De acordo com material documental e depoimento dos músicos, a banda da Lapa inicialmente foi formada por imigrantes de procedência operária e que conheciam música e tocavam instrumentos de banda. A partir da segunda fase em diante, alguns militares e músicos profissionais fizeram parte do grupo, como o Maestro Vicente Santoro, que foi sargento da antiga Força Pública, o clarinetista Nabor Pires Camargo, que foi o 1º clarinetista do Teatro Municipal de São Paulo, Dorival Auriani, o Buda, que foi integrante da orquestra de Ray Conniff, e outros, principalmente militares.
Atualmente, como mencionamos, o grupo apresenta um número entre 15 e 22 músicos. Entre eles, percebemos que a faixa etária compreende 45-85 anos, com a predominância de integrantes com mais de 70 anos. Desses integrantes que espontaneamente nos concederam entrevista, a maioria declarou ser paulistano, dois ou três do interior de São Paulo, outros mineiros, um, Sr. Joziere, do estado da Paraíba e outro, Sr. Haroldo, de Santa Catarina. Todos eles tiveram ou têm uma profissão concomitantemente à música e quase todos são aposentados de suas ocupações: mecânico, frentista, funcionário público, eletricista, militar, zelador, bancário, professor de ensino fundamental e médio, publicitário e auxiliar de enfermagem, entre outras ocupações. O quadro abaixo mostra os atuais músicos da CMOL:
Instrumento Quantidade Músicos
Clarinete 6
Cristiano Bricks Filho, Benedito Alves de
Oliveira, Liber Matteucci, Maria de Cássia Gomes, Rute Aparecida Almeida e Eduardo Romão
Saxofone 4
Hélio Silva, José Maria Tamburu, Joziere Macedo, e Paulo Ramos Macuco
Trompete 4
Cirilo Gomes, César Vasconcelos, Itamar Martins e João Aparecido.
Trombone 2
Genilson Santos, Antenor Lourenço e Paulo Padilha*
Bombardino 1 Haroldo Aleixo
Tuba 1 Arnaldo Moura
Percussão 1
Luiz Antônio Alves e Elizabeth Vieira*
Regência 1 Nestor Avelino Pinheiro
Quadro 1: Integrantes da CMOL. 2018. * In Memoriam Paulo Padilha & Elizabeth Vieira 37.
Dois dos músicos da Corporação relataram ter cursado educação musical formal, a Sr.ª Rute Almeida, 54 anos, professora de matemática aposentada que está finalizando o Bacharelado em Regência na USP, e o Sr. César Vasconcelos, que concluiu um curso de Pós- Graduação (Lato Sensu) em Educação Musical na Faculdade Campos Elísios. À parte desses, notamos três tipos de aprendizado musical informal, sendo que os tipos I e II se conectam:
I – Músicos que iniciaram na música por influência dos pais que eram também músicos amadores ou tocavam em bandas: senhores Itamar, Arnaldo, Rute, Luiz e Tamburu.
II – Músicos que iniciaram o aprendizado musical em bandas de música: senhores Arnaldo, Itamar, Nestor, Rute, Luiz, Benedito e Tamburu.
37 O trombonista Sr. Paulo Padilha foi integrante da banda desde a década de 1990 e faleceu em março de 2018. A
III – Músicos que iniciaram seus estudos através de professores ou amigos para depois ingressarem em banda: senhores Cristiano, Joziere, Paulo, Hélio, César, Haroldo e Líber.
Acompanhando essa característica, percebemos, também, o sistema de ingresso na banda. Os relatos demonstraram duas principais situações: a primeira, por amizade – um músico levando o outro, ou seja, por convite; a segunda forma, independentemente – o músico tomou conhecimento da banda passando pela rua e entrou em contato. Ainda, uma outra situação que seria comum, mas deixou de ocorrer, seria do parentesco. Nesta situação há apenas um exemplo, o do Sr. Tamburu, 60 anos, professor aposentado, cujo pai, Sr. João Tamburu, já falecido, foi integrante da banda por mais de 30 anos.
