos. Retornaremos ao temor de perdê-las em seguida.

No mito sobre o xamã Nétíue uma criança, sua lha, aparece como protagonista im- portante. Como se trata de uma longa história, faço um resumo de sua primeira parte. A narrativa inicia notando a extrema bondade de Nétíue e a descrença e desconança que as velhas da aldeia demonstram em relação às suas capacidades. Para convencê-las de seu poder, Nétíue faz uma demonstração, transformando toda lenha seca, todo gra- veto, em galhos verdes, impedindo-as, assim, de fazer fogo. Faz muitas outras façanhas, transformando pedra em algodão etc. e torna-se reconhecido por todos como invencível - nesse processo, sua fama de bondoso vai diluindo-se e, depois de descobrir a traição da esposa, torna-se homem ruim e perigoso. Ele pune os amantes animalizando-os, fazendo com que cassem presos pelo sexo, como acontece com os cães. Separou-se, casou nova- mente e teve uma lha. Desde então, o personagem passa a desaar sistematicamente seus companheiros, armando que ninguém, jamais, conseguiria matá-lo. Demonstra grandes poderes, como o de transformar-se em pedra e vespas, toda vez que alguém tentava lhe atacar. Todos passaram a temê-lo.

Sempre que Nétíue desejava uma mulher, mandava um escravo buscá-la - dizendo que queria que lhe arrancasse os cílios e depois a mandava de volta ao seu marido. Ela já tinha estado com todas, só faltava uma cunhada. Quando o irmão de Netíue foi caçar,

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ele mandou chamar a mulher dele e disse: `Vem me catar os piolhos'. Depois disso, ela foi para casa e chorou. Quando o marido voltou, perguntou porque ela estava chorando. Ela contou tudo e o marido exclamou: `Como iremos nos vingar? Ninguém pode matar ele!'. O irmão armou uma estratégia, conseguiu surpreender o xamã e, por m, matá-lo9.

Fez um fogo grande e jogou lá dentro o feiticeiro, que estava morrendo (...). Estavam se mudando de paragens, e todos já haviam partido. Quando alcançou sua mulher, lhe falou: Eu matei o meu irmão e todos os bichos, somente o pássaro deballok fugiu. Logo se viu o fogo que o passarinho tinha aceso e que se aproximava deles. Tomaram um susto grande, mas uma velha aconselhou que a lhinha do feiticeiro casse em frente do fogo, o fogo rodou em torno da criança e apagou. Se essa criança não tivesse nascido todos os Kadiwéu teriam morrido queimados (Simoneau, 91, Ribeiro 1980: 78-79)10.

É após o nascimento da lha (com sua ex-cunhada caçula) que Nétíue prova ser invulnerável, torna-se mau, e começa a ter relações sexuais com as esposas dos outros homens - invertendo, assim, a situação inicial onde ele era o marido traído. A menina, lha de Nétíue com a cunhada caçula, é a única capaz de deter os ímpetos destrutivos do pai e é apresentada como a responsável pela sobrevivência dos Kadiwéu. São as velhas, que o desaaram quando ainda era uma pessoa boa, que revelam o poder da criança para anular os poderes do pai. O lugar central das mulheres nas negociações matrimonias (e questões sexuais) é explicitado quando enfatiza que é a sogra do xamã quem consegue convencê-lo  oferecendo-lhe uma lha, ainda virgem - a livrar a outra lha do sexo do amante, ao qual ainda estava presa. O pai, que aparece como mensageiro e negociador, teve suas ofertas de cavalos e ricos ornamentos e recusadas pelo xamã.

Em outro mito, sobre o xamã que queria reviver os mortos, a idéia de responsabilidade para com uma criança, sua lha, também é mencionada. Depois de contar sua viagem para o mundo dos mortos a m de aprender, com Gô-noêno-hôdi (o Criador) o segredo, a narrativa é assim concluída: When the animals seized his head to keep him from turning around he had already seen the girl's11 big toe and she was already pregnant by him. That

one look was sucient. Gô-noêno-hôdi said: `well, you can go, but you will have a child

9É interessante notar que noutra versão deste mito (Netíue, mito 55), o xamã só morre quando seu

irmão lhe tira os testículos.

