Immaterialgüterrechtlicher Schutz von Sport- Sport-veranstaltungen im Zusammenhang mit der
2. Das Schutzobjekt
3.1 Spezialgesetzlicher Schutz
A experiência religiosa do meio rústico serrano, tem relação apenas secundária, com o catolicismo oficial, ou seja, com os padres e a instituição eclesial católica. Esta caracte rística terá conseqüências na maneira como estes viverão a dimensão religiosa no meio urbano. Sobre isto falaremos mais adiante.
M LISBOA, Seu Irani, op. cit., p. 02.
210 Ao m ovim ento do Contestado são atribuídas estas duas características. Messianismo, por causa da figura do Monge, que era aguardado, como o M essias, que voltana para promover o triunfe dos redutários sobre seus inimigos. Milenarista, por
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Em tomo da figura do Monge, e de suas mensagens e práticas, girava boa parte das vivências sagradas da população cabocla da Serra Catarinense. Havia uma relação estreita entre o cotidiano e a fé. Não eram poucas as carências sem solução e, o Monge, apresentava- se como a esperança, não só de solução futura, mas de alívio imediato das dores e sofrimentos.
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Percebe-se, nas memórias dos caboclos residentes na cidade, que as suas crenças em São João Maria, não estavam fundamentadas em convicções teóricas ou em uma fé abstra ta, mas, ao contrário, estavam enraizadas em práticas simples - benzimentos, promessas, ora ções - , mas eficazes, que garantiam melhorias em suas vidas. Eram, evidentemente, paliativos, mais psicológicos que físicos, porém, davam aos caboclos a segurança e auto-estima de que precisavam, para continuar a caminhada da vida. Boa parte das práticas, rituais e símbolos reli giosos, estão intimamente ligados ao Monge. Tudo o que se relacionava a ele, era tido como sagrado e merecedor de respeito, admiração e fé.
Dentre os aspectos do cotidiano dos caboclos, nos quais o Monge estava mais pre sente, aponta-se a doença ou a saúde. A cura para todos os males era buscada em tudo que fazia parte da vida de São João Maria. Até mesmo os lugares, nos quais o Monge pernoitava, eram considerados sagrados, e o povo se apossava das cinzas que restaram da fogueira, bem como das folhas e cascas de árvores sobre as quais se recostara, para fazer remédios geralmen te considerados infalíveis. E o que conta Maria Cecília:
Aonde nós more mo, lá na Barra, a gente ia toda semana (buscar á- gua), por que era pertinho o pocinho de São João Maria. Muita gente ia lá. Nós sempre tinha a água de São João Maria. A onde ele posa va, ele plantava um cruzeiro e então formava um pocinho. Dessa á- gua todo mundo usava. Quando se armava aquela tromenta, jogava em roda da casa. Na roça também usavam jogar nas plantas, fazia os
ser um m ovim ento sócio-religioso, destinado a acelerar a vinda do Paraíso Terrestre, no caso, a Monarquia Divina. 711 O isolam ento e o abandono por parte dos poderes instituídos, privava esta população de condições elementares como
canteiros para verdura e já molhavam com aquela água que era san
ta.212
Na mesma linha, Alberto diz: “Aqueles pedaços de lenha, aqueles tisãozinho213 que sobrava do fogo, o pessoal trazia prá casa, quando se armava essas tromentas, essas tempesta des que vinham, botavam no fogo, para os que tinham fé livrava dos mal”.214 Este costume é descrito por Aujor da Luz: “Os lugares onde esteve 'o Monge' tomaram-se focos de conver gência da religiosidade dos caboclos e d'onde o 'santo' espargia os benefícios; os objetos que, de algum modo, foram usados por ele, tomaram-se relíquias que curavam os doentes” .215 Con firmamos estes costumes em relato de Euclides Felippe, no qual apresenta claramente a crença no poder dos objetos relacionados ao Monge.
Na Picada de Marombas, a viúva d. Margarida Alonço também pos- suia um tição do Foguinho de S. João Maria. Recolhera de uma fo gueira feita em homenagem ao santo num dia de 24 de junho. Para quem quisesse tiçãozinhos abençoados, prescrevia, levasse de casa dois ou três gravetos de boa madeira, deixando-os queimar na foguei ra de S. João, até ali pela metade. Apagando os restos numa agiiinha- santa, ficariam mágicos. Não havia mal que um bendito Tiçãozinho
de S. João Maria não debelasse.216
As lembranças da água, das cinzas e também dos remédios que o Monge indicava aos moradores da região aparecem constantemente. Numa entrevista, ao perguntarmos ao se nhor Cezário, se João Maria costumava ensinar remédios, ele contou: “Essa raminha que nóis temo aí, eles dizem bassourinha do campo, uma bassourinha bem miudinha. Eu tenho muita fé prá gripe, cortar uma febre é de primeira.”217
:'2 Alberto N ovaes dos Santos e Maria C ecilia dos Santos, p. 06.
:|3 Madeira que não queimou totalmente, resultando em uma espécie de carvão. :i4 Idem
: 15 LUZ. op. cit. p. 147. :l6 FELIPPE, op. cit., p. 54.
