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Relation to Subgroups

De acordo com nossa observação participativa em campo, percebemos alguns temas que permeiam as dinâmicas de “ensaio” da banda da Lapa: sociabilidade, aprendizagem/preparo, definição de repertórios e a passagem das músicas, ou o “ensaio” propriamente dito.

A sociabilidade é o principal e mais intenso elemento percebido nos ensaios. Como já mencionamos, são momentos espontâneos de encontro onde o músico tem oportunidade para conversar, brincar, relaxar, distrair, rever os colegas, rir, brigar, discordar, concordar, tocar e aprender. Quer dizer, é o momento de vivência da banda, onde é possível perceber claramente o vínculo entre os membros e interesses partilhados. Para constatar que este tema está impregnado dentro do conjunto, selecionamos alguns relatos que demonstram o quanto as práticas no grupo interferem na vida de seus integrantes, tornando-os realizados.

Quando fui pra banda, estava muito depressivo, tinha perdido a mulher, estava sem chão, fazia pouco tempo que tinha morrido meu pai, depois morreu minha mãe. Foi tudo seguido. Eu vim pra cá em 2007. Minha mulher morreu em 2005. Fiquei meio desgostoso. Parei de tocar. O Cristiano que toca aqui, foi lá em casa um dia. Já era amigo meu, de antes, da minha família. “Cê não tá tocando mais”? Não, não estou. Parei. “Não senhor, você tá ofendendo a memória da sua mulher! Ela gostava tanto de ver você tocar. Vai lá na banda comigo”! Não, não gosto de banda. Não sou muito adepto de banda, rapaz! Aí ele pra dá uma zuada: “estamos precisando de um cara bom assim, que nem você”! Só pra me engrandecer... Tá bom eu vou! Aí eu vim. E

aqui eu não me arrependo, entendeu? Por várias coisas: primeiro, porque muita amizade, né! Segundo, conheci a Rute. É minha amiga, minha filha, minha namorada, é tudo meu. Eu sou feliz. Quando eu não posso vir aqui, porque eu toco numa orquestra também, eu sinto falta. [...] Depois que comecei a tocar com aquele montão de gente, que tinha aqueles arranjos, eu me sentia até orgulhoso... de conseguir fazer aquilo! Eu fiquei feliz desde que entrei, não tenho do que reclamar. Eu gosto da banda! Participo com muita vontade (MACUCO, 2017).

Percebemos no relato do Sr. Paulo (MACUCO, 2017), que as palavras “amizade” e “feliz” se destacam. Por conhecer Seu Cristiano e também ter iniciado um relacionamento na banda, Seu Paulo sente-se realizado por fazer parte do conjunto e também recuperado e confortado por ter perdido familiares. A Senhora Rute (ALMEIDA, 2017), sua companheira também complementa esse sentimento expressando o valor que a banda tem, não só como grupo histórico tradicional, mas como um conjunto que confraterniza, se reúne e se integra às pessoas. Por ter atuado anteriormente como professora de matemática nos ensinos fundamental e médio, a clarinetista revela que hoje a música faz parte de sua vida inteiramente, não sendo mais uma atividade paralela. Ela reconhece brilhantemente como as performances da Corporação são importantes para os músicos, para as pessoas e para o bairro da Lapa. A importância dessa integração é o que de fato une as pessoas:

Me faz muito gosto sair da minha casa e pensar que eu venho pra banda tocar, seja num momento como esse de confraternização, ou seja num momento participativo, de procissões, onde for que a banda esteja, pra mim é uma honra, porque estar nesse processo da história, da construção da banda, ajuda também no reconhecimento da minha identidade como pessoa e não só como mulher na sociedade, como integrante desse grande legado que deixaram e graças a Deus tem alguém levando avante aí. Pra mim é uma honra, um prazer, espero honrar sempre com essa tradição e representar bem a Corporação. [...] E a música não é um complemento mais, a música é minha vida. Não me sinto mais em outro contexto, me sinto na música. E tudo que agrega conhecimento musical, que vá aprimorar meu conhecimento, eu vou em busca. E também, eu gosto muito dessa vivência aqui, meio lúdica, de como a música se concretiza na vida das pessoas, nos vários momentos, carnaval, no Natal. A gente vê

que a banda tem uma representatividade muito grande pra população local. Nós

somos muito bem acolhidos aqui na Lapa de Baixo, no Natal quando nós vamos tocar no evento lá nos prédios, nossa! Nós somos hiper bem acolhidos! Então a gente sente que a banda faz parte da coletividade. E eu me sinto grata por isso, estar junto, vivenciar esses momentos (ALMEIDA, 2017, grifo nosso).