10É interessante notar que noutra tradução (em inglês) desta passagem originalmente citada por

V.A.Fric, diz-se que Se não fosse pela criança,...- If it were not for the child all the Caduveo would have burned to death (Wilbert & Simoneau 1989:93, original de Fric, em alemão, não foi disponível, 1913:400- 402). Lamento, sem dúvida, não ter tido oportunidade de coletar versões mais atuais destas histórias. Entre outras coisas, poderia fugir das armadilhas que a questão da tradução sempre nos coloca. Penso que seria também problemático ignorar as poucas fontes etnográcas existentes. De qualquer forma, vale notar que em ambas traduções a centralidade da criança é anotada, embora com ênfases diferenciadas.

11Filha do criador ô-noêno-hôdi, a quem recorreu em busca de remédios que curem da velhice não só

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here and you must look after it'. The shaman left, but soon he died and returned to the land of Gô-noêno-hôdi in order to take care of the child he had left behind (Wilbert & Simoneau 1989:98-99).

O mito que conta como os animais adquiriram suas cores após banharem-se num lago formado com o sangue de uma criança, é igualmente ilustrativo desta capacidade criadora das crianças:

Três crianças brincavam sempre em frente à sua casa até muito tarde, até depois da meia noite. O pai e a mãe nem se importavam. Uma noite estavam brincando e já era muito tarde, então foi descendo do céu uma panela de barro muito grande, toda coberta de desenhos, vinha cheia de ores e cou bem no meio do terreiro. Você sabe como meninada gosta de or, não pode ver uma or, tem que correr para apanhar. Os meninos viram as ores e foram apanhá-las. Mas quando esticavam os braços para apanhar as ores, elas corriam para o outro lado da bacia. Assim, as crianças foram entrando atrás das ores. Duas já tinham entrado no vaso e outro estava só com uma perna de fora. Aí, uma mulher da casa viu e disse para a mãe dos meninos: Vai ver o que está lá no terreiro; seus lhos estão brincando numa bacia bonita que você nem nunca viu. A mãe da criançada foi olhar. Quando vinha chegando a bacia começou a subir, ela ainda agarrou uma perninha do lho que não tinha entrado inteiro e puxou, mas a bacia ia com força e logo subiu. A mãe, puxando, quebrou a perninha do menino. A bacia foi subindo e sangue do menino escorrendo, mas era muito sangue como se fosse de três ou quatro rezes. O sangue correndo da perninha arrancada é a faixa vermelha do céu. daí até hoje ela aparece quando dá uma chuvinha, antes do tempo da seca.

O sangue que correu fez no chão uma lagoa bem vermelha, perto da casa da mãe das crianças. Ela chorou muito e pediu a quem carregou os seus lhos que casse com eles, já que tinha levado, mas que os tratasse como lhos.

Primeiro chegou uma arara, dessas que agora são verdes. Sim, naquele tempo nenhum bicho tinha cor, todos eram branquinhos. E até hoje os pintinhos de todos os bichos são brancos; depois é que vão mudando de cor. A arara bateu na casa da mulher; quando ela apareceu, a arara disse que tinha vindo ver a lagoa vermelha e falou o seu nome prá mulher saber quem era. Foi banhar na lagoa e saiu bem vermelha, mas o sangue do menino começou a coçar muito no corpo dela, e como era muito quente, ela foi se esfregar na macega, por isso cou verde e vermelha. Chegou depois a arara de outra cor e depois a outra. todas falaram o nome prá mulher, se banharam e foram esfregar nalguma coisa, por isso tomaram as cores que têm até hoje.

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Chegou, então, o urubu, era branquinho que nem os outros bichos, disse seu nome prá mulher car sabendo e foi tomar banho, mas não agüentou a quentura e foi depressa se esfregar. Encontrou um campo de macega na queimada e se esfregou com a cinza. Por isso cou bem preto. O urubu olhou prá sua cor e não achou boa, então apanhou cinza de macega grossa e esfregou nas pernas, por isso caram mais brancas.

