A ordem masculina está tão profundamente arraigada que não precisa de justificação: ela se impõe como autoevidente, universal (o homem, vir, é esse ser particular que experimenta a si mesmo como universal, que tem o monopólio do humano, homo). Ela tende a ser tida como certa em virtude da concordância quase perfeita e imediata que estabelece entre, por um lado, estruturas sociais, como as expressas na organização social do espaço e do tempo e na divisão social do trabalho.
Pierre Bourdieu
Pierre Bourdieu (1998) nos convida a pensar sobre a construção cultural que apresenta o homem como o centro e a mulher como um ser à margem. Muitos estudos ainda se debruçam sobre a opressão feminina, tentando construir um percurso histórico e quais são os mecanismos de subordinação feminina. No tópico anterior, retomamos algumas reflexões sobre a literatura feita por mulheres que, durante muito tempo, silenciou as vozes delas, foram silenciadas, criou-se um ideal de mulher a ser seguido, tanto em relação à vestimenta quanto à conduta. Quando nos referimos à mulheres judias, o número de escritoras é mais escasso ainda, pois há poucos registros de livros e escritos. Em se tratando de literatura sob a perspectiva do holocausto ou do testemunho é muito pequeno; têm-se homens que, apesar do número também reduzido, conseguiram se consagrar, como Primo Levi, Elie Wiesel, Paul Celan e Imre Kertész.
A escritora espanhola Mercedes Monmany, com intuito de divulgar a escrita de mulheres que viveram a violência do holocausto, em 2017, publicou o livro Ya sabes que volveré: Tres grandes escritoras asesinadas en Auschwitz — Irène Nemirovsky, Gertrud Kolmar e Etty Hillesum. Para a pesquisadora, as três autoras foram vítimas do irracionalismo, do ódio e, por intermédio do seu testemunho, converteram-se em guardiãs da memória, vítimas de um genocídio literário.
Segundo Monmany, Irène Némirovsky, a mais reconhecida das três escritoras, foi assassinada em agosto de 1942, aos 39 anos, em Auschwitz. Nasceu na Ucrânia e vivia
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na França quando foi levada para o campo de extermínio na Polônia. Seus livros foram escritos em prosa, um dos mais conhecidos é Suite Française (2004), que foi adaptado para o cinema, na qual a autora escreve a história, à mão, nas páginas de um caderno, durante a ocupação da França pelos nazistas. No Brasil, foram publicados Suíte Francesa (2004) e O senhor das almas (1939) pela editora Companhia das Letras, tradução de Rosa
Freire d’Aguiar, Calor do Sangue (2009), pela editora Record com a tradução de Vera
Gertel.
Gertrud Kolmar era alemã judia que se destacou escrevendo 450 poemas e também publicou em prosa A Mãe Judia (1930/31), Susana, publicado postumamente em 1959, dentre outros. Era leitora de poetas simbolistas franceses, principalmente de Charles Baudelaire. Também apreciava o escritor Rainer Maria Rilke e lia a bíblia de Lutero. Prima de Walter Benjamin, o filósofo foi um dos primeiros admiradores de sua obra. Morreu em 1943, em Auschwitz.
Marcus Tulius Franco Morais (2013) publicou em Scientia Traductionis, época em que era doutorando em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, o
poema “Metamorfoses — Poema de Gertrud Kolmar: uma tradução comentada”. Para o
pesquisador, no poema ecoa uma voz de indignação e impotência, revelada por imagens simbólicas. Manifestar-se uma tristeza infinda que transcende e clama por esperança para si própria e para toda a humanidade. Morais afirma que a poetisa mergulha sua pena nas tintas do Expressionismo para falar da atmosfera turbulenta dos seus dias. Os versos carregam traços do começo do século com seu lirismo elegíaco, marcado por intenções melancólicas, às vezes desesperadas, evocando imagens espantosas. Etty Hillesun era holandesa e morreu aos 29 anos; tinha interesse pela psicanálise e estudava poesias de Rilke; escreveu Uma Vida Interrompida — Os Diários de Etty Hillesun: 1941-43, publicado pela editora Record e, no Brasil, há uma tradução de Antônio C. G. Penna.
Como se pode notar, nos caminhos percorridos até o momento, notamos que a escrita de mulheres ainda é muito restrita, embora as restrinções, em diferentes áreas da escrita, ainda sejam bastante pertinentes e não assegura, exatamente, uma problemática. Elisa Lispector, autora corpus desta pesquisa, também é pouco conhecida, como já dissemos e o seu livro mais popular No exílio, não foi, entretanto, suficiente para que seus escritos tivessem visibilidade na literatura brasileira. No romance, é narrada a travessia de uma família judia que sai da Ucrânia e vem para o Brasil escapando da guerra, abrindo espaço para se pensar sobre a marginalização de uma escritora que tem como foco literário o imigrante e, como tema a literatura do trauma, mostrando-nos personagens angustiadas,
melancólicas e, em tom de denúncia, vai sendo narrada a experiência vivida, mas que não teve valorização compatível à importância do seu texto.
