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1.5 Plan du mémoire

2.1.1 Spatial Data Infrastructure (SDI)

A correlação entre os dois elementos é perceptível na declaração supracitada “O projeto de escrever minha história formou-se quase ao mesmo tempo que meu projeto de escrever”. A partir do que já foi visto, podemos fazer algumas inferências. Primeiramente, é que essa afirmação é também a estrutura do livro, de narrativas cruzadas, no qual o projeto da autobiografia forma-se “quase ao mesmo tempo” do projeto ficcional. Em segundo lugar, sendo “quase”, não é ao mesmo tempo, e sim em momentos diferentes: um vem antes do outro, contrariando grande parte dos estudos sobre Perec, derivados de uma proposta de Bernard Magné:

Autobiografia e restrição formal seriam os princípios maiores de “quase” toda a escrita perecquiana. Um texto assinado por Perec seria “quase” sempre portador de informações autobiográficas e portador de regras formais.101 (MAGNÉ, p. 1999, p. 21, tradução nossa)

De fato, há uma verdade nessa colocação de Magné: o fato de a autobiografia ser anterior à restrição, no sentido de que elementos autobiográficos estarem presentes desde As coisas102. Porém, o projeto de escrever é anterior, pois primeiro há o desejo de escrever sobre algo, contar uma história, e depois se introduz o elemento autobiográfico, ou encriptação autobiográfica, também conhecida por aencrage103, termo cunhado por Magné. Vejamos o trecho de W:

Não sei se não tenho nada a dizer, sei que não digo nada; não sei se o que teria a dizer não é dito por ser indizível (o indizível não está inscrito na escrita, é aquilo que muito antes a desencadeou); sei que o que digo é branco, é neutro, é signo de uma vez por todas de um aniquilamento de uma vez por todas.

É isso o que eu digo, é isso o que escrevo e é somente isso o que se encontra nas palavras que traço e nas linhas que essas palavras desenham e nos brancos que o intervalo dessas linhas deixa aparecer […], sempre irei encontrar, em minha própria repetição, apenas o último reflexo de uma fala ausente na escrita, o escândalo do silêncio: não escrevo para dizer que não direi nada, não escrevo para dizer que não tenho nada a dizer. Escrevo: escrevo porque vivemos juntos, porque fui um no meio deles, sombra no meio de suas sombras, corpo junto de seus corpos; escrevo porque eles deixaram em mim sua marca indelével e o vestígio disso é a escrita: a lembrança deles está morta na escrita; a escrita é a lembrança de sua morte e a afirmação de minha vida. (PEREC, 1995, p. 54)

101 “Autobiographie et contrainte seraient les príncipes majeurs de ‘presque’ toute l’écriture

perecquienne. Un texte signé Perec serait ‘presque’ toujours porteur d’informations autobiographiques et formellement réglé.”

102 Como a citação das ruas Quatrefages em As coisas e Saint-Honoré em Um homem que dorme. 103 Neologismo formado por ancrage (ancoragem) e encrage (aplicação de tinta). Preferimos

Trata-se de um elemento presente na teoria perecquiana de ligar escrita e necessidade de “dizer eu”: por três vezes, a dimensão formal e gráfica do seu discurso é designada como portadora do sentido “nas palavras que traço”, “nas linhas que essas palavras desenham” e “nos brancos que o intervalo dessas linhas deixa aparecer”. Ou seja, o que é contado é dito de forma concreta, por uma nova disposição no espaço da página. Para Magné, toda aencrage é recorrente, repetindo-se em um ou mais textos, e possui sempre um sentido num contexto (conteúdo denotado) e outro que remete a um enunciado de W ou a memória da infância (conteúdo derivado) (MAGNÉ, 1999, p. 29), obra central nessa construção analítica. Isso acontece, por exemplo, em relação ao número onze:

Minha mãe não tem túmulo. Somente em 13 de outubro de 1958 um decreto a declarou oficialmente falecida, no dia 11 de fevereiro de 1943, em Drancy (França). Um decreto ulterior, de 17 de dezembro de 1959, precisa que, “se ela fosse de nacionalidade francesa”, teria tido direito à menção “Morta pela França”. (PEREC, 1995, p. 53)

Seguindo Magné, a aencrage é um signo cujo significado de conotação (ou ao menos um dos significados) tem um valor autobiográfico, e não somente biográfico – mesmo que os dois se confundam. Em relação ao exemplo do onze, dia da morte da mãe, podemos voltar à narrativa publicada em 1966, Quel petit vélo à guidon chrome au fond de la cour?, e desvendar que são exatamente onze o número de palavras desse título insólito e onze são as aparições da palavra “onze” no livro (MAGNÉ, 1999, p. 30).

Essa capacidade estrutural da aencrage, muito semelhante ao princípio da contrainte, permite a transformação de um acontecimento autobiográfico, no mais das vezes trágico, em motor da escrita. A ideia de motor, é bom frisar, remete à escrita como uma engrenagem que precisa de movimento, pois o motor104 é apenas uma força que transforma uma energia (contar a sua história) em outras formas de energia (escrever romances que consistam em dados de sua vida em forma de enigmas). De acordo com essa concepção, as narrativas perecquianas possuem resquícios muito bem delimitados da energia vital que a formou, a autobiografia, a qual abre a válvula criativa/criadora para que outras histórias sejam contadas.

104 Magné prefere falar em “principe d’une escriture”. Todavia, acredito que a ideia de “princípio” (seja

como origem, começo, seja como lei, máxima, norma, regra) finda por criar uma leitura biografista de Perec, em que tudo que ele escreveu remeteria à sua vida (recriada ou não), empalidecendo sua obra e, por conseguinte, empobrecendo sua importância como escritor.

Pensando nesses termos, a autobiografia se submete à restrição, e não o inverso105. Do mesmo modo, as enumerações, as citações, falsas ou não, e o romance policial estão presentes em quase todas as obras de Perec, igualmente submetidos às regras formais.