Dos músicos que conversaram conosco e que se tornaram membros da banda a partir da primeira situação, por amizade, os senhores Arnaldo, Itamar, Paulo, Nestor, Rute, Luiz, Cristiano e Benedito. Do Sr. Benedito38, chamado carinhosamente de Seu Benê pelos
companheiros de banda, selecionamos um pequeno trecho de depoimento, por considerarmos relevante a forma com que muitos jovens se lançavam no aprendizado musical por meio das muitas bandas de música existentes nas cidades de interior durante a década de 1960. O relato também evidencia a vida profissional, os problemas de saúde e as circunstâncias em que Seu Benê passou a fazer parte da banda:
[...] Quando você fala clarinetista, dá impressão que eu sou exímio, mas tudo bem... Eu ainda estou aprendendo, ainda estou tentando chegar lá! A esperança é que move! Então, isso foi no interior, em Santa Fé do Sul, interior de São Paulo. Foi em 1964, a vontade de tocar numa bandinha. E lá [em Santa Fé] a gente estudou com o maestro da banda da cidade, Antônio Frutuoso, um senhor muito bom, que nem Seu Nestor. Compramos o Bona, éramos em 14 rapazes. Com 20 anos eu ia na casa dele, andava 3, 4 quilômetros pra estudar à noite. Estudar o Bona, fazer divisão... Aí já era 1965, precisava de um instrumento, ele foi perguntando um a um. Eu falei que eu gostaria de tocar clarinete. Como eu não tinha dinheiro, ele vendeu algumas coisas e comprou instrumento usado pra nós! Isso foi em 1965. E aí falou pra solfejar marchinhas e foi indo [...].
[...] Em 1967 eu vim pra São Paulo, fiquei muito tempo parado. Depois fui ensaiar com a Banda Santa Luzia, na época tinha Seu Firmino, o Haroldo [integrantes da banda da Lapa]. Isso paralelo à minha profissão, eu trabalhei 40 anos em hospital, eu era atendente de enfermagem, depois como técnico de raio X. Então a música foi paralela. Fiquei viúvo, tive 3 filhos e 3 netos. Meu filho trabalha na mesma profissão. Radiologia. Só que ele estudou mais, ele é Tecnólogo, ele aprofundou mais os estudos, tem noção de ultrassonografia, tem noção de ressonância magnética e eu não tinha. E ele foi trabalhar no mesmo local que eu me aposentei. Me aposentei em 2007. [...] Em fevereiro de 2008 eu tive um câncer de próstata e parei. Tive que repousar, fiquei muito tempo parado, até recuperar do tratamento. Então encontrei com o Seu Firmino e ele me convidou pra participar dos ensaios na Lapa. E naquela época era às terças e
sextas-feiras. Então quando comecei foi em meados de 2014 a participar dos ensaios na Corporação. Foi por intermédio do Seu Firmino [...] (OLIVEIRA, 2017).
Na segunda forma de ingresso, independentemente, os saxofonistas, senhores Joziere Macedo e Hélio da Silva39, afirmaram ter conhecido a banda, passando pela rua. Em seu relato, o Sr. Hélio, 54 anos, além de mostrar como conheceu a banda, também revela que o fato de pertencer a uma família de músicos amadores colaborou para sua decisão em estudar música. Ele ainda nos fornece o nome do regente da época (anos 1980) e também de alguns músicos do mesmo período, a terceira fase da banda:
Eu passava sempre aqui em frente, nessa época eu não era músico ainda, uns trinta anos atrás. Eu completei esse mês 54 anos e eu comecei a estudar música com 21 pra 22 anos. Eu passava aqui, eu não era músico, mas eu já ouvia a banda. Eu morava no Remédios, próximo à Leopoldina. Eu passava várias vezes aqui e ouvia a banda tocar. E com aquela vontade, porque eu já tenho antecedente... Antes de iniciar minha carreira aqui, eu já tive umas influências, embora eu não seja de família de músicos profissionais, meu pai tocava acordeon e um dos meus irmãos tocava viola caipira, eram músicos amadores, tocavam em casa. Mas aquilo pra minha infância já bastou pra ir acendendo aquela vontade... E um dia eu entrei na banda. Eu entrei e fiquei assistindo, é claro que fiquei encantado, aquele monte de instrumentos! [...] O regente chamava Seu Benedito, era um negro forte, alto, que por sinal tocava o mesmo instrumento que eu, o sax alto. E aí eu entrei, fiquei assistindo. E um dos senhores que me atendeu, porque sempre um músico atende alguém: “olha, senta”. Ele tocava prato, era Seu Francisco, o pratista da banda. E ele conversando comigo, falou: “entra, senta, assiste o ensaio”, aí eu vim, vim outras vezes, aí eu fui pegando amizade com ele. “Ah, onde você mora”? Moro nos Remédios. “Moro lá também, poxa que interessante”! [...] Como eu já tinha o saxofone em casa, que tinha ganhado de um primo e não achava um professor, aí vindo aqui, eu conheci ele. Aí ele falou pra mim: “meu filho faz faculdade de música, ele é pianista. Vai lá em casa”! Aí eu fui na casa dele, aí peguei amizade com o filho dele, e o filho dele conhecia uma pessoa que tocava sax alto na Banda Sinfônica de São Saulo. [...] Aí comecei a estudar com esse professor, ele se chamava Orimar, inclusive ele passou por essa banda também. Fiquei estudando com ele, acho que nos dois anos que eu estava estudando com ele, que eu já estava lendo Bona e também o instrumento, eu senti que já dava pra eu vir pra cá. Eu vim pra banda, claro, me entusiasmei, porque já comecei a tocar... Tocava muito em procissões e tinha algumas festas também. Eu gostava, gostava, porque era o início pra mim, era um mundo novo [...] (SILVA, 2017).