O Sr. Hélio da Silva (SILVA, 2017), 54 anos, saxofonista, por meio do seu relato, também expressou um sentimento de amizade, destacando principalmente que a banda, enquanto coletividade, traz a união entre seus membros. Para ele, estar na banda, participar de seus ensaios e performances, fazer música e estar com as pessoas lhe proporciona uma sensação de bem-estar e realização:

[...] Se você me perguntasse qual a contribuição que ela [a banda] me deu, eu te diria isso, não só solidificou algumas amizades, alguns contatos que permanecem até hoje, como também me posicionou a decidir o que eu queria tocar. E esse é um assunto que por mais que você entre por vários lados, você vai cair nisso. Tudo está relacionado. [...] Então eu venho pra banda, porque músico que alimenta o músico... O som me encanta, qualquer música me agrada, eu gosto de tocar, de estar junto com as pessoas, de estar conversando. Aqui embora eu não conheça todos, porque com esse meu retorno, mudou bastante o corpo musical, então alguns que eu conhecia, outros estou fazendo amizade. A gente vê que é uma espécie de uma Irmandade. Porque todo

corpo coletivo, vai tendo isso, né? Você vai pegando amizade, vai sentindo falta das amizades, falta das pessoas, né? E isso é importante. Então eu acredito que isso une as duas coisas, une a música, estar tocando, exercitando, o som... e une as amizades que é importantíssimo. Às vezes, não vou dizer problema, mas tem

alguma coisa que te chateia... você vem, toca, conversa e aquilo parece que apaga! Eu sinto assim, toda vez que eu toco, seja qual tipo de apresentação for, eu me sinto realizado! Sinto que eu não preciso de mais nada! Isso me completa. Música me completa. Então quando eu toco, a sensação que eu tenho, eu diria é que até a próxima tocata, próximo evento, eu sinto que estou realizado até lá. A música me realiza, independente de questão econômica, se tem dinheiro, melhor! Mas se não tem, o efeito que ela causa pra mim é o mesmo. A mesma sensação que eu tenho em tocar por aí, com as pessoas, com público vendo e ensaiar, pra mim, o efeito é o mesmo. Eu gosto do público, todos gostam do público. Mas o ensaio pra mim, dá o mesmo efeito. Então eu saio realizado. Esse realizado eu não consigo explicar, eu acho que não tem muita explicação. É um sentimento que eu tenho, é uma coisa particular minha. Então isso pra mim, é suficiente, já basta (SILVA, 2017, grifo nosso).

Em um dos relatos do Sr. Liber (MATTEUCCI, 2016), 68 anos, clarinetista, percebemos também que o grupo, mesmo com todos os problemas e oposições, é uma coletividade onde os membros apresentam o mesmo objetivo e interesse. Elementos como a união, a receptividade, a hospitalidade e a atenção, ou seja, o perfil acolhedor da banda, motivam os próprios integrantes a fazerem parte e se manterem neste grupo.

[...] E eu gosto do folclore da banda, o uniforme, a união dos músicos, sempre essa gula, tem almoço, não tem almoço, Portugal é igualzinho, “vai ter almoço”? Aquele lanchinho...[...] Enfim... Aqui, eu acho o Seu Nestor uma pessoa magnífica, coração de ouro, pra mim isso vale mais do que qualquer outra coisa. O primeiro dia ele foi tão gentil, eu acho que isso conta também, né? (MATTEUCCI, 2016).

Outro tema que se destaca dentro das dinâmicas de ensaio da banda é a aprendizagem ou o preparo do repertório. Na descrição do tópico 4.1, podemos perceber que o regente está do lado de um aluno com um trompete. Enquanto o aluno vai tocando, Seu Nestor fala o nome de cada nota. Na medida em que a sala vai sendo ocupada por outros músicos, o regente pede para que todos acompanhem o rapaz. A sugestão é que todos participem do aprendizado e colaborem com o aprendizado do aluno.

Acredita-se que, em um contexto de aprendizagem musical coletiva, onde a parte de cada um colabora para o aprendizado do outro, os participantes naturalmente adquirem

prática através da repetição. Ora, como a CMOL é uma comunidade musical participativa, onde seus ensaios são de práticas participativas, esse procedimento adotado pela liderança justifica- se. Neste caso, de acordo com Reily e Giesbrecht (2018), “uma prática não é um destino para o desempenho impecável de uma peça ou repertório específico, mas sim de facilitar sua integração na atividade do grupo: uma prática para melhor participar” (2018, p. 02, tradução nossa).

Ao “passar” um dobrado com a banda, permitindo que o grupo toque de uma única vez com todos os ritornelli55 que a partitura pede, Seu Nestor indiretamente está solicitando a participação de todos os membros da banda. Isso quer dizer, que a definição do repertório, outro tema percebido nas dinâmicas de ensaios, é feita de acordo com as capacidades dos participantes. Quando Seu Nestor grita: “pega o número 15! Silvino Rodrigues, vai! Não precisa correr muito não”. É a participação de todos que de fato importa.