No livro, os fatos históricos, como o ano de 1917, a guerra que “continuava a
devorar homens” (LISPECTOR, 1971, p. 09), o tzar, o chauvinismo, a independência da Transjordânia, a violação da integridade territorial da Palestina; a participação da Alemanha no Convenat na Liga das nações são misturados à ficção; há marcas do sofrimento dos imigrantes judeus que foram exilados e excluídos.
Outro fato histórico discutido por ela é a relação do judeu com a terra prometida. Ao longo da história mundial, o povo judeu sofreu a dispersão e seu consequente exílio; o retorno ao lugar de origem traria uma redenção aos judeus. Na visão rabínica, o exílio é compreendido por um castigo, pelas transgressões do povo de Israel, como Deus não pratica a destruição, existe um plano vasto de reconstrução com a chegada do Messias. A relação entre a diáspora e a terra prometida teve início antes da criação do Estado de Israel. Desde a saída do povo judeu de sua terra, entre eles, há um sentimento de passado trágico, sendo transmitido de geração em geração. Somente no século XX é que foi criado o Estado de Israel.
No romance, há referência da criação do Estado de Israel: “Estado Judeu! Não
morreram em vão” (LISPECTOR, 1971, p. 8). A protagonista, após ouvir essas palavras,
mergulhou em suas próprias memórias, espantosamente vividas - fugas, perseguições recordando o êxodo que passou. No exílio tem um forte quadro documental, pois a perseguição aos judeus teve caráter histórico e social; o narrador relata as notícias dos jornais, o que aconteceu com os exiliados e as mortes:
Olha o diário! Notícia de última hora: Proclamado o Estado Judeu! [...] A humanidade estava se redimindo. Começava, enfim, a resgatar sua dívida para com os judeus. Valera ter padecido e lutado. Quantas lágrimas, quanto sangue derramado. Eles não morreram em vão (LISPECTOR, 1971, p. 8-9).
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É possivel observarmos que o exilado sofre muitas rupturas de projetos pessoais, tradições, costumes, ausência, ausência de algo familiar, dores irreversíveis e irremediáveis. Os exilados rompem laços levando-os a algum lugar que nunca será seu e nunca se sentirá parte dele. O papel do exílio no século XX, como uma condição de perda terminal, poderiam nos fazer refletir acerca de quais seriam os motivos de ter tornado o tema tão vigoroso, visto que fomentou o interesse de pesquisadores para entender este acontecimento na literatura, nas artes plásticas, no cinema, na música, nas ciências, etc.
Na narrativa de No exílio observamos a história de uma menina que se torna mulher através de situações que são narradas a partir das dores do exílio: “se ainda não alcançava inteiramente o mundo dos adultos, descobrindo-lhes todos os móveis e ações,
em compensação, depara com um mundo de sonhos que sabia interditos a eles”
(LISPECTOR, 1971, p. 98). Lizza se vê exilada, rompendo com seus projetos, solitária, passando pelo terror de ver os pogroms saqueando multidões, destruindo casas e matando os judeus. Isso lhe causava uma grande angústia e tristeza, uma experiência traumática; passado e presente foram sendo corroídos pela guerra.
Poderíamos pensar que no exílio, os sujeitos tendem a ir se agrupando em torno de uma figura central, já que essa seria a forma encontrada por eles para minimizar o sofrimento causado pela solidão. Também podemos observar que as diferenças entre a vida do exilado e a sua produção intelectual são notórias, uma vez que o exílio parece despertar uma certa capacidade introspectiva e fluente para a escrita.
Cabe também pensarmos na questão do nacionalismo, uma vez que este sugere a declaração explícita ao lugar onde o sujeito se diz pertencer. A formação de uma pátria por um povo, com língua própria, cultura, costumes, seus textos básicos, quase religiosos, marcos históricos e geográficos, entre tantas outras formas de se representar a nação e o povo. Há um discurso que se afina a medida em que as histórias se entrecruzam e se fortalecem por intermédio de discursos que reforcem o pertencimento.
Elisa Lispector, por meio da memória de suas personagens, retoma algumas questões de sua experiência vivida na sua infância, levando o leitor a refletir sobre a guerra, sobre a necessidade de pertencer a algum lugar, pois com a dispersão, o povo judeu não estava legitimado e foi tentando construir sua identidade, sua nação: o término da guerra, oscilando entre inúmeros avanços e retrocessos, entre derrotas e vitórias, assim continua a arrastar-se a solução do problema judaico. Inquéritos demorados e reticentes.
“[...] o triste episódio do Exudus” (LISPECTOR, 1971, p. 190). É importante ressaltar
para que não sejam esquecidas as barbáries cometidas contra o povo.
A partir da escrita, o autor parece compreender a ficção, mas critica seu caráter excludente; o exilado é aquele que vive fora do grupo, solitário que sente a privação de não estar com os outros na habitação comunal, está no perigoso território de não pertencer, imensos agregados de humanidade permanecem como refugiados e pessoas deslocadas. Assim, o exílio seria um estado descontínuo; os exilados são separados de suas raízes e de sua terra natal.
A narrativa de Elisa reconstrói, por meio de ficção, uma versão sobre o exílio judaico pós-guerra, a partir de acontecimentos que ela vivenciara como uma descendente judia.