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A mesma referência aparece em muitos depoimentos, como é o caso de Irani. Ele lembra da forma como sua mãe preparava o chá da planta indicada pelo Monge para curar a gripe.
Então naquele campo dá umas ervas que chamam poejo, ela ia lá ca tar aquele treco de poejo, e uma tal de vassourinha de São João Ma ria, pegava aquilo ali botava a queimar na panela de ferro. [...] En tão aquilo ali quando começava a queimar, que começava a pular, a levantar aquela fumaça, uhf, a mãe da gente largava água fria em cima daquela erva ali, dai ela fervia, dai ela abafava aquilo ali e a
‘ gente tomava aquele chá, também sarava da gripe e não sabia mais o
que era gripe.218
Esta planta, denominada Vassourinha, foi apresentada por Cabral, como uma das ervas utilizadas por João Maria.
Para aliviar os males físicos dos que sofriam, também se utilizava das en as e das águas das fontes. Uma das ervas que recomendava com freqüência, era a “vassourinha do campo ", ficando conhecida como
a “erva ou vassourinha de São João ”.219
Lembramos que, não eram somente os pobres e ignorantes caboclos que se utiliza vam desta erva para remédio. Gente, rica, fazendeiros abastados faziam uso da tal vassouri nha.220 Não é de se estranhar tanto sucesso, e que este tipo de medicamento fosse tão popular, pois a região serrana é muito fria e a necessidade de tratamento para doenças como a gripe sempre foram freqüentes. Por outro lado, o atendimento médico-hospitalar nesta região sem pre foi precário, especialmente, nas localidades mais afastadas dos centros urbanos.
Ao falar do Monge, o padre Pauwels destacou características ligadas às curas e benefícios para a sobrevivências dos sertanejos.
"Perambulava sem fim visível, o sertão, desde o sul do Paraná até o norte do Rio Grande, aparecendo inesperadamente ora neste ora na quele lugar, carregando uma simples barraca, que continha uns uten silios, remédios populares e santinhos. [...] Distribuía gratuitamente
■18 LISBOA, Seu Iran í, op. cit., p. 03.
:l9 CABRAL. O sw aldo R. apud FACHEL, op. cit., p. 49. ::o GALLO, op. cit., p. 79.
remédios, rezava sobre os doentes e dava bons conselhos, também so bre deverem plantar esta ou aquela espécie, a última vez, por exem plo, que apareceu no municipio de São Joaquim, prometeu trazer do
norte um capim mais forte que os de lá. ”221
Da mesma forma, Ivone Gallo lembra que, “todos os dias, ao entardecer, costuma va dirigir orações públicas. Ensinava à população como utilizar-se de plantas e raízes para a cura dos males, advertindo sempre que a fé em Deus era o complemento necessário para a efi cácia do remédio”222.
A senhora Maria Cecília, lembra de muitas histórias relacionadas às curas atribuí das ao Monge. Em uma dessas histórias, ela fala da cura que um de seus irmãos teria tido, ao ser batizado em um local onde havia um pocinho cuja origem é ligada a São João Maria.
E, havia uma febre muito grande, e atingia aquelas chanças e não ti nha cura. Então era prá batizá na água de São João Maria. Podia batizar com o mesmo nome, a criança, mas batizar na água de São João Maria, em nome de São João Maria. Então, se a criança era muda, ele falava, se era aleijado, ele sarava. Se era doente, ele sara va. Então nessa época daí, fizeram uma romaria tão gratule, tão grande que todo mundo acudia lá prá Santa Emidia, prá batizá as crianças, né. Como nós morava perto, a gente sempre lava ali. Nós era criança. A gente sempre se juntava em bastante crianças e ia lá. Dai o cemitério também era perto. Então a gente ia lá, né. Então a minha mãe convidou uma pessoa e levou prá batizar o meu irmão; compadre João e o Ouride. O Ouride já era batizado, mas batizaram de novo. E o compadre João como não falava e não caminhava. Só num tempo ele falou e caminhou de verdade. E muitas crianças!223
Neste relato, confirma-se que a crença no Monge não era de uns poucos, mas de grande parte da população. Demostra também que, a fé nos seus poderes, não desapareceu junto com ele, e sim, permaneceu firme e forte, a partir dos lugares, símbolos e rituais vincula dos ao andarilho, chamado de santo e profeta.
221 PAUWELS, op. cit., p. 193. 222 GALLO, op. cit.. p. 72.
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Os caboclos falam que era comum possuir oratórios familiares. Um pequeno altar, com imagens dos santos de devoção, rosário, feito em casa224 e ornamentos como flores e ve las. Conta Maria Cecília que, sua “mãe tinha, os antigo tudo tinha aqueles oratório, né. [...] tinha a bandeira do Divino e a da Santíssima Trindade”225.
Os santos variavam, conforme o lugar e a devoção de cada família, mas a imagem do Monge João Maria era constante. Normalmente, o que se tinha, era o famoso retrato do segundo Monge, João Maria de Jesus. Um senhor barbudo, usando uma boina de pele de ani mal, sentado, com as mãos segurando as pernas cruzadas, próximo dos apetrechos usados nas andanças, com ar sereno e contemplativo. Esta imagem é a que ficou na memória dos cabo clos.