Algumas ocasiões em que o ensaio antecede a alguma performance, seja procissão ou até mesmo um concerto em shopping, o repertório escolhido para ser “passado” são as músicas da performance. Como descrito no tópico “3.3 Instrumentação”56, alguns integrantes

têm dificuldades, de leitura, de leitura em uma clave que não estão habituados, de executar passagens que exigem um grau de técnica mais desenvolvida, de acertar ou de conhecer melhor a digitação do instrumento, de conseguir afinar, de conseguir uma articulação ideal, etc. A fim de contornar essas dificuldades, é escolhido pelo regente um repertório que já está incorporado e aprendido pelo conjunto, como, por exemplo, os dobrados Palazoli (Celso Poli) e Dois Corações (Pedro Salgado). Já músicas inéditas, como descrito no mesmo tópico, são adaptações ou arranjos que o próprio Sr. Nestor prepara, levando em consideração a instrumentação que a banda tem naquele momento e a facilidade para leitura e execução. Alguns dos arranjos executados no programa de “Músicas de Filmes” no Tendal da Lapa em 11 de novembro de 2017 foram exclusivamente para atender esse objetivo, da instrumentação e facilidade de leitura. Esses são exemplos de práticas que a Corporação desenvolveu ao longo do tempo para tornar o ensaio uma “coisa exclusivamente deles”.

O outro tema relevante percebido nas dinâmicas de ensaios é a “passagem das músicas”, ou o ensaio própriamente dito. Fruto de boa parte de nossa observação participativa, pode-se dizer que este é um momento de total descontração, mesmo se anteceder a uma performance que os músicos consideram importante: não há cobranças, nem um trabalho

55 Plural para ritornello em italiano. 56 Cf. p. 75.

exaustivo para que as peças sejam ensaiadas detalhadamente com o objetivo de se obter uma melhor interpretação.

Esta questão, particularmente, nos leva a discutir sobre o desejo dos músicos de querer elevar a qualidade da banda. Vimos no decorrer do trabalho alguns relatos discordando e/ou contestando certos procedimentos. Podemos indagar, qual a dificuldade de um regente em um grupo amador? Na banda, o regente, Sr. Nestor Avelino Pinheiro, se encontra nas seguintes posições:

a) Se exigir demais dos músicos, eles podem se ofender e ir embora;

b) Se não exigir o suficiente, a banda não vai melhorar e nem atrair músicos melhores.

Alguns regentes são lembrados como extremamente exigentes ou até mesmo “bravos”, como foi o caso do Maestro Victor Barbieri, lembrado pelo Sr. Arnaldo. Outros são lembrados por não respeitarem os músicos, como nos exemplos dos Senhores X, Y e Z, lembrados principalmente pelo Sr. Luiz e também pelo Sr. Nestor. Outros são lembrados por possuirem carência de treinamento específico para a função e outros são lembrados por balancearem todos esses extremos. Regentes em grupos voluntários enfrentam este desafio: buscar uma musicalidade cada vez mais desenvolvida entre músicos de treinamento diferenciado.

No relato do Sr. Nestor (tópico “2.2.3 Fase 3 – A Decadência”57), vimos transtornos e ofensas entre músicos e liderança. Frequentemente, em se tratando de conjuntos amadores voluntários, as relações sociais envolvem diretamente a produção musical, e é aí que a ofensa pode ser um obstáculo (REILY, 2002, p. 111-114). Durante nossa observação participativa, não notamos nenhum caso de ofensa maior entre músicos, nem entre liderança e músicos. Contudo, a fim de ilustrar um exemplo muito corriqueiro, alguns músicos, por algum motivo, tocam durante alguma orientação que Seu Nestor está fazendo para algum naipe, ou tocam naquele intervalo entre uma música e outra, fazendo escalas, ou tocando isoladamente o trecho inicial da música pedida. Alguns músicos diante disso, sentem-se incomodados, porém impossibilitados de alguma ação. Essas disparidades existentes entre os membros são casos isolados. No entanto, o grupo tende a se unir contra o comportamento que julga inadequado. A etiqueta ou a falta dela no ensaio da Corporação não chega a ser um empecilho a ponto de alguns músicos desistirem da banda; no entanto, esse exemplo é apenas um dentre as insatisfações que os músicos demonstram.

Por outro lado, a convivência com os colegas, a oportunidade de aprender em grupo, fazer parte de um grupo e tocar um instrumento são os principais fatores positivos nas dinâmicas de ensaios da banda da Lapa. O compromisso de “não deixar a banda morrer”, o compromisso de manter um público fiel, o compromisso de sustentar uma prática que é um “capital simbólico”, supera as adversidades que o grupo tem vivido.