Uma outra forma de ingresso na banda também foi identificada através do relato do Sr. Liber40, 68 anos, clarinetista e publicitário aposentado. Durante sua narrativa, ele nos revela
a circunstância inusitada em que conheceu a Corporação e como passou a fazer parte do grupo a partir de 2016:
Minha mulher é muito católica, ela ouve a Rádio Nove de Julho. E um dos padres da Rádio Nove de Julho é fã da banda aqui da Lapa, eu esqueço o nome dele... Aí ela
39 SILVA, 2017. 40 MATTEUCCI, 2017.
falou, “é, olha só, tem uma banda aqui na Lapa”! Porque eu moro em Perdizes. Procurei na internet o endereço, e vi que vocês ensaiavam se não me engano às sextas- feiras. Aí eu vim aqui, fechado... Aí fui lá no bar, “agora estão ensaiando às quintas”. Voltei na outra semana, encontrei o Seu Cristiano, o Seu Nestor, eu expliquei a situação, será que eu posso ensaiar com vocês? Então a pretensão era tocar, o prazer de ensaiar. Expliquei que tinha tocado numa banda em Portugal, viram que eu sabia ler um pouquinho, desafino, mas nem tanto. E fui ficando [...] (MATTEUCCI, 2017).
Outro elemento relevante que percebemos acerca do perfil dos integrantes, é a questão de o grupo ser, ou ter sido, uma banda de música operária. “A maioria trabalhou em outra coisa”41. Nos relatos, é possível notar que a questão operária já esteve em maior evidência
e que na atualidade trata-se apenas de um grupo musical amador formado por pessoas que trabalhavam, ou trabalham, em outras funções ou profissões e têm a música como uma segunda atividade:
[...] Eu acho que o nome “operária” ficou no próprio nome. Ali tem pessoas das mais variadas profissões, mas esse nome nem se usa mais, já caiu em desuso essa palavra. Na verdade, não deixamos de ser operários, cada um na sua atividade mesmo aposentado. As pessoas nem sabem mais o que significa a palavra operária, a juventude talvez nem interprete mais essa palavra. Mas a banda continua sendo mantida por pessoas simples, humildes, trabalhadoras (TAMBURU, 2017).
[...] A maioria dos músicos que aqui estão, é gente que vendeu hora de trabalho para alguém. Foi prestador de serviço pra alguém. [...] Mesmo os que estão aqui e são aposentados, uns aposentaram como metalúrgico, outro aposentou como marceneiro, um outro aposentou como vidraceiro. E aqui você pode contar quantas pessoas trabalharam por conta própria. Então por isso que eu considero assim [uma banda operária] (SILVA, 2017).
[...] Agora eu digo assim: banda aposentada! Não é mais uma banda operária. Mas a banda foi importante, porque eu era mocinho, eu frequentava quermesse, essa banda tocava nas quermesses que eu frequentava. Quando eu era mais molequinho, ainda não tinha estudado música, eu ficava perto do músico tocando, eu não conseguia entender porque não estava escrito a letra da música aqui [mostra uma partitura] e ele tocava. Eu não entendia isso... (MACUCO, 2017).
Foi possível notarmos, também outros pontos e elementos em comum entre os integrantes. Algumas características como o fato de estarem na terceira idade, ou se aproximando da terceira idade, o fato de terem tido uma profissão concomitantemente à música, ou seja, serem músicos amadores, o fato de estarem aposentados e, principalmente de forma mais evidente, o fato de terem a Corporação e a música como uma atividade prazerosa.
