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C.2 Exemple d’inversion des dépendances dans HyperAtlas

3.6 Cas d’utilisation de BrowserWMS

No primeiro livro de entrevistas e conferências de Perec, Dominique Bertelli e Mireille Ribière descrevem brevemente o ano literário de 1969, a publicação de La disparition e sua recepção:

Anne Villelaur […] confessa ter se divertido “por volta de umas cem páginas”, mas “o insólito em doses elevadas torna-se monótono”. Na conclusão de um resumo pormenorizado desse “romance popular de aventuras totalmente excêntrico”, a crítica do periódico semanal comunista lamenta que, com esse “exercício”, Perec se distancie do gênero habitual em que, a partir de seu eu, ele abordava os problemas das pessoas de sua geração […]. Rene-Marill Albérès, […] deplorando que Perec “não tenha forçado um pouco mais sua inspiração, seu talento e, principalmente, sua espontaneidade e sua sinceridade” para encontrar o sucesso de As coisas, […] uma transposição […] do caso Ben Barka.235 (PEREC, 2003a, p. 104,

tradução nossa)

235 “Anne Villelaur […] avoue avoir été amusée ‘pendant une petite centaine de pages’, mais ‘l’insolite

à haute dose devient monotone’. En conclusion d’un résumé circonstancié de ce ‘roman populaire d’aventures totalment farfelu’, la critique de l’hebdomadaire communiste regrette qu’avec cet ‘exercice’, Perec s’éloigne de genre habituel où, à partir de son moi, il abordait les problèms des gens de sa génération […]. R-M Albérès, […] [d]éplorant que Perec ‘n’ait un peu trop forcé son inspiration, son talent et surtout sa spontanéité et sa sincérité’ pour retrouver le succès des Choses, […] une transposition […] de l’affaire Ben Barka.” O affaire Ben Barka foi o sequestro e assassinato do político marroquino Mehdi Ben Barka, planejado pelo serviço secreto marroquino e com o aval do francês.

Seja como for, não se fala sobre a contrainte. Em Les Échos, fala-se da riqueza da invenção e da imaginação da linguagem, mas há reticências quanto ao comprimento demasiado do romance. Étienne Lalou tece mais elogios, afirmando que a obra do escritor experimental não se contenta em divertir, pois é capaz de suspender a ideia mesma de romance, ingrediente considerado ótimo para o prazer do leitor, mas não mais que isso. Há também críticas sem reservas, como a de Pascal Pia, que comenta sobre o prazer em ler um livro capaz de amalgamar elementos tão díspares, escrito por alguém que é mais que um erudito patafísico. No calor do momento, é Marcel Bénabou, oulipiano amigo de Perec e colaborador do processo de escrita coletiva em Moulin d’Andé, que avalia de forma mais entusiasmada a leitura de La disparition. Considera-o o sonho de qualquer escritor, adequação entre escrita e seu objeto. Bénabou complementa afirmando que a fecundidade da contrainte fica exposta nesse romance, construído em torno de uma ausência, o que mina a relação entre realidade e literatura. Refrata-se assim o argumento de que a narrativa é frívola e afasta-se Perec da pecha sociológica a qual ficou preso após As coisas (PEREC, 2003a, p. 104-105).

Num primeiro momento, valorizar a restrição como chave interpretativa pareceu ser útil, pois permitiu ao conjunto de críticos afeitos ao Oulipo fazer com que o autor fosse levado a sério. Mas é nítido que a recepção de La disparition foi muito além da leitura que não percebeu a ausência do “e”, como dez em cada onze estudiosos sobre Perec gostam de entoar236. Mais do que um eterno sparing para os críticos, a insistência em trazer essa anedota da recepção expõe a protuberância da forma em relação ao conteúdo, ou seja, do campo de interesse oulipiano (que se mescla ao autobiográfico, no caso de Perec) em relação ao campo de interesse romanesco e também ao de interesse sociológico. Tanto faz ser entendido como façanha verbal, divertimento sem maiores consequências ou feito extraordinário. Em suma, o enfoque é o mesmo. Há aí, portanto, uma oposição latente. De um lado, o romance de conteúdo sociológico; de outro, o romance da forma. Nesse sentido, o que Bénabou faz é buscar uma consolidação à dicotomia aristotélica em uma única equação: “[…] a absoluta adequação da escrita com seu objeto […], [permitindo]

236 A princípio, apenas uma leitura não identificou a ausência do “e”. Trata-se de Rene-Marill Albérès,

responsável por tramar a associação esdrúxula com o afaire Ben Barka, o que o fez entrar para o anedotário oulipiano. Perec mesmo estimulou esse comportamento jocoso no “P.s.” de um extrato do romance publicado em La littérature potentielle: “Il est intéressant de signaler que plusieurs critiques, rendant compte de ce livre, ne se sont pas aperçus – au cours de ces 312 pages – de la ‘disparition’ de la lettre E.” [“É interessante destacar que vários críticos, ao lidarem com este livro, não se aperceberam / ao longo dessas 312 páginas – do ‘desaparecimento’ da letra E.”] (OULIPO, 2007b, p. 92, tradução nossa)

descobrir na língua […] um mundo totalmente assombrado pela necessidade que o funda”237 (BENABOU apud PEREC, 2003a, p. 105, tradução nossa). Some-se a isso a confissão de dívida de Perec para com o Oulipo, explícita em sua famosa declaração:

Eu me considero realmente um produto do Oulipo, isto é, minha existência de escritor depende 97% do fato de eu ter entrado em contato com o Oulipo numa época crítica da minha formação, do meu trabalho de escrita.238 (PEREC, 2003a, p. 148-149, tradução nossa)

O que temos aqui é um escritor que reconhece num movimento literário uma importância central, pois é este responsável por lhe dar um norte, ou vários, regrados e exaustivos. O problema é compreender a importância que o Oulipo teve à criação de Perec como se o resultado dessa criação, os textos em si, devessem ser abordados com 97% de atenção endereçada às restrições, ou que só a forma fosse digna de estudo. No caso do romance lipogramático, desprestigiar qualquer análise que vincule o romance à sociedade, ressaltar unicamente o aspecto formal e ridicularizar quem não percebeu a ausência da vogal são os caminhos argumentativos mais frequentes desde 1969. Quanto a esse último aspecto, é notório, na breve amostra da recepção, que o lipograma foi percebido pela grandíssima maioria dos críticos já num primeiro momento. O verdadeiro movimento da crítica é de identificar239 a regra e, na sequência, fazer um juízo de valor relativo a ela, positivo ou negativo. Todavia, são muitos os depoimentos em que Perec mostra- se desapontado com o fato de que sua obra é constantemente lida a partir de um único prisma. O depoimento abaixo, uma entrevista de Perec a Patrice Fardeau de 1978, atesta o fato:

Sim, mas eu farei uma ressalva a La disparition: é muito sistemático. O artifício formal sobre o qual se baseia o livro, o desaparecimento do “e”, permite contar a história, mas é frustrante para o bom leitor. Podemos sempre dizer: “Sim, é um livro sem o ‘e’”, “Ah! Bom, é uma farsa”.

O leitor pode ter a impressão que nos divertimos mais à custa dele que com ele. É um dos motivos pelos quais A vida modo de usar baseia-se sobre sistemas de restrições que são ainda mais difíceis que La disparition, mas a gente não os vê.

237

“[…] l’absolue adéquation de l’écriture à son objet […], découvrir dans la langue […] un monde totalment hanté pra la nécessité qui le fonde.”

238 “Je me considère vraiment un produit de l'Oulipo, c'est-à-dire, ue mon existence d'écrivain dépend

à quatre-vingt-dix-sept pour cent du fait que j'ai connu l'Oulipo à une époque tout à fait charnière de ma formation, de mon travail d'écriture.”

239Para mais informações sobre a recepção em jornais da obra de Perec, ver artigo “Georges Perec

Eu tomei cuidado (enfim, se começarmos a procurá-los, podemos encontrar dois ou três) de mascará-los, embora em La disparition o procedimento fosse apresentando, criando, de certo modo, uma barreira. Tenho esse sentimento mais nítido ainda com Alphabets.

Em Alphabets, os leitores praticamente jamais leram os poemas como poemas, como rimas, mas como proezas, e isso é muito chato. De certo modo, isso se fez sentir sobretudo em relação à crítica: para La disparition, não se falava mais do livro, mas só do sistema: é um livro sem “e”, era.240

(PEREC, 2003b, p. 63, tradução nossa)

Perec detém-se no fato de a recepção do livro entendê-lo como um texto sem “e”, como se isso fosse a coisa a ser vista ou como se fosse a única coisa possível de ser vista. O problema seria a exibição e o exibicionismo da restrição, uma vez que ela é a geradora de um estorvo. A comparação com Alphabets chega a ser cruel, tendo em conta a dificuldade de leitura dos poemas heterogramáticos perecquianos se os blocos de letras não forem espalhados no corpo da página. A falta de prestígio referente à própria obra pode até ter sido motivada ou estimulada pelo silêncio de Barthes em relação ao romance. De fato, o ensaísta francês em nenhum momento comentou sobre o lipograma, o que causou, como afirma Paulette Perec, sua esposa à época, uma imensa dúvida no escritor (PEREC, 2001b, p. 83). Fato é que o romance não é mais respeitável, pois, como em um crime em que a vítima é acusada de ter culpa, Perec parece incorporar o olhar da crítica que define o livro como apenas um lipograma, um exercício, um momento de passagem.

Tendo entendido que a restrição foi um elemento determinante à produção literária de Perec, podemos concluir que ela não era, definitivamente, o elemento a ser venerado. Não se trata de dissociar o Oulipo de seus preceitos, e sim não colocar a restrição à frente do romanesco como um obstáculo que impedisse uma leitura à plat ventre, grande qualidade de A vida modo de usar, no qual evidentemente a contrainte não é imprescindível nem omnipresente para quem lê (PEREC, 2003b, p. 62-63). Por mais que atualmente alguns leitores apenas se

240 “Oui, mais je ferai un reproche à La disparition c'est trop systématique. L’artifice formel sur lequel

se fonde le livre, La disparition du ‘e’, permet de raconter l’histoire mais est frustrant par rapport au bon lecteur. On peut toujours dire: ‘Oui, c’est un livre sans ‘e’’; ‘Ah! Bon, c’est une farce’. / Le lecteur peut avoir l’impression qu’on joue plus de lui qu’on ne joue avec lui. C’est l’une des raisons pour lesquelles La Vie mode d’emploi se fonde sur des systèmes de contraintes qui sont encore plus

difficiles que dans La disparition, mais on ne les voit pas. / J’ai pris soin (enfin, si on commence à les chercher, on peut en trouver deux ou trois) de les masquer alors que dans La disparition, le procédé était affiché et ça créait, d’une certaine manière, une barrière. J’ai ce sentiment plus net encore avec

Alphabets. / Dans Alphabets, les lecteurs n’ont pratiquement jamais lu les poèmes comme des poèmes, comme des comptines, mais comme des exploits, et ça, c’est très gênant. D’une certaine manière, ça a surtout joué au niveau de la critique: pour La disparition, on ne parlait plus du livre, mais du système: c’était un livre sans ‘e’, il était épuisé dans cette définition.”

interessem pela apreciação da engenharia241, Perec as queria camufladas242, o que evitaria recepções monofônicas.