Assim, todos os bichos do mundo foram àquela lagoa, banharam-se e depois se esfre- garam nalguma coisa. Os que não se esfregaram caram bem vermelhos, os que não foram à lagoa caram brancos. Os homens também tomaram cor naquela lagoa do sangue do menino. (Transcrição de Darcy Ribeiro 1980:98-100)

A história de Nitikana12 uma heroína ancestral ligada à família Matexua  ilustra

bem a preocupação dos pais com o cuidado das crianças e o medo constante de perdê-las. Além de ilustrar o lugar ocupado pelas crianças nos mitos, possibilita olharmos o tema da captura de crianças dos inimigos sob um outro ângulo.

A mãe de Nitikana teve uma primeira lha, que chamou de Ebecalowai. Certo dia, a mãe levou-a para banhar no rio. De repente, formou-se uma grande onda que veio em sua direção. A onda falou: eu vim para buscar a sua lha. eu vou batizar a sua lha (eiomaiowaie yadiona). A sua mãe, assustada, não se moveu para proteger a lha, que a onda levou para sempre.

Quando nasceu Nitikana, seus pais disseram que ninguém a tiraria de seus braços. Eu vou cuidar bem da minha lha, eu não vou deixar que ninguém roube de mim esta minha lha, a mãe falou. A Wimayalo não vem buscar minha lha, ela não pode roubar, porque a menina está aqui nos meus braços quando eu durmo. O pai da Nitikana sempre fazia fogo ali, para espantar a Wimayalo. Mas, quando Nitikana estava com três dias, a Wimayalo veio pegá-la. Wimayalo, a lobinho, é uma ladra que gosta de pegar crianças e todos os índios a temem. Ela veio de noite e levou a Nitikana para o mato. Os pais e avós da menina estavam desesperados quando ouviram o seu choro longe da casa, e foram buscá-la.

Quando já estava grandinha, Nitikana some uma segunda vez. Quando voltou, a menina trouxe consigo dois sapos, cujos nomes eram Liwidipi e Awaditaa. Nitikana pediu para sua mãe fazer um pote de barro onde guardou os sapos. Nitikana já havia crescido mais e, num dia em que estava chovendo forte, desapareceu no meio da chuva. Nitikana tinha uma pequena escrava Chamacoco que sempre a acompanhava. A mãe de Nitikana mandou aquela escrava ir procurar a sua lha. Quando a encontrou, Nitikana estava de

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cócoras, cercada de muitos presentes, uma bolsa, cujo uso os índios ainda desconheciam, e muitos colares, que ganhou do pássaro Edigidigi.

Nitikana já estava mocinha e se perdeu novamente. Um velho que foi buscar lenha ou- viu um barulho, segui na sua direção e encontrou Nitikana. Ela estava sentada, segurando uma grande taquara, grossa e comprida, que se estendia ao alto até perder de vista. A taquara, ou dinebacawedaya, saía do chão, passando por entre as pernas da moça. Quando caram sabendo, os pais da Nitikana começaram a convidar os parentes para ir buscá-la, tal como hoje se convida para uma festa. Muitos homens combinaram fazer uma roda para cercar a moça e ver o que ela estava fazendo. Mas a taquara não estava mais com ela e, quando os homens perguntaram por tal objeto, Nitikana negou que o houvesse segurado.

Quando Nitikana cou moça grande, ela se perdeu novamente e ninguém pôde mais encontrá-la. Certo dia, Nitikana sentiu uma coisa na sua barriga e começou a apalpá-la: O que é esta coisa dura dentro da minha barriga? O que aconteceu? Será que é assim que uma mulher ca grávida? Mas eu nem tenho marido.... Nitikana deitou-se numa areia e, de repente, começou a ouvir um barulho. Era o sapo Ilaceki que vinha. Ele lhe disse: Eu trouxe aniwiyate idinanamayane, porque você vai dar à luz. A niwiyate é uma manta de algodão para enrolar o lho da Nitikana. A moça começou a sentir as dores do parto e a criança nasceu ao meio-dia. De repente, Nitikana ouviu a voz de uma mulher chamando-a. Era o Sol, que falou: Eu sou o Sol. Eu vou batizar o seu lho, eu vou dar-lhe um nome. O nome de seu lho é Nigayenigi. Todos os que existiam no céu desceram para ver aquela criança. As estrelas desceram do céu em forma de muitas luzes coloridas, vermelho, verde, azul, e caram pairando ao redor da Nitikana.

Todos os bichos vieram ao lado da Nitikana e entregaram-lhe os seus nomes. e veio também o pai do guri, a onça-parda. A onça veio cantando, achou a criança deitada e cruzou-lhe por cima várias vezes. Beijou a criança, passou a língua em sua boca. Napalatece é o nome do pai do guri. Nitikana admirou-se: Então o meu lho tem pai! O pai dele é onça. Onde que você veio desse meu jeito? Eu nunca o vi na minha presença! Agora veio, beijou meu lho, que é onça, lho de onça. Eu não sei o que eu tenho. Eu sou gente, mas agora virou tanta coisa, tanto bicho do meu lado.

O lugar onde Nitikana pariu chamava-se alawadi. A criança que teve era uma criança de admirar. Antes de sua mãe ter forças para andar, o menino sumiu no mato, foi embora. Nitikana acompanhou o seu lho e sumiu no mato com ele. A criança crescia rápido. Logo começou a usar um nabalenigi (bodoque). O menino matava e comia os pássaros crus; mas ele era uma pessoa.

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No dia do aniversário do menino, uma pomba branca pousou em sua cabeça. O menino quis acertar a pomba com o bodoque, a pomba cou nervosa e falou para o guri: O que você pensa de mim, seu bicho?. Em seguida, a pomba arrependeu-se e desculpou-se: Você não é um bicho, se você fosse um bicho, seria coberto de pelos. Mas você não tem pelo, você tem cabelo na cabeça. A criança cou com muita vergonha das palavras da pomba, que perguntou se o menino conhecia os seus avós. O menino negou. Você sabe que é uma pessoa?  a pomba perguntou. Eu sei, respondeu o menino. - Você está vendo a sua avó? -Eu não a vejo. - Lá está a sua avó! Está tecendo algodão. O seu avô está junto. Lá estão os seus parentes.

O menino tentou ver, mas não conseguiu. A pomba pousou de novo na sua cabeça, tirou uma pena e cutucou nos olhos da criança. Ela tirou muitas coisas dos olhos do menino, coisas que não lhe deixavam enxergar. e o menino pôde ver seus parentes. Mas não pôde escutar o que eles estavam dizendo. A pomba, então, ajeitou sua asa, tirou outra pena e limpou os ouvidos do menino. Tirou pedaço de pau, folha, muito lixo. E o menino pôde ouvir os seus parentes. O menino cou triste porque soube de seus parentes e queria conhecê-los. A sua mãe explicou-lhe: Eu não sei, meu lho, porque veio na minha cabeça de fazer estas coisas. É porque eu quis fazer estas coisas de admirar as pessoas. Eu sou uma mulher tão sabida. É por isso que a gente está morando aqui nesta mata. O menino pediu à sua mãe para voltar para a casa dos avós e ela decidiu ir. Nitikana pegou uma corda do mato (ewaloco) e amarrou o guri nas suas costas. Veio uma forte ventania fazendo muito barulho. Os sapos estavam cantando.

Nitikana mastigou a parte vermelha do caraguatá, cuspiu e dali surgiu um homem forte, o Ooloeoligi, que os guiou até a aldeia. Na aldeia tinha um senhor que tinha só um lho. Ele disse: Lá vem a Nitikana, é a nossa oniniona (capitã). Ao chegarem, o Ookolanigo ameaçou dar socos em todo mundo e foi embora. Desde então, os índios brincam de jogar soco. Nitikana foi conversar com a sua mãe. O menino estava enrolado na manta sob o seu braço e começou a mexer. É bicho! Não é igual a gente aquele lho dela. A mãe da Nitikana perguntou-lhe o que era aquilo mexendo, e ela puxou o menino Nigayenigi e disse que era o seu lho. Nigayenigi era pequenininho e já estava andando, já estava falando, já sabia tudo.

Nigayenigi não queria comer nada da comida de seu povo. O seu avô foi buscar lenha para fazer fogo. O machado dele era de pedra. Daí ele bateu e machucou o pé, cortou e

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