Em certos relatos, por exemplo, alguns até emocionados como do Sr. Arnaldo, o integrante mais antigo na Corporação, ficou evidente o quanto esses músicos estão no grupo porque gostam, porque gostam dos companheiros, porque gostam das atividades da banda e como se sentem responsáveis pelos companheiros e pelo funcionamento do grupo:
[...] Eu, graças a Deus, apesar da minha idade, vou fazer 82, já toquei [conta nos dedos] caixinha, comecei com genes, sax de harmonia. Depois... Eu toco porque gosto, não estou a fim de... [faz gesto de pagamento, esfregando os dedos] Se a banda sai pra tocar gratuito, vamos lá! [Então a música faz bem para o senhor?] Faz bem! Eu fiz exames rotineiros, fiz exame de sangue, de diabetes, não deu colesterol. Fiz exame de urina, também não deu infecção, não deu nada! E às vezes eu quero deixar [a banda], a minha sobrinha [fala]: “Tio, não deixa não. Não deixa da banda não. O senhor está com saúde”! Então pra mim faz bem. Eu toco essa tuba, duas, três horas em procissão e não sinto canseira. E nós chegamos a tocar dentro do Teatro Municipal. Foi uma virada cultural. A primeira virada cultural que teve. Então começamos lá na Praça da Sé, descemos, pegamos a Rua Direita, pegamos o Viaduto do Chá e o povo atrás da banda! Depois entramos no Teatro Municipal, lá nos camarins, demos uma afinadinha, comemos... Depois saímos e fomos lá pra escadaria e tocamos até mais de meia-noite. E aquelas moças, “vem cá, deixa eu tirar uma foto com o senhor”! Me levava com o baixo nas costas, tirava foto... Eu estou aqui porque gosto. Eu gosto, a gente é amador. Pego meu tuba, agora pego no bumbo, Seu Firmino está doente... Então tem que substituí-lo. Não sei se ele vai voltar... Eu toco porque eu gosto. Estamos aqui até quando Deus permitir! (MOURA, 2017).
O Sr. Benedito, em continuação do seu relato, também nos respondeu qual era seu sentimento para com a banda e os colegas. Respectivamente, o presidente da banda, Sr. Tamburu, ao relembrar de seu pai, também nos revelou seu sentimento pelo grupo:
[E como está sendo para o senhor participar da banda?] Olha, eu posso não ser um bom clarinetista, né? Mas eu gosto, eu adoro tocar! Adoro participar! Adoro os colegas! Pra mim, mesmo que eu vá aos ensaios e não tem ensaio, eu volto pra casa um pouco mais feliz! E a gente que tem os colegas, a gente conversa, né! Distrai, é uma terapia pra mim! Não só estar ensaiando, estar tocando quando tem algum evento, mas a convivência com os colegas da banda. É uma terapia e é muito bom! [Então a banda faz bem para o senhor?] Ah claro! Sim! Nossa! Você vê, o Seu Nestor é uma pessoa de Deus, abençoada. Ficou internado, teve problema na perna, fui visitá-lo. O finado Albino, clarinetista, eu ia no hospital fazer visita pra ele, ele ficou internado no HC. A amizade com os colegas, isso é muito bom! (OLIVEIRA, 2017).
Ver o meu pai, o gosto de estar com as pessoas, com os colegas, com os amigos, a satisfação de estar fazendo uma coisa bem-feita, agradar a todos e manter a tradição! Então é o amor à arte, o amor à música, o amor às tradições, o amor às pessoas. A gente não tem muita explicação, é uma coisa assim muito pessoal, né! Na verdade, é um sentimento muito grande. E as amizades, o companheirismo, eu acho que isso é que faz a gente lutar pra que as coisas melhorem cada vez mais, pra que a gente se dedique cada vez mais [...] (TAMBURU, 2017).
Tais particularidades entre a maioria dos músicos da banda, ser idoso, ser aposentado, ser músico amador, tocar um instrumento, sentir-se útil, tocar na banda para ver os colegas, cuidar da banda e tocar para um público, são elementos que atualmente definem o perfil dos integrantes da CMOL.
Sobre o regente, de acordo com a diretoria e com o Artigo 33 do capítulo XII do estatuto, “a Banda será regida por um Mestre ou Contramestre, nomeado pelo Conselho diretor e com amplos poderes e do melhor modo dirigi-la para o bom nome da corporação”42. O atual regente, Sr. Nestor Avelino Pinheiro, 77 anos, é natural de Nazaré Paulista – SP. Formado em Economia, trabalhou e se aposentou como bancário no antigo BANESPA em 1992. É casado há quase 50 anos e tem 4 filhos, 8 netos e 3 bisnetos. Segundo sua “memória social”43, é integrante da banda da Lapa desde a década de 1970 e em 2003 foi eleito pela diretoria como regente titular. Ao nos relatar suas lembranças, Seu Nestor evidencia sua paixão por bandas de música, o início de seu interesse e aprendizado musical, seu descontentamento por iniciar seus estudos musicais somente aos 40 anos, suas vivências na banda e também seus planos para o futuro:
Então, lá em Nazaré, tem três festividades que eles fazem no ano. Janeiro, julho e novembro. Só que nas três festas, o que pega mesmo é essa de julho, a Festa do Divino. Então tem Congada, Caiapó, Moçambique, Folia de Reis e a Banda de Música. Então eu pegava um gravador que eu tinha, quando era criança, desse tamanho assim [mostra com a mão], punha a fita e saía correndo atrás da banda. Porque sabe... Aquela coisa... O que é a música? A arte de combinar os sons! Então você vê um negócio assim, bem combinado! Os sons! [...] Eu tinha 13, 14 anos. Eu pegava o gravador do meu pai. Eu comprava fita, fita cassete44 [faz gesto de enrolar com o dedo], punha no gravador e
saía atrás da banda! Depois ficava ouvindo. Chegaram até a conversar com o maestro da banda. “Como é que faz pra aprender?” Quer dizer, o negócio tá dentro... Às vezes eu falo pra minha mulher assim: Só comecei a aprender música depois de 40 anos! Até 40 anos, eu não conseguia fazer uma nota no fundo da garrafa. Fui aprender depois dos 40. Então eu falo pra ela: Se alguém que estava na minha terra, tivesse me ensinado música, com 7 anos, com 6, 7 anos, nossa! Depois dos 40 anos! [faz gesto com as mãos]. E na verdade foi assim, meu filho olhou um jornal uma vez, que tinha alguém lá na USP ensinando bateria. Ele queria aprender a tocar bateria. “Pai, cê me leva lá”? Todo sábado. Levo! Lá na reitoria da USP. Agora virou antiga reitoria. Então o que acontecia? Eu deixava o menino com o professor de bateria e ficava passeando até terminar. E comecei a ouvir [faz gesto com o dedo no ouvido] uma banda tocando. Era fanático por banda! Banda tocando aqui?! Eu desci uns dois andares e vi uma banda. Parei na porta e fiquei ouvindo. No outro sábado de novo, no outro. Até que um dia, o maestro da banda, chegou pra mim e perguntou: “Cê gosta de banda”? Oh! “Por que você não entra pra tocar? Eu vou arrumar um instrumento pra você”! E foi lá num depósito e me trouxe um trompete. “Pega esse instrumento aí, que você vai aprender esse instrumento”. Tá bom. Eu peguei aquele instrumento e comecei [...] (PINHEIRO, 2017).
42 Estatuto da Corporação Musical Operária da Lapa. Em anexo.
43 O relato do Seu Nestor, suas datas citadas e sua idade não estão em acordo com o próprio depoimento, já que
ele afirma ter iniciado seus estudos musicais aos 40 anos. A data provável de seu ingresso na banda seria a década de 1980. Trata-se, portanto, de uma “memória social”.
44 Novamente um registro da “memória social” de Seu Nestor. Como a fita cassete surgiu em 1963, pode ser que
É interessante notar que, Seu Nestor, ao descrever que encontrou uma banda na USP, mostra um projeto que foi criado em 1967 por Benito Juarez. Além do Coral, ativo até hoje, havia também a banda que pouco tempo depois foi dissolvida: “[...] E aí chamava Bandusp, por que Bandusp? Porque tinha o Coralusp. Então fizeram o Bandusp. Acabou a Bandusp e ficou só o Coralusp”45. Dissolvida a banda que tinha na USP, passou a integrar a “Banda Santo Antônio” do bairro do Limão. Pouco tempo depois, foi levado para a Lapa por um colega, Sr. Albino, clarinetista da Corporação, falecido em 2015. Era a época do Maestro João Batista Ferreira. Antes de ser levado pelo Seu Albino à Corporação, Seu Nestor revela, que na banda, do Limão, indicaram-lhe um professor, pois desejava aprofundar seus estudos de música. Recomendaram-lhe na ocasião o Maestro João Bonello, regente da “Orquestra Ritmo das Américas”, mais conhecida por atuar no “Clube União Fraterna” da Lapa:
[...] liguei pra ele. Fiquei na escola dele, estudando trompete e teoria. Fiz o método de trompete inteirinho, clave de sol, clave de dó, de fá. Chegou um dia, ele falou assim: